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Royale With Cheese | ||
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MEIO METRO DE PEDRA: Título: Meio Metro De Pedra Realizador: Eduardo Morais Ano: 2011 ![]() Tal como aqueles rapazes que provaram ser possível fazer um excelente filme de guerra utilizando apenas a boa vontade dos amigos e 27 euros, Eduardo Morais realizou um documentário independente sobre a história do rock'n'roll em Portugal: Meio Metro De Pedra. É claramente um trabalho de amor, mas é também algo que fazia falta no panorama musical nacional. Primeiro, para acabar com aquele mito de que o Rui Veloso é o pai do rock português. Pai nos anos 80? Quer dizer que não houve rock durante três décadas em Portugal? A Velha Senhora era um regime opressor, mas também não exageremos. Por isso, Meio Metro De Pedra monta a verdadeira história do rock português, passando por todos os nomes incontornáveis. Desde o pai Joaquim Costa aos mitos dos anos 60, Victor Gomes e Daniel Bacelar, até aos fenómenos dos anos 90 - Tédio Boys e Baton Rouge -, não esquecendo outros que foram fundamentais para o rock português, como a Bee Keeper, normalmente esquecida quando se conta esta história. Neste relato apenas um reparo: a ausência dos anos 70. Eduardo Morais começa a história nos anos 60 e chega ali na mudança de década e explica que os grupos acabaram praticamente todos, devido ao ltramar e ao serviço militar obrigatório. Depois salta automaticamente para 1978 e para os Aqui D'el Rock. Eu sei que não houve rock'n'roll a sério nos anos 70, encurralado entre o prog, o stoner e o sinfónico (e nesta altura Portugal chegou mesmo a estar na vanguarda), mas uma referência, nem que fosse meramente por alto, ao que se passou entretanto (e falar dos Xarhanga, por exemplo, não ofendia) fazia todo o sentido. Meio Metro De Pedra é um documentário de cabeças falantes, apenas ilustrado com imgens de arquivo. Enquanto objecto cinematográfico é algo preguiçoso, se bem que os planos dos entrevistados são todos exemplares (e respira Jim Jarmusch por todos os lados, ele que também é grande adepto desta contracultura mais subterrânea); mas os convidados são os certos e estão lá todos: Luís Futre (da Bee Keeper) e Edgar Raposo (da Groovie Records), Adolfo Luxúria Canibal, Victor Gomes, Madalena Iglésias, Daniel Bacelar, etc etc etc. Estão lá todos! Meio Metro De Pedra conta ainda com uma estrutura assente no conceito de um programa de rádio. Há um narrador (a quem nunca se vê a cara), sentado numa régie por trás da mesa de mistura, que introduz as várias décadas sobre as quais o documentário se debruça. Lembramo-nos logo de Os Selvagens Da Noite. Contudo é uma oportunidade que podia ter sido mais explorada, já que as suas intervenções são telegráficas e cada vez mais espaçadas. McRoyal Deluxe sem dúvida nenhuma, pelo trabalho de sapa e por alguém ter a coragem de desvendar o embuste que são os Babies: uma banda com um acordeão, uma viola de caixa, um contrabaixo e um piano não podia ser uma banda rock. Desculpa José Cid, gosto de ti, mas não és a mãe do rock português. ![]() Sábado, Novembro 26, 2011 CAMINO: Título: Camino Realizador: Javier Fesser Ano: 2008 ![]() Ainda não tinha estreado e já Camino criara frisson em Espanha. Tudo porque, aparentemente, o filme era baseado em Alexia González-Barros, uma menina espanhola da Opus Dei que morreu em 1985, com 14 anos, e que está actualmente em processo de beatificação. A sua família manifestou-se publicamente contra o filme, com petições e apelos sentimentalistas na comunicação social, mas Javier Fesser sempre se defendeu, dizendo que era tudo ficção. O que ninguém percebeu é que a família da (pseudo)santinha só não queria era que fosse o realizador de Mortadela E Salamão - A Grande Aventura a fazer um filme sobre a sua filha. Camino (uma debutante e surpreendente Nerea Camacho) é uma menina a quem é diagnosticado um cancro na coluna quase no mesmo instante em que se apaixona à primeira vista por um menino do clube de teatro da sua escola. A sua família, temente a Deus e fiéis à Opus Dei, trata-a de forma conservadora, num hospital da igreja, enquanto os padres vêm ali a oportunidade perfeita para uma santificação. A excepção é o seu pai (Mariano Venancio), um tipo passivo e espezinhado pela esposa, que não quer perder a segunda filha, depois da mais velha se ter "alistado" na reclusão que é a Opus Dei. Fesser tem o bom-senso de resistir a tentação de fazer com Camino um panfleto anti-Opus Dei e anti-qualquer fundamentalismo religioso, apesar de percebermos ali alguma manipulação, sempre que vemos os responsáveis religiosos a tentarem aproveitar-se da fé dos pais de Camino para encontrarem ali motivos para uma santificação (e para sacarem mais alguns trocos sempre que possível, como quando os convencem a muda-la de hosptial para um dos seus). No entanto, é na parte mais real dessa facção religiosa que Camino é mais assustador e perturbador. Como quando vemos como a Opus Dei segrega as mulheres; ou como usam a devoção e a fé para justificar tudo. Camino faz lembrar Jesus Camp pelo extremismo. Camino recorre ao melodrama para contar a história daquela menina que só queria ser como as outras. E é aqui que a coisa corre pior a Fesser. Primeiro porque parece não conseguir saber onde parar de forçar o tearjerking; e segundo porque cai em alguns esquemas telenovescos, especialmente nas cenas familiares. Pelo contrário, o lado melhor de Camino surge na subversão que Fesser monta através de um jogo de múltiplas leituras e de espelhos. Começa logo pelo nome da protagonista, que é o mesmo que o título do livro fundador da Opus Dei; e continua pelo pai da menina, que se chama José, e termina no nome do menino por quem Camino se apaixona, pertinentemente Jesus. Camino ilustra ainda esta parte com umas alucinações meio-Disney-meio-Burton que dão um toque especial ao filme. Camino é um filme sério que, depois de ter arrecadado uma remessa de estatuetas na cerimónia dos Goyas desse ano (os Oscares da indústria cinematográfica espanhola), reabilitou o estatuto de Javier Fesser, que agora pode começar a ser tratado com mais consideração. Só é pena é Camino ter chegado a Portugal com un três anos de atraso. Já o McBacon está quase estragado e fora do prazo de validade. ![]()
Posted by: dermot @
11:58 AM Quarta-feira, Novembro 23, 2011 HEREAFTER - OUTRA VIDA: Título: Hereafter Realizador: Clint Eastwood Ano: 2011 ![]() A ideia de um ancião como Clint Eastwood realizar um filme sobre a vida após a morte era uma ideia apelativa, mesmo que o sobrenatural não fosse uma temática à qual associássemos o nome do últimos dos clássicos de Hollywood. No entanto, bastava pensarmos um pouco no assunto para ver que estava condenado a correr mal. Afinal de contas, quem mais poderia estar menos disposto em falar e pensar em morte do que um tipo com mais de 80 anos? O guião de Hereafter - Outra Vida lembra Babel, pela sua estrutura e pelo seu lado cosmopolita algo forçado (já para não mencionar o miserabilismo gratuito de Iñarritu). São três histórias em formato mosaico, cada uma numa ponta do globo que, aparentemente sem nada que as ligue, desembocam num final comum muito forçadote. Contudo, todas elas têm um tema que as assiste: a morte. Ora vejamos: Cécile De France é uma jornalista francesa que sobrevive a um tsunami numa ilha do Pacífico e que começa a ter visões do outro mundo; Frankie McLaren é um miúdo londrino, que vê o irmão gémeo morrer atropelado, e que fica obcecado em conseguir contacta-lo no outro mundo; e Matt Damon é um médium que consegue, de facto, contactar com o outro mundo, mas que sente mais aquilo como uma maldição do que como um dom. Mais do que fantasmas ou morte, http://www.imdb.com/title/tt1212419/ é uma história sobre a vida, sobre a esperança e sobre o ultrapassar os problemas e as tragédias. E isso é bonito e nobre da parte de Clint Estwood. Contudo, algo parece ter corrido mal. Por um lado, é o argumento de http://www.imdb.com/title/tt1212419/, com algumas partes coladas com cuspo e o formato mosaico demasiado forçado a se cruzar no final para conseguir escapar ao rótulo de irrealista. E depois é o próprio Eastwood, em piloto-automático (ainda em modo Invictus, arrisco dizer), aparentemente desmotivado pelo seu próprio filme. Talvez http://www.imdb.com/title/tt1212419/ seja um daqueles títulos que envelhece bem e se torna em obra de culto, mas para comprovar isso necessito de mais meia-dúzia de anos, uma segunda visualização e a distância temporal correcta para conseguir discernir isso. Até lá, fico-me pelo Double Cheeseburger e uma nota de rodapé de desagrado pela curta participação de Bryce Dallas Howard. ![]() Terça-feira, Novembro 22, 2011 THE WOMAN: Título: The Woman Realizador: Lucky McKee Ano: 2011 ![]() O princío de The Woman faz temer o pior. Num interlúdio pouco claro, é-nos dado a conhecer uma mulher selvagem (Pollyanna McIntosh sem uma única fala (pelo menos numa língua de gente) durante todo o filme, fazendo lembrar, por exemplo, Natasha Henstridge em Espécie Mortal), aparentemente criada por lobos, que vive algures no meio do mato a matar animais com as próprias mãos. Contudo, há um nome no filme que nos dá alento para continuarmos a ver até ao fim: Jack Ketchum, o escrito "mais assustador da América", que faz a palavra crueldade adquirir novo significado. Ketchum é uma espécie de mistura entre Stephen King e Cormac McCarthy. Mas em mais mau. A mulher selvagem de que se fala vai então ser capturada por um advogado de sucesso, Chris Cleek (Sean Bridgers), que a prenda na cave da sua vivenda nuns subúrbios quaisquer na América. Contudo, se pensa que estamos perante uma releitura de Nell, desengane-se. Sim, Chris e a sua família vão reeduca-la segundo os conceitos de civilização humana, mas à sua maneira. É que tudo naquela família é uma máscara, que esconde uma das mais disfuncionais famílias do cinema: o pai é um misógino wife-beater violento e hipócrita; o filho é um bully que segue as pisadas do pai; a mulher é uma passiva sem opinião em nada; e a filha é uma anti-social que reprime todas as suas emoções refugiando-se na sua própria zona pessoal. Há ainda outra filha, mas essa é demasiado nova para ter perdido já a sua inocência. Com uma família assim, é normal que a mulher acabe por ser violada, espancada e alvo de outras brutalidades. Lembramo-nos imediatamente de outra obra de Ketchum, adaptada também ao cinema: The Girl Next Door, baseada na história verídica de uma tia e filhos e prenderam e torturaram uma sobrinha na cave de casa. Contudo, The Woman nunca cai na tentação fácil de descambar num torture-porn. Lucky McKee mostra aqui porque nunca foi anexado ao splat pack: um realismo seco e cruél, que torna tudo muito mais realista e, por isso, mais assustador e (sobretudo) perturbador. Mas o trunfo de The Woman não tem nada a ver com a mulher selvagem, já que esta é apenas um pretexto para montar todo o filme. Aliás, não é por acaso que é sempre mencionada simplesmente como a mulher, assim mesmo, como um artigo definido. Essa mulher é uma metáfora feminista e anti-misógina, servindo-se da violência para fazer um manifesto anti-violência (paradoxal, eu sei). Mas já sabemos que Ketchum não é um tipo normal, que tenha as ideias propriamente arranjadas, e The Woman tem um final completamente selvagem e nas antípodas do politicamente correcto. Apesar de algum exagero no fim, The Woman é um dos mais perturbadores filmes que vai encotnrar em 2011. E para apimentar as expectativas, posso dizer-lhe que traz consigo a polémica de muitos espectadores que abandonaram as salas de cinema enojados e/ou chocados com tamanha demência. Pode ser marketing comercial, mas perante filmes tão inóquos quanto Actividade Paranormal, que fazem o mesmo, The Woman vale um super-McRoyal Deluxe vezes dois. ![]() Segunda-feira, Novembro 21, 2011 THE DEVIL'S DOUBLE: Título: The Devil's Double Realizador: Lee Tamahori Ano: 2011 ![]() O iraquiano Latif Yahia, quando era pequenino, andava na mesma turma do filho mais velho de Saddam Hussein, Uday. Eram tão parecidos, que as professoras confundiam-nos muitas vezes. Por isso, quando muitos anos depois Uday Saddam Hussein decidiu arranjar um duplo para se proteger de possíveis atentados (consta que é uma prática normal junto dos grandes líderes mundiais), decidiu fazer de Latif um voluntário à força ao cargo. Fez-lhe umas operações plásticas para dar uns retoques finais e, durante vários, Latif fez as vezes de Uday, tendo sobrevivido a vários atentados, até ter conseguido fugir para a Áustria. A história parece um filme. E é. Mas antes de o ser, foi mesmo verdadeira, comprovando aquele dizer a realidade é mais estranha que a ficção. Pelo menos aparentemente, já que vários jornalistas teorizam que tudo não passa de uma farsa do próprio Latif, já que desde 1992 que o homem lucra rios de dinheiro com a história, lançando livros, fazendo filmes, mantendo um blogue e até tirando cursos. E aos livros, a história de Latif Yahia vai dar um documentário, depois de ter dado este modesto The Devil's Double, filmado em Malta o ano passado e sem distribuição comercial. Apesar de ser uma produção da benelux, The Devil's Double sofre daquele mai dos filmes americanos em que toda a gente fala inglês. Além disse, vai buscar um actor branco para fazer de monhé: Dominic Cooper, aqui a fazer de Sofia Alves, já que interpreta os dois papeis dos "gémeos" falsos, o próprio Latif e Uday. Há ainda a bela Ludivine Sagnier, que fica sempre bem em qualquer produção, a fazer a parte do interesse romântico que seria indispensável num filme como este, já que tenta desesperadamente ter todos os condimentos de uma produção comercial: tiros, romance, explosão e, claro, uma cena de sexo mais gráfica do que era necessário. Apesar de ser demasiado estilizado, The Devil's Double tinha tudo para ser um grande filme, já que parte de uma premissa brutal (ainda para mais sendo verídica): uma variação do doppelgänger, mas em que o duplicado é uma criação do próprio duplo. E sendo duplo e duplicado pessoas de carne e osso, sentimentos humanos vão anexar-se ao existencialismo da questão. Roman Polanski chamar-lhe-ia um figo nos seus tempos áureos, em que andava mergulhado na temática com a sua trilogia dos apartamentos. Além disso, o filho de Saddam Hussein é uma personagem altamente cinematográfica. Um psicótipo mentalmente desiquilibrado, violento, coquinado e violador em série, que tem feito com que o filme seja amiúde chamado de Scarface do deserto. Dominic Cooper constrói-o como uma fusão entre Chris Rock e o lado desiquilibrado de Nicolas Cage (alguém mencionou o seu Castor Troy, em A Outra Face?), talvez porque não consegue fazer melhor. Infelizmente, perante tantas potencialidades, The Devil's Double não consegue fugir do formato televisivo, anónimo e facilmente esquecivel, que pega sempre nos assuntos pela rama, saltando de cena em cena sem grande convicção. Sem um argumento a sério, os actores são apenas fantoches interpretando as suas personagens, numa história que, por escrito, tem sempre mais força e interesse do que por imagens. O que não é deveras normal. Por isso, The Devil's Double não é mais do que um Cheeseburger acanhado, com a alface já carcomida por demasiado tempo passado no congelador e sem ketchup, já que os molhos esgotaram entretanto.
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10:22 AM Sexta-feira, Novembro 18, 2011 I WANNA HOLD YOUR HAND: Título: I Wanna Hold Your Hand Realizador: Robert Zemeckis Ano: 1978 ![]() De toda a filmografia dos (e sobre os) Beatles, I Wanna Hold Your Hand será o melhor filme dos Betales sem os Beatles. E, quiçá, um dos mais fáceis de serem acarinhados por quem não quer saber absolutamente nada dos fab four e das suas cantorias e apenas quer ver um bom filme. Apesar de ser de 1978, pode-se dizer que I Wanna Hold Your Hand , estreia nas longas-metragens de Robert Zemeckis, marcou o início do que viria a ser os anos 80. I Wanna Hold Your Hand é a epopeia de um grupo de adolescentes (maioritariamente raparigas, claro), que vão procurar por todos os meios conhecer os Beatles, na sua primeira visita a terras do Tio Sam, em 1964. Quase todas elas são fãs doentias e obsecadas - e uma delas, a jovem Nancy Allen, está ainda dividida entre ir ver a actuação deles no Ed Sullivan Show ou preparar-se para o seu casamento precoce no dia seguinte -, mas também existem os detractores (a defensora da música de intervenção, Susan Kendall Newman, e o greaser Marc McClure, fazendo a ponte para a febre que se vivia com o revival dos anos 50 nos Estados Unidos (olá Brilhantina)), o que dá maior dimensão dramática ao filme do que a simples apologia da beatlemania. Robert Zemeckis inicia aqui o seu império nos feelgood movies que marcaram a década de 80, num teen movie de aventuras de jovens em missão. I Wanna Hold Your Hand é a introdução aos filmes de adolescentes que viriam a marcar cinematograficamente a década de 80, de Os Goonies aos filmes de Steven Spielberg, mas de forma mais pueril e descontraída. Afinal de contas, I Wanna Hold Your Hand acaba por se assemelhar em muito aos filmes dos próprios Beatles (olá As Quatro Cabeleiras Do Após-Calypso), com muitos jovens a correrem de um lado para o outro, sem grande profundidade existencial: apenas jovens a serem jovens no auge da sua juventude. No entanto, Zemeckis não deixa de tirar uma divertida fotografia à beatlemania, com um humor inteligente e gags divertidos, tendo ainda o bom-gosto de filmar os Beatles sem nunca ter que recorrer a actores parecidos. Basta um uso inteligente de duplos de corpo, imagens de arquivo e uma reconstituição perfeita do Ed Sullivan Show. I Wanna Hold Your Hand é um McBacon redondinho, que vem ainda com uma jukebox perfeita de canções dos Beatles, que até incluem a I wanna be your lover, feita para os Rolling Stones. ![]()
Posted by: dermot @
10:19 AM Quarta-feira, Novembro 16, 2011 OS CHAPÉUS DE CHUVA DE CHERBURGO: Título: Les Parapluies De Cherbourg Realizador:Jacques Demy Ano: 1964 ![]() É fácil reconhecer Os Chapéus De Chuva De Cherburgo como um dos melhores musicais da história do cinema, mas é um erro limita-lo a esse epítemo. Se bem que ser um dos melhores do que quer que seja é sempre um belo epíteno. Mas o alcance de Os Chapéus De Chuva De Cherburgo é tão vasto que é quase criminoso ficar-mos pelas cantilenas. E nem estou a sequer a referir-me ao facto de ser aqui que Catherine Deneuve começou a deixar de ser a actriz para passar a ser o ícone. É certo que é incontornável fugir à parte musical do filme, já que Os Chapéus De Chuva De Cherburgo é integralmente musicado. Ou seja, todos os diálogos são cantados, maioritariamente em regime de spoken word, como se a vida fosse uma enorme canção. A opção formal é arriscada, especialmente porque o registo melódico raramente (e infelizmente) alterna entre o jazz upbeat e a orquestração cheia de violinos, que lembra sempre o início de Na Cabana Junto à Praia. Por isso, se o seu ser é daqueles que rejeita liminarmente tudo é que é filmes em que os actores desatam a cantar sem razão aparente, fuja de Os Chapéus De Chuva De Cherburgo a sete pés, já que até para quem gosta de musicais o filme pode se tornar irritante. Se formalmente, Os Chapéus De Chuva De Cherburgo é arriscado, estilisticamente é um sonho em technicolor, cheio de cores vibrantes, marinheiros e guarda-chuvas coloridos que, numa estudada mise-en-scene, fazem do filme um kitsch delicioso. Os Chapéus De Chuva De Cherburgo é a resposta da nouvelle vague ao colorido mágico de O Feiticeiro De Oz. Mas com música. E neste ambiente de cores vivas (que o pastiche 8 Mulheres respira por todos os lados), destaca-se a novinha e bela Catherine Deneuve, no seu primeiro grane papel de relevo. Deneuve é então uma jovem adolescente que se apaixona perdidamente por Giu (Nino Castelnuovo), um jovem mecânico que a quer desposar. A mãe (Anne Vernon), dona de uma loja de chapéus de chuva, desaprova veementemente casamento, já que a sua filha só tem 17 ano. Mas quando as contas para pagar começam a se acumular, a ideia talvez ja não seja tão má. Se bem que o empresário de jóias com pinta de chulo (Marc Michel) parece ser melhor opcção. Catherine Deneuve vai ter então que tomar uma decisão quanto ao seu futuro quando a) descobre que está grávida e b) Guy é mobilizado para a guerra na Argélia. Deverá esperar pelo amor da sua vida e enfrentar as agruras da vida, como mãe solteira pelintra? Ou deve optar pela segurança de um casamento com um tipo estável e rico? Os Chapéus De Chuva De Cherburgo começa por parecer mais um romance trágico, na onda de Romeu e Julieta, cujas cores e o contexto suburbano remetem para os melodramas de Douglas Sirk (mas um bocadinho mais telenovelesco). Mas à medida que avança, Jacques Demy revela-se muito mais ambicioso, optando pelas situações menos previsíveis, debruçando-se sobre uma reflexão pela natureza humana (sobretudo a feminina), especialmente perante o moral que a vida continua. Tematicamente, Os Chapéus De Chuva De Cherburgo aproxima-se muito mais da Hollywood clássica, com quem rivaliza, do que com muitos dos seus pares da nouvelle vague. Se bem que continuará para sempre pioneiro de muita coisa. Especialmente de tudo o que é filme francês musical, como já provou na pele Cristophe Honoré, regularmente comparado a Demy após o seu musical As Canções De Amor. Mas o McRoyal Deluxe de Os Chapéus De Chuva De Cherburgo continua a ser à prova de comparações. ![]() Terça-feira, Novembro 15, 2011 TCN BLOG AWARDS 2011: E não é que... o Royale With Cheese foi nomeado para o TCN Blog Award (o equivalente aos Oscares da blogosfera cinéfila nacional) deste ano para a categoria de blogue individual? Afinal, os três leitores deste imodesto tasco cinematográfico não são imaginários. Já me sinto mais descansado e tudo. Mas esta nomeação, além de uma garnde honra, é antes de mais um grande incentivo para a remodelação que aí vem em breve. Stay tuned. ![]()
Posted by: dermot @
10:51 AM Segunda-feira, Novembro 14, 2011 ALTA GOLPADA: Título: Tower Heist Realizador: Brett Ratner Ano: 2011 ![]() Por estes dias, Alta Golpada será mais falado pelas recentes declarações do realizador Brett Ratner (que envolveu, de forma não ofensiva, a palavra "maricas" e levou à sua demissão - e à de Eddie Murphy, consequentemente - da produção e apresentação, respectivamente, dos Oscares deste ano) do que pelo filme em si. Por um lado, ainda bem para Eddie Murphy, já que assim pode ser que passe despercebida mais uma das suas centésimas tentativas de relançar a carreira a sério (e que, invariavelmente, correm mal). Alta Golpada é o Ocean's Eleven - Façam As Vossas Apostas versão afro-americana. Ou seja, um heist movie com da classe média alta, com um grupo de actores famosos, mas mais de segunda linha: Eddie Murphy e Ben Stiller são os mais cotados, mas depois há Matthew Broderick (que continua a teimar em não envelhecer), Casey Affleck (que se está a fazer um belo actor, apesar do seu ar de mosca mal morta), Téa Leoni (desde quando é que ela é tão sensual?) ou a miúda gorda do Precious. É este grupo de tipos pouco ortodoxos, com pouca (ou nenhuma) experiência em bandidagem, que, por alguns imprevistos e azares do destino, se vão unir para assaltar a penthouse da The Tower, um arranha-céus no centro de Nova Iorque para a alta classe, claramente inspirado na Trump Tower. Essa torre, onde moram os tipos todos com pasta da cidade, é uma espécie de caixa forte com um exército de criadagem com um serviço personalizado, que fazem daquele condomínio o sítio mais seguro para se viver, mas também o mais agradável (pelo menos é o que dizem as brochuras). De facto, Alta Golpada tenta emular o tom descontraído e cool de Ocean's Eleven - Façam As Vossas Apostas, num buddy movie que tenta aproveitar o talento nato dos seus actores para a comédia, especialmente Stiller e Murphy. Brett Ratner, apesar de ser um tarefeiro hábil que não compromete, filma as coisas com aquele nervoso miudinho dos thrillers urbanos, preparando as coisas para o assalto final. Infelizmente, o humor do filme não funciona: os diálogos são forçados (a famosa cena do trailer, em que Murphy e Stiller falam de ataques de asma tenta à força ter graça e, novidade, não tem) e as personagens não são assim tão cativantes quanto queriam ser. Mas a coisa aguenta-se bem, até porque estamos todos à espera do assalto. E quando ele acontece, Alta Golpada afunda-se mais rápido que o Bolama. Mais do que ter buracos no argumento, Alta Golpada é ele próprio um enorme plot hole. Principalmente porque nos vendem durante o filme todo que a Torre é um edifício impenetrável e que só o conhecimento dos seus empregados depois de anos de dedicação à casa poderá compensar a falta de experiência em assaltos; e afinal, Eddie Murphy chega lá e, mesmo sem um plano, entra lá por dentro na boa. E com os acontecimentos inexplicáveis a sucederem-se a um ritmo impressionante, deixando-nos a pensar que nos deve estar algo a escapar porque não pode ser assim tão mau, Alta Golpada tem um daqueles finais espartalhões, sem ponta por onde se pegue e que não explica coisa nenhuma do que acabámos de ver. Alta Golpada é uma desilusão de um Cheeseburger, condenado automaticamente às tardes televisivas de fim-de-semana. ![]() Quarta-feira, Novembro 09, 2011 CONAN, O BÁRBARO: Título: Conan The Barbarian Realizador: Marcus Nispel Ano: 2011 ![]() Conan E Os Bárbaros há de ser sempre um marco no cinema de acção. Não tanto por ser um bom filme, mas por ter sido o filme que transformou Arnold Schawarzenneger no super-action-hero. É certo que era um filme feito à medida de Arnie - não tinha que falar muito e podia passear o seu corpo mister Universo -, mas fez história. Ainda se fez uma sequela - Conan, O Destruidor com o fenómeno do pós-modernismo dos 80s, Grace Jones -, mas o terceiro tomo ficou para sempre adiado. Depois, Arnie tornou-se no Conan, o Governador e agora no Conan, o Fazedor de Filhos em Série. Mas como Hollywood continua a ignorar a expressão life goes on, o franchise foi desenterrado e refeito, em mais um dos mil e um remakes que agora estreiam mensalmente por aqueles lados. Chamou-se um tarefeiro bastante competente em slashers para o realizar, Marcus Nispel (e que até tem um filme muito semelhante no currículo, Pathfinder - O Guerreiro Do Novo Mundo), mas aqui ninguém quer saber do realizador para nada. Interessa é o protagonista. E o novo Conan, depois de muitos rumores, acabou por ser Jason Mamoa (os mais atentos são capazes de se lembrar dele do Marés Vivas), um saco de músculos com o mesmo (falta de) jeito para representar Arnie, mas com um cabelo de modelo de penteados e o mesmo bronze e mau feitio que o Bruno Alves. O problema em Conan, O Bárbaro não é tanto o protagonista (e aqui é incontornável as comparações com Conan E Os Bárbaros), mas antes Marcus Nispel. Enquanto que o original era um épico de vingança de o último dos bárbaros pelo tipo que lhe matou o pai, aqui é apenas um anónimo blockbuster de acção, em que a vingança de Conan é apenas mais um cliché numa trama construída por episódios, qual jogo de computador. Mais uma vez, Hollywood a nivelar por baixo o nível de inteligência dos seus espectadores. Obrigado, Hollywood. Mas Conan, O Bárbaro acaba por ter alguns toques interessantes. Primeiro, Nispel faz uma reconstrução de épica curiosa, que mistura piratas, impérios persas das mil e uma noites, mitologia bárbara, romanos e sword & sorcery. E depois, inesperadamente, o filme não se rebaixa ao politicamente correcto para toda a família, com um gore jeitoso e mais ou menos gráfico, que o retiram imediatamente das programações de domingo à tarde. Apesar do fraco argumento (ou da falta dele), Conan, O Bárbaro até se aguenta à tona de água sem naufragar. Sorte de principiante ou não, fica para se tirar as dúvidas na sequela. Para já, um Double Cheeseburger.
Terça-feira, Novembro 08, 2011 DELHI BELLY: Título: Delhi Belly Realizador: Abhinay Deo Ano: 2011 ![]() E se eu vos falasse de um filme indiano em que os actores não desatam a dançar a cada cinco minutos e que não tivesse cenas irreais daquelas que a gente gosta de gozar no youtube? Seguramente que me perguntariam onde comprar os psicotrópicos que tinha andado a tomar. Mas garanto-vos que é verdade e que esse filme existe mesmo. Delhi Belly é a prova de que existe cinema na Índia para lá de Bollywood e dos empoeirados trabalhos de Satyajit Ray. Delhi Belly é o realizador Abhinay Deo a mostrar que os indianos também conseguem fazer cinema moderno, ocidentalizando-se junto dos realizadores cool do momento: Quentin Tarantino e Guy Ritchie. SHSHS é um filme de gangsters que se aproxima dos delírios das saudosas pulp fictions, com as suas personagens invulgares e situações exóticas. Tashi (Imran Khan), Arup (Vir Das) e Nitin (Kunaal Roy Kapur) são três roomates preguiçosos que se envovlem, involuntariamente, num negócio de diamantes com uns gangsters locais, sem saberem muito bem como. Com um estilo estilizado que tem Tarantino escrito em todo o lado (vide Pulp Fiction), Delhi Belly constrói uma trama a partir de humor, violência delirante e até piadas escatológicas, que lembra mais Um Mal Nunca Vem Só do que Snatch - Porcos E Diamantes (principalmente pelas cenas de tiroteios, em que os maus tombam todos mortos e os bons levantam-se ilesos por entre o cenário destroçado). Mas Abhinay Deo não se limita a emular os seus amigos ocidentais e sabe dar-lhe o toque local, conseguindo captar a atmosfera envolvente, seja através das piadas com burkas, seja por entre o tráfego caótico das ruas da Índia. Não há aqui as cores vibrantes e exóticas da Índia de Danny Boyle (vide Quem Quer Ser Bilionário), mas sente-se Bombaim em cada corte, plano ou bobine do filme. Além disso, Deo também consegue resisir à tentação de enveredar por um argumento demasiado complicado, para apostar tudo num twist final (vide Há Dias De Azar), mantendo-se fiél à máxima de less is more, com uma trama que sabe terminar no sítio certo. Sem ter propriamente descoberto a pólvora, Delhi Belly joga com aos trunfos que tinha à mão e vence os adversários confortavelmente e sem suar muito, arrecadando para o seu mealheiro um jeitoso McBacon. ![]() Segunda-feira, Novembro 07, 2011 VENCIDOS PELA LEI aka DAUNBAILÓ: Título: Down By Law Realizador: Jim Jarmusch Ano: 1986 ![]() Jim Jarmusch é um realizador que me irrita. Porque faz filmes terrivelmente simples, aparentemente sobre nada, mas que nos prendem do princípio ao fim de tal forma que não conseguimos dizer sequer porquê. É uma irritação. Vejamos Daunbailó. Tom Waits, John Lurie e Roberto Benigni, dois tipos cool e um trapalhão emigrante italiano, conhecem-se na mesma cela da prisão de Nova Orleães. Mais do que vencidos pela lei, como indica o título, os três são vencidos é pela vida. E logo pela vida que escolheram, a da bebida, droga, mulheres, jogo e outras perdições. Os três vão estabelecer um laço que faz de Daunbailó uma excelente dissertação pela amizade e camaradagem masculina, aquela que tem tudo a ver com o orgulho acima de tudo. Mais do que um filme de prisão - ou de evasão -, Daunbailó é um filme de actores e personagens, uma pequena farsa de três tipos, que são basicamente as únicas pessoas em todo o filme. Com um estilo bastante simples e europeu - podemos referir o alheamento de Antonioni, por exemplo, ou indicar a opção estética pelo preto e branco do Wim Wenders inicial (e já nem vou entrar nas referências ao cinema russo/soviético) -, Jarmusch limita-se a enquadrar os seus actores e deixa-los viver (e dialogar) perante o espectador. Li certa vez uma citação do Pedro Costa (ou do Pedro Costa a citar Straub, não me lmebro bem), que dizia que cada plano de um filme devia ter fogo. Se não tivesse nada que ardesse, então não valia a pena usa-lo. Em Jarmusch - em Daunbailó em particular -, cada plano tem incêndios inteiros apenas num enquadramento, com uma fotografia realista que remete para Edward Hopper, para a solidão urbana e a estagnação do homem a toda a hora. Em Daunbailó são três as personagens que marcam a diferença. Benigni claro, saído de uma comédia italiana (referência habitual na obra de Jarmusch), com o seu estilo exuberante e mau sotaque inglês; a banda-sonora composta pelo próprio John Lurie, cheia de swing e bebop; e Nova Orleães, que mais do que cenário, é ela própria personagem, fundindo-se com os actores. Não se vê Nova Orleães, sente-se. E nesta altura pós-Katrina, quase que vemos Daunbailó como um requiem pela cidade berço do jazz. Daunbailó está para Nova Orleães assim como O Comboio Mistério está para Memphis. DJDJDJD é a arte de fazer grandes filmes simples, por Jim Jarmusch - lição número 1. Nota final: Le Big Mac. Até ao próximo semestre. ![]()
Posted by: dermot @
10:14 AM Sexta-feira, Novembro 04, 2011 AS AVENTURAS DE TINTIN - O SEGREDO DO LICORNE: Título: The Adventures Of Tintin Realizador: Steven Spielberg Ano: 2011 ![]() Depois da violação colectiva que foi Os Smurfs (não bastava o filme ser uma merda, ainda tiveram que manter o nome original contra aquele pelo qual sempre conhecemos aquelas criaturas azuis, estrunfes), todos nós nos preparámos novamente para o pior com As Aventuras De Tintin - O Segredo Do Licorne. Afinal de contas, tudo o que é adaptação para cinema de banda-desenhada europeia tem sabido, uns mais que outros, a violação (olá As Aventuras De Blueberry, olá Arsene Lupin - O Ladrão Sedutor, olá Mortadela E Salamão - A Grande Aventura). Contudo, o facto de As Aventuras De Tintin - O Segredo Do Licorne ser assinado por Steven Spielberg deixou-nos mais descansados e já nos fez ir para o cinema sem medo por não termos levado a vaselina. Não sou grande fã da tecnologia da captura de movimentos. Basta olhar para Polar Express, por exemplo, que nem é peixe nem é carne. Para mim, que já nem acho piada quando os desenhos-animados aproximam as caras das personagens aos actores que lhes dão voz (olá O Gang Dos Tubarões), ou é desenho-animado ou é imagem real. Contudo, até aceito que no caso de As Aventuras De Tintin - O Segredo Do Licorne a coisa faça sentido. Porque está provado que actores com próteses não funciona (alguém sugeriu Astérix & Obélix Contra César) e porque o estilo ligne claire, de Hergé, até é semelhante à tecnologia. Apesar de adaptar dois livros e meio, As Aventuras De Tintin - O Segredo Do Licorne tem o condão de se manter fiél ao original. Não é só na parte visual; felizmente, Spielberg não cai na tentação de dar uma origem qualquer a Tintin, o jornalista heróico a quem Hergé nunca deu uma vida para lá das suas aventuras. A única coisa que sabemos da sua vida é que tem uma cadela, Milu, e é repórter. Mas nem sequer sabemos para que jornal trabalha. Além disso, evita qualquer associação ideológica, preferindo antes a avetura lúdica pelos recantos do Mundo (quanto mais exóticos melhor), transformando-nos em aventureiros de sofá. Daí as suas comparações ao universo de Indiana Jones e, consequentemente, às matinés dos filmes de aventura de Errol Flynn. E convém dizer que há mais espírito e imaginação neste As Aventuras De Tintin - O Segredo Do Licorne do que no quarto volume do arqueólogo de Steven Spielberg. As Aventuras De Tintin - O Segredo Do Licorne é assim uma "aventura de sofá" de Tintin, que não só nos introduz o jovem repórter como os seus principais compinchas (o irascível capitão Haddock, em mais uma composição genial de Andy Serkis (actor que todos conhecem, mas que poucos conseguem identificar a sua cara), ou os agentes Dupond e Dupont, aqui meros secundários comic-relief), como nos leva por aventuras cada vez maiores e mais irreais pelos cenários mais exóticos (piratas, sultanatos, desertos...), mas que aceitamos mais facilmente por estar a ver uns desenhos-animados do que quando acontecia, por exemplo, em Indiana Jones E O Reino Da Caveira De Cristal. É certo que não equilibra na perfeição a parte história com a parte aventura, mas todo o imaginário criado por As Aventuras De Tintin - O Segredo Do Licorne é digno da obra de Steven Spielberg, o criador de ilusões que nunca tinha filmado em digital. Kudos para ele e um McRoyal Deluxe por ter tido o bom-senso de manter a habitual alusão aos portugueses. ![]() Quinta-feira, Novembro 03, 2011 POR FAVOR NÃO ME MORDA O PESCOÇO: Título: The Fearless Vampire Killers Realizador: Roman Polanski Ano: 1967 ![]() Quando era puto, havia dois filmes que davam regularmente na televisão e que eu sempre me recusei a ver, graças aquele sistema de avaliação infalível que era filmes com títulos estúpidos são filmes estúpidos. O primeiro dava todos os Natais e o meu pai obrigava-me sempre a gravar, mas eu nunca o fazia; era O Bom, O Mau E O Vilão. E o segundo era Por Favor Não Me Morda O Pescoço. Claro que depois, anos mais tarde, acabei mesmo por ver o clássico de Sergio Leone e caiu-me tudo ao chão. E antes de ir ver o resto da trilogia dos dólares, fui logo buscar Por Favor Não Me Morda O Pescoço, aprendendo da pior maneira que you can't judge a book by its cover. Claro que na altura não fazia ideia quem era Roman Polanski, o mestre polaco que, em 1967, mostrou ao mundo que havia vida para os filmes de vampiros para lá das produções mumificadas da Hammer. Crises à parte, a classe vampiresca necessitava hoje de um filme como este, para que os filmes de vampiros não fiquem de futuro associdos a boiolice. Uma das coisas que pode afastar o espectador de Por Favor Não Me Morda O Pescoço é o seu humor, já que pode parecer que o filme não se leva a sério. No entanto, Polanski recorre ao burlesco e ao absurdo apenas para dar um toque muito próprio a um dos melhores filmes de vampiros da história do cinema de vampiros. Um dos seus principais trunfos tem a ver logo com a atmosfera criada. Apesar de muitas outras obras do género se passarem também na Transilvânia, nenhuma transmite o mesmo grau de isolamento de Por Favor Não Me Morda O Pescoço, com Polanski a captar na perfeição o ambiente dos Balcãs pré-Kusturica. A partir daí - do momento em que o professor Abronsius e o seu ajudante (Jack MacGowran e o próprio Polanski, respectivamente) - chegam à Transilvânia, para descobrirem o conde Krolock (Iain Quarrier), é o desfilar de códigos e sinais de vampiragem, desde os mais conhecidos - o alho, os crucifixos, os caninos - aos que acabaram por se fixar e formar norma. E tudo culmina no ponto alto do filme: infiltrados num baile de vampiros, filmado com graciosidade e protocolo barroco, os heróis são descobertos ao serem os únicos reflectidos no enorme espelho do salão. A cena é tão marcante que, ela própria, deu origem a uma versão musical do filme, composta pelo mesmo Polanski, na Áustria, em 1997. Por Favor Não Me Morda O Pescoço tem ainda o interesse mórbido de ser o filme em que Roman Polanski conheceu Sharon Tate, que viria a ser sua esposa e, depois, assassinada cruelmente pela Família, de Charles Manson. Tate é um raio de luz que atravessa as sombras, a neve e o claro-escuro de todo o filme, não propriamente pelas suas qualidades de representação (até porque o filme não lhe exige grande esforço), mas sobretudo pelo seu longo cabelo escarlate e fotogenia. Por Favor Não Me Morda O Pescoço é um saboroso McBacon, acompanhado pelas respectivas doses de sangue para apurar o paladar. ![]() Terça-feira, Novembro 01, 2011 CAPITÃO AMÉRICA - O PRIMEIRO VINGADOR: Título: Captain America: The First Avenger Realizador: Joe Johnston Ano: 2011 ![]() Não é para ser conveniente, mas o meu herói favorito quando era puto era mesmo o Capitão América. Aliás, ainda guardo bem acomodados todos os livros das principais sagas dos anos 80 e 90 - aquela em que ele fica velho, a outra em que ele é "despedido"... Só tenho pena já não conseguir gostar de as ler. Mas, se virmós bem as coisas, até faz sentido, já que cresci em plena euforia Reagan, em que só consumíamos cultura (pró)norte-americana (Rambos, Rockys e afins) e víamos os Estados Unidos como a potência invencível que só foi quebrada com o 11 de Setembro. Por isso, nos dias que correm, adaptar o Capitão América ao cinema, além de chegar atrasado, podia assumir contornos de propaganda ridícula. Ciente disso, Capitão América - O Primeiro Vingador rejeita qualquer leitura política e ideológica, fazendo até uma sátira a essa condição de símbolo americano do Capitão América. O pessoal tem criticado o facto de os nazis, que são omnipresentes em todo o filme, não aparecerem uma única vez - quem aparece é a HIDRA, o braço armado e ocultista do Reich, liderados pelo némesis do Capitão América, o Caveira Vermelha (Hugo Weaving, que continua a fazer o seu doutoramente em papéis de mau) -, mas esse descomprometimento acentua o lado lúdico do filme, aproximando-o das matinés aventureiras. Ou então do cinema xunga que proliferou nos anos 80 (olá Comando), não sei bem. É que sempre que vejo filmes com armas com munições infinitas fico sempre baralhado... De acordo com o produtor Avi Arad, o maior trunfo de adaptar o Capitão América ao grande ecrã era aproveitar o facto de ser um homem fora do seu tempo. Para quem não sabe, o Capitão América nasceu nos anos 60, combateu ao lado dos Aliados e depois ficou congelado involuntariamente até aos dias de hoje, não envelhecendo. Contudo, Capitão América - O Primeiro Vingador deixa isso para uma (provável) sequela, já que se mantém apenas na Segunda Guerra Mundial, numa explosão retro supreendemente musculada: quem é que esperava um Capitão América de metralhadora a matar maus? E é esse ar de war movie a melhor coisa de Capitão América - O Primeiro Vingador, se bem que o preferíssemos mais sujo e lamacento. Apesar de polido para toda a família, Capitão América - O Primeiro Vingador não é um nada descartável entretenimento aventureiro de matiné domingueira. Começa por se demorar um pouco na origem de Steve Rogers (Chris Evans, numa opção de casting no mínimo estúpida, já que é ele o Tocha Humana, do Quarteto Fantástico - e se o mesmo actor fizesse todos os heróis do cinema?), um magricelas que sonha tanto em proteger o seu país que se voluntaria para uma experiência que o transforma num supersoldado, e depois avança na sua transformação de estrela de propaganda das forças armadas americanas a arma secreta no combate às tropas de Hitler. Pelo meio, muita falcatrua à banda-desenhada original, se bem que a maioria compreensiva devido a efeitos dramáticos. Escusava-se a parceria romântica forçada a martelo com Hayley Atwell e o sidekick Bucky, (Sebastian Stan), que não aquece nem arrefece. E pronto, lá ficam as cartas todas na mesa para o super-filme que aí vem de Capitão América - O Primeiro Vingador, com o cameo habitual de Samuel L. "Nick Fury" Jackson e uma piscadela de olho a Homem-De-Ferro 2. McBacon simpático, que me faz lembrar que As Aventuras De Capitão América dos anos 90 até nem tinha tão mau aspecto quando isso. ![]() |
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