Título: Howl Realizador: Rob Epstein & Jeffrey Friedman Ano: 2010
Enquanto James Franco andava a vestir-se de mulher para a capa de uma revista espanhola de drag queens, nos Estados Unidos estreavam dois filmes consigo como protagonista. 127 Horas, o novo do Danny Boyle, chega cá em Fevereiro, e Howl, provavelmente, só irá ver o mercado português de cima de uma prateleira de uma loja FNAC.
Howl é um biopic pouco convencional (experimental?) sobre Allen Ginsberg, partindo da sua obra-prima iHowl/i. Ginsberg, aqui interpretado com método por James Franco, foi um dos poetas mais importantes da geração beat (juntamente com Jack Kerouac ou William Burrough), conjunto de autores norte-americanos que marcaram o final dos anos 50, inspiraram os hippies e o flower-power e lançaram a contra-cultura em terras do Tio Sam, apoiados numa literatura e numa filosofia de vida de boémia, hedonismo, não conformidade e espontaneidade. E Howl foi um desses altares, um poema em três partes, com um ritmo frenético, uma linguagem informal e uma criatividade sem papas na língua.
Howl é construído em quatro níveis. O primeiro, filmado a preto e branco, acompanha a mítica noite no Six Gallery Reading, em que Ginsberg leu o seu poema em público pela primeira vez, naquela que foi a primeira grande manifestação pública da geração beat; o segundo, filmado a cores, reencena as entrevistas feitas a Ginsberg, em que ele fala da sua obra e da sua vida, em flashbacks igualmente a preto e branco em que Franco faz as mesmas poses de fotos célebres de Ginsberg; o terceiro não inclui Ginsberg em pessoa, mas recria o julgamento que levou o seu editor, Lawrence Ferlinghetti (Andrew Rogers), a responder pela acusação de vender obscenidades, acção judicial que viria a ser um importante contributo para a liberização da literatura norte-americana; e, por fim, o quarto nível, interpreta as palavras do poema Howl numa animação parecida com A Valsa Com Bashir, mas em pior.
Esta justaposição de diferentes naturezas cineatográficas, fazem de Howl uma experiência arty, que tenta abordar a vida e a obra de Allen Ginsberg, tanto a um nivel físico como espiritual (psicológico?). Infelizmente, estes quatro níveis expressivos nunca chegam a se misturarem entre si, ficando ali bem estruturados como diferentes camadas num bolo em que os sabores se distinguem isoladamente e nunca se chegam a misturar.
No entanto, o principal problema de Howl é te jazz a menos. O jazz, mais ainda que a benzedrina, foi fundamental para a geração beat, não só como banda-sonora das suas noites de boémia, mas na própria forma e estrutura da sua literatura. Os seus autores defendiam um ritmo desenfreado e sem pausas, como a respiração, em versos longos de perder o fôlego, e às vezes até como onomatopeias, claramente inspirados pelo jazz que proliferava paralelamente pelos clubes nocturnos. É o tal ritmo jazzístico que normalmente se fala quando se tenta descrever as obras da geração beat. ortanto, é por tudo isto que falta mais jazz a Howl.
Assim, Howl funciona apenas na sua última instância, que é a de apresentar a geração beat, Howl e, especialmente, Allen Ginsberg, e abordar de forma livre o seu poema máximo. É apenas um Double Cheeseburger, mas mesmo assim é melhor que Um Bater De Corações.
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9:15 PM |
Publicado originalmente na HD Magazine
SEM LIMITES:
Titulo: Limitless Realizador: Neil Burger Ano: 2011
Eles são anonas que curam o cancro, drogados que vão ao cinema e que depois deixam as seringas nos bancos da sala para infectar as pessoas só por maldade ou dezenas de tipos que acordaram numa banheira cheia de gelo e sem um rim, depois de uma noite de copos. Ao todo, são centenas de histórias que se difundem diariamente pelas caixas de e-mail, mentiras que, por serem repetidas ate à exaustão, se tornam verdades. E as pessoas, como não se dão ao trabalho de confirmarem as historias (fieis à máxima se está na Internet é porque é verdade), acabam por acreditar nas coisas mais absurdas, contribuindo para o seu proliferar.
Em Sem Limites, Neil Burger vai buscar um desses mitos urbanos usualmente difundidos na Internet, o de que o ser humano apenas usa 20 por cento do seu cérebro, e coloca a questão: o que aconteceria se utilizássemos os 100 por cento? Na vida real aconteceria exactamente o que está acontecendo agora, mas como é ficção, Bradley Cooper torna-se uma pessoa mais concentrada, habilidosa e focada. Cooper é um escritor falhado, com uma crise de criatividade e a vida prestes a afundar-se, que, ao experimentar uma nova droga sintética, alcança um novo nível de percepção perante o mundo que lhe permite passar de um tipo ordinário para um dos maiores milionários à face da Terra em poucos dias.
O problema é que, como já nos dizia o Homem-Aranha, com grandes poderes vêem grandes responsabilidades. E invejas. Por isso, Cooper vai-se envolvendo paralelamente com agiotas russos, homicídios misteriosos, perseguições violentas e negócios corruptos, fazendo da sua vida um misto de excitação e preocupação. Sem Limites é uma versão mais clean do subvalorizado Crank – Veneno No Sangue, se bem que Burger monta este thriller urbano com um nervoso miudinho. No entanto, os motion graphics que vão aparecendo timidamente na primeira parte do filme – fazendo lembrar o recente Scott Pilgrim Contra o Mundo – rapidamente desaparecem sem deixar rasto.
Sem Limites nunca se leva a sério, com uma abordagem descontraída e humorada da história, e isso ajuda a conseguirmos acreditar no argumento, demasiado frágil, cheio de buracos como um queijo suíço e baseado, sobretudo, em coincidências. Basta ver como Cooper se cruza, inesperadamente, com o seu ex-cunhado, após setes anos sem o ver, e depois de um “então pá, tudo bem, que andas a fazer?”, ele lhe oferece uma droga experimental secreta sem mais nem menos. Thriller do gato e do rato mas, sobretudo, de decisão e consequência, Sem Limites é entretenimento garantido para hora e meia e que, depois, se desvanece automaticamente das nossas mentes, ainda antes de fazermos a digestão do Cheeseburger.
A explosão de graphic novels nos últimos anos tem sido um filão aproveitado exaustivamente por Hollywood. E, como em outros casos, a indústria cinematográfica norte-americana irá suga-lo até ao tutano. Assim, Thor é o novo herói do universo Marvel a chegar a Hollywood.
Os graphic novels são mais do que simples banda-desenhada. São romances em formato de quadradinhos, mais maduros e para um público mais exigente. E são as adaptações do Batman "negro" de Frank Miller ou dos heróis atormentados de Alan Moore que têm justificado as adaptações de Hollywood, fazendo eco com a estrutura clássica do film noir americano. Contudo, Thor não alinha propriamente posso esse diapasão, apostando antes do típico filme de super-heróis action driven. Se bem que a história de Thor até tem um certo pendor metafísico que poderia justificar outro tipo de abordagem, já que o Deus do Trovão tem algo de crístico.
Não é que haja algo de mal com o filme de super-heróis de acção, mais focado no entretenimento visual. Basta olhar para a adaptação de Homem-de-Ferro. O problema é que ter Robert Downey Jr. é uma coisa e ter Chris Hemsworth é outra. Independentemente do seu talento - e dos secundários notáveis (Anthony Hopkins e Natalie Portman) -, Hemsworth não tem o carisma suficiente para arcar com o filme por si só.
Baseado livremente na mitologia nórdica, Thor é um herói da Marvel renegado para a Terra pelo seu pai, Odin (Hopkins), Pai de todos os deuses do reino de Asgard, para aprender a deixar de ser insolente, desrespeitador e bronco. Com a ajuda do seu sagrado martelo, Mjolnir, Thor vai salvar a Terra e os outros oito reinos que formam a árvore de Yggdrasil dos planos maquiavélicos do seu meio-irmão, Loki (Tom Hiddleston), e ter tempo ainda para arrebatar o coração da bela cientista Jane Foster (Portman).
Talvez ciente do irrealismo de cruzar dois universos tão distintos - o da Terra e o da mitológica (e cósmica) Asgard -, o realizador Kenneth Branagah afastou-se dde qualquer tentativa artística e optou por um estilo mais musculado, onde não falta um toque de humor. Por isso, Thor não deixa de lembrar Os Visitantes (ou mesmo *arrepio* He-Man), nas cenas em que os deuses visitam a Terra pela primeira vez, quais turistas alienados.
Aproveitando na perfeição o CGI para esgalhar épicas sequências de batalha, Thor falha apenas no argumento demasiado esquemático que, por vezes, se limita a avançar entre cenas de acção cada vez mais grandiosas de uma forma automática. Para começar o que se pretende que seja uma série de sucesso, um Double Cheeseburger não é propriamente a melhor forma.
PS - depois dos créditos finais, Thor tem ainda como extra uma cena escondida que, juntamente com a de O Incrível Hulk, Homem-de-Ferro e a que estará, eventualmente, em Capitão América: O Primeiro Vingador, formam o prólogo do filme de Os Vingadores que está para vir. Fica mais uma pista dada, numa aventura que vai ter Samuel L. Jackson a escurecer a personagem de Nick Fury e Loki como vilão principal.
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5:59 AM |
Domingo, Junho 12, 2011
COMPLEXO - UNIVERSO PARALELO:
Durante três anos, dois irmãos portugueses, Mário e Pedro Patrocínio, contactaram de perto com o Complexo do Alemão, o maior aglomerado de favelas do Rio de Janeiro e um dos sítios mais perigosos de todo o Brasil. Complexo - Universo Paralelo é o documentário que resultou desse acompanhar do quotidiano da favela brasileira e onde descobrimos aquilo que realmente interessa: como é que os dois manos conseguiram que não lhes roubassem a câmara.
Ultimamente estamos habituados ao realismo de favela no cinema, vendo-a através de cores vibrantes, ao som dos novos ritmos urbanos miscigenados e com muita trepidação de câmara. Mas o que interessou realmente a Mário e Pedro Patrocínio foi captar o dia-a-dia do Complexo do Alemão, fazendo um retrato realista das pessoas que lá vivem e que, afinal, são seres humanos tão normais quanto nós. Assim, seguiram e entrevistaram quatro residentes do complexo, tão diferentes entre si e personalidades tão vincadas que se tornam quase estereótipos: a dona de casa fervorosa em Jesus, o rapper e respectivo bling bling, o senhor altruísta e trabalhador que toma conta da comunidade e, claro, um traficante devidamente com a cara censurada como as vítimas da Casa Pia.
Três anos no Complexo do Alemão, privando com aquelas pessoas, permitiu que aos dois portugueses estabelecer um nível de confiança suficiente para que as entrevistas recolhidas sejam suficientemente pessoais, honestas e sinceras para fazer uma fotografia impressionista do que é o ordinário naquelas favelas, contrariando a ideia de que é só tiros, tráfico e o BOPE em missões especiais. Claro que também temos essa parte, principalmente através dos comentários do tal traficante (que acabaria morto na mega-operação policial que limpou o Complexo do Alemão há pouco tempo), mas exceptuando a dona Célia - quatro filhos, um deles deficiente, um marido parasita constantemente no sofá, várias vezes à porta da morte devido à fome e, mesmo assim, uma fé em Deus e na vida de fazer inveja - todas as histórias são meio boçais, basta olhar para o aborrecido MC Playboy, cujo pouco tempo de antena é exponencial ao nível de interesse da sua conversa.
Mário e Pedro Patrocínio colam as cenas com bonitos planos subjectivos da favela, o que também contribui um pouco para o ar de reportagem televisiva de mérito. Sem colocar em causa as nobres intenções dos manos portugueses, Complexo - Universo Paralelo chateia porque, após três anos na favela, tinham obrigação de conseguirem mergulhar mais a fundo na vida daquelas pessoas. Mesmo assim, Complexo - Universo Paralelo é um McBacon que se vê devora muito facilmente.
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5:36 PM |
Quarta-feira, Junho 08, 2011
A MINHA BELA LAVANDARIA:
Há pouco tempo atrás, numa das suas crónicas habituais no suplemento Ipsilon, António Pinto Ribeiro refutava os recentes e absurdos comentários de Angela Merkel e David Cameron sobre o insucesso do multiculturalismo, dando como exemplo o filme de 1985, A Minha Bela Lavandaria. Foi uma forma pouco ortodoxa de recuperar o filme que deu visibilidade a Stephen Frears, mas não podemos negar que tenha sido eficaz.
A Minha Bela Lavandaria é uma saga familiar de ascensão e queda de uma família de paquistaneses estabelecida em Londres, com Omar (Gordon Warnecke) no papel central. O seu pai, um antigo jornalista influente de Bombaim, tem reservado para si prósperos planos que passam por queimar as pestanas numa universidade, mas Omar acaba por preferir os negócios obscuros do seu tio e torna-se num empresário de sucesso após adquirir uma lavandaria decrepita, remodela-la e contratar o seu antigo amigo de infância e ex-skinhead, Johnny (Daniel Day-Lewis).
Como dá para se perceber, A Minha Bela Lavandaria é um O Padrinho dos pobres, com a Londres de Thatcher como pano de fundo e as políticas da Dama de Ferro ominipresente em todo o arco narrativo. A Minha Bela Lavandaria é um comentário social às suas políticas de integração e ao conflito entre ingleses e a grande comunidade paquistanesa residente em Londres, mas é também uma crónica de costumes a essas próprias famílias, bamboleantes algures entre o conservadorismo do seu Paquistão natal e o novo liberalismo encontrado na Inglaterra.
Podemos estar aqui a escrever linhas e mais linhas sobre esta análise multicultural do filme, mas a verdade é que A Minha Bela Lavandaria haverá de ser sempre, primeiro do que tudo, um filme sobre homossexualidade. É que além de ser paquistanês, ter uma lavandaria e meter-se em negócios obscuros, Omar tem uma relação secreta com o seu amigo Johnny, que além de ser ocidental, é um ex-fascista, o que faz esta relação ser duplamente errada.
Apesar da multiplicidade de temas, Stephen Frears monta em A Minha Bela Lavandaria um forte drama social inglês, que não se perde em enfabulações ou fait-divers, filmando Londres como não se costuma ver: a cores frias de neon, mais perto da Los Angeles de Blade Runner - Perigo Iminente do que da Union Jack very british e vestida de tweed a que estamos habituados. Apesar de um pouco datado (os anos 80 são uma marca difícil de contornar), A Minha Bela Lavandaria continua a ser um filme fora de época, seja pelo trabalho de câmara de Frears, seja por um toque mais artístico aqui e ali, como os genéricos rodopiantes ou os efeitos sonoros de bolhas de sabão a funcionaram como theme-song dos protagonistas quando entram na lavandaria. A Minha Bela Lavandaria é ainda Daniel Day-Lewis a dar uma aula de cinema intensiva a um grupo de actores que, em comparação, parecem rapazotes saídos de Bollywood. Um McBacon com caril, se faz favor.
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3:23 PM |
Segunda-feira, Junho 06, 2011
PINK FLOYD THE WALL:
Em 1980, o baixista dos Pink Floyd, Roger Waters, e o resto da banda, lançavam The Wall, disco conceptual duplo que se tornaria num dos símbolos maiores de uma das maiores bandas da história do rock. Aliado ao disco, a banda trouxe uma digressão com um aparato gigantesco, transformando os concertos de estádio em algo novo e redefinindo os conceitos de espectáculo, entretenimento e de banda de música.
Não satisfeito com tudo isso, Roger Waters quis complementar tudo com uma longa-metragem. E não descansou até o conseguir, num filme igualmente conceptual, sem diálogos e feito quase exclusivamente da música do disco. Pink Floyd The Wall é assim o equivalente visual de The Wall. O resultado, portanto, é um objecto audiovisual que pouco obedece às convenções cinematográficas habituais - uma narrativa objectiva com princípio, meio e fim - e, quando assim é, não costumo terminar estas prosas com a habitual escala qualitativa do Royale With Cheese, mas apenas com um thumbs up ou thumbs down de aprovação.
Para o ajudar nesta demanda, Waters chamou Alan Parker, que já tinha experiência com musicais, depois de Fama. Mas segundo consta, o feitio tirânico e manipulador de Waters (aparentemente é o Terry Gilliam do rock progressivo) fez com que acabasse por tomar controlo da produção, levando Parker a apelida-lo de Satanás. E assim não deixa de ser curioso que Pink Floyd The Wall seja feito por um tipo sem experiência em cinema, protagonizado por um tipo sem experiência em interpretação. Falamos de Bob Geldof, com estranhas semelhanças a Jerry Seinfeld e a lembrar-nos que os Boomtown Rats eram mesmo ruins.
Com uma abordagem vaga e transversal a uma estrela rock afogada na sua própria fama, que se emancipa ao derrubar o muro (simbólico, claro) que o isola do mundo exterior, Pink Floyd The Wall é um misto de imagem real com as animações que já acompanhavam os concertos, de leitura simbólica e tradição psicadélica (não esquecer que os Pink Floyd e, sobretudo, Syd Barrett (antes de cair num caldeirão de LSD e enlouquecer) foram um dos grandes representantes do psych-rock nos anos 60). Muitas vezes, o significado do que estamos a ver não é propriamente claro, mas outras sequências têm tanta força - as crianças numa linha de montagem directas a um passevite ou as convenções fascistas cheias de neonazis eufóricos - que compensam algumas diarreias mentais.
Portanto, Pink Floyd The Wall só poderá receber um thumbs up de aprovação, nem que seja pela possibilidade de ouvir mais uma vez um grande álbum, mas para qual já não temos paciência para o fazer em casa, nos nossos tempos livres.
O filme de super-heróis está tão na moda que tem sido passado a pente fino nestes últimos anos. Dos habituais aventureiros heróicos de matinés domingueiras, os super-heróis passaram a ser introspectivos e atormentados, como se o Lawrence Da Arábia tivesse super-poderes. E agora a coisa já deu a volta e os super-heróis são cada vez mais cidadãos comuns, em que o super-herói é cada vez mais uma condição meramente simbólica.
Super é mais uma destas abordagens pós-modernistas dos super-heróis: Frank D’Arbo (Rainn Wilson) é um miserável espécimen da raça humana masculina, cuja vida é inspirada por apenas dois momentos perfeitos – quando denunciou à policia a direcção para onde tinha fugido um assaltante que havia passado por si a correr; e o casamento com a sua ex-alcoólica esposa, Liv Tyler. Por isso, quando esta o troca pelo traficante local (e pelas suas drogas), um Kevin Bacon em registo fun, D’Arbo decide (depois de já não ter mais lágrimas para chorar, claro) tornar-se num super-herói (shut up, crime é a sua icónica tagline), acabar com o crime e trazer de volta do mundo dos narcóticos a sua apaixonada esposa.
A premissa é semelhante a Kick Ass – O Novo Super-Herói, mas Super é uma versão mais low-budget desse e sem descolar os pés da Terra. Ou seja, D'Arbo é apenas um tipo comum num fato de licra com muito boa-vontade e Ellen Page - que acaba por se tornar na sua parceira-prodígio -, em formato neurótico (e que, apesar de continuar pequenina e fofinha, que apetece levar para casa, acaba por se enfiar num sensual fato de licra e se transformar numa predadora sexual que viola Rainn Wilson), acaba por repetir a mesma dúvida que inicia Kick Ass - O Novo Super-Herói: com tanta gente no Mundo, como é que nunca ninguém se lembrou de se transformar num heróis mascarado?
Num registo humorístico seco e situacional semelhante a The Office, Super é uma comédia inesperadamente negra e mórbida, que entra num registo gore cada vez mais sangrento, ou não fosse James Gunn um ex-trabalhador da fábrica de depravadice que é a Troma. Super é tão politicamente incorrecto que, até para a escola Troma, ficamos convencidos que certas partes são simplesmente erradas. Além disso, Super tem ainda uma estética de livros de quadradinhos, até porque filme de super-heróis sem kabams e kapows nas cenas de luta não é suficientemente credível. Toda esta mistura de elementos aparentemente de famílias diferentes, gore à Peter Jackson e humor negro e inteligente faz de Super um dos melhores McRoyal Deluxes a não ter distribuição comercial em Portugal nos últimos tempos. Agora falta-me ver o Defendor.
Sérgio Trefaut é o mais importante documentarista português, condição alcançada não só pela sua obra (reconhecida em vários festivais pelo mundo fora), mas igualmente pelo seu currículo. E Lisboetas, prémio para melhor filme português no Indie de 2005, é o seu cartão de visita e o catálogo ideal para conhecer o seu trabalho.
Lisboetas é um documentário sobre a nova vaga de emigração que mudou Portugal nos últimos anos - se bem que centrado apenas na capital lisboeta -, proveniente, sobretudo, da Europa de Leste, mas também de África (as ex-colónias não contam para aqui, já que é uma rota de emigração activa desde os anos 60) e de alguns países asiáticos, como a China ou a Índia. Lisboetas dá voz a estas pessoas e dá corpo às comunidades que estamos habituados a ver, mas apenas como pano de fundo, silencioso e quase decorativo da nossa cidade, ajudando a destruir estereótipos. Após Lisboetas, talvez deixemos de ver os ucranianos apenas como os trablhadores do Lidl, os indianos como os qué'frôs ou os chineses como os tipos das novas lojas dos 300.
Com um estilo bastante contemplativo, quase voyeurista, que acompanha essas personagens nas suas próprias vidas, aproximando o seu documentário de uma espécie de cinema-verité, Sérgio Trefaut faz de Lisboetas um statement de todas essas novas comunidades, no seu dia-a-dia, no seu trabalho e, especialmente, na procura de serem absorvidos pelo sistema português. Algumas sequências são particularmente felizes - no SEF, enquanto alguns estrangeiros lutam com a burocracia pela legalização; numa paragem de autocarro em que vários emigrantes esperam por uma oportunidade de trabalho ilegal, com condições miseráveis, que mais parece um mercado de escravos; ou numa aula de português para cidadãos de Leste, bastante espirituosa.
A tentativa de não deixar nenhuma comunidade de fora faz com que Lisboetas se torne algo extenso e, consequentemente, maçador em algumas partes. No entanto, depois de uma sequência mais aborrecida, geralmente surge sempre outra que nos volta a captar a atenção, rematando o filme com o nascimento de um novo cidadão português - se bem que de pais estrangeiros -, que funciona como mensagem simbólica e como prólogo do documentário. E Lisboetas tem ainda um toque de classe: uma voz-off de um programa radiofónico para os emigrantes de Leste, que remete automaticamente para o narrador de Os Selvagens Da Noite. Só pelo bom gosto da referência quase que se justificava o McRoyal Deluxe. A desilusão só mesmo por não descobrirmos o que é que os ucranianos usam dentro daqueles sacos de plástico que carregam sempre consigo...
Posted by: dermot @
9:41 AM |
COTAÇÃO:
10 - Royale With Cheese
9 - Le Big Mac
8 - McRoyal Deluxe
7 - McBacon
6 - McChicken
5 - Double Cheeseburger
4 - Cheeseburger
3 - Caixinha de 500 paus (Happy Meal)
2 - Hamburga de Choco
1 - Pão com Manteiga