Domingo, Janeiro 01, 2012
A PELE ONDE EU VIVO:Título:
La Piel Que HabitoRealizador: Pedro Almodóvar
Ano: 2011

Depois de dois filmes em piloto automático, onde se limitou a seguir as suas próprias pegadas, Pedro Almodóvar convocou de novo Antonio Banderas, o seu "muso" de sempre (ele que é um realizador de mulheres), para algo completamente novo. Nesta quinta colaboração juntos, Almodóvar e Banderas jogaram-se ao thriller, com um cirurgião que tenta criar uma pele mais resistente que a nossa, utilizando uma cobaia humana (Elena Anaya) com quem mantém uma estranha e obcecada relação.
Mas mais do que o tema, é o estilo de
A Pele Onde Eu Vivo que marca a diferença da restante filmografia do realizador. Almodóvar sempre captou as gañas espanholas nos seus trabalhos (Almodóvar está para Espanha assim como Kusturica está para a Sérvia (e para todos os Balcãs, praticamente) ou Kurosawa para o Japão), com um cinema exuberante, mas aqui aparece estranhamente formal e gélido. Se bem que depois insira alguns maneirismos seus, como o vilador-mascarado-de-homem-tigre, por exemplo, que se não fosse uma parte tão fraquinha, podia ser uma das cenas-chave do seu portfolio.
A Pele Onde Eu Vivo é um filme desiquilibrado. Olhamos para a história (e sobretudo as imagens promocionais) e lembramo-nos inevitavelmente de
Os Olhos Sem Rosto; sentimos logo um arrepio perturbador a percorrer-nos a espinha. Mas Almodóvar nunca consegue encontrar o tom correcto para o seu filme, que por vezes até parece não corresponder à história que estamos a ver. A principal razão é um fio narrativo demasiado complicado (há flashbacks a mais, analepses inesperadas a meio e saltos de volta ao presente) e, consequentemente, personagens a mais que nada acrescentam à história (o tal homem-tigre, por exemplo), que nos desligam do filme. E com um registo tão asséptico, esse despegamento acontece facilmente.
No entanto, tudo muda a meio do filme. Quando já não davamos nada por ele, Almodóvar entra finalmente nos eixos e começa a contar a história que realmente interessa. E é uma história do camandro. Talvez por ser mais familiar ao seu trabalho, Almodóvar safa-se melhor nesta segunda metade. Lembramo-nos, por exemplo, de
Ata-me! (o síndrome de Estocolmo) e de
Matador (o desejo, sempre o desejo), ambos com Antonio Banderas. Em
A Pele Onde Eu Vivo, Pedro Almodóvar dá assim meio filme de avanço, mas ainda consegue recuperar em esforço o McChicken. Agora o que fica claro é o seguinte: esta não era uma guitarra para as unhas do espanhol; como alguém já disse, esta história nas mãos de gente como Cronemberg ou Dario Argento teria dado um milagre.
Posted by: dermot @
9:20 PM
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