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Royale With Cheese | ||
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TRON: O LEGADO:
Título: Tron: Legacy Realizador: Joseph Kosinski Ano: 2010
Nesta altura de sequelas, prequelas e reboots, se havia filme que se justificava recuperar era Tron. Ao fim ao cabo, a era digital que preconizara está a acontecer agora. Por isso, há que confessar que todos tinhamos o desejos secreto de ver o universo Tron no máximo esplendor do CGI. Mas se pensarmos bem, será que queríamos mesmo ver um filme que não tinha mais nada senão isso? Tron: O Legado é a tão aguardada sequela de Tron, vinte anos depois, que actualiza o CGI e o 3d, fazendo com que o mundo dentro dos computadores já não seja feito maioritariamente de fundos negros, resultantes de processadores demasiado lentos e incapazes de renderem efeitos mais complexos. Em 1982, Jeff Bridges tinha criado um jogo de computador avançadíssimo, em 16bits(!), o qual o tinha capturado para o seu interior para o tentar matar. Agora, em 2011, Jeff Bridges é refém do mundo virtual que criou, aprisionado por uma cópia sua presa num corpo rejuvenescido pela mesma técnica que rejuvenesceu digitalmente Bradd Pitt em O Estranho Caso De Benjamin Button, e o protagonista é o seu filho, Garrett Hedlund, que vai entrar na rede e salvar o dia. Tron: O Legado actualiza aquilo que Tron deixou de mais icónico: os jogos de arena, as motos de luz ou os fatos estilosos om néons (mesmo com alguns pormenores irritantes, como o barulho de motor de gasolina que as motos agora fazem). Contudo, esquece-se do mais importante, o de acrescentar algo de novo. Ou, pelo menos, de ter um... argumento. Dá a ideia de que Tron: O Legado mergulha no seu universo virtual, feito de luz, cor e masturbação digitial, e fica maravilhado com o seu umbigo, limitando-se a dar corda a uma história de ficção-científica de pais e filhos e de criador e criação, onde todos sabem artes-marciais e onde ninguém tem realmente algo de importante para dizer. O filme esquece-se assim de contar verdadeiramente uma história, limitando-se à premissa da vida virtual dentro do computador, que tanto já vimos no primeiro filme como na saga Matrix. Além disso, quem precisa de um Jeff Bridges zen, em versão The Dude futurista, num filme como este? Era bem mais estimulante se se tivessem preocupado em tapar alguns buracos do (pseudo)argumento - e não são assim tão poucos quanto isso. Quer dizer, engolimos muita xaropada de computadores que falam e afins, mas software que adquire forma humana quando salta para a vida real? Vá lá... E como raio é que os novos algoritmos iriam mudar o mundo como o conhecemos? Segundo o filme, assim: 1ª fase) encontrar os novos algoritmos; 2ª fase) ???; 3ª fase) mudar o mundo. Preferia mil vezes ver isto explicado do que ver programas informáticos a beberem em bares(!) e os Daft Punk a passarem música. Tron era um filme fraquito, mas que ganhou o seu lugar na história de forma meritória, por ter inaugurado a era digital no cinema. Mas Tron: O Legado irá apenas ser relembrado como mais uma sequela empoeirada e um Cheeseburger rançoso. ![]() Segunda-feira, Agosto 29, 2011 O CASTOR: Título: The Beaver Realizador: Jodie Foster Ano: 2011
Aqui há uns anos, Jodie Foster e Mel Gibson reinavam nos impérios dos actores de Hollywood, olhando de cima para baixo com o seu grande ceptro de ouro e um longo manto vermelho. Depois, aos poucos e poucos, foram-se ausentando do mapa de estreias cinematográficas semanais, de forma mais ou menos consciente. Actualmente, limitam-se a aparecer nos escaparates devido a fait-dvers, uns mais trágicos que outros (anti-semitismo ou lesbianice, principalmente). Agora, em 2011, os dois encontram-se no grande ecrã - Foster não só co-protagoniza como também realiza -, fazendo de O Castor um filme a ver, bem que seja por esta mera casualidade. Mel Gibson é então um tipo com uma depressão gigante, apesar da vida aparentemente lhe correr bem - uma família feliz, com uma esposa bonita e dois filhos saudáveis, e uma carreira profissional à frente de uma empresa de brinquedos. A voz-off do narrador descreve na perfeição a situação numa só fala (foi como se tivesse morrido, não tivesse tido o bom-senso de levar o corpo consigo), enquanto Jodie Foster coloca a situação em pratos limpos perante o espectador de uma forma muito estilizada, como aquele outro autor especialista em crónicas familiares disfuncinais e deprimidas, Wes Anderson. Depois, para salvar a vida social dos filhos e a sua própria sanidade mental, Foster expulsa o marido de casa. É quando este tem uma epifania e encontra forças para recuperar num fantoche dum castor, de quem se torna inseparável, que O Castor se torna num filme banal, não obstante de passar a ter Mel Gibson a falar com um boneco com um sotaque esquisito. E é impossível não gostar de Gibson (independentemente do que ele faça na sua vida privada), principalmente se ele foi um dos que educou o nosso carácter cinéfilo nos anos 80 e 90, com os seus buddy movies ou futuros pós-apocalípticos. Mel Gibson é uma espécie de Nicolas Cage menos paranóico e mais cabotineiro e, por isso, quando o vemos a lutar com o fantoche - ou seja, com a própria mão -, não há dforma de não pensarmos em A Noite Dos Mortos-Vivos e sorrirmos. Contudo, O Castor insiste no sub-enredo do filho mais velho, Anton Yelchin, num dilema que ninguém quer saber com a tipa popular do liceu, o seu gosto por grafitis recalcado e um trauma qualquer com um irmão morto de overdose. No fundo, serve apenas para passar a mesma mensagem da história principal (sê tudo mesmo, acredita na força interior, blá blá blá), mas de forma mais linear e sem problemas existenciais de dupla personaldade, que pudessem fazer puxar mais pela cabeça. Valha-me Deus um filme de Hollywood que nos obrigasse a pensar. O Castor sente necessidade de explicar certinho e direitinho o filme, tomando-nos por parvos. O Castor é assim apenas um filme simpático que, em mãos diferentes e/ou com actores anónimos, passaria despercebido e longe de um McChicken. ![]() Quinta-feira, Agosto 25, 2011 PLANETA DOS MACACOS: A ORIGEM: Título: The Rise Of The Planet Of The Apes Realizador: Rupert Wyatt Ano: 201
Depois de quatro sequelas manhosas (com a qualidade a diminuir exponecialmente à medida que avançam no tempo) e um remake igualmente duvidoso, já não faltava muita coisa a fazer a O Homem Que Veio Do Futuro. Apenas uma prequela que, quatro décadas depois, apresentasse o franchise às gerações mais novas, como quem diz este é um filme de culto que merece ser visto por toda a gente. Contudo, todos sabemos que, na verdade, o que os putos ouvem é havia um filme com uns tipos vestidos com fatos de macacos de borracha a falar que os velhos acham que é cool gostar. O que é certo é que, tantos anos e tantas tentativas depois, e O Homem Que Veio Do Futuro continua a não ter comparação possível com qualquer um dos seus primos. Por isso, a opção de ter feito de Planeta Dos Macacos: A Origem um filme quase autónomo acaba por ser acertada. Quem conhece o original vai perceber como é que o chimapanzé Caesar deu origem a algo bem maior e quem não conhece vai ficar com a pulga atrás da orelha para ver os próximos. Sim, porque o franchise não fica por aqui, o final fica mesmo a pedir mais umas quantas sequelas. Caesar é então um chimpanzé em CGI, com os movimentos e as expressões de Andy Serkis, que se annda a especializar em bonecos digitais depois de Gollum e do novo King Kong. Caesar desenvolve inteligência quase humana, depois de injectado por uma droga nova inventada pelo cientista James Franco, em busca desesperada pela cura para o Alzheimer, num conceito já visto em Perigo No Oceano. Contudo, enquanto neste os tubarões fica a jogar às cartas, Caesar vai organizar uma rebelião contra os humanos, humilhado por ter sido abandonado pelo dono e por ser tratado como um mero animal de estimação. Planeta Dos Macacos: A Origem é o filme ideal para aquele tipo de pseudo-intelectuais, que vai ver a ralé toda ao cinema, mas que depois tem vergonha de assumir que gosta. Ah e tal, não gostei muito do King Kong, porque tinha um macaco gigante. Pois aqui não se podem queixar de falta de desenvolvimento emocional do macaco. A relação entre Caesar e James Franco é abordada ao detalhe, ficando a manipulação digital cingida à personagem do macacóide e aos seus saltos e cambalhotas. Planeta Dos Macacos: A Origem não é, portanto, um simples filme de acção, refém dos efeitos especiais. Tem mesmo uma história para contar (quanto à plausibilidade da mesma, aí sim, pode ser discutida), personagens à séria e depois sim, acção e ficção-científica a fazerem a ponte com o iconoclasta O Homem Que Veio Do Futuro, que homeageia com uma estátua da Liberdade de brincar e a repetição de algumas frases marcantes de Charlton Heston: Take your stinking paws off me, you damned dirty ape! Portanto, Planeta Dos Macacos: A Origem até é das melhores coisas que aconteceu ao franchise Planeta dos Macacos, saindo vencedor com um redondinho McBacon. ![]()
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10:40 AM Quarta-feira, Agosto 24, 2011 PUNCH-DRUNK LOVE - EMBRIAGADO DE AMOR: Título: Punch-Drunk Love Realizador: Paul Thomas Anderson Ano: 2002
Depois de Jogos De Prazer e Magnólia, dois trabalhos que o transformaram de cineasta promissor a autor em velocidade meteórica, Paul Thomas Anderson decidiu realizar um filme sem uma falange enorme de actores e formato mosaico, para não ficar para sempre colado ao rótulo de "o novo Robert Altman". Com Punch-Drunk Love - Embriagado De Amor, Paul Thomas Anderson não podia ter sido mais diferente: uma comédia romântica ligeira (mas diferente), uma simples história de amor e Adam Sandler no papel principal. Punch-Drunk Love - Embriagado De Amor está para Adam Sandler assim como O Despertar Da Mente está para Jim Carrey. Ou seja, é o seu filme sério, em que tem mesmo que representar em vez de vestir aquele seu boneco que criou no Saturday Night Live e que agora arrasta em pseudo-comédias sem um pingo de piada, usadas como sessões de tortura em Guantanamo. O que não significa que não faça aqui também de parolo. No entanto, este é um parolo sensível, com qualquer coisa para dizer e com, pelo menos, um dedo de testa. É que Adam Sandler é acanhado, introvertido e um pouco complicado porque teve uma infância submissa e espezinhada por um bando de sete irmãs. Imaginam o que é crescer no seio de uma família com oito mulheres? Por isso, Sandler é um solitário que, apesar de ter conseguido vingar profissionalmente na vida (é certo que é dono de uma empresa de desentupidores, mas não deixa de ser dono de qualquer coisa), não tem amigos, desconfia-se que nunca teve namorada e o seu tempo livre é tanto que o passa a comprar caixas de pudim que oferecem milhas de viagem grátis. Punch-Drunk Love - Embriagado De Amor é como Virgem Aos 40 Anos, mas em melhor. É o que dá ter um realizador a sério por trás da câmara. Aqui, em vez do sucessor de Altman, P.T. Anderson transforma-se no outro Anderson, o Wes (a personagem de Sandler anda sempre com a mesma roupa, como os bonecos de desenho-animado dos filmes de Wes Anderson), com uma comédia de atmosfera indie, uma banda-sonora inesperadamente bizarra e igualmente bela e toques de cinema de autor, sempre com a câmara livre a lembrar François Truffaut e um cinema de grande naturalidade. É certo que a comédia romântica não é o género mais nobre da história do cinema - especialmente desde que Hugh Grant começou a fazer filmes -, mas Punch-Drunk Love - Embriagado De Amor é de uma sensibilidade assertiva e uma plasticidade cinematográfica que não podem dar nada menos do que um McRoyal Deluxe. E Adam Sandler já pode dizer que tem um filme de jeito no meio do balde de merda que é a sua filmografia. ![]() Terça-feira, Agosto 23, 2011 ARACNOFOBIA: Título: Arachnophobia Realizador: Frank Marshall Ano: 1990
No que diz respeito a antropomorfia no cinema, existem dois momentos superiores e um que o poderia ter sido. Comecemos por este último: em Perigo No Oceano, um grupo de cientistas transforma um trio de tubarões em animais inteligentes; o realizador Renny Harlin perde uma excelente oportunidade de, para mostrar o quão esperto os bichos estavam, de os colocar a jogarem às cartas entre si. Em Orca - A Fúria Dos Mares acontece um dos momentos mais felizes da antropomorfia de animais no cinema de imagem real: ao ver a orca-esposa a ser pescada e a orca-filho a ser morto, a orca-marido fica com os olhos raiados de sangue, olha para o céu e grita desalmadamente, enquanto a câmara rodopia em contra-picada, tal e qual um filme do Van Damme depois de lhe matarem alguém da família. Mas o melhor momento de todos é o de Aracnofobia, filme sobre uma espécie tropical de aranhas assassinas gigantes que se muda para os Estados Unidos e, ao copular com um aracnídeo vulgar, têm uma praga de bebés mortíferos. Tal como emOrca - A Fúria Dos Mares, a aranha de Aracnofobia também tem espírito de vingança depois de ver uma prima sua ser esmagada por um fotógrafo-explorador, mas o supra-sumo da antropomorfia está quando a aranha exótica e a caseira se conhecem: música romântica, a lua cheia lá fora e os dois bichos a aproximarem-se romanticamente. Ao pé disto, dois cães a beijarem-se depois de comerem o mesmo fio de esparguete não tem piadinha nenhuma. Aracnofobia é isto, um filme de monstros sobre uma praga imprevista de aranhas assassinas (se bem que aqui a fobia é bem maior, uma vez que os "mosntros" são bem reais, fazendo deste o equivalente de Os Pássaros, mas com aranhas) numa smalltown americana, para onde o (muito convenientemente) aracnofóbico Jeff Daniel se acaba de mudar mais a sua família. Apesar do suspense do filme de género, aproximando-se ainda dos limites dos horror movies xunga que o filme homenageia (e é aqui que surgem as comparações com o Tubarão, ou não fosse Spielberg produtor executivo), o realizador Frank Marshall não tem problemas em tornar o filme descontraído e cheio de humor. Como manda a boa tradição dos filmes de segunda categoria, o argumento de Aracnofobia é o mais straight-ahead e termina ao fim de meia hora: exploradores descobrem uma aranha nova num cenário tropical qualquer, esta arranja maneira de se infiltrar na bagagem até aos Estados Unidos e reproduz-se num celeiro semi-abandonado. A partir daqui não se passa mais nada, apenas o bodycount a aumentar, o pânico a espalhar-se e Jeff Daniels a encetar esforços para estancar aquela matança. No fundo, foi uma opção inteligente: aranhas são bichos suficientemente incomodativos para aguentarem um filme inteiro por si só, enchendo-nos de comichão e de tiques nervosos até ao final. Contudo, Aracnofobia não sairia vencedor desta batalha com o bom gosto se não fosse John Goodman na última meia-hora, na pele de um exterminador destrambelhado e trapalhão, que, qual equivalente cómico de Roddy Piper em Eles Vivem, vem para chutar os rabos das aranhas e mascar pastilha elástica. E a pastilha elástica já acabou... Aracnofobia não é propriamente genial nem acima da média, mas vê-se com uma descontracção e um prazer parvo acima da média, que desliza pelo McChicken com uma facilidade tremenda.
Posted by: dermot @
10:04 AM Segunda-feira, Agosto 22, 2011 O EVANGELHO SEGUNDO SÃO MATEUS: Título: Il Vangelo Secondo Matteo Realizador: Pier Paolo Pasolini Ano: 1964
Quem diria que Paul Verhoeven, realizador holandês que ficou conhecido por ter passado anos a subverter o cinema de acção de Hollywood, com um hiper-realismo gore que lhe valeu o epíteto de Sultão do Choque, tivesse o sonho secreto de realizar um filme sobre Jesus Cristo? Verhoeven passou décadas a compilar informação sobre o Jesus histórico e agora decidiu lançar um livro com a sua interpretação da vida daquele homem da Nazaré que mudou o Mundo. E, nesse livro, Verhoeven afirma sem problemas: ainda está por fazer um filme em condições sobre esse senhor. O Evangelho Segundo São Mateus é a adaptação mais simpática da vida de Jesus Cristo, passando para imagens, de forma integral, a maior parte do evangelho de Mateus. O que não deixa de ser irónico, tendo em conta que Pier Paolo Pasolini era um empenhado marxista, ateu e homossexual. Contudo, O Evangelho Segundo São Mateus pouco ou nada perpassa dessas facetas do realizador italiano (exceptuando, talvez, a primeira), até porque este sempre disse que era um não-crente com nostalgia de crer. Em O Evangelho Segundo São Mateus, Pasolini segue a escola do neo-realismo italiano para transportar para a tela as palavras de São Mateus, utilizando actores amadores e zero de efeitos-especiais. Contudo, nada disso se reflecte na qualidade da reconstituição histórica, contribuindo até para a naturalidade da adaptação. O Evangelho Segundo São Mateus tem uma espessura estética com grande carga poética, carregando a imagem com a mesma santidade que as escrituras sagradas têm transmitido ao longo dos séculos. Pasolini transcreve à letra o evangelho de Mateus e, por isso, O Evangelho Segundo São Mateus tem todos aqueles momentos históricos de Jesus, como o venham a mim as criancinhas, a multiplicação dos pães e dos peixinhos ou a profanação do templo. Infelizmente, este último até é o momento menos conseguido do filme, com Jesus a irromper pelo templo em Jerusalém e a derrubar as mesas dos cambistas com tão pouca convicção, que ficamos com saudades do show de Willem Dafoe, em A Última Tentação De Cristo. E por falar em Willem Dafoe, Enrique Irazoqui é um Jesus bastante competente, com um olhar profundo e intenso. Felizmente, o evangelho de Mateus é o mais realista dos quatro e tem poucos daqueles episódios ridículos, como Jesus a colar uma orelha a um soldado depois da luta que antecedeu a sua captura e que Mel Gibson fez questão de pôr no seu ridículo (do ponto de vista teológico, claro, porque até gosto de filmes gore) A Paixão De Cristo. Contudo, não deixa de relatar meia-dúzia de milagres, que Pasolini não se furta a passar para o ecrã. Falta a ressurreição de Lázaro, mas está lá a multiplicação dos pães ou o andar sobre a água. Afinal de contas, já todos sabemos a história do filme: começa com José a receber um par de cornos do Espírito Santo e termina com Jesus a ser pregado a dois pedaços de pau. Mas a transcrição é tão integral que O Evangelho Segundo São Mateus não só dá a conhecer a história, como mostra como a narrativa do Novo Testamento é disconexa grande parte das vezes e sem profundidade dramatúrgica. Vale um McChicken; e se o Senhor nos tiver a ouvir, que o multiplique por todas as criancinhas da Somália. ![]() Sábado, Agosto 20, 2011 PEQUENAS MENTIRAS ENTRE AMIGOS: Título: Les Petits Mouchoirs Realizador: Guillaume Canet Ano: 2010
O plano abre e apanhamos um homem, Jean Dujardin, a sair da casa de banho de uma discoteca. Está um pouco almareado (mais tarde vimos a saber que estava cocaínado, mas isso não interessa para nada) e nós seguimo-lo pela pista de dança, ao som dos Jet. Mete-se com uma tipa gira, senta-se junto aos amigos, troca umas palavras de circunstância e acaba a bebida que estava a beber. Levanta-se e sai da discoteca, está já o dia a raiar cá fora, e o homem pega na scooter para ir para casa. Apanha o primeiro semáforo vermelho e, no segundo cruzamento, pumba!, um camião acerta-lhe em cheio. Tudo isso demora uns bons minutos e é filmado num só plano-sequência. Saímos cá fora para confirmar junto da lanterninha se não nos enganámos no filme e se isto não é qualquer coisa nova do Brian De Palma. A lanterninha vai confirmar (não porque esteja na dúvida, mas porque nos cinemas em Setúbal ninguém faz ideia quem seja o De Palma) e dá-nos a certeza: é mesmo Pequenas Mentiras Entre Amigos, do actor-realizador Guillaume Canet. E, em menos de nada, ficamos com o ano cinematográfico salvo. Dujardin vai parar ao hospital, desfigurado e todo inchado, como se tivesse a boca cheia de amêndoas. O seu grupo de amigos de longa data vai visita-lo e, mesmo assim, decidem ir de férias, para o retiro que fazem anualmente no challet na praia de François Cluzet. Contudo, o facto de ficar o amigo no hospital, mais para o lado de lá do que de cá, vai fazer com que este ano as férias sejam mais de introspecção, servindo para reflectirem sobre as suas vidas e tomarem decisões importantes para o que sobra delas. Bem-vindos a Os Amigos De Alex versão francesa. De facto, são inevitáveis as comparações entre Pequenas Mentiras Entre Amigos e esse clássico de Lawrence Kasdan, mesmo tendo em conta a diferente maneira de ser entre o cinema americano e o europeu. Pequenas Mentiras Entre Amigos é um filme de personagens, feito sobretudo de diálogos, em que somos apenas mais um do grupo, interagindo com aquela gente com quem nos identificamos, nem que seja porque todos nós temos um momento na vida em que paramos para pensar no que andamos a fazer da nossa vida e se é mesmo isso que queremos fazer até à nossa morte. Contudo, ao contrário de Os Amigos De Alex, Pequenas Mentiras Entre Amigos não recorre tanto à nostalgia. Enquanto o primeiro era um filme mais sobre o passado, em que aquele grupo de yuppies se lembrava do idealismo dos seus dias de hippies, aqui é mais sobre o presente e a actualidade, em que os amigos se refugiam na hipocrisia e nas pequenas mentiras do título para manterem intacta a máscara de felicidade que todos gostamos de usar. Guillaume Canet utiliza uma das armas de Kasdan, a banda-sonora (excelente jukebox de canções), mas perde-se um pouco em subtileza. Nota-se alguma insegurança no argumento de Canet quando este necessita de duas horas e meia para contar aquela história que se contava, seguramente, em menos tempo. Nota-se alguma falta de ideias quando Canet tem que inserir a meio do filme um personagem-cantor a martelo, assim como mover dois dos protagonistas para fora daquele microuniverso criado entretanto, levando-os até Paris para uma sequência perfeitamente desnecessária. E nota-se algum desequilibro quando só os homens são verdadeiras personagens, estando as mulher só a fazerem de apêndice; a excepção é a luminosa Marion Cotillard, com aquele seu ar de espantalho amoroso. Apesar disto tudo, aposto um rim como vai chorar no fim do filme. Se não o fizer não merece sequer cheirar este McBacon. ![]() RIP:
1941-2011 Sexta-feira, Agosto 19, 2011 ALUCINAÇÃO: Título: Kaboom Realizador: Gregg Araki Ano: 2010
Esqueçam David Lynch, esqueçam Alejandro Jodorowsky, esqueçam Luís Buñuel, esqueçam Kenneth Anger, esqueçam tudo o que seja realizador surrealista, experimentalista ou qualquer outra coisa acabada em ista. Kaboom bate aos pontos qualquer filme destes tipos em termos de esquisitice. Principalmente, se não soubermos ao que vamos. É certo que Gregg Araki já tinha lançado uns pozinhos extraterrestres sobre uma história de pedofilia e recordações recalcadas, no seu anterior (e fabuloso) Mysterious Skin, mas Kaboom é muito mais à frente. Imagine um teen movie com humor e escatologia suficiente para ser comparado a American Pie - A Primeira Vez, mas com sexo a mais tipo Shortbus. No entanto, como estamos a falar de Greeg Araki, o João Pedro Rodrigues americano, esse sexo é maioritariamente homossexual, esticando-se por orgias, ménages, lésbicas e gays. Agora, preencham os espaços em branco com I) teorias da conspiração e sociedades secretas à De Olhos Bem Fechados II) alucinações perturbadoras com gente com máscaras de animais à Donnie Darko III) psicadelismo colorido e a piscar por todo o lado, como uma versão em imagem real de Paprika IV) elementos (aparentemente) aleatórios, como ex-namoradas psicóticas com poderes sobrenaturais (principalmente na arte de lamber carpetes). Tudo isto faz sentido? Absolutamente nenhum, especialmente se estiver colado com cuspo, como o argumento de Kaboom. O nível de irrealidade da mistura de géneros tão distintos até já deu frutos interessantes em experiências antigas (alguém mencionou Save The Green Planet!), mas o nível de demência dos orientais presta-se de forma muito mais sincera a isto. Nas mãos de um americano tímido como Araki, Kaboom é apenas uma caldeirada de assuntos abordados ao de leve, que nunca chegam a fazer sentido juntos. Vindo do homem que já nos deu Mysterious Skin, não deixa de ser um decepcionante Cheeseburger. ![]()
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11:29 AM Quinta-feira, Agosto 18, 2011 PERFORMANCE: Título: Performance Realizador: Donald Cammell & Nicolas Roeg Ano: 1970
A modelo e actriz-wannabe Anita Pallenberg foi a bicicleta dos Rolling Stones. Começou por namorar com Brian Jones, mas depois trocou-o por Keith Richards, contribuindo para a sua depressão e, no fundo, para que acabasse por entrar para o Clube dos 27. Depois, durante a rodagem deste Performance, Anita ofereceu um belo par de cornos a Richards, envolvendo-se com o colega actor-wannabe, Mick Jagger. Consta que as cenas de sexo entre os dois foram tão bem feitas que até ganharam um prémio num festival de filmes para adultos, na Holanda. Digam lá que isto não é razão mais do que suficiente para vermos Performance? Performance era para ser um filme sobre a swinging London e, no fundo, sobre o brit-rock. Tinha também, pela primeira vez em filme, a super-estrela Mick Jagger (estava a banda então no auge de popularidade), e a Warner tinha a secreta expectativa que o filme fosse um equivalente dos Rolling Stones de A Hard's Day Night (ou qualquer outra patetada dos Beatles). Contudo, Performance acabou por ser um filme negro, bizarro e experimental, que passou dois anos na gaveta sem que os produtores, completamente assustados, soubessem o que fazer com ele. Performance era tão esquisito e perturbador que, décadas antes de Saw - Enigma Mortal, já tinha feito pessoas vomitar durante os screen tests. É certo que está lá a Swinging London. Aliás, até ser feito Cocksucker Blues - o infame documentário (e banido) documentário da não menos infame tournée mundial dos Stones, em 1972 -, Performance era o documento essencial da tríade sexo, drogas e rock'n'roll, que definiu a década de 60. Mas Performance tem muito mais: tem Mick Jagger e Anita Pallenberg, é certo, mas tem também James Fox e o melhor filme de gangsters inglês (que acabou por influenciar os gangsters de Tarantino e os de Guy Ritchie), tem experimentalismo à Kenneth Anger transformado em mainstream e cut-ups com fartura e tem drogas, muitas drogas, mais drogas que o sábado à noite da Amy Winehouse. Bizarro é, portanto, a palavra-chave de Performance, que pode ser dividido em dois. A primeira parte em que é um óptimo filme de gangsters (se bem que com uma edição algo peculiar, chamemos-lhe assim) - James Fox é um agiota que, ao não conseguir manter os assuntos pessoais de fora dos assuntos de trabalho, tem que desaparecer por uns tempos -, e a segunda parte em que é uma acid-trip: Fox vai-se esconder na casa de uma estrela-rock reformada (porque tinha "perdido o demónio interior"), Turner (Mick Jagger a fazer de si próprio e, basicamente, de todas as estrelas rock excêntricas e hedonistas do mundo), no meio de cogumelos, amor livre (leia-se ménage à trois) e música psicadélica, enveredando numa viagem metafísica em que, ao mesmo tempo que deixamos de perceber o que se passa, vai descobrindo coisas novas no seu próprio ser. Performance está ainda impregnado de referências culturais - Jorge Luís Borges, Robert Johnson, Francis Bacon... - que, como ponto em comum, têm o facto de estarem relacionadas de alguma forma com a maluquice: the only performance that makes it, that makes it all the way is the one that achieves madness, diz Jagger às tantas. Depois aborda ainda problemas de identidade (e duplicidade, como o final dúbio que dá azo a várias interpretações), alucinação, amor livre, homofobia e outras questões filosóficas, mas que no fundo são apenas as drogas a falar. Infelizmente, a única coisa que realmente correu mal em Performance foi o facto de Richards se ter zangado com Jagger, graças ao par de cornos, não tendo aparecido para gravar a banda-sonora que os Rolling Stones supostamente iriam compor para o filme. Assim, ficou apenas uma música para a posterioridade (com a slide guitar de Ry Cooder em vez de Richards), enquanto Jack-Sparrow-senior se trancava furiosamente em casa compondo (o belíssimo) Gimme Shelter. O tema, Memo from Turber, acaba por ser o momento-revelação do filme e a forma como é filmado fazem dele o primeiro teledisco-MTV da história. Como filme, Performance não é particularmente genial, mas a quantidade destes pequenos pormenores fazem dele um McBacon mágico e especial. Segunda-feira, Agosto 15, 2011 EQUILIBRIUM: Título: Equilibrium Realizador: Kurt Wimmer Ano: 2002
Existem dois filmes que os detractores de Matrix (do primeiro, porque os outros dois da trilogia destroem-se a si próprios) adoram comparar e superlativar. Um é Cidade Misteriosa, excelente filme de ficção-científica realizado por Alex Proyas um ano antes; e o outro é Equilibrium, filme assim-assim de Kurt Wimmer (quem?), feito dois anos depois. De facto, é inevitável não comparar Equilibrium com Matrix. Não tanto pelo conteúdo - é certo que ambos são distopias futuristas sobre a falência da sociedade como nós a conhecemos -, mas sobretudo pela forma. É impossível olhar para os fatos clericais de Christian Bale e não nos lembrarmos das gabardines de Keannu Reaves (o que toda a gente se esquece é que quem estreou este guarda-roupa foi um dos irmãos Baldwin não-talentosos, em Harley-Davidson E O Cowboy Do Asfalto) ou ver as sequências de acção altamente estilizadas de Equilibrium e não pensar na revolução visual de Matrix. Mas Equilibrium não é apenas um rip-off de Matrix, é antes uma distopia em que o Matrix encontra o 1984. Num hipotético futuro, após uma hipotética terceira guerra mundial, a civilização une-se e, consciente de que a humanidade poderá não sobreviver a uma quarta grande guerra, ergue um regime totalitário, onde é proibido... sentir(!). Para isso, põem a população sedada sob doses regulares de Prozium (olá Admirável Mundo Novo) e criam uma força armada altamente especializada - os clérigos de Grammaton - para queimar tudo o que seja susceptível de provocar sensações - arte, música, etc etc. Tudo corre bem se um desses clérigos (Christian Bale), com tiques messiânicos, não começasse a sentir e tomasse gosto por isso... A premissa é boa, se não pensarmos muito nela (conseguimos acreditar numa sociedade a preto e branco, enfadonha e monótona, onde ninguém sente, se não víssemos amiúde os maus a gritar ou as pessoas a casarem-se e a terem filhos - a ira e o amor são sentimentos, não são?), mas Equilibrium não deixa, mesmo assim, de ser um filme estranho. E nem é a edição trôpega ou os cenários de aspecto ordinário que me incomodam, porque estou mais do que calejado a isso com o cinema série-b; é antes o argumento ingénuo e tão esquematizado, como que escrito por um adolescente educado a banda-desenhada má. Como o retrato que faz da Resistência - um exército de homens que não tomam drogas e, por isso, experienciam a realidade a cem por cento, mas que quando sob ataque não reagem e não conseguem matar ninguém, limitando-se a arrastarem-se daqui para ali como zombies. Já vimos esta história vezes sem conta no cinema (alguém mencionou THX 1138?), mas Equilibrium tem aquele factor X que nos faz gostar dele mais do que aos outros: as cenas de acção estilizada (coreografias wi-fu entre Matrix e Desperado) e o ar muito cool. Só que depois não tem um argumento à altura. É pena, o McChicken poderia saber bem melhor. ![]() Sábado, Agosto 13, 2011 THE OTHERS - OS OUTROS: Título: The Others Realizador: Alejandro Amenábar Ano: 2001
Em 2001, Hollywood tinha acabado arruinar o excelente De Olhos Abertos, refazendo-o enquanto Vanilla Sky, quando teve um caso raro de bom-senso e de consciência pesada - tendo noção da injustiça, convidaram Alejandro Amenábar a fazer o filme que quisesse. O espanhol escolheu Nicole Kidman, levou-a para o norte de Espanha e realizou Os Outros, passando desde então a figurar na órbita de todos os cinéfilos de bom gosto. Os Outros é um horror movie à antiga, feito mais de vultos, ruídos sombrios e parece-que-vi-qualquer-coisa-ali do que de sustos e outros pormenores mais gráficos, orientado para uma reviravolta final que, para além de funcionar pela surpresa, subverte as regras do género. Pelas suas semelhanças (ou seja, pelo twist), Os Outros é comparado amiúde (e preguiçosamente) a O Sexto Sentido, mas limita-lo a essa muleta argumentativa é bastante redutor. Contudo, tal como nos filmes de M. Night Shyamalan, não é o fantástico que interessa a Amenábar. Mais do que um thriller ou filme de fantasmas, Os Outros é um drama sobre relações familiares. Nicole Kidman é então a mãe de duas crianças com uma doença rara, na Inglaterra victoriana do meio do século passado: James Bentley e Alakina Mann (dois teen actors que prometiam muito mais do que apenas este filme) são fotossensíveis e não podem apanhar luz solar, o que os obriga a viverem trancados em casa e na penumbra constante. Assim, é como se Os Outros se passasse sempre à noite, numa versão alternativa de Insónia, mas igualmente paranóica e extenuante. Em suma, o cenário perfeito para um filme de fantasmas - o que é uma casa assombrada, se não uma casa habitada por sombras? A trama começa a complicar quando Kidman contrata novos criados para casa, depois dos anteriores fugirem, e eventos estranhos começam a acontecer. Amenábar espalha vários sinais ao longo do filme, que acabam por funcionar como um mcguffin escondido - um nevoeiro constante, um carteiro que não aparece, um piano que toca sozinho, murmúrios no andar de cima... No final, o tal twist une as pontas soltas e remata uma excelente fábula fantasmática, com personagens a sério por quem nos interessamos realmente e uma atmosfera enigmática e sombria digna de qualquer filme de terror. Os Outros é um McBacon muito tenrinho e saboroso, mas cujo sabor da primeira trincadela é irrepetível. ![]() RUMO À LIBERDADE: Título: The Way Back Realizador: Peter Weir Ano: 2010
Em 1941, três homens chegam à Índia a pé. Alegadamente, tinham fugido de um gulag na Sibéria e percorrido a pé quase 6 mil e 500 quilómetros, atravessando inclusive o deserto de Gobi e os Himalaias. A demanda parecia impossível e, pelo menos, foi para alguns dos outros companheiros de fuga daqueles homens. Ao longo dos tempos, muitos têm sido os que duvidam da veracidade do relato de Sławomir Rawicz, que o contou num livro que se vendeu que nem pãozinhos quentes, mas - verdade ou não - o que é que isso interessa quando a história pode dar um óptimo filme de aventuras? Também há muitos que dizem que o Papillon não fez nada daquilo e não é por isso que o filme deixa de ser porreiro. Rumo À Liberdade (mais uma tradução portuguesa que tenta acoplar o título à sinopse) é então um survival movie baseado em factos verídicos, sobre a demanda épica de um grupo de indivíduos que, sob condições extremas, sobreviveu ao impensável. Podemos encontrar aqui paralelo com outras histórias do género, como Estamos Vivos, o relato verídico da equipa uruguaia de rugby que se despenhou nos Andes e que teve que sobreviveu em condições extremas, recorrendo inclusive ao canibalismo. Encontramos ainda outra comparação a Rumo À Liberdade: Sete Anos No Tibete, devido à fuga ao cativeiro até ao Tibete. Mas aqui ficamos mesmo pelas semelhanças. Peter Weir, realizador habituado a estes dramas de força, surpreendeu ao apostar num elenco maioritariamente de irlandeses para fazerem de polacos. E o tiro até nem sai pela culatra. Há também Ed Harris no grupo, mas esse já sabemos do que é capaz. Aliás, na altura até se chegou a falar em nomeação ao Oscar, mas tal como o filme, a sua prestação vai perdendo fôlego até ao final. Surpresa mesmo é Colin Farrell, actor que se costuma destacar mais pela sua cara de cu do que pelas prestações interpretativas, mas que aqui é um poço de força, na pele de um feroz bandido russo, mais perto do animalesco Wolverine (ou do "acanado" Jet Li, em Danny The Dog - Força Destruidora), do que de um ser humano normal. Rumo À Liberdade leva-nos juntamente com aquele herói colectivo na sua travessia dos seis mil e tal quilómetros, através de condições desumanas. Peter Weir filma o deserto e as montanhas geladas com uma austeridade que mais parece a antítese da celebração da natureza de Terence Malick. Contudo, com tanto despojo, Rumo À Liberdade acaba por nunca conseguir captar a ténue chama de esperança que manteve aqueles homens vivos e os levou a conseguir ultrapassar as dificuldades. Podia ser uma opção propositada, se a ideia fosse passar ao espectador a parte física daquela aventura, mas não parece que isso tenha sido propositado, uma vez que chegamos ao fim e não estamos propriamente extenuados. Apenas um pouco aborrecidos e com o cu quadrado da cadeira desconfortável. Mesmo assim, saca um McBacon pelo esforço. ![]()
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10:09 AM Quinta-feira, Agosto 11, 2011 THE WAY: Título: The Way Realizador: Emilio Estevez Ano: 2010
Em Fátima, todos os Maios celebra-se o aniversário da primeira aparição de Fátima aos pastorinhos na Cova da Iria, levando a que milhares de peregrinos caminhem até ao santuário. Muitos deles fazem a caminhada para pagar promessas, uns de joelhos, outros de costas, ficando depois dois dias a assistir a missas pomposas e outras demonstrações fúteis de ostentação. Por sua vez, em Espanha, Santiago de Compostela celebra o ano de Jacobeu sempre que o 25 de Julho calha a um domingo, levando outros tantos milhares de peregrinos à catedral, para vários dias de celebração, que incluem actuações de Bob Dylan ou David Bowie, ou co-produções de filmes com estrelas de Hollywood, como este The Way. Cada país tem as celebrações religiosas que merece... Martin Sheen percorreu um dos caminhos de Santiago, até Compostela, com um dos seus filhos não famoso, há uns anos atrás. Ao que consta, a experiência correu tão bem que Taylor Estevez ficou, inclusive, a viver em Espanha. O seu filho menos famoso, Emilio, quis então passar essa aventura para filme, baseando-se livremente na experiência do pai e do irmão e nas de outros peregrinos, realizando assim The Way, filme sobre o caminho de Santiago, mas que acaba por chamar a atenção por conter um gimmick: o de ter Martin Sheen como protagonista (que saudades de o ver num filme de jeito) dirigido pelo seu próprio filho. Sheen é então um oftalmologista de meia-idade, conformado e rezingão, que viaja até à Europa para recuperar os restos mortais do filho (o próprio Emilio Estevez), que pereceu numa tempestade imprevista ao percorrer o caminho até Santiago de Compostela. Sheen tem então uma espécie de epifania e decide percorrer ele mesmo o caminho, fazendo o percurso por si, mas também pelo falecido filho. Claro que durante a viagem várias personagens de várias nacionalidades se vão acoplando à aventura, porque um filme sobre um homem a andar não-sei-quantos-quilómetros sozinho seria uma seca desgraçada. Se pensarmos bem, um norte-americano a realizar um filme sobre o caminho de Santiago é algo que faz muito sentido, já que os americanos são os reis dos road-movies. Uma estrada tem sempre um significado simbólico muito forte e a sua travessia compreende sempre um conceito de viagem, com um local de partida e um de chegada, que não têm que ser necessariamente lugares físicos. Para um país que não tem história, a viagem, o deslocar-se, o ir despegado e a falta de raízes a um local são marcas genéticas muito fortes. Por isso, The Way fazia todo o sentido nas mãos de Emilio Estevez, que só escusava de ser tão preguiçoso. As personagens de The Way são tão bidimensionais, que nunca conseguem terem um diálogo profundo que não soe a cliché ou a má poesia. É que a grande influência de The Way acaba por ser O Feiticeiro De Oz, em que quatro companheiros de viagem, que afinal são um só, tomam noção dos importantes valores da vida. Contudo, aqui as coisas resultam porque funcionam por símbolos, enquanto que em The Way estamos a falar de pessoas reais, de carne e osso. Mas não é só o argumento que é trôpego em The Way, também a própria realização de Emilio Estevez o é. Pelo menos se estiver à espera que as paisagens do norte de Espanha compensassem um desenvolvimento narrativo mais manco. É certo que Estevez evita os postais de viagem, mas também não há momentos verdadeiramente impressionantes, se bem que há paisagens que são impossíveis de ficarem mal em qualquer cena e há um esforço de mostrar um pouco da cultura espanhola (os pinchos em vez das tapas no País Basco é uma dessas raras excepções). O que há com fartura são as montages musicais e aqui é um desastre. Estevez não acerta com a banda-sonora e experimenta de tudo um pouco, seja música galega típica, seja country-music, seja até a Alanis Morissette(!), numa sequência inteira ao som integral de Thank You, que só nos faz querer furar os tímpanos com uma colher. Enfim, é certo que The Way acaba por nos fazer querer ir experimentar também o caminho de Santiago, mas se não o fizesse era porque teria sido um desastre autêntico. Comparamo-lo com O Lado Selvagem, por exemplo, e não sentimos aquele espírito de liberdade, aquele sentimento de descoberta ou aquela experiência de epifania que o filme de Sean Penn, mesmo não sendo espectacular, nos transmitia. Somos capazes de pedir um Double Cheeseburger, mas só porque uma caminhada destas tem que abrir o apetite. ![]()
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10:08 AM Terça-feira, Agosto 09, 2011 CISNE NEGRO: Título: Black Swan Realizador: Darren Aronofsky Ano: 2010
Um príncipe apaixona-se fortuitamente por uma princesa transformada em cisne por um feiticeiro maligno. Apenas o amor verdadeiro poderá quebrar a sua maldição e a princesa parece estar perto de deixar aquelas penas para sempre. No entanto, o príncipe acaba seduzido por um cisne negro, enviado pelo feiticeiro, condenando a princesa para sempre aquele corpo de cisne branco, que acaba por se suicidar de desgosto. Eis a história de O Lago Dos Cisnes, uma das tragédias passionais mais famosas do mundo, logo a seguir a Romeu E Julieta. Foi o bailado de Tchaikovsky que Darren Aronofsky utilizou como analogia para contar a história de Nina (Natalie Portman) e a sua passagem de menina a mulher. Toda a gente sabe que os rituais de crescimento são sempre uma coisa tramada e um momento marcante na definição de personalidade de cada um de nós (o cinema está sempre a conta-lo), mas no caso de Nina isso é ainda mais complicado. Ela, que acaba de ser escolhida para protagonista da nova encenação de O Lago Dos Cisnes, de Thomas Leroy (Vincent Cassel), continua a viver sob a alçada submissa da mãe (Barbara Hershey), que não só vai vivendo os seus sonhos através da filha, como não a deixa crescer. Não é uma mãe tão tirana quanto a de Carrie, mas o nível de perversidade acaba por ser o mesmo. Apesar do ballet ser omnipresente, Cisne Negro não é um filme sobre tal. Pelo menos da mesma forma que era Os Sapatos Vermelhos, tantas vezes associado ao filme de Aronofsky. É como dizerem que eu sou parecido com o Chuck Norris só porque ambos usamos barba. Tirando os pêlos na cara e o branco dos olhos, não há nada de semelhante em nós. Cisne Negro é antes um filme sobre o doppelgänger, a famosa temática do duplo, que continua a intrigar tantos autores. Nina tem que interpretar em palco tanto o cisne branco, como o preto; e se o primeiro é fácil, basta ser ela própria - virginal, inocente e cândida -, o segundo é mais complicado - sensual, violento e cruel. Para o encenador, a solução é fácil: descobrir-se a si própria. E, para isso, tem que conhecer o seu corpo primeiro. Para ele, a sexualidade é, tal como Freud, a solução e o problema de todas as situações. Por isso, enquanto Nina não tiver um orgasmo como deve ser, nunca irá libertar o cisne negro que tem dentro de si. Mas não é fácil masturbar-nos numa casa em que a nossa mãe está por perto 24 horas. E neste ponto, Cisne Negro tem Roman Polanski escrito por todo o lado, já que a sexualidade reprimida (assim como a duplicidade) sempre foi tema recorrente na obra do polaco. Aronofsky aproveita isso para criar um clima sexual intenso entre Natalie Portman e Mila Kunis. E quando elas acabam por se comer, Cisne Negro entra directamente para o panteão de filmes com as melhores cenas de lesbianice, logo a seguir à Neve Campbell e Denise Richards, em Ligações Selvagens, e Naomi Watts e Laura Harring, em Mulholland Drive. Aronofsky constrói assim um thriller perturbador, entre a realidade e a esquizofrenia (Polanski é sempre uma referência, especialmente Repulsa), filmando Cisne Negro segundo a fórmula de O Wrestler: uma câmara ao ombro, insinuante, que segue a actriz ininterruptamente. Portman, que se entrega ao papel de corpo e alma, está no ecrã praticamente todo o filme, aumentando o desconforto do espectador. Além disso, Aronofsky ainda dá um ar da sua graça enquanto cineasta ao filmar as cenas de bailado de forma bastante física, quase dolorosa, em cima do palco e no meio dos bailarinos. Depois de Cisne Negro, quem não ficar com vontade de ir ver O Lago Dos Cisnes é porque não se sente. E se Natalie Portman tem aqui a sua consagração em uma das melhores actrizes da sua geração, Winona Ryder volta a ter um papel simbólico, enquanto a bailarina ex-estrela da companhia, dispensada por já estar velha - de jovem actriz promissora e em ascensão, a cleptomaníaca que ninguém quer saber, condenada a papeis secundários ou filmes insignificantes. Darren Aronofsky é que continua imperturbável na sua ascensão ao topo da montanha dos grandes realizadores, com mais um Royale With Cheese. ![]() Domingo, Agosto 07, 2011 SUPER 8: Título: Super 8 Realizador: J.J. Abrams Ano: 2011 Super 8, o primeiro filme com material original de J.J. Abrams, tem sido vendido aos quatro ventos como um exercício de nostalgia aos filmes de Steven Spielberg dos anos 80 (o Spielberg realizador, mas também o produtor). Será Super8 assim tão redutor? Não, nem por isso, mas o filme é uma homenagem tão forte que é impossível fugir às evidências. Aliás, o esqueleto de Super 8 parece ter sido construído segundo o método frankenstein, isso é, a partir de peças de trabalhos do Spielberg inicial (no fundo, aquele que realmente interessa, o que fazia filmes que marcaram uma época, antes de ter amadurecido após aquele filme-charneira que foi A Lista De Schindler). Ora vejamos: Super 8 é a aventura de um grupo juvenil de amigos (Os Goonies, check), ambientado nos subúrbios americanos no final dos anos 70 (ET - O Extraterrestre, check), em que o descarrilamento de um misterioso comboio militar liberta uma criatura alienígena, mais benigna do que maligna (Encontros Imediatos Do Terceiro Grau, check). Super 8 tem Steven Spielberg escrito em todo o lado, mas não é só. Tem também a marca do próprio J.J. Abrams, nomeadamento no filme de monstros que é (e não é apenas pela semelhança entre esta criatura e a de Nome De Código: Cloverfield), que sugere mais do que mostra (espera aí, um filme de monstros "sem" monstro também é herança de Spielberg - O Tubarão, check). Todas estas referências não são mais do que um jogo de espelhos, que nós até não estranhamos, já que Abrams é o correspondente a Spielberg do século XXI: um cineasta que, mais do que autor, é um de nós, um nerd educado pela televisão e pela cultura pop, que actualiza os géneros clássicos à actualidade com uma fé inabalável no poder das imagens. Podemos, portanto, começar por lamentar a opção de Abrams em recuar a acção aos anos 70. Teria sido muito mais estimulante se Super 8 se situasse nestes anos 00. Mas compreende-se a ideia e segue-se a trama com interesse: o suspense e o paranormal, o herói colectivo suficientemente eclético, o núcleo familiar fragmentado como pathos (olá Spielberg outra vez) e um bicho meio-alien meio-godzilla com pinta. Infelizmente, Super 8 tem um remate final frouxo, que maìs um bocadinho e nem passava a linha de golo, que cheira a deja vu que trasanda e se limita à muleta sentimental sem se esforçar um bocadinho. Contudo, para compensar, J.J. Abrams redime-se com um rebuçado para os olhos, já durante os créditos finais - a projecção em 8 milímetros do filme dentro do filme, que os gaiatos vão rodando ao longo de todo Super 8, em mais uma homenagem sentida, desta vez aos horror movies clássicos, de Romero a Corman. Super8 pode não ser um épico familiar que vá ficar na memória colectiva da maioria, mas é um mui honrado McRoyal Deluxe no palmarés de um também mui honrado J.J. Abrams. ![]() Quinta-feira, Agosto 04, 2011 O REI DOS GAZETEIROS: Título: Ferris Bueller's Day Off Realizador: John Hughes Ano: 1986 ![]() Perante a questão "que herói do cinema gostarias de ser?", qualquer pessoa de bem responderá de pronto: Ferris Bueller! Não é que ninguém gostasse de ser o Indiana Jones ou o James Bon, mas todos temos noção que nunca seremos um arqueólogo de chapéu de abas e de chicote garimpando o santo Graal e enfrentando nazis. E nem todos ficamos bem de smoking. Ferris Bueller é, portanto, o ícone que todos gostaríamos de ter sido, pelo menos durante a nossa juventude (especialmente durante aquelas intermináveis horas de Geografia à terça de manhã), o herói übercool por onde alinham todos os diapasões que marcam o ritmo do que é fixe e não é. Apesar de cristalizar uma das principais características do cinema dos anos 80 - o espírito feelgood, algo näif, mas altamente pegajoso ao cérebro -, O Rei Dos Gazeteiros é um filme fora dos moldes. Se na sua génese parece apenas uma variação de uma ideia não muito original - um adolescente que magica complexas formas de se baldar às aulas, com a namorada e o melhor amigo , no conteúdo e na forma é um filme anárquico (as brincadeiras irresponsáveis dos Looney Tunes, da Warner, são uma referência constante), que desconstrói as regras do cinema de género, pondo o protagonista a falar directamente com a câmara (olá Fellini, olá Woody Allen) ou a música a pontuar o tom e o ritmo de cada cena ou sequência. Enquanto comédia, O Rei Dos Gazeteiros funciona ainda pelo casamento entre os vários tipos de humor, um pouco à semelhança de Seinfeld. Há piadas descaradas, tongue in cheek, mas há também humor físico (o reitor-vilão Jeffrey Jones é o bastião deste exemplo, com banda-sonora a condizer) e um humor inteligente e subversivo, como a famosa cena no museu em que Alan Ruck tem uma epifania perante a profundidade do olhar de uma personagem de uma pintura de Georges Seurat (emulada entretanto naquele emulador de referências pop que é Family Guy). É por isto que O Rei Dos Gazeteiros é um filme de culto, já que acaba por apelar a vários públicos, e fazem dele uma das comédias mais citada da história das comédias. Mas O Rei Dos Gazeteiros não é apenas humor slapstick esticado ao limite, tem ainda uma dimensão metafísica de quem tem algo para dizer. É certo que estávamos nos anos 80 e aqui, por mais que o núcleo familiar esteja fragmentado, os heróis nunca abandonam a sua pose cool, ultrapassando os seus problemas com um optimismo invencível, óculos escuros e um sorriso estúpido na cara. Mas a mensagem de O Rei Dos Gazeteiros é clara: a vida é curta e deves aproveita-la antes que te escape por entre os dedos. E fá-lo de forma muito mais eficaz que o carpe diem dos chorosos e deprimidos de O Clube Dos Poetas Mortos. O Rei Dos Gazeteiros perdura, portanto, no tempo. Aliás, por isso é que Matthew Broderick nunca conseguiu envelhecer, ficando com aquela adorável cara de bebé para sempre, uma vez que o filme é intemporal (aconteceu o mesmo a Tom Hanks, que demorou anos a ultrapassar o trauma de Big). Só é pena é que Alan Ruck (completamente genial) nunca mais tenha feito nada de jeito. E quando Broderick mete Chicago inteira a dançar o Twist and Shout e nós começamos a bater o pé, percebemos que estamos a sentir o mesmo que aquelas personagens. O Rei Dos Gazeteiros é o Calvin & Hobbes do cinema e, portanto, Royale With Cheese. ![]() Terça-feira, Agosto 02, 2011 WHITE IRISH DRUNKERS: Título: White Irish Drunkers Realizador: John Gray Ano: 2010 ![]() A sinopse de White Irish Drunkers reza assim: dois irmãos planeiam um assalto à bilheteira de um cinema na noite em que tocam lá os Rolling Stones. Para mim, stonemaníaco assumido, isso é o suficiente, mesmo que seja um filme com pessoal desconhecido vindo de telefilmes e que, pelos vistos, passa o tempo livre a dizer bem do próprio filme nos respectivos boards do imdb. Contudo, chegados ao fim do filme, nem uma música dos Stones se ouve - e a banda-sonora está cheia de rock'n'roll. Ora que raio, é já uma Hamburga de Choco. Não, estou a brincar, não é nada uma Hamburga de Choco. Mas é quase. Vamos por partes. Anos 70: os Stones estão em grande. E em vésperas do mítico concertos no Marquee Club (o primeiro com Ronnie Wood na guitarra), um modesto cinema no Brooklyn, que vai conseguindo pagar as contas com concertos esporádicos de antigas estrelas caídas no esquecimento, consegue uma data extra de Mick Jagger & cia através de uns favores antigos por pagar. Como se sabe, Brooklyn é também a casa dos americanos descendentes de irlandeses; é como já vimos em filmes como A Cidade ou The Boondock Saints (ou em todos os filmes com o Clin Farrel), os irlandeses são malta ruiva e sardenta, que acredita em duendes e gosta de andar à pancada e de beber muito. Em suma, são irlandeses brancos e bêbados. Brian (Nick Thurston) é a peça transversal a todo o filme. É irlandês, gosta de pinga e trabalha no tal cinema. Também tem um pai abusivo e um irmão assaltante, com quem planeia saquear a bilheteira do espectáculo do Stones, durante o próprio concerto. É que Brian vive num dilema: por um lado não fica muito excitado em ver o que o futuro de um irlandês lhe reserva - um trabalho das 9 às 6 numa qualquer repartição pública, ir ao bar embebedar-se e bater na mulher ao chegar a casa -, mas por outro também não o seduz deixar o Brooklyn natal e ir para uma universidade cheia de gente diferente de si. White Irish Drunkers é um drama ritual, sobre aqueles momentos de transição na adolescência, mas é também sobre a consanguinidade (ou como um romance russo sobre a degeneração geracional), de Brian com o seu irmão e com o seu pai e a deste com os seus filhos. Contudo, é tudo tão académico, que se esforça por não deixar de fora nenhum lugar comum do género. White Irish Drunkers torna-se assim um desperdício de boa fotografia e de um bom filme de época. E, no meio disto tudo, a ideia dos Stones e do heist movie (que até é a melhor do filme), acaba por passar despercebida lá atrás, como mero papel de parede decorativo. Mas o que baixa ainda mais a bitola de White Irish Drunkers é o pontapé nos tomates que nos dá no final (sem mais desenvolvimentos, para não entrar em spoilers). Por mais graxa que nos tentem dar nos boards do imdb, White Irish Drunkers é apenas um Double Cheeseburger e já bastante passado. ![]() Segunda-feira, Agosto 01, 2011 SOLDADOS DO UNIVERSO: Título: Starship Troopers Realizador: Paul Verhoeven Ano: 1997 ![]() Paul Verhoeven sempre foi o realizador mais subversivo de Hollywood. Os grandes estúdios americanos passaram mais de uma década a dar-lhe dinheiro e carta branca para fazer filmes de acção, até se aperceberem que ele, afinal, estava era a gozar com eles e a critica-los à grande. O exemplo mais flagrante foi o incompreendido Soldados Do Futuro, penúltimo prego no caixão do realizador holandês antes de ser corrido de novo para a Europa. Enquanto Verhoeven quis contar uma farsa político-bélica, ambientada no futuro, mas com muito a dizer no presente, os estúdios encararam-no apenas como um simples e musculado filme de guerra, que depois multiplicaram num bolorento franchise de sequelas, série de televisão e shoot'em-ups para consola. Soldados Do Futuro situa-se num hipotético futuro em que a sociedade democrata e capitalista ruiu (olá actualidade, telefonaste?) e os veteranos de guerra assumiram o poder, transformando o ocidente numa espécie de ditadura militar, alicerçado na força bruta como instrumento disciplinador. Entretanto, no espaço, um planeta habitado por insectos gigantes sente-se ameaçado pela intrusão dos humanos no seu habitat e ataca a Terra, devastando Buenos Aires. A humanidade responde a uma só voz, com temidas medidas fascistas: retaliar, invadir e dizimar todos os insectos da galáxia. Este contexto socio-político é o pano de fundo para Soldados Do Futuro e aquele que tem mais a dizer ao filme. Em paralelo desenrola-se a história de um grupo de colegas de liceu, todos loiros e de olhos azuis como se Buenos Aires fosse o berço da raça ariana (Casper Van Dien, Denise a-pior-bond-girl-de-sempre Richards, um novinho Neil Patrick Harris e uma Dina Meyer sempre com calor), que se alistam no exército, em diferentes corporações - infantaria, força aérea e serviços secretos -, seguindo vidas separadas, mas que se cruzam em momentos charneira do argumento. Este cruzamento de géneros díspares dá ao filme um tom que não sabemos se devemos encarar a sério ou a brincar. Por um lado, é um filme de adolescentes em crescimento, com as hormonas aos saltos e com as habituais dúvidas no que toca aos seus próprios futuros. Por outro lado, é um filme de guerra, ainda por cima sangrento e cruel - há gore e mais protagonistas desmembrados do que é habitual em blockbusters -, ou não estivéssemos a falar de um filme de Paul Verhoeven, o hiper-realista sultão do choque. Soldados Do Futuro é um filme mais inteligente do que parece, que a pecar é só pela recta final com tiros a mais. Saboroso McBacon e diversão garantida, num filme dois em um: acção e miolos. ![]() |
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