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Royale With Cheese | ||
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HOBO WITH A SHOTGUN:
Título: Hobo With A Shotgun Realizador: Jason Eisener Ano: 2011 ![]() Hobo With A Shotgun é o segundo trailer falso do projecto Grindhouse a ser transformado em filme real, após Machete, e será, quiçá, aquele que é mais querido ao público português. É que, enquanto Machete, por exemplo, fazia referência às sessões duplas de meia-noite de filmes xunga manhoso, que em Portugal nunca tiveram propriamente tradição, Hobo With A Shotgun homenageia os filmes de acção exploitation straight-to-video, que educaram todos os cinéfilos que viveram o boom do VHS e para quem a Cinemateca foi o clube de vídeo do bairro. Toda a gente sabe que um filme straight-to-video não necessita de uma história; se tivesse uma, provavelmente teria parado antes numa sala de cinema. Num straight-to-video a economia narrativa determina que, quanto menos tempo os actores estiverem a falar, mais tempo livre vão ter para se matarem. E de forma cada vez mais extravagante. Por isso, podemos aferir da qualidade um exemplar deste género através de uma fórmula infalível: se a sinopse do filme se conseguir contar no título - e quanto mais sucinto este for - melhor será. Hobo With A Shotgun obedece a esta máxima. Há um vagabundo. E tem uma caçadeira. Ponto. Hobo With A Shotgun não tem muito a dizer, além de vagos motivos para justificarem, de forma frouxa, uma matança do porco doentia. Rutger Hauer (ele que protagoniza um dos maiores exemplares deste cinema de género, Fúria Cega) é o tal sem-abrigo, que chega a uma cidade pior que a Old Detroit, do Robocop - O Polícia Do Futuro: há pais natais pedófilos nas ruas, polícias corruptos, clubes de streap onde se mutilam mendigos just for the lulz e outras perversidades demasiado loucas para se levarem a sério. Hauer até vem numa de paz, mas quando o agiota local (Brian Downey) e os filhos metrossexuais se metem com ele, Hauer compra uma caçadeira e decide limpar as ruas à força, sempre com one-liners bem medidas e banda-sonora minimalista à Carpenter. Bem-vindos à sequela não oficial de O Justiceiro Da Noite. Hobo With A Shotgun emula na perfeição este cinema série z, com os cenários baratos, as cores saturadas pelo technicolor e efeitos-especiais baratos. Tudo é hiperbólico, num nível de irrealismo não tão gore-à-Peter-Jackson, mas mais de insanidade-à-Troma. E, claro, não se furta a algum nível de aleatoridade, em que o que interessa não é a coerência e a linearidade narrativa, mas sim a possibilidade de aumentar o bodycount e derramar mais uns jerricans de sangue falso. Por isso, no final, Hobo With A Shotgun saca da carteira uns vilões vindos do Inferno(!), vestidos em armaduras medievais feitas de latão(!!), que parecem mesmo os robôs do fim do O Ninja Das Caldas. Ora bem, se tem paciência para aturar tal parvoíce, mais gangues retro-punk mal vestidas, cabeças decepadas, autocarros escolares incendiados a lança-chamas e litros e litros de milho de framboesa... perdão, de sangue derramados, então Hobo With A Shotgun é o Cheeseburger indicado para si. Se não for o caso, mesmo assim ainda tem mais qualquer a dizer do que a desilusão que é Machete :( ![]()
Posted by: dermot @
10:15 AM Sexta-feira, Julho 29, 2011 KATARE KID: Título: The Karate Kid Realizador: Harald Zwart Ano: 2010 ![]() Andava aqui tão absorto nas minhas cosinhas que nem me apercebi que já tinham encontrado a cura para o cancro e a sida, já tinham irradiado a fome do planeta e já tinha sido alcançada a paz mundial. Sim, só pode ter sido isso que aconteceu. De outra forma como é que se pode entender a existência de The Karate Kid, um remake de Momento Da Verdade, em 2011? Ou foi isso ou foi um tipo caprichoso e com dinheiro a mais e ideias para o gastar a menos. E se foi a segunda hipótese - pelo menos é a mais provável, admitamos -, de certeza que foi um chinês, uma vez que The Karate Kid transporta a história de Momento Da Verdade para a China. Dre (Jaden Smith) e a sua mãe mudam-se para a capital chinesa, enfrentando o choque cultural e a inadaptação nata de um afro-americano na China. Que exótico e inovador... Contudo, este conflito cultural é apenas ao de leve, numa espécie de Lost In Translation - O Amor É Um Lugar Estranho versão Disney, onde tudo é fofo e querido. Além disso, isso acontece porque o mais importante é fazer publicidade à China que, nesta sua nova estratégia de abertura ao exterior, assumindo o seu papel de potência emergente, encontrou em The Karate Kid uma excelente forma de fazer propaganda. O filme é uma manobra de charme panfletária, que serve meia-dúzia de cartões de visita, preocupado acima de tudo em passar a ideia de que, na China, "não são só coisas velhas". Depois, o resto desenrola-se aqui à volta. A história toda a gente conhece: um jovem, novo na cidade e vítima de bullyng por parte do rufia do pedaço, conhece um velho mestre de artes-marciais que vai arranjar tempo entre o jogo de dominó no parque a visita ao centro de dia para lhe engomarem a roupa, para o ensinar na nobre arte do kung fu e dar uma lição ao gandim. Os anos 80 fizeram-no como ninguém - aliás, Jean-Claude Van Damme construiu uma carreira inteira à conta deste flick -, por isso não se esperava que The Karate Kid viesse tirar nabos da púcara. Bastava-lhe actualizar a história aos nossos dias. Mas não, tinham que baixar o target e passar dos jovens adultos para miúdos com 10 anos. E pôr Jackie Chan (não é Pat Morita, mas tem carisma também) a guerrear com crianças não é ridículo, é embaraçoso. Além disso, The Karate Kid ainda arrasa com qualquer réstia de realismo, ao colocar um puto que, do zero, é transformado em mestre de artes marciais em poucos dias, apenas despindo e vestindo um casaco (literalmente, juro!). The Karate Kid é sempre demasiado polido, cor-de-rosa e feliz, como se O Momento Da Verdade tivesse levado um tratamento (ainda maior de) filme de domingo à tarde. Apenas as coreografias finais, que inesperadamente não foram editadas por um epiléptico com Parkinson, como agora é moda corrente, valem uns pontinhos para comer qualquer coisa consistente, tipo um Happy Meal. ![]()
Posted by: dermot @
10:11 AM Terça-feira, Julho 26, 2011 PRESENTE DE MORTE: Título: The Box Realizador: Richard Kelly Ano: 2009 ![]() Quando um realizador vem lançar um director’s cut, todo armado em mangas de algodâncio, e depois o resultado é pior do que o trabalho inicial, então para mim a solução é só uma: irrelevância total. Eu já não tinha gostado propriamente de Donnie Darko, filme altamente sobrevalorizado sobre viagens no tempo, mas depois de ver na versão do realizador o que ele realmente queria fazer, colei-lhe definitivamente o rótulo de flop. E logo eu, que um um tipo que julgo as pessoas com uma levianidade desgraçada. No entanto, decidi dar-lhe uma chance com o seu mais recente Presente De Morte (mais uma ridícula tradução portuguesa, teimando no título super-descritivo em oposição à concisão do original), ou não fosse este uma variação de um fos mais memoráveis episódios daquela instituição sci-fi que é Quinta Dimensão: Button Button, a história de um casal que recebe uma caixa com um botão e uma proposta, simples mas perturbadora – se carregarem no botão recebem uma pipa uma pipa de massa, mas em contrapartida morrerá, aleatoriamente, uma pessoa no mundo. Era isto que fazia Quinta Dimensão ser uma série mágica, Não precisava de efeitos especiais para ser um clássico da ficção científica; apenas boas ideias e uma amplitude intelectual, de utilizar o universo fantástico para pôr o espectador a pensar, em situações hipotéticas ou em complexas metáforas. A ideia de Button Button – e, consequentemente, de Presente De Morte – é precisamente essa. Aproveitar as possibilidades do fantástico ara construir um thriller psicológico sobre decisões difíceis, que coloca algumas questões interessantes: poderemos viver com a morte de alguém na nossa consciência, mesmo que não saibamos quem era? O que os olhos não vêem o coração não sentirá mesmo? E o dinheiro justifica mesmo qualquer coisa? Richard Kelly tenta abrir o livro do livre arbítrio e aprofunda ainda mais o tema, mas Presente De Morte não necessitava de ligar o complicador, uma vez que a premissa já era suficientemente apelativa. Mas aqui há uns tempos também havia um filme que colocava um dilema existencial tramado e depois não levava a lado nenhum. Em Proposta Indecente, um casal com problemas financeiros recebia uma proposta financeira irrecusável a troco de uma noite de sexo sem com promisso com a parte feminina. O que pesaria mais na balança? A emancipação económica ou o orgulho próprio? Nunca ficamos a saber porque não aguentávamos o filme até ao fim, com tanto encher de chouriços. O mesmo acontece a Presente De Morte, mas aqui não é por desfalacermos de sono, é mesmo por não entendermos patavina. Presente De Morte é como Donnie Darko: ficção científica ao relantim, com um formalismo milimétrico que, inevitavelmente, grita por Kubrick, mas com menos ritmo. Cameron Diaz (que continuam a envelhecer muito mal) confunde, ainda por cima, underacting com cara de bolacha maria e uma prestação anémica. Mas Presente De Morte até nem começa mal, pelo menos enquanto lança a trama. Porém, vemos que algo de estranho se passa quando um aluno, em pleano aula, diz à professora Cameron Diaz para se descalçar porque a viu a mancar e esta acede, revelando um pé com dedos amputados e ficando humilhada para todo o sempre. Hum? O que foi mesmo que acabámos de ver? Assim, depois de colocados os trunfos na mesa – sempre em ritmo reflexivo, às vezes até em demasia –, Kelly parece ter dificuldade em preencher os buracos da história. Por isso, recorre à muleya Lynch, ou seja, ser esquisito. E por vezes de forma aleatória. Chegamos então ao fim e já muita coisa está a fazer sentido. Além disso, Richard Kelly ainda nos dá um pontapé no meio dos olhos, sublinhando a grosso que é melhor suicidar-nos do que ficarmos surdo-mudos. Como disse? Disse Cheeseburger. Aaah! ![]() Sábado, Julho 23, 2011 A ÁRVORE DA VIDA: Título: The Tree Of Life Realizador: Terrence Malick Ano: 2011 ![]() Seis filmes em 40 anos de carreira, com um hiato de 20 pelo meio. Apesar dos números pouco impressionáveis, Terence Malick é um dos mestres mais venerados da sétima arte e, o mais espantoso ainda, um dos mais consensuais. Basta olhar para o seu palmarés que, em curtos seis filmes, acumula inúmeras nomeações aos Oscares, um Urso de Ouro e uma Palma de Ouro. A questão que se coloca é: será Malick assim tão bom ou tem um grande director de marketing (leia-se grande táctica de marketing, que inclui um retiro de reclusão com mais de vinte anos sem ser fotografado ou dar entrevistas)? Depois de se ter debruçado sobre o nascimento do novo mundo, a sua América natal, na revisitação do romance entre John S mith e Pocahontas, Terence Malick terminou agora um projecto que já se arrastava desde os anos 70 – A Árvore Da Vida é uma reflexão sobre a origem da vida e do Mundo, segundo uma abordagem mais criacionista. O filme tem sido amiúde comparado a 2001: Odisseia No Espaço, pelo seu carácter longamente reflexivo e narrativamente desconstruído; mas a mim faz-me especialmente espécie não surgurem mais comparações com aquele monumento de cinema que é O Último Capítulo, outra reflexão sobre as origens da vida, que até tem uma abordagem mais ou menos simbólica da yggdrasil, a árvore da vida. A Árvore Da Vida é uma espécie de saga familiar ao longo de várias décadas. Brad Pitt é o patriarca austero de uma típica família do interior norte-americano, numa recriação de época irrepreensível (incluindo a luz, que por vezes se aproxima daquele monumento que é Dias Do Paraíso). Pitt contrasta com a ingénua, luminosa e submissa Jessica Chastain, na educação de três filhos varões, onde se destaca a estreia segura de Hunter McCraken. Com um amplo arco narrativo, acompanhamos o crescimento e aquele ritual de transição que o cinema americano tanto gosta de McCraken, até crescer e se tornar no Sean Penn, que praticamente não tem falas no filme. Malick é conhecido por não ter contemplações para com os seus actores: se entender que uma sequência não planeada de uma andorinha a nidificar implica cortar a participação de um actor qualquer, seja ele quem for, Malick não tem qualquer problema em o fazer. Por isso é que é também tão adorado pelos cinéfilos. Ao não fazer concessões perante o seu idealismo romântico e poético, Malick ficará para sempre como o movie brat incorrigível. Filmado em longos plano-sequência, que se imiscuem entre os actores, e com uma fotografia cuidada que vale qualquer Oscar da especialidade, A Árvore Da Vida não se furta a um prólogo e a um epílogoa la Malick. Significa isso que, no início e no final do flme, envereda-se por longas sequências introspectivas, em que o símbolo é mais importante que o verbo. E se o epílogo se limita a desconstruir a narrativa, o prólogo é altamente dispensável, não pelo agregado de imagens naturalistas altamente superiores – e que poderiam ser uma sequela não-oficial de Baraka -, mas por terminarem com uma ridícula sequência em (mau) cgi, com dinossauros(!). Terence Malick é mesmo um cineasta acima da média, mas não é assim tão iluminado para que se tenha que venerar qualquer filme seu de olhos fechados. A Árvore Da Vida deve ser um filme a ver antes de morrer por qualquer pessoa de bem, mas Malick já fez bem melhor que este McBacon. ![]()
Posted by: dermot @
10:13 AM Segunda-feira, Julho 18, 2011 BIUTIFUL: Título: Biutiful Realizador: Alejandro González Iñárritu Ano: 2010 ![]() Foi estranho não lhe terem chamado nova vaga do cinema mexicano quando, aqui há uns anitos, surgiram meia-dúzia de tipos do México a fazerem filmes de qualidade. Alejandro González Iñarritu, a meias com o argumentista Guillermo Arriaga, foram dos que mais se destacaram, devido a dois filmes bastante jeitosos: Amor Cão e 21 Gramas. Depois completaram a trilogia com Babel, novamente em filme-mosaico e novamente sob as temáticas da incomunicabilidade em redor de personagens em situações de miséria extrema (sentimental e/ou física), mas aí a coisa já não convenceu tanto. Entretanto, Iñarritu e Arriaga desentenderam-se. Aparentemente, o argumentista entendia que o sucesso do realizador devia-se, exclusivamente, aos seus dotes natos para escrever histórias em formato mosaico. Chatearam-se, separaram-se e seguiram caminhos separados. Enquanto Arriaga já escreveu um filmalhaço (olá Os Três Enterros De Um Homem) e realizou outro mais ou menos (sempre em formato mosaico, ou não estivesse Arriaga para este formato assim como Shyamalan está para os twists finais), Iñarritu tem estado a preparar esta sua grande produção novamente em língua espanhola: Biutiful. Vemos Biutiful e reconhecemos Iñarritu por todos os lados: as cores esbatidas, a fotografia cuidada, a câmara ao ombro, ora trepidante ora incómoda… Novamente a temática da incomunicabilidade e personagens em sofrimento físico e espiritual. Só lá falta o – adivinhem! – formato mosaico, mas isso já é marca registada de Arriaga. Vemos então Biutiful, duas horas e meia que não maçam, um Javier Bardem com grande dignidade, mas… chegamos ao fim e nada. Nada do que vimos ficou registado e não entedemos bem porquê. No entanto, basta pensar um bocadinho no assunto para chegarmos à conclusão do que o que vimos é apenas uma enorme salgalhada. Para começar, Iñarritu parece coleccionar esteriótipos, já que não há uma personagem em Biutiful que não seja um coitadinho. A Bardem já não bastava ser um pelintra pai solteiro de duas crianças, que se move no underground de Barcelona, negociando falsificações com os chineses e vendendo-as aos guineenses, como ainda tem cancro na próstata, mata acidentalmente duas dezenas de chineses (porque não sabem desligar um aquecedor ou abrir uma janela), tem uma (ex)mulher bipolar e puta e um irmão que o encorna. Ah, e é medium(!), tendo como hobby(!!) ajudar as almas de criancinhas mortas a encontrar o caminho para o céu. Como se isto não bastasse, os chefes dos chineses que negoceiam com ele são gays reprimidos. Com alguns anões na história e Biutiful seria imparável em bizarria, aleatoriedade e esteriótipos à Teresa Villaverde. Numa dicotomia constante de valores (o moral e o imoral, a culpa e o remorso, o amor e a solidão), Biutiful arrasta-se por esta colecção de miséria humana com pesada solenidade, sem que nada de especial aconteça. Bardem quer morrer em paz, mas a vida nem isso o deixa. Mas aparte de tanto sofrimento, não acontece nada realmente capaz de fazer valer o filme. E, decididamente, não são os fantasmas que Bardem vê nos seus tempos livres e que nos ensinam que, quando alguém morre, a sua alminha põe-se em pé em cima do armário mais perto. Há uns tempos lembro-me de ver na net um tipo que vendeu no ebay uma caixa cheia de nada (e ainda ofereceu a caixa). Biutiful é essa caixa cheia de nada; é bonita, agradável e simpática, mas lá dentro não tem nada. Mentirinha, tem um Double Cheeseburger. Mas que não sabe praticamente a nada. ![]()
Posted by: dermot @
12:40 PM Sábado, Julho 16, 2011 SECONDS APART: Título: Seconds Apart Realizador: Antonio Negret Ano: 2011 ![]() Por vezes ponho-me a fazer contas à vida e chego à conclusão que, para conseguir ver os filmes todos que gostaria de ver antes de morrer, teria que ver para aí dois por dia. Claro que ter tempo para ver dois filmes diariamente implica não trabalhar ou, pelo menos, não ter vida social. E, mesmo assim, se calhar o tempo não chegava. Por isso, perante este cenário, interrogo-me por que é que insisto em ver filmes piores do que cuspir na sopa, títulos que cheiram mal à distância, mas que mesmo assim decido dar-lhes uma oportunidade, na tímida esperança de encontrar uma qualquer obra-prima escondida. Mas para que raio preciso de encontrar uma obra-prima escondida, se já existem tantas já descobertas que ainda não vi? Enfim, a mente humana tem desígnios que a racionalidade desconhece. E, por isso, por mais filmes com provas dadas no mundo da sétima arte que eu queira ver, irei sempre dar oportunidade a parvoíces como Seconds Apart. Não sei o que me chamou a atenção para este thriller sobrenatural, com queda para o terror, com dois irmãos gémeos emos, mas desde que a Sofia Alves se especializou no tema, nas telenovelas da TVI, que fiquei com um fascínico recalcado qualquer com gémeos. Existe uma tendência junto dos jovens cineastas que parece defender que um thriller só é bom se for muito confuso. Quanto mais enleado, mais descabido e mais mindfuck for, melhor. Eu acho que isso começou com o sucesso desonesto de Efeito Borboleta, mas se calhar é só a minha má língua a falar… O que é certo é que continuamos a ver milhentos thrillers sobrenaturais que não fazem sentido nenhum, de tão forçados ou irrealistas que são. Vejamos Seconds Apart: dois irmãos gémeos, nascidos por indução de drogas experimentais, que têm poderes de hipnotismo, telecinesia e controle da mente, e que se divertem a forçar os seus colegas de escola a suicidarem-se de formas macabras para verem se extrair algum sentimento daquelas experiências. Com uma edição desastrosa, Antonio Negret tenta parir daqui um mindblowing movie, com alguns toques de classe de horror gráfico, mas toda a gente sabe que colocar umas tipas com pele a mais à mostra para a coisa ser mais eficaz. Com uma trama espertalhona, recheada de elementos que ficamos sempre à espera de saber para que servem e que, afinal, não servem para coisa nenhuma – um dos gémeos é diabético e de meia em meia hora tem que se injectar ou uma colega da escola tem umas alucinações com um velho desfigurado que nunca sabemos quem é nem porquê –, e uma mão cheia de más decisões – ora que coisa, então na cena imeadiatamente a seguir aos irmãos combinarem que vão manter low profile para ninguém desconfiar de nada, acabam por induzir o reitor da escola a suicidar-se com requintes de malvadez, apenas para ele revelar quem os denunciou… Mas então para que serviam os poderes de hipnotismo? – fazem deste Seconds Apart uma trapalhice sem muito por onde se pegue. O que acaba por justificar que se fale, ao menos, de Seconds Apart, é a presença de Orlando Jones, na pele do polícia que tenta desvendar o caso, mas que tem que se preocupar de igual forma com o trauma da esposa morta num incêncio. Orlando Jones passa o filme suficientemente atormentado para que acreditemos que todo esse enfado se deve ao facto de ter que estar a aturar fazer Seconds Apart. Vale um Happy Meal, mas com um brinquedo repetido. ![]() Quinta-feira, Julho 14, 2011 INDOMÁVEL: Título: True Grit Realizador: Joel & Ethan Coen Ano: 2010 ![]() Os irmãos Coen já tinham andado a vasculhar no faroeste americano, mas Irmão, Onde Estás? não era propriamente um western. Por isso, os manos decidiram suprir essa lacuna, imperdoável no repertório de quem tem andado a construir carreira reciclando os géneros clássicos da sétima arte norte-americana – o noir de O Barbeiro e o neo-noir de Sangue Por Sangue, o thriller de Fargo ou a comédia suburbana de O Quinteto Da Morte –, refazendo um western fundamental da história das caubóiadas: Indomável, o remake de A Velha Raposa, filme que valeu o único Oscar da carreira daquele monumento que foi John Wayne. Metade de Indomável é Hailee Steinfeld, a menina-prodígio revelação de 2010 (e, se isto continuar assim, de 2011 também), uma criança de 14 anos com lábia e desenrascada qb que, para vingar a morte do pai, contrata o caubói mais temido do faroeste para capturar o assassino. E esse caçador de recompensas de pala no olho à la Snake Plissken é a outra metade do filme: Jeff Bridges, a misturar a sua própria persona com a personagem, num overacting cheio de estilo, que pela net a fora tem valido a descrição de the dude meets the duke, referindo-se a O Grande Lebowski e a John Wayne himself. Mas Indomável é ainda um terço de Matt Damon, na pele de um caubói texano cheio de pinta, a contrastar com o vagabundo de Jeff Bridges, e que, para piorar ainda mais a sua credibilidade, leva um tareão que lhe deixa a língua trilhada – e, consequentemente, quase imperceptível o que diz. Agora perguntam vocês: desde quando é que um filme pode ter duas metades e mais um terço? Há duas respostas: quando a conta está errada ou quando o filme é acima da média. Neste caso, conseguem fazer ideia de qual é a resposta certa? Os irmãos Coen montam então este western à sua maneira, ou seja, de forma cool e reciclando os moldes clássicos. São como um Tarantino, mas mais bem vestidos. Vão buscar a secura de Sam Peckinpah, mas Indomável não é tão árido; vão buscar a violência dos western spaghettis, mas Indomável não é tão amoral e sensacionalista; e vão buscar os clássicos, de Ford a Howard Hawks, mas Indomável não é tão bidimensional. Indomável é, portanto, um neo-western, mas não é nenhum Clint Eastwood circa Imperdoável ou as novas abordagens mais existencialistas (e duras) de John Hillcoat (olá Escolha Mortal). Os Coen já nos habituaram a entremear trabalhos mais sérios com outros mais descomprometidos. Depois de Um Homem Sério e de Destruir Depois De Ler já estava na altura de outro filmea doer. E Indomável é esse filme: um McBacon. ![]()
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10:10 AM Quinta-feira, Julho 07, 2011 MULHOLLAND DRIVE: Título: Mulholland Dr. Realizador: David Lynch Ano: 2001 ![]() David Lynch andava a ser acusado de ser um tipo esquisito como o caraças, quando fez Uma História Simples, um dos seus filmes mais “normais”. Aclamação da crítica, sucesso do público e nomeações aos Oscares e estavam refeitas as pazes. Então vai daí que Lynch atira-nos Mulholland Drive, a sua maior esquisitice desde Twin Peaks e, automaticamente, elevado a filme de culto por todos aqueles que não o perceberam, mas que têm vergonha de o admitir. Era para ter sido uma série de televisão, mas acabou em longa-metragem. Mulholland Drive é a história de uma aspirante actriz, Betty Elms (Naomi Watts), que se muda da parvalheira para a cidade dos sonhos, Hollywood, em busca do jackpot no mundo da representação. No entanto, o que encontra antes é um mistério que envolve Rita (Laura Harring), uma tipa que teve um acidente de viação e que não se lembra do seu passado. Uma elegia a Hollywood, recuperando o glamour da época dourada e um je ne se quoi de divas decadentes à la Crepúsculo Dos Deuses (Sunset Boulevard e Mulholland Drive, percebem a referência?). Esta é a sinopse possível de Mulholland Drive porque, como se sabe, em Lynch as coisas são sempre muito mais além do que se afiguram. Para já porque os seus filmes não se limitam ao género. Basta olhar como Mulholland Drive é todo ele Douglas Sirk, um pastiche de melodrama suburbano ambientado de mistério policial amnésico, que Hitchcock ou De Palma não desdenharia. No entanto, tal como a trama, o próprio filme também não é linear e, por vezes, o simbólico acaba por ser um campo de acção mais interventivo que a própria realidade. David Lynch já deu umas pistas para se entender Mulholland Drive, mas um dos aspectos mais valiosos do filme é que, cada um, pode fazer a sua própria interpretação. Por vezes, podemos não estar a pereber patavina da cena, mas nunca perdemos a sensação de que o que estamos a ver é importante. E não, isto não é pseudo-intelectualismo pedante. É antes um cinema que, mais do que narrativa convencional, por vezes limita o espectador às sensações mais básicas do ver e ouvir. Se bem que depois é bem divertido encaixar as peças do puzzle. É certo que em Mulholland Drive, Lynch recicla algumas das suas ideias anteriores e junta-as a outras que voltaria a repisar nos seus trabalhos posteriores. Encontramos aqui marcas suas, como a abordagem da temática do duplo (olá Estrada Perdida), as personagens bizarras ou situações mais ou menos caricatas. Angelo Badalamenti volta a assinar a partitura musical e, como sabemos, é o homem ideal para ambientar as trips mentais de Lynch. No entanto, mesmo para quem prefere um filme com um princípio, meio e fim assumidos, ou para todos aqueles para quem velhinhos pequeninos a saírem de uma caixa azul que cai das mãos de um mendigo que povoa os pesadelos de uma personagem incógnita não são propriamente uma boa ideia, Mulholland Drive acaba por ser um filme a ver, ou não tivesse Naomi Watts e Laura Harring em cenas lésbicas softcore. Mulholland Drive é um dos melhores McRoyal Deluxes de David Lynch e, se sentiu necessidade de ir procurar à net um daqueles sites que explica cena a cena o sentido do filme, é porque não gostou dele realmente. ![]() Quarta-feira, Julho 06, 2011 A RAÍZ DO MEDO: Título: Primal Fear Realizador: Gregory Hoblit Ano: 1996 ![]() Por vezes temos o privilégio de ver nascer uma estrela in loco. É raro, não acontece muitas vezes e é um fenómeno que está sobretudo dependente da sorte. Em 1993, tivemos a felicidade de assistir a uma dessas ocasiões: em A Raíz Do Medo, nascia Edward Norton. Na altura, para um cinéfilo novato como eu (mas já bastante imodesto, claro), o impacto foi forte. Foi como se a sala de cinema fosse uma tipa a parir e o Richard Gere a parteira. A Raíz Do Medo tinha tudo para ser mais uma mera nota de rodapé na história do cinema, mas Edward Norton fez questão de alterar isso. Com a sua cara de anjo e uma gaguez adorável, mas com uma personalidade com mau feitio, Norton lançava aqui uma carreira que se afigurava brilhante, ainda para mais porque logo a seguir vieram mais um par de filmes de craveira, como Clube De Combate ou América Proibida. No entanto, nos últimos tempos, o actor norte-americano só tem feito merdum e, verdade seja dita, o seu nome num cartaz dum filme já não empolga por aí além. Mas vamos a A Raíz Do Medo: Gere é um advogado sem comparação naquilo que faz, ou seja, em defender casos aparentemente indefensáveis. A única coisa mais parecido com um rival que tem é uma advogada que, apenas por acaso, é uma ex-namorada (Laura Linney) que trabalha como advogada de acusação no Ministério Público. Por isso, quando um jovem acólito (Edward Norton) é acusado de chachinar o padre local, Gere vê no caso uma excelente oportunidade profissional e uma óptima ocasião de aparecer diariamente na televisão. Portanto, A Raíz Do Medo tem tudo para ser um drama de tribunal convencional: um jovem comete um crime do qual, ao que tudo indica, é culpado; é pelintra demais para contratar um advogado; mas há um suficientemente decente para aceitar o seu caso e defendê-lo de graça. Contudo, A Raíz Do Medo é mais do que aparenta. Principalmente por causa da reviravolta final, que, apesar de todas as cambalhotas que o argumento vai tendo, ainda tem força suficiente para ganhar o filme e figurar em qualquer lista dos melhores twists da história do cinema. Mas também por causa de Edward Norton, claro, e de um Richard Gere mais empenhado do que simplesmente andar a bambolear os seus caracóis grisalhos. Gregory Hoblit que, juntamente com o também subvalorizado A Queda, fez dois filmes excelentes e depois desapareceu no meio de uma remessa de títulos medíocres, ecoa ainda em A Raíz Do Medo fantasmas de um film noir que chega aos nossos tempos por caminhos transviados: o herói amoral e com esqueletos no armário. Daí também o título algo críptico: qual o medo primário de um advogado? Não será o de saber que a causa que defende é errada? Uma metaquestão que faria Humphrey Bogart consumir-se em cigarros. No entanto, mesmo que não houvessem todas estas boas razões, A Raíz Do Medo teria sempre que ser um filme que agradaria a qualquer português, ou não fizesse ele mais pela divulgação da música nacional lá fora que qualquer embaixador de bigode. Dulce Pontes não só aparece na banda-sonora, como as personagens aproveitam para dialogar sobre quão boa é a música que se ouve e mostrar a capa do disco. Só é pena passar a ideia que Dulce Pontes é hispânica. Mas pronto, não se pode ter tudo, música portuguesa num McRoyal Deluxe de Hollywood já é mais que bom. ![]()
Posted by: dermot @
11:50 AM |
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