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Royale With Cheese | ||
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Título: Bronson Realizador: Nicolas Winding Refn Ano: 2008 ![]() Michael Gordon Peterson, mais conhecido como Charles Bronson, ganhou o epíteto de "o criminoso mais violento do Reino Unido". Preso desde 1974 (com um período de liberdade de 69 dias pelo meio), Bronson já gastou milhões de libras ao estado britânico, que não sabe o que fazer com ele, excepto centenas de relatórios, livros e estudos sobre o seu comportamento. Bronson nunca matou ninguém, mas é um tipo super-violento e, pior do que tudo, compulsivo para andar à porrada, que esmurra qualquer pessoa sempre que pode. E quando lhe dão fruta, mais excitado fica para retribuir. Bronson é o biopic possível sobre este estranho homem e um filme sobre o melhor da loucura na sua espectacularidade absoluta, segundo as palavras do próprio ao realizador Nicolas Winding Refn (um dos cineastas do momento depois de outros dois filmes geniais, Drive - Duplo Risco e Valhalla Rising - Destino De Sangue). Daí que as comparações entre Bronson e Laranja Mecânica têm sido inevitáveis, se bem que com música manhosa dos anos 80 em vez de Bach (antes de Drive - Risco Duplo, Refn já tinha transformado o parolo em cool). Contudo, as semelhanças entre ambos terminam para lá dessa apologia da violência. Bronson lembra muito mais Assassinos Natos e a sua relação com os media, por exemplo. Charles Bronson é um tipo com um ego maior que ele próprio, que só queria ser famoso (daí a escolha para pseudónimo de um actor de Hollywood, quando o seu manager dos tempos em que era lutador de rua lhe sugeriu que arranjasse um nome mais pomposo); e como não sabia cantar ou representar, decidiu apostar naquilo que sabia fazer melhor: ser violento! Daí essa estranha e promíscua relação entre violência, comunicação social, sensacionalismo e mediatismo. Refn monta Bronson de forma pouco usual. Recorre-se dos códigos de Hollywood, mas sai completamente dos molde. Primeiro, coloca a própria personagem de Charles Bronson (encarnado por um musculado, alterado e assombroso Tom Hardy, de bigodinho ridículo) enquanto narrador, conversando directamente com o espectador; e depois atira-o para a boca de cena de um palco, com assistência e tudo, onde ensaia a partir de um monólogo de um one-man-show a sua vida. Só quando tem que filmar cenas de pancadaria é que Refn as reconstitui. E aqui recorre a uma encenação coreografada, estilizando a violência ao máximo. Lembramo-nos novamente de Assassinos Natos pela mistura de elementos estranhos ao filme, mas Bronson não é um décimo da trip que é o filme de Oliver Stone. É certo que tem um final que deixa a desejar, mas a realização inconformada de Nicolas Winding Refn e o papelão de Tom Hardy justificam quase a totalidade das dentadas num le Bic Mac bem generoso. ![]() Quarta-feira, Dezembro 28, 2011 ASSALTO AO SANTA MARIA: Título: Assalto Ao Santa Maria Realizador: Francisco Manso Ano: 2010 ![]() A história recente portuguesa continua ainda extremamente ausente da nossa ficção. E se na literatura essa lacuna já começa a ser preenchida aos poucos e poucos, no cinema, salvo raras excepções (como as produções levadas a cabo durante o centenário da república, por exemplo), isso continua a ser uma miragem. E se alguém menciona A Vida Privada De Salazar espeto-lhe já um pinheiro no cu. Assalto Ao Santa Maria é uma das tímidas incursões da ficção cinematográfica portuguesa pelo antigo regime, nomeadamente num dos seus episódios mais espectaculares - o do assalto ao paquete Santa Maria, a jóia da coroa da marinha nacional, por parte do capitão Henrique Galvão (aqui encarnado por um intenso (rígido?) Carlos Paulo), em nome da liberdade e da democracia contra o fascismo português e espanhol. Com uma mão cheia de revolucionários treinados na Venezuela, Galvão, em coordenação com Humberto Delgado, montou o assalto ao Santa Maria, desviando-o para o Brasil, com o intuito de despoletar a revolução na península ibérica. A operação foi coroada de sucesso (o Brasil ofereceu asilo político aos piratas) e, ao mesmo tempo, eclodiu a guerra do Ultramar nas colónias portuguesas em África, iniciando assim o princípio do fim da Velha Senhora. Contudo, apesar das boas intenções, o início de Assalto Ao Santa Maria é embaraçoso. Primeiro, arranca com uma montagem de fotografias de época e um narrador completamente deslocado (por momentos, parece que estamos a ver o início de um episódio do Major Alvega), que contextualiza o filme como se o tivesse a fazer perante um público de crianças do preparatório. Depois, inexplicavelmente, recomeça em flashback, com o próprio Henrique Galvão a contar novamente tudo a um jornalista americano que o entrevista. Assalto Ao Santa Maria tem assim dois inícios em que diz exactamente a mesma coisa. Assalto Ao Santa Maria é então filmado de forma modesta e com muito pouco cinema lá dentro. Um registo de telefilme, encafuado no interior do navio, mas sem qualquer tensão ou claustrofobia, salvo meia dúzia de planos gerais gerados digitalmente do paqute e outros tantos planos envergonhados do mar alto. O melhor do filme é mesmo o seu contexto histórico, especialmente quando entra ao barulho os Estados Unidos da América. Aí a coisa quase se assemelha vagamente a um thriller político, mas que se desmorona logo a seguir como um castelo de cartas. Mas inevitável era não haver uma história de amor pelo meio. Era o que faltava, um filme num navio que não sofresse do síndrome-Titanic. Eis então que entra em jogo um pseudo-romance entre um dos revoltosos e a filha fina de Vítor Norte, sempre demasiado atabalhoado. E aqui já não há telefilme que valha a Assalto Ao Santa Maria, já que tudo soa a telenovela. E das más. O que significa que, apesar das boas intenções, Assalto Ao Santa Maria é um Cheeseburger e desperdício de tempo e dinheiro. ![]() Terça-feira, Dezembro 27, 2011 TAKE - CINEMA MAGAZINE: ![]() Página oficial
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11:17 PM Segunda-feira, Dezembro 26, 2011 THIRST - ESTE É O MEU SANGUE: Título: Bakjwi Realizador: Chan-wook Park Ano: 2009 ![]() Depois das ondas do mini-fenómeno que foi o hype do cinema coreano aqui há um par de anos se ter espraiado na praia, podemos sentar-nos calmamente na areia e ver o que ficou da rebentação. E o que ficou tem um nome: Chan-wook Park. O realizador prova que é mesmo o Godard da Coreia do Sul. E com Thirst - Este É O Meu Sangue, mostra que há vida para lá da sua trilogia da vingança. A saga Crepúsculo arruinou com os vampiros. Trouxe-os para o mainstreem e abixanou-os forte e feito. Mas quando temíamos que tudo tivesse perdido, eis que dois imprevistos filmes, provenientes dos mais inesperados sítios, vieram em auxílio da vampiragem. Primeiro foi Deixa-Me Entrar, filme sueco de um tal Tomas Alfredson; e depois Thirst - Este É O Meu Sangue, de Chan-wook Park. Afinal, há esperança no género. Contudo, Thirst - Este É O Meu Sangue não reivente propriamente o género, até porque não é o típico filme de vampiros, é mais uma variação. É que Sang-hyeon (Kang-ho Song) não é um vampiro tradicional; é antes um padre com dúvidas quanto à sua vocação, que se voluntaria para cobaia humana de um vírus mortal em África, que uma mutação qualquer o transforma em algo semelhante a um vampiro. De um ápice, Chan-wook Park aproveita esta degeneração para se alargar numa reflexão sobre a consanguinidade, qual Dostoievski, ao mesmo tempo que a religião e o cinema de terror dão as mãos como não o faziam desde O Exorcista. Como bom coreano que é, em Chan-wook Park nada é linear nem aparente à primeira vista. O realizador deambula por estilos, mas o à-vontade com que se move faz com que Thirst - Este É O Meu Sangue não se atrapalhe. O seu cinema é algo estilizado (um vampiro-padre de batina tem sempre estilo), mas de um formalismo sério e cuidado. E é aqui que vai desenrolando o seu filme de vampiros, com um gore-realista de jactos de sangue que não envergonha nenhuma anime, e com uma dimensão existencialista, ou não fosse SHSHSHHSHS uma variação moral de Entrevista Com O Vampiro, aqui com a agravante de o vampiro ser padre: como resistir ao pecado de matar? Como se isto não fosse já suficiente para manter o filme de pé, Park ensaia ainda uma história de amor possessiva com contornos de romantismo impossível. E, de repente, o vampirismo volta a ser sinónimo de volúpia e deboche, com Thirst - Este É O Meu Sangue a rimar com eortismo e, consequentemente, com O Império Dos Sentidos. E agora é o hentai e os seus mil e um fetiches que não saiem daqui defraudados. Park é um realizador a seguir de perto, não se esqueçam. E Thirst - Este É O Meu Sangue é filme a merecer Le Big Mac. ![]() Sexta-feira, Dezembro 23, 2011 TOP 5: Mais um ano mais uma voltinha. Final de ano é sinónimo de listas dos melhores e dos piores títulos do ano civil. E agora, em que já estão todos fartos de ver os mesmos nomes repetidos vezes sem fim nós inúmeros tops das inúmeras publicações que proliferam por aí, é altura de lançar o definitivo TOP 5 DOS PIORES FILMES DE 2010: Green Hornet ![]() Eu gosto da série original do Green Hornet. Também gosto do Michel Gondry. E até gosto do Seth Rogen. Então porque está aqui este Green Hornet? Porque é, claramente, um filme falhado, cheio de elementos claramente a mais que não encaixam. E nem estou a falar do erro de casting da Cameron Diaz, que já está velha de mais para fazer de sex bomb em filmes destes. A única coisa acertada aqui é mesmo a banda-sonora. ..::crítica opinativa aqui::.. 4º Lugar: Alucinação ![]() Mysterious Skin, o filme anterior de Gregg Araki, era fantástico. Tinha sido um dos meus favoritos no ano em que passou pelas salas portuguesas e, por isso, não estava preparado para a irrelevância deste Alucinação. As imagens de marca de Araki estão lá - extraterrestres e gays -, mas este teen-movie psicadélico, escatológico e new-wave não faz sentido nenhum. Se bem que uma tipa com poderes sobrenaturais a lamber carpete é sempre uma personagem que fica bem em qualquer sítio. ..::crítica opinativa aqui::.. 3º Lugar: Alta Golpada ![]() Alta Golpada era uma espécie de Ocean's Eleven - Façam As Vossas Apostas dos pobres, com um leque de estrelas a tentarem salvar/relançar desesperadamente as suas carreiras (incluindo a milésima tentativa de Eddie Murphy). Mas o filme é de um desinteresse tão atroz que o filme nem sequer teve tempo de antena quando o realizador mandou uns bitaites polémicos sobre os maricas, que levaram à sua demissão enquanto realizador da próxima edição dos Oscares (e o Eddie Murphy foi atrás por arrasto, deixando a apresentação para Billy Crystal outra vez). E esse desprezo mediático diz tudo. ..::crítica opinativa aqui::.. 2º Lugar: O Turista ![]() Não preciso de falar muito de O Turista. Gente com muito mais legitimidade do que eu (e piada) já cascaram o suficiente no filme (obrigado por existires, Rick Gervais). O Turista é um filme anónimo, com Johnny Depp a fazer finalmente uma personagem normal sem esquisitices, Angelina Jolie a fazer frete e o realizador Florian Henckel von Donnersmarck a confundir glamour com um episódio de O Sexo E A Cidade. ..::crítica opinativa aqui::.. 1º Lugar: Somewhere - Algures ![]() Sofia Coppola continua a sua demanda por histórias sobre jovens perdidos e desencontrados consigo próprios, que é como quem diz, continua a percorrer as suas pegadas. Somewhere - Algures parece uma imitação de todos os seus filmes anteriores juntos: personagens em situações absurdas de cerimónias públicas numa língua diferente, perdidas em hotéis sem nada para fazer e até numa cena de um banho desajeitado. Tudo afunilado para um final pointless e sem nada a acrescentar. Como alguém já disse, não nos sentíamos tão envergonhados por Sofia Coppola desde O Padrinho III. ..::crítica opinativa aqui::..
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11:45 AM Quarta-feira, Dezembro 21, 2011 50/50: Título: 50/50 Realizador: Jonathan Levine Ano: 2011 ![]() Existem temas que são tabu e com os quais não se deve gozar. Não se brinca com Deus, porque senão ele castiga; não se brinca com os ciganos, porque são um povo que sofreu muito; e não se brinca com doenças, como a sida ou o cancro, porque nunca se sabe o dia de amanhã e não vá o diabo tece-las, if you know what I mean. Ou então não. Gozemos com a religião, mesmo que sejamos banidos ou censurados; gozemos com os ciganos, mesmo que levemos uma carga de porrada a seguir; e gozemos à vontade com a sida e o cancro, porque a vida são dois dias. 50/50, baseado livremente na experiência pessoal do argumentista, Will Reiser, é a história de um jovem na flor da idade (Joseph Gordon-Levitt) que descobre ter uma forma rara de cancro na coluna. Com a ajuda da sua namorada traidora (Bryce Dallas *suspiro* Howard), uma psicológa recém-formada (Anna Kendrick), a mãe-galinha (Anjelica Huston) e, claro, o seu melhor amigo (Seth Rogen), Gordon-Levitt vai provar que umas gargalhadas são a melhor forma de vencer as circusntâncias. Contra todos os púdicos e facilmente ofendidos, Jonathan Levine assina um filme descontraído sobre o cancro, mostrando que se pode falar a brincar da doença sem ter que se cair na lamechiche ultra-realista de ver doentes a perecer em melodramas esprimidos ao máximo (olá Filadélfia). Aliás, por vezes, ver a Fátima Lopes ou a Júlia Pinheiro é bem mais pornográfico e sensacionalista que isto. Por isso, 50/50 é a versão positiva de se encarar uma doença grave. 50/50 é um bromance, baseado levemente na fórmula da comédia cunhada por Judd Apatow (chick flick para gajos), em que a amizade é o mais importante para ultrapassar as dificuldades. Claro que a temática vai envolver sexo (com a dupla Gordon-Levitt/Rogen a aproveitarem-se da situação do primeiro para facturarem), cultura pop e outras temáticas masculinas, de forma circunstacial e casual, evitando gags humorísticos de humor duvidoso. É certo que, sem ser nada de especial (há muitas partes que parecem descaradamente que tiveram problemas no momento de edição e que muita película foi cortada à bruta), ajuda imenso ter num filme actores a sério. Gordon-Levitt, já estabelecido como actor à séria (porque a comédia continua a ser vista como um género menor), volta ao género onde se deu a conhecer (com o genial Terceiro Calhau A Contar Do Sol); Seth Rogen mantém-se igual a si próprio (o que, mesmo gostando muito dele, já começa a ser maçador e irritante); Anjelica Huston dá um toque de classe e credibilidade; e Bryce Dallas Howard, bem, bastava andar de um lado para o outro sem falar que já ficaríamos satisfeitos. Apesar do tom divertido, 50/50 consegue ainda ser terno e comovente, com um tour de force na ponta final que bate qualquer tearjerker movie aos pontos. Só por isso, o McBacon já está mais do que justificado. ![]()
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11:15 AM Domingo, Dezembro 18, 2011 DUAS MULHERES: Título: Duas Mulheres Realizador: João Mário Grilo Ano: 2009 ![]() O caso que vai parar um dia, por acaso, ao consultório da psicóloga Joana Amorim (Beatriz Batarda) nas urgências do hospital podia figurar em qualquer episódio do Dr. House: Mónica (Débora Monteiro), uma jovem aparentemente saudável, ia na auto-estrada a conduzir descansadamente e teve um ataque de pânico. Uau, isso é... extremamente banal. Contudo, para o realizador João Mário Grilo isso é o suficiente para a psicóloga desenvolver uma obsessão por aquela jovem voluptuosa com pouco jeito para a representação. Ao que consta, a obsessão da médica pela sua fugaz paciente deve-se ao facto de ver nela um reflexo de si própria, do que poderia ter sido, caso não tivesse casado com um yuppie director de uma multinacional (Virgílio Castelo). Mas isso só sabemos porque diz na sinopse, já que, no filme, tudo fica por dizer. É como o primeiro encontro entre Batarda e Débora Monteiro: a primeira examina a segunda por momentos e percebe logo que ela é uma acompanhante de luxo. Como? Não sabemos. Ou por percepção extra-sensorial ou, mais uma vez, por qualquer coisa que não apareceu no filme. Aliás, ficamos sempre com a sensação de que o melhor do filme é o que fica por dizer. João Mário Grilo, excelente teórico mas nem por isso soberbo executante, limita-se a enquadrar os planos, numa mise-en-scene irrepreensível, mas depois não há uma química entre as cenas, com os actores ou, simplesmente, entre as imagens que estamos a ver e a história a ser contada. O mesmo se passa com os actores, num ritmo teatral de tão contidos que estão. Duas Mulheres procura ser um thriller cerebral e gélido, mas só consegue ser asséptico e aónimo, num cinema cheio de espaços residuais e silêncios forçados. Exemplo: Mónica vai ao consultório da psicóloga e fala com a recepcionista: a doutora está? Está ocupada, pode esperar ou voltar mais tarde. Eu espero, minha senhora. Não me chame senhora, eu não sou casada!!! Oi? Estas linhas estavam mesmo no argumento? Há outros exemplos como este e a maioria envolvem José Pinto, o mordomo/jardineiro/criado/assassino privado(!) que encerra o filme com um final idiota que mais não é do que um enorme plothole. Como qualquer filme português que se preze, Duas Mulheres conta ainda com Nicolau Breyner, um ricaço da alta roda que dá uma festarola na sua mansão e convida para actuar... a Romana. O Donald Trump tem a Liza Minnelli nas suas festas privadas, a máfia tinha o Tony Bennet e o Frank Sinatra e o Nicolau Breyner tem a Romana. Parece-me legítimo. Mas melhor do que o cameo da afilhada da Ágata, é o seu momento happy birthday mr. President, em que canta os parabéns a Nicolau. Priceless. Duas Mulheres ainda ensaia algumas cenas de lesbianice, em que Beatriz Batarda e Débora Monteiro se tocam como se fossem estátuas renascentistas, num filme em que João Mário Grilo parece querer ser rebelde à força. De thriller psicológico há pouco e havia ali qualquer coisa de O Delfim versão-grande cidade que parecia prometedor. Assim, é só um desolador Pão Com Manteiga. ![]() Sexta-feira, Dezembro 16, 2011 WIN WIN: Título: Win Win Realizador: Thomas McCarthy Ano: 2011 Agora que se chega aquela altura do ano em que toda a gente começa a fazer as listas dos melhores e piores filmes de 2011, alguém devia fazero top dos melhores filmes que não estrearam em Portugal. Talvez as distribuidoras nacionais aprendessem alguma coisa... Como no Royale With Cheese se presta serviço público (à sua maneira anarca, claro), aqui vai um desses títulos: Win Win. Repetindo o estilo nervoso e neurótico que o tem tornado num dos melhores secundários da actualidade, Paul Giamatti é o pai esgotado de uma típica família suburbana norte-americana. Estressado com os problemas financeiros que o ameaçam asfixiar, Giamatti decide tornar-se no tutor de um velho senil, Burt Young (o Paulie de Rocky). O que ele não sabia é que, por arrasto, viria também um adolescente problemático com o cabelo descolorado à Eminem (o debutante Alex Shaffer e um lutador de luta greco-romana do diabo). Win Win começa por parecer uma comédia indie, das que tèm deito escola como subgénero nerd em Hollywood, mas rapidamente se assume como drama familiar que tem como particularidade fugir do tearjerker como o diabo da cruz, em detrimento de um realismo casual, descontraído e sem medo de recorrer ao humor. E aqui o comic relief é inteiramente assumido pela personagem deliciosa do melhor amigo de Giamatti, um intenso, sensível e cornudo Bobby Cannavale. Apesar de cair na tentação de se focar em demasia na relação Giamatti-Shaffer, Win Win é melhor enquanto filme de regeneração familiar (lembram-se de Uma Família À Beira De Um Ataque De Nervos?), ligeiramente agri-doce, que não se furta ao happpy ending habitual. Não será, porventura, um dos melhores filmes de 2011 não estreado entre nós, mas é um McBacon que merece, sem sombra de dúvidas, uma oportunidade. ![]() Quarta-feira, Dezembro 14, 2011 MELANCOLIA: Título: Melancholia Realizador: Lars Von Trier Ano: 2011 ![]() Já não é cool gostar de Lars Von Trier. Mas verdade seja dita que tem sido o próprio a arranjar lenha para se queirmar. Basta ver como se enterrou na última edição de Cannes, onde apresentou Melancolia, tecendo loas a Hitler e confessando-se nazi. Resultado: expulso para todo o sempre do festival. Em poucos anos, Von Trier passou de paixão platónica da cinefilia a realizador maldito. Não deixa de ser curioso que o mesmo realizador que em tempo subscreveu o Dogma 95 - manifesto que protelava um retorno do cinema às suas origens mais básicas, contra todo o artificialismo da sétima arte - esteja agora ligado a um cinema barroco. Basta ver o prólogo de Melancolia - tal como tinha sido o de Anticristo também -, uma sequência em super-slow-motion impressionista e romântica, recriando pinturas de Everett Millais ou Pieter Breugel, num resumo simbolista e onírico das dua shoras e tal de filme em que estamos prestes a embarcar. Essas duas horas e tal de Melancolia estão divididas em duas partes, cada uma dedicada a uma de duas irmãs: Kirsten Dunst e Charlotte Gainsbourg. Na primeira parte seguimos Dunst no dia do seu casamento, numa boda luxuosa arruinada pelas dúvidas de última hora que a assaltam (e que a levam a sexo com convidados ou a mijar(!) no relvado). E é aqui que Von Trier é mais genuíno, sempre com a câmara ao ombro, como nos tempos do Dogma (daí as comparações inevitáveis com A Festa), captando as angústias de Dunst, mas também de todo o circo que a rodeia. Quanto à segunda parte, fica-se mais em Gainsbourg, numa variante de filme-catástrofe. Enquanto um planeta azul ameaça chocar com a Terra, Charlotte Gainsbourg procura enfrentar a fatalidade, num espelho da depressão do próprio Von Trier, que limita-se a ir morrendo aos poucachinhos. E nós, que já temos os nossos próprios problemas, não temos pciência para aturar as neuroses dos outros. Melancolia é uma versão depressiva do perigoso Anticristo, cuja segunda parte revela aquilo que o filme anterior pelo menos não tinha: falta de ideias. Von Trier ainda tenta ser provocador, com alguma violência animal gratuita (olá Manderlay), mas não consegue causar mais danos do que um soporífero. Pelo menos aqui evita o rótulo de misógino, que lhe tem sido colado nos últimos tempos. E apesar de não levar nenhuma das suas actrizes ao limite, Kirsten Dunst (que venceu iclusive o prémio de melhor actriz em Cannes) trasnforma-se aqui em mulherzinha. Pelo menos, já não vai ficar condenada a ser a sucessora da Cameron Diaz... Eu até gostei de Anticristo e fui dos poucos a defende-lo e Melancolia não é tão mau quanto isso. Mas daqui a uns anos, quando se recuperar a filmografia deste autor maldito, este Double Cheeseburger será um dos últimos ao vir à tona. ![]()
Posted by: dermot @
12:56 PM Terça-feira, Dezembro 13, 2011 COLD WEATHER: Título: Cold Weather Realizador: Aaron Katz Ano: 2010 ![]() Cold Weather convida-nos para um jantar de família, mas atrasamo-nos e, quando lá chegamos, já ele vai a meio. Felizmente ainda vamos a tempo de saber tudo o que necessitamos. Doug (Cris Lankenau) e ail (Trieste Kelly Dunn) são irmãos que voltam à cidade natal para partilharem um apartamento. Ele é um romântico, que deixou o curso de ciências forenses e agora tem um emprego noturno numa fábrica de gelo (vê-se logo quando, mais à frente, lhe perguntam se ele queria ser como um dos detectives do CSI e ele responde que não, que preferia o Sherlock Holmes); e ela, mais pragmática, trabalha num escritório, fazendo aquilo que se faz nos escritórios. Ora então bem-vindos ao mundo dos cinzentões, um mundo de subúrbios, carros familiares para o passeio dos tristes ao domingo e gente miserável tentando ser menos infeliz. Obviamente, não é um mundo tão desolador quanto o de Wristcutters: A Love Story, mas não deixa de ser triste. E à equação juntam-se mais dois peões: a ex-namorada de Doug (Robyn Rikoon), na cidade temporariamente para uma formação; e o novo amigo-colega de trabalho de Doug (Raúl Castillo), um tipo sem grandes aspirações na vida. Cold Weather podia ser um filme dos irmãos Coen, desde as suas personagens idiotas e excêntricas (um dj de música latina refundida dos 60s ou um fã número 1 do Sherlock Holmes), até à forma de filmar (um ritmo descompassado, acompanhando o ritmo próprio daquela gente, que se deixa empurrar pela vida). Mas, a meio, Cold Weather dá uma pirueta. O estilo mantém-se, mas o género altera-se, transformando-se num filme de mistérios. Afinal; Doug queria ser o Sherlock Holmes e o seu amigo-colega é um fã recém-convertido. Elementar, meu caro Watson. Mas Cold Weather é um mistério a um ritmo muito particular. Esperamos no carro minutos a fio, numa vigília, enquanto o suspeto não dá sinais de vida; paramos pelo caminho para comparar o jantar no supermercado (ou um cachimbo, para ajudar a pensar, como fazia Sherlock Holmes); ou aguardamos no exterior que a biblioteca abra. Enquanto isso, Doug vai redescobrindo a sua vocação profissional e restabelecendo o seu vínculo emocional com a irmã, no filme sobre relações mais out the box dos últimos tempos. Infelizmente, Cold Weather termina antes de chegar ao fim, hipotecando qualquer hipótese deser algo mais do que um McBacon. Lamentável, já que poderia ser mais uma pequena pérola mumblecore (o tal novo género do cinema independente norte-americano, low cost e do iy yourself) a preço de ocasião - e com um cartaz delicioso. ![]()
Posted by: dermot @
10:00 AM Sexta-feira, Dezembro 09, 2011 DRIVE - RISCO DUPLO: Título: Drive Realizador: Nicolas Winding Refn Ano: 2011 ![]() Eis como um realizador que andava a passar despercebido a meio mundo, um dos actores mais promissores da actualidade e um compositor de bandas-sonoras normalmente limitado às suas associações com David Lynch fizeram um dos filmes do ano a partir de um argumento fraquinho. São eles, respectivamente, Nicolas Winding Refn, Ryan Gosling e Angelo Badalamenti e o filme chama-se Drive - Risco Duplo. Comecemos pela história. Gosling é um tipo solitário com um dom natural para conduzir carros, seja em corridas nascar, seja enquanto condutor de fuga de assaltos. Tudo muito certinho, até que um roubo a uma casa de penhores com o marido da vizinha por quem se apaixonou corre para o torto e Gosling vai ter que começar a sujar as mãos de sangue. Nada de novo no reino da Dinamarca, em mais uma aparente variação de Correio De Risco, certo? Errado! E tudo graças a Nicolas Winding Refn, que estiliza Drive - Risco Duplo ao máximo, num filme muito cool e iconoclasta (e aqui o casaco de Gosling é o gostosão do pedaço - branco, com um escorpião dourado nas costas). Lembramo-nos automaticamente de Léon, O Profissional, tanto pelas poucas palavras do herói, como pela sua relação com o filho da tal vizinha. Mas também nos vamos lembrar de Taxi Driver, pela forma natural como Gosling se transforma numa máquina de matar. Afinal de contas, é a sua natureza, tal como a do escorpião na parábola do escorpião e do sapo. Mas depois entra Badalamenti na equação e Drive - Risco Duplo sobe mais um nível na escala e awesomeness. Com uma banda-sonora muito eighties, cheia de sintetizadores manhosos, Badalamenti transforma o piroso em cool, dando uma profundidade maquinal ao filme e uma identidade muito própria. E, entretanto, lemos Cliff Martinez a dizer que foi ele o responsável pela banda-sonora do filme e que o nome de Badalamenti foi só um chafariz e ficamos tristes, sem saber no que acreditar. Se em factos, se na nossa própria teoria. Obviamente que preferimos a teoria. E quanto ao filme de carros, perguntam vocês. Um crítico conhecido da nossa praça, que detestou Drive - Risco Duplo, queixa-se do tom asséptico e de não se sentir o cheiro a gasolina nem a borracha queimada. No entanto, é essa estilização que tornam o filme especial. Está lá o espírito de Bullit e esse mesmo crítico reconhece-o, quando tece loas à cena inicial, numa das melhores cenas de carros do cinema, numa fuga cirúrgica pelas ruas de Los Angeles. E sim, aqui nesta geografia de neons a digital, há Michael Mann por todo o lado. Drive - Risco Duplo tem ainda uma sensação sanguínea difícil de expicar. Apesar de ser quase sempre sugestivo, Refn também consegue ser terrivelmente gráfico (com conselhos de Gaspar Noé de como desfazer cabeças), fazendo de Drive - Risco Duplo uma vertigem perigosa. Um dos melhores Le Big Macs de 2011, ponto. ![]()
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10:49 PM Segunda-feira, Dezembro 05, 2011 RUBBER - PNEU: Título: Rubber Realizador: Quentin Dupieux a.k.a. Mr. Oizo Ano: 2010 ![]() Rubber - Pneu é a mais recente aquisição da equipa das ideias idiotas para filmes. Um pneu assassino, que ganha vida do nada e que, com poderes telecinéticos, começa a estoriar a cabeça de toda a gente que encontra não poderia resultar nunca. Certo? Errado. Se existe um filme com tomates assassino, com um preservativo assassino ou até com a pila do Ron Jeremy assassina, porque não um com um pneu de borracha que mata pessoas? O realizador Quentin Dupieux, que ficou famoso respondendo pelo nome de Mr. Oizo, depois de ter feito uma música viciante em que um bonequinho amarelo abanava o capacete, prova que com os códigos certos da ficção é possível dar credibilidade a qualquer coisa. E mostra ainda que a Canon 5D, apesar de ter o corpo de uma câmara fotográfica, é mesmo do caraças! Uma fotografia perfeita no deserto norte-americano e a banda-sonora ideal nos sítios certos e Rubber - Pneu transforma-se num road movie que remete constantemente para o despegamento de Corrida Contra O Destino. E sempre que uma cabeça explode, num gore artesanal, sorrismos e pensamos em Papá Wrestling :) Mas a vantagem de Rubber - Pneu é que não é só isso. Aliás, o próprio filme desconstrói-se a si próprio, com uma dimensão metafísica, que serve para questionar não só o poder da ficção, mas da própria indústria cinematográfica. Assim, paralelamente ao pneu que ganha vida e fica obcecado por uma tipa gira que passa por ele de carro, Rubber - Pneu fala directamente com o espectador, coloca outros tantos dentro do próprio filme a assistirem e elabora um enorme gag absurdo, com polícias com peluches debaixo do braço ou agentes que viajam na mala do carro. Tudo isso pela mesma razão porque o ET é castanho; porque sim! Ou seja, desde que não nos questionemos demasiado, qualquer premissa é boa; e é por isso que Hollywood nos anda a fazer comer cada vez mais gelados com a testa. Rubber - Pneu é um misto de ensaio sobre o cinema e um slasher idiota de série-b, um sketch absurdo e surreal como se os Monty Pithons tivessem realizado o Massacre Do Texas. Se não gostarem do McRoyal Deluxe é porque andam a pensar demasiado nisso. Descontraiam; afinal de contas, é a suspensão da descrença que faz a maioria dos filmes serem bons. ![]()
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10:47 AM Sexta-feira, Dezembro 02, 2011 O TIO BOONMEE QUE SE LEMBRA DAS SUAS VIDAS ANTERIORES: Título: Loong Boonmee Raleuk Chat Realizador: Apichatpong Weerasethakul Ano: 2010 ![]() Exemplo aleatório número 1 de O Tio Boonmee Que Se Lembra Das Suas Vidas Anteriores: - o tio Boonmee, a cunhada e um sobrinho jantam descansadamente no alpendre da casa do primeiro, quando o fantasma da sua esposa se materializa numa das cadeias vagas. Os três encolhem os ombros, como quem diz estás cá hoje, hein. Nisto, entra em cena um humanóide peludo com os olhos vermelhos, que confessa ser o filho de Boonmee, desaparecido há muitos anos, explicando que fugira para a floresta, onde acasalara com uma mulher-macaco e constituiu família. Os três (mais o fantasma), mais uma vez, reagem como se estivessem perante a coisa mais natural do mundo. E, calmamente, os quatro jantam em amena cavaqueira. Exemplo aleatório número 2 de O Tio Boonmee Que Se Lembra Das Suas Vidas Anteriores: - uma princesa feia e envelhecida lamenta-se à beira de um rio por não ser tão bonita quanto o seu reflexo. Um peixe-gato vem à superfície e diz-lhe(!) para não chorar, porque gosta muito dela. A princesa entra na água e acasala com o peixe-gato(!!). Como podem imaginar, coerência não é coisa que se encontre com facilidade em O Tio Boonmee Que Se Lembra Das Suas Vidas Anteriores. Por isso, não é difícil de perceber o porquê do zumzum criado pela sua Palma de Ouro no último festival de Cannes - o último filme do tailandês Apichatpong Weerasethakul é um verdadeiro OVNI cinematográfico, que rejeita qualquer convenção daquilo que entendemos convencionalmente por filme. E a crítica têm-no trazido de tal forma nas palminhas que é difícil não ficarmos a gostar dele sem sequer o vermos. É verdade que O Tio Boonmee Que Se Lembra Das Suas Vidas Anteriores é um filme fácil de se gostar. Com o seu realismo mágico, Apichatpong mistura fantasia Disney, animais que falam e criaturas sobrenaturais (os homens-macacos de olhos vermelhos que deambulam pela selva são assombrosos) com os planos longos de Mizoguchi ou o cinéma verité do "miserabilista" Béla Tarr. Aliás, o tailandês recicla camadas e camadas de cinema, seja a noite americana do plano de abertura, em que um boi foragido se torna no melhor actor do filme; ou uma viagem de carro, cheia de jump cuts, que lembra logo a nouvelle vague a desbotar em O Acossado. Mas odeia-se O Tio Boonmee Que Se Lembra Das Suas Vidas Anteriores com a mesma facilidade com que se ama. Porque os seus planos teimam em não se mexerem para lá do suportável, porque o ritmo do filme leva-o em longas meditações zen sem grande alvoroço ou porque, pura e simplesmente, as situações são descabidas e não colam. Eu repito: há uma cena a meio do filme em que uma princesa é violada por um peixe-gato. Diz quem sabe que, se conhecermos a mitologia tailandesa, cenas como essa ou como os homens-macaco juntos com os soldados na guerra fazem todo o sentido. Infelizmente, parece que não sou suficientemente inteligente. O Tio Boonmee Que Se Lembra Das Suas Vidas Anteriores é uma experiência arty, que desperta curiosidade e atenção, tal como o fazem os trabalhos de Andy Warhol ou outras divagações surrealistas. Mas mais do que um Double Cheeseburger já me custa a engolir. ![]()
Posted by: dermot @
10:50 AM |
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