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Royale With Cheese | ||
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CRIANÇAS INVISÍVEIS:
Título: All The Invisible Children Realizador: Mehdi Charef, Emir Kusturica, Spike Lee, Kátia Lund, Jordan e Ridley Scott, Stefano Veneruso & John Woo Ano: 2007 ![]() Crianças Invisíveis é um conjunto de curtas- etragens encomendadas pela Unicef a um grupo de realizadores de todas as cores, razoavelmente heterogéneo como a United Colours of Benetton, com o objectivo de angariar fundos. O tema? As crianças. Só foi pena a Tina Turner ter aceite fazer a theme song, uma vez que ia estragando tudo com uma diarreia sonora. Tal como acontece em compilações de música, independentemente dos nobres intuitos que os movem, estes conjuntos acabam por sofrer de uma falta de homogeniedade qualitativa. Mas isto também faz parte, acho eu. E ajuda-me na tarefa de escrever sobre este filme, porque assim posso dizer-vos já para evitarem o segmento de John Woo - que xaropada, meu Deus - e o de Stefano Veneruso. E já não há paciência para o complexo do coitadinho para com a comunidade afro-americana de Spike Lee. Os momentos mais felizes de Crianças Invisíveis são, portanto, o de Emir Kusturica e o de Kátia Lund. O primeiro mantém-se igual a si próprio, com aquele circo felliniano inchado de ciganos, vodka barato do Lidl e música de fanfarra, enquanto que a segundo mergulha no realismo de favela, com um toque de humor e uns pozinhos de experimentalismo pós-modernista. Crianças Invisíveis é uma honrada forma de ajudar as criancinhas desfavorecidas. E um McChicken destes em África dá para almentar uma família de seis durante semana e meia. ![]() Sábado, Maio 28, 2011 SHIRIN: Título: Shirin Realizador: Abbas Kiarostami Ano: 2010 ![]() Em O Fabuloso Destino De Amélie há uma cena em que Audrey Tatou vai ao cinema e põe-se a observar os espectadores. Naquele momento em que Jeunet filma as pessoas sentadas num cinema, a verem um filme, não conseguimos deixar de sentir algum desconforto voyeurista, como se estivesse a olhar para nós. Shirin amplifica esse efeito de espelhos até ao infinito e, exponencialmente, aumenta o nosso desconforto, mas também nos leva a uma nova experiência sensorial. O mestre Abbas Kiarostami sentou 114 mulheres + Juliette Binoche (porquê a actriz francesa? nunca saberemos, mas manobra de marketing parece ser uma resposta inteligente) numa sala de cinema, pô-las a assistir à peça Khosrow and Shirin (clássico da literatura persa, um romance trágico à Romeu e Julieta) e filmou-as em grandes planos fixos e centrados. Vemos então Khosrow and Shirin pelos olhos de terceiros, enquanto ouvimos os diálogos do filme, numa experiência pós-modernista semelhante à de Branca De Neve, de João César Monteiro. Há quem venha a defender que Shirin é uma instalação e não cinema, mas vemos o filme e, ao menos, ficamos com uma certeza: Shirin pertence às salas de cinema. É uma obra para se ver em ecrã grande e em sala escura, até sermos engolidos por aquela experiência. E, quando nos conseguimos abstrair do ruído da vida em redor, somos arrebatados pela torrente de emoções que aqueles rostos femininos despejam sobre nós, comovendo-nos em conjunto. E isto sem dizer que Khosrow and Shirin é um texto belíssimo, que só de ouvir nos deixa ansiosos em o ver também. Shirin ecoa ainda, em silêncio, uma simbologia à condição da mulher. Porque mesmo que tenha sido uma intenção inconsciente de Kiarostami, todos nós sabemos as condições a que aquelas mulheres - e todas as iranianas, em geral - estão sujeitas. E vê-las naquele lugar, em conjuntom tendo como fundo uma história com tudo a ver com essa condição libertatária feminina, soa a mensagem surda. Shirin não obedece às convenções formais que nos habituamos a colocar aos filmes, mas é, sem dúvida, um objecto fílmico de valor acrescentadi, E não deve ser retirado das salas de cinema! Por tudo isto, thumbs up, pois claro. ![]() Quinta-feira, Maio 26, 2011 MY SOUL TO TAKE: Título: My Soul To Take Realizador: Wes Craven Ano: 2010 ![]() Andava eu nas minhas lides pela internet fora quando - surpresa! - encontro um filme novo de Wes Craven. Então, mas desde quando é que Craven, um dos pais do horror contemporâneo, faz filmes que nem sequer têm distribuição comercial em Portugal? Toca então a ir ao clube de vídeo alternativo e perceber o que se passa. Ok, confesso que agora percebo porque é que My Soul To Take passou despercebido. É que o filme não tem ponta por onde se pegar. Wes Craven atingiu um novo fundo (e depois de quatro Gritos pensávamos que isso já não era possível), mas mesmo assim My Soul To Take ainda é pior do que podíamos imaginar. Tento perceber porquê e a única pista que encontro é que este é o único filme de Craven escrito pelo próprio, com excepção de Pesadelo Em Elm Street 5. Depois do franchise de Freddy Krueger e o de Gritos, Craven volta a baixar a idade do seu público-alvo em mais um sklasher teen movie. Desta vez, está direccionado para os pré-adolescentes, fazendo de My Soul To Take uma espécie de episódio da Hannah Montana para o Disney Channel. E, como qualquer programa deste canal, não há qualquer gore, chacina ou membro decepado, apenas um serial killer pouco (nada?) assustador, que esfaqueia as suas vítimas de forma banal. Mas que raio de slasher é este? É como ir a um restaurante de bifes e pedir o prato vegetariano. My Soul To Take não tem uma pinga de cinema. Todo ele é chapa quatro, como se Wes Craven tivesse entregue a realização a um estudante de cinema. Mas mesmo esses conseguem ser mais estimulantes, porque, ao menos, tentam reproduzir ideias que os impressionaram em outros filmes. Mas o que é realmente confrangedor em My Soul To Take é a história e o argumento, de tão aborrecido, lineares e banais que são. Já que decidiu não mostrar sangue, Craven optou por um thriller mindblowing, mas tudo é tão atabalhoado e confuso que ficamos sempre com a impressão que houve partes da história que ficaram esquecidas algures. Tudo isto aliado a uns diálogos dignos dos meninos da APPACDM e a um subenredo liceal que faz os Morangos Com Açúcar parecer o Casablanca deixa-nos desorientados. E o que dizer do prólogo do filme, que nos introduz o serial killer, em que, em 15 minutos, o estripador é baleado e apunhalado mais vezes que o Rasputine e ressuscita(!) sempre para matar gratuitamente mais uns figurantes. My Soul To Take é tão absurdo que nos custa a crer que estamos a falar da mesma pessoa que fez The Last House On The Left ou Os Olhos Da Montanha. Parece que Wes Craven está tão chéché que já ninguém tem coragem de o contrariar. Que lamentável Pão com Manteiga... ![]() Quarta-feira, Maio 25, 2011 REPULSA: Título: Repulsion Realizador: Roman Polanski Ano: 1965 ![]() Depois de ter dado nas vistas com A Faca Na Água, Roman Polanski realizou o seu primeiro filme em inglês, inaugurando a sua trilogia de sucesso, a dos apartamentos. Repulsa é o primeiro de três filmes do realizador franco-polaco que têm em comum pessoas paranóicas fechadas em apartamentos (e rodeadas de vizinhos tanto ou ainda mais loucos). Carol é uma muito jovem Catherine Deneuve, ainda sem o estatuto iconográfico, mas já com uma presença muito forte, tanto no ecrã como na indústria, uma vez que já tinha feito Os Chapéus De Chuva De Cherburgo, o filme decisivo da sua carreira. Carol vive com a sua irmã mais velha num apartamento em Paris e, tirando as investidas de um engatatão com boas intenções e do horário de expediente passado como manicure, Carol vive uma existência isolada, envergonhada e, como o (memorável) plano final deixa em equação, talvez reprimida por um trauma de infância. Carol vive no fio da navalha, no que diz respeito ao seu equilíbrio psicológico, e quando a sua irmã se ausenta para umas férias em Itália com o namorado, vai embarcar numa semana de psicose, obsessão e alucinação. Polanski deixa sempre espaço para nos questionarmos se o que estamos a ver corresponde à realidade ou à imaginação de Carol, com uma constante ambiguidade sexual, ou não fosse esta uma das imagens de marca do realizador. Aliás, nunca saberemos se os distúrbios de Carol são o resultado de uma repressão anterior ou se são Carol a viver os traumas e os desejos de uma virgem recalcada. E depois não deixa de fazer um curioso eco com a pedofilia e o incesto, problemática que Polanski iria contactar na primeira pessoa anos mais tarde. Repulsa é ainda filmado com grande desenvoltura para a época, com a câmara livre do tripé e o uso de zooms e enquadramentos pouco habituais, que servem para aumentar os níveis de desorientação do espectador. No entanto, enquanto que, formalmente, Repulsa vem no seguimento da escola francesa da nouvelle vague, tematicamente está mais próximo da tradição do giallo italiano. Roman Polanski aproveita ainda Repulsa para fazer uma crítica velada ao conceito de vizinhança nos impessoais edifícios em altura. De forma menos subtil que filmes como A Comunidade, é certo (ou mesmo O Inquilino ou A Semente Do Diabo, os outros dois tomos da trilogia dos apartamentos), mas certeiro e acutilante na mesma. Repulsa foi um filme muito à frente do seu tempo e não envelheceu nada mal, apesar de alguns elementos datados. Continua a ser um saboroso McBacon, mas menos consistente que o resto da trilogia. ![]() Segunda-feira, Maio 23, 2011 SEM IDENTIDIADE: Título: Unknown Realizador: Jaume Collet-Serra Ano: 2011 ![]() Liam Neeson deve ter descoberto as viagens low-cost para a Europa. Depois de ter ido para a França perseguir arménios (cortesia de Pierre Morel, em Busca Implacável), Neeson regressa à Alemanha (onde foi bastante feliz a salvar judeus, cortesia de Steven Spielberg), desta vez no avião do espanhol Jaume Collet-Serra, autor de um (semi)interessante Órfã. Neeson voa então para Berlm, com a sua esposa (January Jones), onde vai participar numa convenção de bioquímica. No entanto, uma sequência de incidentes deixam-no em coma, durante quatro dias, e, quando regressa ao hotel, a sua mulher afirma não o conhecer. Toda a sua vida parece estar virada do avesso e, por isso, Neeson vai necessitar da ajuda de uma taxista bósnia (Diane Kruger) e de um ex-agente da Stasi (Bruno Ganz) paradesvendar este thriller hitchcockiano. A amnésia não é um tema novo no cinema, de Identidade Desconhecida a Pulsações Explosivas, mas Sem Identidade lança logo de início pistas decisivas (e demasiado declaradas) a anunciar o twist final. Por isso, o filme é um gato escondido com o rabo de fora, que caminha em passo de corrida para o óbvio. E Collet-Serra não consegue ir tirando-nos o tapete de baixo dos pés de quando em vez, como era a sua intenção, porque rapidamente entra num beco sem saída. Sem Identidade vai conseguindo manter o suspense, com uma realização segura e uma fotografia sóbria, até entrar definitivamente no thriller de acção. E aqui, por dois motivos, começa o descalabro: primeiro porque a intriga é totalmente rebuscada, com príncipes sauditas pacifistas, assassinos super-secretos com demasiado tempo livre para prepararem golpes de lon ga duração e cientistas à James Bond; e segundo porque te, claramente, meia-hora a mais, que ainda por cima parecem pertencer a outro filme. Tal como em Órfã, Jaume Collet-Serra não consegue equilibrar Sem Identidade entre a boa ideia e a sua concretização. E, assim, deixa cair no chão o Cheeseburger que tinha para o almoço, estragando o que poderia ser uma revigorante refeição. ![]() Sexta-feira, Maio 20, 2011 BLUE VALENTINE - SÓ TU E EU: Título: Blue Valentine Realizador: Derek Cianfrance Ano: 2010 ![]() Em todas as sagas de super-heróis surge um momento em que, invariavelmente, a falta de imaginação irrompe. Nessas alturas há sempre alguém que não aguenta a pressão e, em desespero, activa a opção "realidade alternativa", onde o herói voa para uma dimensão onde tudo é o oposto da nossa e onde tem que enfrentar uma versão malvada dele próprio. Aconteceu ao Homem-Aranha, ao Super-Homem e a uma série deles. Apenas Jerry Seinfeld pôs o dedo na ferida: se na dimensão alternativa tudo é ao contrário, então o duplo do Super-Homem seria um tipo preto, que não voava, lingrinhas e que não sabia escrever. Toda esta introdução apenas para explicar que Blue Valentine - Só Tu E Eu é um romance saído de uma realidade alternativa da nossa. Ou seja, é uma história de amor, sobre um casal que se apaixona loucamente, passa por algumas situações difíceis e vivem felizes para sempre... até se fartarem um do outro e se descasarem. Tal e qual como na vida real. Blue Valentine - Só Tu E Eu é um caso raro que conta o que se passa aos romances após o habitual e viveram felizes para sempre... Blue Valentine - Só Tu E Eu é ainda o verdadeiro filme indie, que nos relembra o tempo em que ver cinema independente era ver filmes fora dos moldes convencionais, situando-nos nas margens do que habitualmente assistimos. É isso que faz de Blue Valentine - Só Tu E Eu um filme tão desconfortável, já que nos identificamos mais com ele do que desejaríamos. Todos preferimos antes acreditar nas fábulas de príncipes e princesas encantadas, mesmo quando estas terminam de forma trágica, ou não tivéssemos tido a prova cabal há pouco tempo, com as audiências brutais do casamento real de William e Kate. Mas Blue Valentine - Só Tu E Eu não é só a parte má, tem também o início da história, quando Ryan Gosling e Michelle Williams eram jovens e tudo era um mar de rosas. É o momento Antes Do Amanhecer. A novidade é que o realizador opta por contar o passado e presente de forma entremeada, aproveitando para colocar em contraste o antes e o depois, o amor e o desprezo, o respeito e o despeito, fazendo assim de Blue Valentine - Só Tu E Eu um filme de ambivalências. Por fim, Blue Valentine - Só Tu E Eu é também um filme de (grandes) actores. Ryan Gosling já o tinha provado em Half Nelson, por isso a surpresa é mesmo Michelle Williams que, apesar de ter estado bem em O Segredo De Brokeback Mountain, tinha tido apenas um papel curtinho. Quem a viu em Dawson's Creek e quem a vê agora... Williams precisa de uma consagração qualquer, correndo o risco de passar ao lado de uma grande carreira. Resumindo e baralhando, Blue Valentine - Só Tu E Eu tem uma fala que sintetiza todo o filme: os homens são mais românticos que as mulheres. Eles casam-se com aquela que acreditam poder (querer?) suportar até ao fim das suas vidas, enquanto que elas nunca conseguem apagar a ideia de encontrar um príncipe perfeito num cavalo branco, acabando por casar como menos mau, na esperança de os conseguirem mudar a seu gosto. E depois não o conseguem (claro) e cansam-se. Terrivelmente esclarecedor, este Le Big Mac. PS - Blue Valentine - Só Tu E Eu é ainda versão estendida desta maravilhosa curta francesa, que foi capaz de dizer o mesmo em muito menos tempo. Aligato é o Blue Valentine - Só Tu E Eu para pessoas com pressa. ![]() Quarta-feira, Maio 18, 2011 NOWHERE BOY: Título: Nowhere Boy Realizador: Sam Taylor-Wood Ano: 2009 ![]() Ainda no outro dia escrevia aqui que continua a faltar um bom filme sobre os Beatles, quando descubro Nowhere Boy, mais um filme sobre John Lennon e a fase pré-Beatles. Nowhere Boy é um bio-pic sobre o Lennon adolescente e termina exactamente naquela altura em que John, Paul, George e Stu partem para Hamburgo, fazendo deste uma prequela não-oficial de Backbeat, Geração Inquieta. Se vai para Nowhere Boy à espera de encontrar música e algo sobre os Beatles, então pode tirar o cavalinho da chuva. Até porque os restantes membros da banda só aparecem mesmo no final. E de fugida. Nowhere Boy é antes sobre um jovem problemático e rebelde, que descobre o rock'n'roll. E é sobre um jovem quer vive com a tia, mas cuja mãe reaparece na sua vida, uma mãe com um espírito livre, que gosta demasiado da vida. E de homens. A realizadora Sam Taylor-Wood tenta retirar do filme qualquer referência aos Beatles (exceptuando um par de piscadelas de olho), eliminando assim o John Lennon lenda, optando antes pela humanização do protagonista. Nowhere Boy é assim um drama sentimental sobre um triângulo matriacal em que, num dos vértices, está um jovem que anos depois iria cantar mother, you had me, but I never had you. E, pertinentemente, Nowhere Boy termina ao som de Mother, único tema com a assinatura de Lennon presente na banda-sonora. Nowhere Boy tinha então pano para mangas, até porque a relação entre Lennon e a sua mãe é sempre ambígua. Basta ver a cena em que, ao som de Screamin' Jay Hawkins e o seu clássico I Put A Spell On You, a mãe se roça libidinosamente no filho, deixando-nos desconfortáveis com os ecos de incesto que ecoam por todo o lado. Contudo, Sam Taylor-Wood nunca consegue mais do que umas leves referências a este complexo de Édipo, num filme demasiado liso e sem espessura dramática, mais perto sempre do telefilme do que do cinema de mérito. Sam Taylor-Wood tenta aqui o mesmo que Steve McQueen, ou seja, dar o salto das artes plásticas para o cinema, mas o passo fica mais curto que a perna. Inspirada num cinema mais situacionista e reflexivo, como se tivesse estado a ver Ninguém Sabe pela noite fora, Taylor-Wood tenta retratar John Lennon com sensibilidade, mas falta-lhe muito sal. Bem mais conseguido é o retrato de época, em que sentimos o rock'n'roll em ebulição, prestes a saltar para o meio da rua na esquina seguinte. Aaron Johnson é um John Lennon extremamente parecido (especialmente com os óculos de massa) e fez todas as performances vocais com distinção. Mas enfim, ficamo-nos pelo Double Cheeseburger e continuamos a aguardar por um biopic de jeito dos Fab Four. ![]() Terça-feira, Maio 17, 2011 SUCKER PUNCH - MUNDO SURREAL: Título: Sucker Punch Realizador: Zack Snyder Ano: 2011 ![]() Zack Snyder apareceu de fininho e, sem que ninguém desse por isso, conquistou Hollywood em pouco tempo. Começou por um insuspeito remake dos zombies de George A. Romero e passou pelas adaptações de graphic novels de Frank Miller e Alan Moore, conquistando a crítica e o público com um cinema estiloso. E a indústria, que facilmente gosta de superlativar, chamou-lhe logo o novo Kubrick. Exageros à parte, Snyder recebeu entretanto carta verde para um projecto totalmente seu. Sucker Punch - Mundo Surreal é o primeiro filme que Snyder trabalha com material original. E a primeira conclusão que fica é que, apesar de ser um realizador magistral e com uma imaginação fértil, Snyder é um argumentista fraquinho. A história de Sucker Punch - Mundo Surreal é uma trapalhada, com um esqueleto demasiado frágil para aguentar tanto clichet e lugares-comuns. E sem um argumento sólido por trás, Snyder perde-se em exercícios de estilo que não levam a lado nenhum e em masturbação visual. Ah, e em câmaras lentas, claro. Muitas câmaras lentas! Sucker Punch - Mundo Surreal inicia-se como Watchmen - Os Guardiões: numa só sequência, ao som de Sweet Dreams, Snyder despacha todo o primeiro acto do filme: uma tragédia gótica de uma menina, Baby Doll (Emily Browning), que é internada num hospício de fazer inveja a Voando Sobre Um Ninho De Cucos, pelo seu padrasto maligno. Dentro de uma semana, Baby Doll vai receber o tratamento especial de Egas Moniz, vulgo lobotomia, e por isso tem cinco dias para magicar uma fuga. Mas se estavam à espera de um filme-evasão então esqueçam! Numa espécie de A Origem para pobres, Baby Doll cria dois níveis no seu subconscientes onde vai planear a fuga: no primeiro, o hospício é um cabaret burlesco de luxo, onde só falta a Cher e alguma cantoria; e, no segundo, Baby Doll e as suas amigas malucas internadas são guerreiras altamente treinadas, que têm que ultrapassar missões com samurais(!), nazis(!!) ou dragões(!!!). Por favor, não perguntem... Não é por acaso que Sucker Punch - Mundo Surreal foi descrito como a Alice No País Das Maravilhas com metralhadoras. Zack Snyder é uma espécie de Baz Lurhmann da fantasia, operando sequências de acção barrocas, mas escrevendo fraquinhos pedaços de argumentos, fazendo de Sucker Punch - Mundo Surreal um sonho húmido para geeks: miúdas em lingerie com metralhadoras, actuando em cenários de Dungeons & Dragons. No fundo, é o mesmo Zack Snyder fetichista de 300, mas desta vez com mulheres em vez de homens. Em Sucker Punch - Mundo Surreal chateia ainda tanto girl power, especialmente na banda-sonora, com versões de boas músicas rock por más artistas femininas. A Björk ainda está bem, mas quem é que quer ouvir os Skunk Anasie a estragar os Pixies? A sério, Snyder é excelente a filmar, mas não o deixem escrever mais, ok? É que, para a próxima, desconfio que será bem pior que o Double Cheeseburger. ![]()
Posted by: dermot @
12:30 PM Sábado, Maio 14, 2011 BURLESQUE: Título: Burlesque Realizador: Steve Antin Ano: 2010 ![]() Desde que Chicago reabilitou o musical que, todos os anos,a Academia tem distinguido, mais ou menos de forma envergonhada, um filme do género. Nos Oscares deste ano, Burlesque foi o escolhido para preencher o quórum. Burlesque até poderia aproveitar uma premissa interessante. Ao ter como protagonistas duas estrelas da canção feminina, Cher e Christina Aguilera, o realizador Steve Antin poderia aproveitar a tensão entre este "confronto" de estrelas do mesmo campeonato, mas de gerações diferentes. Contudo, Burlesque limita-se a ser um rip-off desenvergonhado de Coyote Bar tresmalhado de Moulin Rouge. Aguilera é então a típica underdog, que deixa um trabalho como empregada de mesa no interior para ir procurar o sonho americano na grande Los Angeles. Aguilera vai parar a um clube à beira mar, de burlesco e vaudeville, e, quase ao mesmo tempo, um assalto absurdo ao seu apartamento recém-arrendado vai leva-la também à casa de um colega do bar e potenciar futura parelha para o final feliz do costume. Burlesque é o tipo de musical em que, a cada cinco minutos, toda a gente irrompe a cantar e a dançar. No entanto, as músicas aqui nada servem para adiantar a narrativa; são apenas coreografias e uma jukebox de boas canções para ir tapando buracos e aumentar o nível de entretenimento flamboyant do filme, exponencial ao guarda-roupa de Cher. Por isso, o argumento é o mais esquemático possível para caber em tão pouco espaço disponível, enquanto que as personagens estão arrumadinhas nos seus arquétipos estanques: a boa (Aguilera), a má (Kristen Bell), a matrona (Cher), o vilão (Eric Dane), o príncipe (Cam Gigandet) e o gay (genial Stanley Tucci). Assim, Burlesque vai servindo para entreter os olhos e os ouvidos, mas a partir de metade, quando o filme se torna no Christina-Aguilera-one-woman-show e ela passa a interpretar as suas próprias composições, começar a diminuir os factores de interesse. Se Burlesque já era um filme que de novo era quase nulo, a partir de meio afunda-se ainda mais em boçalidade e melodrama teenager. Fica-se pelo Cheeseburger porque, felizmente, não é muito longo. ![]()
Posted by: dermot @
12:05 PM Terça-feira, Maio 03, 2011 THE TROLL HUNTER: Título: Trolljegeren Realizador: André Øvredal Ano: 2010 ![]() Se alguma vez o O Projecto Blair Witch fez surpresa alguma foi no facto de ter demorado mais de uma década até terem começado a copiar-lhe o estilo. Afinal de contas, o género é tão acessível e económico que, salvo esparsas e raras excepções (as que confirmam a regra, claro), admiramo-nos como é que não apareceram mais miúdos, jovens realizadores ou consagrados cineastas a agarrarem numa câmara e em meia dúzia de amigos com boa vontade e a fazerem filmes como esse. Para quem andou distraído ou viveu dentro de uma gruta nos anos 90, qual eremita de Sesimbra, o O Projecto Blair Witch foi uma experiência cinematográfica notável. Um grupo de amigos pegou numa câmara, foi para uma floresta algures e filmou umas coisas dispersas, fingindo estarem a fazer um documentário sobre a lenda de uma bruxa qualquer. Entretanto, foram acrescentando uns elementos paranormais e, quando a coisa começava a aquecer, o filme termina. Tudo isto alicerçado a uma manobra de marketing brutal, muitos anos antes das elaboradas campanhas virais da actualidade, fez com que O Projecto Blair Witch se tornasse num fenómeno. Havia quem acreditasse que aquilo era verdade, havia quem se indignasse com tamanha falcatrua, havia quem tivesse adorado e havia quem tivesse detestado. O que é certo é que toda a gente foi ver. E, tirando Holocausto Canibal (novamente a excepção que confirma a regra), não houve um mockumentário de found footage que tivesse feito correr tanta tinta. Hoje em dia, a prática já está mais ou menos estabelecida, com títulos como [REC] ou Nome De Código: Cloverfield à cabeça. Contudo, enquanto esses são primos afastados, eis que chega da insuspeita Noruega um irmão de sangue. The Troll Hunter é o filme gémeo de O Projecto Blair Witch, em que um trio de amigos decidem ir procurar uma história sobre os caçadores de ursos locais - para quem não sabe, caçar ursos na Noruega é uma profissão bastante complexa, uma vez que envolve uma licença quase exclusiva e muitas notícias nos telejornais -, acabando por descobrir um caçador de trolls(!) e uma conspiração governamental para esconder que tais criaturas mitológicas existem. O problema entre O Projecto Blair Witch e The Troll Hunter é que este norueguês tem muito pouco cinema dentro de si. E começa logo pelo facto de que, enquanto que os primeiro andavam a tentar fazer um documentário, estes andam à procura de uma reportagem. Ou pelo menos assim parece, porque se a forma deles fazerem um documentário era aquela então a coisa teria ficado uma bela merda. Depois, o outro problema de The Troll Hunter passa pela edição. No início, uma mensagem informa que o filme é o resultado de não sei quantas horas de filme que, anonimamente, chegaram às mãos dos produtores. Ora bem, quem compilou aquelas imagens sabia tanto de edição quanto eu, uma vez a maior parte do tempo são imagens avulsas de viagens de carro pela paisagem norueguesa (se bem que os fiordes são sempre coisa boa de se ver) e quanto mais rápidas melhor. Depois, o filme tem outro problema, mas algo que pode ser apenas meu. É que, enquanto que O Projecto Blair Witch era sobre bruxas, fenómeno paranormal a que estamos acostumados e que, acreditemos ou não, engolimos facilmente (até porque que las hay, hay), The Troll Hunter é sobre...trolls(!). Quer dizer, trolls são aqueles gigantes de O Senhor Dos Anéis e outras fantasias semelhantes e, estar a tentar acreditar em monstros capazes de cheirar sague cristão e que ficam transformados em pedra com a luz do sol, é como tentarem garantirnos que a Betty Grafstein não foi operada à próstata. Claro que no contexto norueguês, em que o seu folclore inclui trolls, a coisa deve ter outro sabor (consta mesmo que sim, pelo menos aferindo pela opinião de um par de amigos de lá), até porque permite detectar certas referências próprias da cultura escandinava. Por isso, The Troll Hunter não é bem um mockumentário sério, é mais uma mistura de O Projecto Blair Witch com sátira folclórica norueguesa. Não é bem propriamente um filme que queira vez outra vez, mas também não vai morrer se o fizer. Prove o Cheeseburger por sua conta e risco. ![]()
Posted by: dermot @
11:04 PM Segunda-feira, Maio 02, 2011 GREEN HORNET: Título: The Green Hornet Realizador: Michel Gondry Ano: 2011 ![]() Não sei o que espanta mais nesta versão contemporânea de Green Hornet, o clássico herói dos seriados radiofónicos dos anos 60. Se o facto de ser realizador por Michel Gondry, o sensível realizador da bricolage faça-você-mesmo, ou o facto de ter Seth Rogen, uma das estrelas da nova comédia norte-americana liderada por Judd Apatow, como protagonista. O que me leva a perguntar de mim para mim: mais uma vez, onde raio está o Kevin Smith? Mas por que é que o seu nome aparece ligado a todos os filmes de heróis e depois acaba por nunca realizar nenhum? Não era fixe ter um filme de super-heróis feito por alguém que percebe da poda? E não pode ser sempre culpa dos produtores, ou pode? Acho que nunca vi ou li nada do Green Hornet, apesar de me lembrar da série, muito parecida com o Batman do Adam West. No entanto, tenho dúvidas que o herói original seja minimamente parecido com a versão de Gondry. É que o realizador francês faz dele o arquétipo perfeito do anti-herói - um tipo trapalhão, gorducho e sem nenhum poder especial. No fundo, é o background perfeito para Seth Rogen. A ideia de Gondry até se percebe, numa tentativa de humanizar o herói (algo que está na moda no universo dos super-heróis, como já devem ter reparado), mas Green Hornet estica-a tanto que deixamos de estar a ver Green-Hornet-filme-de-heróis e passamos a Green-Hornet-chick-flick-para-gajos-à-Judd-Apatow. Quem é que quer um super-herói que não sabe fazer nada? Seth Rogen é então Britt Reid, uma espécie de Paris Hilton da ficção, já que é o filho de um multimilionário com um império na comunicação social, que marca presença habitual nas primeiras páginas dos tablóides pelas suas festanças de meia-noite e pela extensa lista de conquistas. Contudo, quando o pai morre subitamente e Reid herda o seu negócio, vai ter um duro choque com a realidade. Assim, decide criar com Kato, o seu mecânico expert em gadgets e artes marciais (Jay Chou no papel que Bruce Lee imortalizou nos anos 60), uma dupla secreta de heróis e começar a fazer qualquer coisa de útil pela sua cidade, acabando por se meterem com o rei do crime local, um inseguro e divertidíssimo Christoph Waltz que, infelizmente, pouco tempo de antena tem. A intriga já é frouxa, mas pior que isso é a realização de Gondry, realizador a que estamos habituados que nos dê uns quantos orgasmos visuais, com uma sensibilidade cinematográfica incomum. Em Green Hornet, o realizador francês passa despercebido por detrás do buddy movie de acção e de tanto CGI, intervalado para as piadas de Seth Rogen e para as acrobacias de Jay Chou. E, no meio de tudo isto, um cameo metido a martelo de James Franco e um erro de casting que nos faz despertar violentamente para a realidade: ao escolher Cameron Diaz para o papel de gaja boa do flme, apercebemo-nos como ela está velha e feia (sad face). Green Hornet não é um mau filme, apesar de uma componente existencialista ser o que menos esperamos de uma história de super-heróis (já nos basta o primeiro Hulk, não é?), mas a verdade é que não há nada que nos prenda verdadeiramente a atenção durante as suas duas horas e tal. O herói não é cativante, a intriga não é apelativa e não há nada de verdadeiramente memorável. Talvez que seja um Double Cheeseburger que envelheça bem, mas só lhe irei voltar a pôr a vista em cima daqui a muito tempo. E de forma casual, de certeza, porque se depender de mim certamente não sairá da prateleira em muitos anos. Em contrapartida, a banda-sonora está no leitor de cds recorrentemente: White Stripes, Rolling Stones, Greenhornes... ![]()
Posted by: dermot @
10:43 AM |
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