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Royale With Cheese | ||
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JACKASS 3D:
Título: Jackass 3D Realizador: Jeff Tremaine Ano: 2010 ![]() Sejamos sinceros: não existe uma única razão que justifique a existência de um filme do Jackass, quanto mais de dois! No entanto, como se isso não fosse já possível, acabam de fazer um terceiro. E em 3D. E porquê? Apenas pelo mesmo motivo pelo qual os cães lambem os tomates: porque podem. A questão aqui é que até podiam fazer um filme do Jackass por mês que eu via-os a todos. Sim, é verdade, eu gosto desse entretenimento desmiolado, escatológico e sem sentido, fazendo destes os filmes ideais para se ver com o grupo de amigos numa noite de copos e pipocas, para ver numa pausa de um trabalho de várias horas seguidas ou, simplesmente, para ver numa altura em que apeteça apenas desligar o cérebro, sem paciência sequer para acompanhar os (cinco) diálogos de um série-b qualquer com o Schwarzenneger. Assim, Jackass 3D é apenas mais uma série de peripécias que a gangue de Johnny Knoxville magica para porem o próprio corpo em perigo, da forma mais louca possível, sempre num espírito de camaradagem total. No entanto, enquanto que Jackass 1 primava pela novidade (é certo que já havia a série, mas o filme era (ainda) mais arriscado) e o segundo era mais hardcore, este terceiro é um pouco... normal (se bem que, dos três, é aquele em que a rapaziada mais vezes chora e vai parar às urgências do hospital). Pelo menos normal dentro do possível, tendo em conta os parâmetros dos Jackass anteriores. Por isso, Jackass 3D não tem propriamente nenhum momento memorável que nos lembremos da mesma forma que um tipo a enfiar um carrinho no cu e a ir depois ao médico queixando-de de dores de barriga. Vê-se Jackass 3D com o mesmo à-vontade dos outros dois, mas com um extra: este vem abrilhantado com gloriosas sequências em slow-motion de alta definição, como aquelas que nos deram maravilhosos mementos do último mundial de futebol, na África do Sul. Contudo, também há um problema. Jackass 3D não tem uma banda-sonora de jeito. Enquanto que os filmes anteriores tinham sempre excelentes malhas rock'n'roll a ilustrar as aventuras do grupo, transformando-se assim no complemento perfeito de entretenimento - doces para os ouvidos e diversão para os olhos -, Jackass 3D só tem musiquinhas do cu e outras a gozar, não podendo assim ser apelidado de banda-sonora. Seja como for, Jackass 3D não é propriamente um filme, pelo menos da forma mais convencional como os entendemos. E quando isso acontece neste imodesto tasco cinéfilo, termino sempre a prosa em sinal de aprovação ou não. Thumbs up, claro. Afinal de contas não deixa de ser um Jackass com gajos a esmurrarem outros em HD slow-mo. ![]() Domingo, Abril 24, 2011 UMA CURTA POR DIA NÃO SABE O BEM QUE LHE FAZIA: É verdade que não é bem uma curta-metragem que vos trago hoje, mas tinha mesmo que vos mostrar isto. E isto é o teledisco da música Fotoromanza, do disco Puzzle, de Gianna Nannini, uma conhecida cantora italiana que, nesses idos anos 80, levava o conceito de androgenia muito à letra. E por que é que trago um videoclip a uma secção destinada a curtas, perguntam vocês. Trago-o porque traz no final a assinatura do grande Michelangelo Antonioni. Se há coisa irritante nos telediscos é quando estes procuram contar a história da letra da música. No entanto, pior que isto é quando o vídeo teima em reproduzir fielmente cada frase que é cantada. É nesta categoria que se insere Fotoromanza, num teledisco que se torna quase insuportável de ver hoje em dia, mas que depois consegue chegar a porto seguro quando ultrapassa aquela linha que separa as coisas muito más das coisas muito más que se tornam boas. É certo que Fotoromanza está demasiado datado e, se o virmos à luz de 1984, conseguimos aqui encontrar um Antonionio vísionário, com uma faceta experimental nada inesperada na sua obra, ao tentar tirar partido das novas tecnologias de então. No entanto, não via um teledisco surrealista tão kitsch e deliciosamente mau desde este. Terça-feira, Abril 19, 2011 ANNIE HALL: Título: Annie Hall Realizador: Woody Allen Ano: 1977 ![]() Quando um autor tem uma obra tão vasta quanto o palmarés do Benfica, normalmente estabelecem-se umas bóias de sinalização, mais ou menos aceites pela maioria, que servem para facilitar o reconhecimento de casos pontuais do seu trabalho. Woody Allen, que costuma fazer um filme por anos, é um desses casos e, portanto, tem algumas dessas bóias na sua filmografia. E a maior será, quiçá, Annie Hall, convencionalmente considerado o seu melhor filme. Se é ou não o seu melhor trabalho não sei, até porque esta coisa de superlativar varia bastante consoante a disposição do dia. Além disso, escolher o melhor filme de Allen é como escolher entre a mãe e o pai. No entanto, Annie Hall é, inequivocamente, o seu mais importante filme, não por ser o mais premiado, mas por ter sido aquele em que deu o salto qualitativo decisivo e se estabeleceu como um dos mais importantes realizadores contemporâneos. Annie Hall é um daqueles filmes autobiográficos em que o próprio protagoniza, fazendo de si próprio. Aqui é Alvy Singer, um neurótico, inseguro e obsessivo humorista, que tem uma relação com a aventureira e algo despassarada Annie Hall (Diane Keaton). Annie Hall é o filme sobre essa relação, que se projecta tanto na tela como na vida real, já que Keaton era a musa de Allen nessa altura. Apesar de repetir características do seu trabalho anterior (e do posterior também, claro), Annie Hall é um filme mais maduro e inteligente. Woody Allen constroi-o a partir de diálogos escorreitos, divertidos e acerca de tudo (alguma das suas tiradas mais inspiradas estão aqui, exemplo: masturbação é fazer amor com quem mais gostamos), mas também reflexivos, terapêuticos e iluminados. Mas Annie Hall não é só conversa. É também um conjunto de belos momentos de cinema, com uma fotografia exemplar de Nova Iorque e alguns truques superiores, seja quando Allen fala directamente com o espectador, seja quando os transeuntes participam nos seus monólogos retóricos, aproveitando uma série de cameos: Paul Simon, Cristopher Walken ou um muito novinho Jeff Goldblum. Nota-se o empenho pessoal de Allen num filme muito pessoal - aproveita ainda para demonstrar aqui a sua paixão por Fellini ou pelo jazz - e isso reflecte-se no final. Annie Hall é um dos melhores Woody Allens de Sempre e é, por isso, um Royale With Cheese. ![]() Segunda-feira, Abril 18, 2011 LUCKY LUKE: Título: Lucky Luke Realizador: James Huth Ano: 2009 ![]() A banda-desenhada francófona não tem tido muita sorte no cinema. Enquanto que as adaptações para desenhos-animados costumam ser acima da média (olá Daisy Town, olá Astérix E Cleópatra), as adaptações para imagem real têm sido desastrosas. A excepção que confirma a regra terá sido mesmo o primeiro Astérix. Por isso, vamos lá continuar a desbaratar o legado de René Goscinny e falar do novo Lucky Luke. Já tinha havido um Lucky Luke em 1991, realizado e protagonizado por um Terence Hill a queimar os últimos cartuchos do seu crédito de popularidade no western europeu, graças ao seu Trinitá. Nesse, seguindo a mitologia do Oeste (a fundação da cidade, o progresso da sociedade civilizada em detrimento dos aborígenes primitivos), assistíamos à fundação de Daisy Town (tal como nos desenhos-animados acima citados). E agora, quase vinte anos depois, assistimos ao regresso de Lucky Luke à sua cidade do coração, para a limpar da bandidagem e corrupção trazida pelo vilão e ilusionista Pat Poker (Daniel Prévost). Visualmente, Lucky Luke é um regalo. Jean Dujardin encarna na perfeição o pistoleiro mais rápido que a própria sombra, numa pose de herói icónico muito próxima da do Homem Sem Nome, de Cint Eastwood, enquanto que os decors são autênticos rebuçados aos olhos. Existem os inevitáveis longos desfiladeiros a perder de vista sob pores-do-sol majestosos, claro, mas as cores são ainda mais vibrantes que os clássicos em technicolor. E a arquitectura de Daisy Town é toda ela contorcida e desafiadora da gravidade, influenciada pelo surrealismo alemão, por Tim Burton e, especialmente, pelo cinema de Jean-Pierre Jeunet. Lucky Luke tem assim uma dimensão cartoonesca que se adequa ao espírito da banda-desenhada. Apesar de ter o código genético do western, tanto o clássico como do spaghetti (aqui é, sobretudo, esse que faz escola, com o Jesse James de Melvil Poupaud a tarzer consigo toda a poeira de Almeria), a banda-desenhada do Lucky Luke satiriza essa mitologia, com o seu humor e espírito feelgood. Por isso, espatamo-nos quando a trama do filme é inesperadamente negra: Lucky Luke, o derradeiro herói romântico que nunca mata ninguém (a seguir a ele, apenas o MacGyver), baleia fatalmente um bandido. Essa ambiguidade poderia ser bastante interessante neste universo, com Lucky Luke a ter que lutar com os seus fantasmas interiores (no fundo, esta dimensão metafísica é a nova tradição da banda-desenhada de super-heróis e das suas respectivas adaptações cinematográficas). Isto se o argumento não fosse tão caótico, usando e abusando de muletas narrativas - há uma inundação de flashbacks astronómica - e de truques acessórios para chamar a atenção, que nos cansam e aborrecem depois de uma primeira parte interessante. Por isso, acabamos também por não perdoar às falcatruas que o filme faz à história do cowboy solitário - sim, estou farto de prequelas! Mais um Double Cheeseburger para a contabilidade. ![]()
Posted by: dermot @
11:59 AM Quinta-feira, Abril 14, 2011 CENTURION: Título: Centurion Realizador: Neil Marshall Ano: 2010 ![]() Actualmente, Neil Marshall é o maior ecoponto do cinema! O realizador inglês absorve tudo o que é cinema trash e refá-lo em novo bom mau cinema, como um Quentin Tarantino em rude. Aliás, Marshall está para Tarantino assim como um talhante com Parkinson está para o doutor Frankenstein. Depois de se ter atirado aos filmes pós-apocalípticos xunga, em Doomsday - Juízo Final, Neil Marshall joga-se agora, de unhas e dentes, a um filme de romanos feio, bruto, porco e mau. Centurion é como Gladiador, mas sem sentimentos e com mais paulada. Ou seja, Centurion tem o nível de testosterona no vermelho e isso implica, inevitavelmente, sangria gráfica e gratuita, um bodycount de fazer inveja aos filmes do Robocop e algumas tipas giras (Olga Kurylenko com um mau tratamento capilar) a manejar armas e mascaradas à Xena boazona. Neil Marshall adapta em Centurion, de forma livre (e esqueçam qualquer realismo histórico), a história do Astérix. Estamos no ano 50 antes de Cristo. Toda a Bretanha foi ocupada pelos romanos... Toda? Não! Uma aldeia povoada por irredutíveis bretões resiste aos batalhões altamente treinados e armados dos romanos e nem precisam de uma poção mágica, basta usarem técnicas de guerrilha e terem muita determinação. Michael Fassbender é Quintus Dias, um centurião que se vai ver envolvido num ataque decisivo da Nona Legião, a mais brava e feroz do exército romano (uma espécie de Bastardos, mas em romano), mas que termina mal e que vai transformar os caçadores em presa. Mais do que um filme de guerra - até porque as cenas de batalha não são propriamente batalhas, são apenas sequências de cenas de cabeças decepadas, dilaceradas, esmagadas e esfareladas das mais variadas maneiras possíveis e imagináveis - , Centurion é um filme de homens em missão, um jogo do rato e do gato, em que as duas facções alternam entre si as posições: ora estão a atacar, ora estão a defender. Esta ambiguidade, que faz com que em Centurion não haja heróis nem inimigos (todos são moralmente duvidosos e têm legítimas razões para atacarem e se defenderem), é o mais interessante do filme, numa estrutura narrativa inesperada para um filme deste género. Tudo o resto é o típico série-b feito com meios suficientes para a coisa ter bom aspecto (mesmo o sangue, sempre acrescento digitalmente, em explosões de cor que fazem lembrar as de Takeshi Kitano), com muita pancadaria, gritos e sangue. Neil Marshall cede ainda à tentação de incluir um sub-enredo romântico (exceptuando uns momentos finais) e só peca mesmo por uma batalha final pouco ambiciosa. Tudo o resto é o típico McBacon a que Marshall já nos habituou. ![]()
Posted by: dermot @
11:29 AM Segunda-feira, Abril 11, 2011 WELCOME TO THE RILEYS: Título: Welcome To The Rileys Realizador: Jake Scott Ano: 2010 ![]() A morte dum ente querido é difícil de ultrapassar e cada um arranja o seu próprio método. Os Rileys (James Gandolfini e Melissa Leo), para ultrapassarem a morte precoce da filha adolescente, arranjaram os seus: ele sai para jogar póquer todas as terças à noite e, à vinda para casa, pára no café da esquina para dar uma queca na empregada de mesa; e ela limite-se a não sair de casa. Dizem que as mães sentem mais estas coisas, mas Gandolfini é aqui um caso à parte, uma vez que, ainda o filme não tem quinze minutos, e a sua amante também já morreu. Assim, a sua perda é dupla e, talvez por isso, vai ser o primeiro a reagir. Gandolfini vai então para Nova Orleães, local ideal para regenarações, mas aqui filmada sem blues e sem vudu (uma pena), e "adopta" uma prostituta sem idade para votar, fugida de casa, que parece um marinheiro a praguejar e com uma tendência para oferecer a xirita. Por sua vez, Melissa Leo vai decidir, finalmente, sair de casa. E até ao final de Welcome To The Rileys, os dois vão conseguir deixar para trás o trauma da morte da filha (pelo menos, dentro do possível). A prostituta aqui em causa é Kristen Stewart, a repetir de certa forma o seu papel enquanto Joan Jett, no bio-pic das Runaways, apostad em afastr o estigma de Crepúsculo. E se The Runaways já tinha surpreendido, aqui parece confirmar o seu bom rumo. Só é pena faltar coragem para que mostre mais pele - nem sequer umas mamas... -, aumentando o factor trash da sua personagem. Assim, limita-se a ser uma pêga que toda a família pode ver em horário nobre. Quanto a Welcome To The Rileys, é um drama redondinho, com um paternalismo demasiado vincado para conseguirmos acreditar nele (Welcome To The Rileys é uma espécie de Pretty Woman - Um Sonho De Mulher, mas com amor de pai em vez de paixão), e uma direcção de câmara de Jake Scott que se limita a estar no sítio certo há hora certa. Um par de momentos mais inspirados justificam o McChicken. ![]() CINCO DIAS, CINCO NOITES: Título: Cinco Dias, Cinco Noites Realizador: José Fonseca e Costa Ano: 1996 ![]() A obra literária de Álvaro Cunhal, sob o pseudónimo de Manuel Tiago, é de uma riqueza dupla. Primeiro, porque artisticamente é uma obra descritiva de grande detalhe, perto do estilo do romance não-ficcionado de Truman Capote; e depois porque serve de relato da luta, do aparelho comunista e do Portugal pré-25 de Abril por alguém que o viveu por dentro e de perto, muito perto. Cinco Dias, Cinco Noites, adaptado do seu romance homónimo, retrata como se dava "o salto" (a passagem clandestina dos fugitivos portugueses na fronteira espanhola, em direcção à França, nos tempos da velha senhora). Paulo Pires é um evadido da prisão que procura chegar a França a salto e, para isso, recorre à ajuda de um passador transmontano, o grande Lambaça (ou seja, Vítor Norte). Claro que na altura ser passador era o mesmo que ser contrabandista. Quem fazia uma coisa fazia a outra e, apesar da ilegalidade da actividade, o que é certo é que esses tipos eram muito úteis, principalmente nas povoações mais pobres. Por isso, apesar da Guarda Fiscal e da polícia espanhola andar a tentar caça-lo em flagrante, porque só assim poderiam prende-lo, o povo das aldeias circundantes fecha-se em copas durante o dia e ajudando-o durante a noite. Cinco Dias, Cinco Noites não só relata como se processava o salto, como faz ainda a radiografia social da época, com uma reconstituição histórica exemplar (como José Fonseca e Costa nos tem habituado) e com uma fotografia e uma luminosidade de se tirar o chapéu. O Lambaça de Vítor Norte é ainda uma daquelas personagens com residência certa no panteão das grandes figuras do cinema português. Um tipo de poucas falas, espertalhão e desenrascado: o estereótipo do tuga típico, de palito no canto da boca, unha do mindinho por cortar a vários meses (ideal para cortar a carcaça) e navalha no bolso. Em contrapartida, Paulo Pires - que aqui também acabava de dar o salto, mas das passereles para o plateau - é um canastrão sem jeito nenhum para transmitir a insegurança e o medo pelo desconhecido da sua personagem. É certo que os diálogos teatrais também não ajuda, mas o seu registo encenado é muito mau e arruína o buddy movie. Com um ritmo lento e reflexivo, Cinco Dias, Cinco Noites permite-nos ainda desfrutar das longas paisagens transmontanas, em momentos land-art à Lars von Trier. Completamente ao lado só mesmo a infeliz opção de incluir um narrador: a declamação de Paulo Pires, como se estivesse a ler uma composição sobre o seu fim-de-semana aos outros meninos da terceira classe,não só é completamente desnecessária, como é um atentado aos ouvidos. Cinco Dias, Cinco Noites é um Double Cheeseburger quase quase a dar o salto para o McChicken. ![]() Domingo, Abril 10, 2011 RIP: ![]() 1924-2011
Posted by: dermot @
11:44 AM Quinta-feira, Abril 07, 2011 TERROR NAS MONTANHAS: Título: Hills Have Eyes Realizador: Alexandre Aja Ano: 2006 ![]() Não poderia haver filme mais actual que Terror Nas Montanhas. Numa altura em que todos tememos uma catástrofe atómica, cortesia dos nossos amigos japoneses e de um tsunami de dimensões invejosas para o nosso de 1755, Terror Nas Montanhas recupera a ameaça atómica com a mesma pertinência com que era abordada no cinema durante a Guerra Fria e nos filmes do Godzilla e ainda lhe acrescenta mineiros, relembrando os não tão distantes mineiros chilenos que estiveram presos numa mina quase em directo para o Mundo durante 69 dias, até porque há um deles que, segundo consta, até já vive em Portugal. Impressionante, toda a gente quer vir para Portugal e todos os portugueses querem sair de cá... E assim, de repente, um aparentemente inofensivo remake de Os Olhos Da Montanha, cuja única razão de existência parecia ser o simples mercantilismo, ganha redobrada atenção. E digo redobrada porque, para além disto, existe outro pormenor de interesse. É que Terror Nas Montanhas foi o primeiro filme de Alexandre Aja em Hollywood, começando aqui a sua especialização em remakes de clássicos do cinema de terror, depois de ter sido ponta-de-lança goleador da nova vaga do terror francês (antes de se transferir para o slapt pack), que praticamente inaugurou com o competente, mas igualmente desonesto, Alta Tensão. Alexandre Aja é um dos realizadores daquele novo tipo de terror que se convencionou apelidar de pornografia gore. Aja não tem pejo em mostrar tudo o que tem para dar, sejam as partes mais gráficas, sejam as mais explícitas, preferindo a exploração explícita das imagens a qualquer noção de sugestão ou suspense. Isto faz com que Terror Nas Montanhas seja duplamente mais perturbador que Os Olhos Da Montanha, que já tinha sido um filme-choque, ancorado então ao slasher Massacre Do Texas. Mas Terror Nas Montanhas não se limita a refazer Os Olhos Da Montanha em versão mais má, feia e porca. Aja faz a sua própria abordagem da história e explora-a a seu gosto. Com mais ou menos semelhanças, uma família fica empanada no meio do deserto, ao alcance de um grupo de ex-mineiros mutantes. Contudo, ao contrário de Craven, Aja não se interessa minimamente por estes, limitando-se a transforma-los num vilão colectivo, cuja ausência de diálogos ou desenvolvimento pessoal lhe confere uma dimensão mais cruél e impiedosa. Assim, após um início em que conhecemos e nos familiarizamos com a família em apuros, Aja solta-lhes as bestas, num slasher explícito e perturbadoramente gráfico, para depois alterar as peças no tabuleiro: as presas passam a caçadores e o slasher movie passa a revenge movie. Terror Nas Montanhas é, assim, uma versão exploitation de Fim-de-semana Alucinante, mas com mutantes em vez de rednecks, diferença que quase não se nota porque são ambos deformados e retardados. Alexandre Aja consegue aqui um daqueles raros casos em que o remake é melhor que o original. E, por andarem a chama-lo do novo Wes Craven, esperemos que não lhe venha a acontecer o mesmo e que comece a fazer banhadas como o Gritos. Se isso acontecer não só deixo de lhe dar McChickens como deixo de ver os seus filmes. Tal como faço a Craven! ![]() Quarta-feira, Abril 06, 2011 ESPECIAL "SOU TÃO PEQUENA, NÃO ERA?" HOUNDDOG: Título: Hounddog Realizador: Deborah Kampmeier Ano: 2007 ![]() No seu filme de debuta, I Am Sam - A Força Do Amor, Dakota Fanning fazia de filha de um Seap Penn retardado, que procura explicação para as coisas da vida qe não conseguia alcançar nas músicas dos Beatles. Agora, no filme que marca a sua transição de actriz-criança para actriz-mulher (ou pelo menos assim ela o esperava), Dakota Fanning faz de criança que encontra nas músicas de Elvis Presley uma almofada para a sua vida de traumas e abusos. No fundo, Hounddog é uma fraca justificação para Dakota Fanning andar em trajes menores a cantar Hoound Dog e a emular os movimentos pélvicos de Elvis de forma insinuante, até ser violada à bruta por um puto hillbilly qualquer. Não é por acaso que Hounddog é conhecido como o filme da violação de Dakota Fanning. Aliás, no primeiro dia em que começou a ser filmado(!), parangonas encheram os jornais e a internet com notícias de um filme com cenas chocantes da petiz e adorável Dakota Fanning a ser abusada. Cenas essas que ainda nem sequer tinham sido filmadas(!!). A táctiva espertalhona de se pôr em bicos de pés para se fazer ouvir fez com que Hounddog chegasse com desconfiança. Contudo, nem era preciso, já que o filme se sabota a si próprio, numa história tão boçal que, salvo umas visualizações avulsas em festivais e uma distribuição limitada a meia-dúzia de salas norte-americanas, o filme nem sequer entrou no circuito comercial. Por isso, se não fosse por essa estupidez da violação, hoje em dia Hounddog seria apenas um rodapé num rodapé da história do cinema. Hounddog é então a história de uma jovem Dakota Fanning na América sulista do início dos anos 60, entre rednecks, incesto, um pai alcóolico, violento e com tendência a desaparecer (David Morse), uma avó temente a Deus (Piper Laurie a repetir o seu papel de mãe da Carrie) e um amigo com quem vai descobrindo o corpo. O Elvis é apenas mais uma ferramenta para acentuar os esteriótipos, com os brancos a serem todos white trash e os pretos pessoas sensatas. Se a realizadora, Deborah Kampmeier, queria um A Cor Púrpura, o máximo que conseguiu foi um Black Snake Moan, mas em pior. Numa história trágica, Dakota Fanning passa por uma série de episódios em que ninguém parece ligar e que não têm consequências. Por exemplo, numa das cenas mais ridículas da sétima arte, o seu pai é atingido por um raio enquanto lavoura a terra (vê-se um raio a cair no tractor e faúlhas a saltar, enquanto David Morse é içado verticalmente numa grua), ficando parvo. Mas tudo continua igual enquanto o flme avança, como aquelas pessoas inexpressivas que contam as histórias todas no mesmo tom. E, no final, Dakota Fanning canta o Hound Dog, mas a versão de Big Mama Thornton, e tudo fica bem. Moral de Hounddog: se tiveres problemas em casa e fores violada, canta blues que isso passa. E a violação?, perguntam vocês já impacientes. A violação, respondo eu, é um abismo dentro de um abiso de tão mal filmada que é. Dura uns meros segundos e limita-se a dois planos: um grande plano de Dakota Fanning de olhos arregalados, como se tivesse a obrar, e um plano da sua mão ensaguentada a fazer festas a um prego. Só é chocante para quem teve que pagar para ver isto. Percebe-se que Dakota Fanning queira escapar à maldição Shirley Temple e mostrar que há um actriz a sério além da teen-star. Mas escusa de o tentar de forma tão desesperada, em Cheeseburgers sensacionalistas. ![]() THE RUNAWAYS: Título: The Runaways Realizador: Floria Sigismondi Ano: 2010 ![]() Dakota Fanning foi uma das últimas grandes teen stars. Com uma maturidade fora do vulgar e uma capacidade para gritar digna das melhores drama queens (vide Guerra Dos Mundos), Fanning começou a fazer pequenos papéis na televisão com 6 anos, aos 8 já estrelava em I Am Sam - A Força Do Amor e aos 13 já tinha 33 filmes na carteira. No entanto, a pequena grande actriz começou a sentir na pele o síndrome Shirley Temple: o do crescimento. Dakota Fanning começou a crescer e tinha que tomar uma decisão: perpetuar o máximo possível a sua figura de menina angelical, até mudar de voz e ter maminhas, ou procurar outros papeis que a legitimassem para lá da simples menina com talento. Dakota Fannig tentou, drasticamente, a segunda via, talvez assustada pela mug shot da outra ex-teen star, Haley Joel Osment, depois de apanhado a conduzir bêbado e stoned. Assim, com apenas 12 anos, já aparecia toda nua e a ser violada no independente Hounddog. Como era esperado, a controvérsia não se fez esperar, mas para mal dos seus pecados, o filme era tão mau que nem sequer teve direito a estreia comercial. Assim, a jovem teve que tentar a seguda vez, tentando agora fazer de puta drogada, mas uma puta drogada real: Cherie Currie, a ex-vocalista das Runaways. The Runaways é o bio-pic das Runaways, a primeira banda rock só de mulheres que, nos anos 70, tomaram conta de um negócio então dominado por homens, com uma atitude de duronas e más. E, claro, drogas e sexo e rock'n'roll. A banda tinha uma média de idades de 15 anos e, durante 3 anos, foram a melhor nova banda do mundo. Depois, entraram numa espiral de auto-destruição e acabaram, com Joan Jett a continuar uma carreira a solo de sucesso. The Runaways, projecto adjudicado durante a febre dos biopics, estreia quando a tendência já passou e, por isso, vai passar ao lado de toda a gente, excepto dos rockers e das fãs da saga Crepúsculo, uma vez que Kristen Stewart foi a escolhida para fazer de Joan Jett. Tanto ela como Dakota Fanning têm excelentes prestações a encarnarem as antigas jailbaits do rock'n'roll (especialmente a primeira), mas The Runaways não lhes vai trazer credibilidade nenhuma. Primeiro, porque o filme não é nada de especial. E segundo porque quem é que quer saber das Runaways hoje em dia? Se calhar no dia que a Joan Jett morrer alguém se lembre que este filme existe. É certo que The Runaways é o bio-pic possível, uma vez que Lita Ford e Jackie Fox recusaram ceder os direitos da sua parte da história da banda. No entanto, mesmo resumindo-se à história das duas líderes da banda (porque todas as histórias de banda precisam de um vocalista e um guitarrista que se consomem a si próprios), a realizadora Floria Sigismondi não vai além de um bio-pic das Runaways for dummies. Primeiro, porque secundariza por completo a obra da banda, limitando as músicas para a banda-sonora, uma única cena em estúdio (e já perto do final), outras poucas ao vivo e quase nenhuma a ensaiarem ou o que quer que fizessem com os instrumentos. E depois porque se preocupa em demasiado em fazer da vida da banda uma abordagem à Larry Clark, ou seja, a empilhar tudo o que seja episódio sensacionalista feito por gente sem idade para o fazer: drogas, álcool e, especialmente, sexo. Felizmente, o rock'n'roll é sempre uma coisa boa e, até no pior filme, há sempre algo que nso acaba por prender ao ecrã. Seja a música ou seja o recriar daquele folclore especial que, na viragem dos anos 70 pra os 80, até teve uma magia especial: o glam-rock dos T-Rex, a androgenia de David Bowie ou o punk-perigoso dos Stooges. E nisto The Runaways é exímio, com uma reconstrução cinco estrelas - a banda-sonora, o guarda-roupa, as referências... E depois, a ajudar, há o trabalho monstruoso de Michael Shannon, na pele do excêntrico produtor Kim Fowley, o Frank'n'Furter do rock. A verdade é que vale mesmo a pena recordar as Runaways. Porque a Joan Jett a solo nunca mais foi a mesma e porque a banda abriu a porta ao movimento riot grrrl e todo um rock no feminino, que mesmo quando não é bom ao ouvido, acaba por ser agradável à vista. Por isso, The Runaways sai daqui com um Double Cheeseburger. ![]()
Posted by: dermot @
11:00 AM Segunda-feira, Abril 04, 2011 BURIED: Título Buried Realizador: Rodrigo Cortés Ano: 2010 ![]() Em 2002, Joel Schumacher colocou Colin Ferrell dentro de uma cabine telefónica e fez um filme lá dentro. O resultado foi um dos filmes de acção mais claustrofóbicos desta viragem de século. Agora, o espanhol Rodrigo Cortés repete o gesto, mas vai ainda mais longe, ao colocar Ryan Reynolds dentro de uma caixa de madeira debaixo da terra e a fazer todo um filme dentro de um caixão. E quando digo todo, é mesmo todo, não há uma única cena noutro sítio nem sequer um flashback que seja. Buried é, portanto, arrojado. É certo que um filme de uma hora e meia exclusivamente passado dentro de um caixão corria o risco de ser, no limite, um exercício formal e de estilo, mais à semelhança de A Corda de que Cabine Telefónica, mas Buried consegue ser mais que isso. É um filme hermético, perturbador, claustrofóbico... E é uma tour de forc impressionante de Ryan Reynolds, que leva o filme às costas, uma vez que ele é a única personagem. Quer dizer, ele e o caixão, claro. Numa das melhores cenas de Kill Bill 2, Uma Thurman é enterrada viva. Tarantino filma-a numa exígua caixa de madeira, rodeada de breu e em silêncio quase absoluto. Enquanto tenta escapar, a sequência é uma das coisas mais angustiantes da história do cinema e faz a crucificação de Jesus Cristo, em A Paixão Da Cristo, parecer uma coceguinha nos pés. Agora imaginem isso ampliado a hora e meia, numa colecção de grandes planos e alguns macros, com um trabalho de fotografia notável, uma vez que apenas o essencial vai sendo iluminado sempre que o protagonista acende um perene isqueiro zippo. Buried abre com uma interminável sequência a negro. Estamos dentro de um caixão, debaixo de terra, com um tipo cuja história vai sendo revelada aos poucos. Paul Conroy (Ryan Reynalds) é um camionista de mantimentos destacado no Iraque, que é capturado por terroristas, enterrado vivo com um telemóvel e exigido um resgate astronómico. A ter que lutar contra o tempo (ou melhor, contra a bateria do telemóvel e contra o oxigénio existente no caixão), Paul tem que tentar desbloquear a sua situação com oito palmos de terra sobre si, mas acaba por se perder num labirinto kafkiano, de descrença geral e, sobretudo, burocracia, que fazem de Buried um acutilante comentário social e político ao conflito armado no Iraque e, consequentemente, a tudo o que está a ele inerente. Buried é, assim, uma das melhores coisas que o cinema vai parir nos próximos tempos. E, mais uma vez, fica provado que um bom filme é apenas uma boa história (ou, no limite, uma boa ideia), que não precisa de uma parafernália de efeitos-especiais, cgi e outras masturbações digitais. Buried é bastante económico, mas vale cada dentada do Le Big Mac até ao esgotar da última partícula de oxigénio naquela exígua caixa de madeira. ![]()
Posted by: dermot @
10:51 AM Sábado, Abril 02, 2011 ROYALE WITH CHEESE: É incrível, fascinante mesmo. Parece mentira, mas não é. Este ano não me esqueci do meu próprio aniversário. O Royale With Cheese, este imodesto tasco cinematográfico que passa por cima de tudo o que seja (ou se assemelhe) a filme, faz hoje parabéns. É verdade, faz hoje sete anos. O que, em idade de internet, já deve dar para votar. Sejamos sicneros: o template do Royale With Cheese já está, no mínimo, ultrapassado. Por isso, desta vez prometo que, em breve, iremos tratar disso. É a resolução deste sétimo aniversário. Até porque o Baú do Trash, a nossa aquisição de 2010, merece um cantinho melhor, mais arrumado, limpinho e bonitinho. ![]()
Posted by: dermot @
11:16 AM |
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