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Royale With Cheese | ||
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![]() Quinta-feira, Fevereiro 24, 2011 127 HORAS: Título: 127 Hours Realizador: Danny Boyle Ano: 2010 ![]() Eu sei que já não é fixe gostar do Dany Boyle, mas eu continuo a não ter vergonha de admitir que gosto do seu trabalho. Continuo a venerar o Trainspotting, gosto da primeira parte de A Praia, gostei do Quem Quer Ser Bilionário e até via outra vez o Milhões. Por isso, discordo de quem diz que ele é um reaizador oportunista e com histórias segmentadas, em que os bons e os maus têm os seus papéis demasiadamente definidos. No entanto, neste caso, deve-se dizer que o caso verídico em que é inspirado 127 Horas é bem mais interessante à partida do que o filme. 127 Horas podia ser realizador por um tarefeiro anónimo qualquer que nós iríamos querer vê-lo. É que 127 Horas é a adaptação para grande ecrã do caso da vida real de Aron Ralston (interpretado por James Franco), o montanhista que, em 2003, passou 127 horas entalado numa ravina, até ter amputado o próprio braço com uma faca romba para se libertar e escapar. 127 Horas é um one-man show. Aron Ralston é um tipo radical e desportista que vai sozinho passar um fim-de-semana saudável numas montanhas quaisquer. Nos primeiros 15 minutos de filme ainda encontra e convive com duas tipas, mas depois cai na tal ravina e fica isolado e abandonado até ao final, numa verdadeira tour de force. Durante o período em que está entalado, Ralston vai ter tempo para rever toda a sua vida ao pormenor e começar a alucinar para uma handycam, à medida que vai ficando sem água nem comida. 127 Horas é, portanto, como O Náufrago, mas com uma câmara de vídeo em vez de uma bola de vólei. 127 Horas é como Buried, o filme espanhol que não sei se vai estrear cá (mas do qual eu prometo falar em breve), sobre um tipo que passa o filme todo (literalmente!) enfiado num caixão. Por isso, mais do que um filme, é uma experiência. E das claustrofóbicas. No entanto, enquanto que em Buried, o realizador consegue manter-se sempre debaixo de terra, em 127 Horas Danny Boyle tem que recorrer várias vezes a flashbacks, o que, por vezes, pode ser entendido como uma manobra narrativa preguiçosa. Em contrapartida tem também espaço para ensaiar mais umas sequelas de alucinações tão geniais quanto as de Ewan McGregor, em Trainsportting, quando estava a desintoxicar. E depois tem a mui falada cena da amputação do braço, mas que não é tão perturbadora quanto nos tentam impingir por aí. No meio de tudo isto, há que referir ainda que Danny Boyle está-se a tornar no Tony Scott. Ainda fascinado por Quem Quer Ser Bilionário, Boyle repete aqui as cores vivas e berrantes, filmando o início trepidante do flme como se fosse um teledisco ou um vídeo promocional da MTV, recorrendo a ecrãs divididos (mas sem a dimensão cinemática de Brian De Palma), efeitos de imagem e outros artifícios acessórios. Contudo, 127 Horas não deixa de ser um interessante McBacon de se ver. ![]() Terça-feira, Fevereiro 22, 2011 SEMI-PRO: Título: Semi-pro Realizador: Kent Alterman Ano: 2008 ![]() O problema da carreira de Adam Sandler e Will Ferrell é precisamente o mesmo. Ou seja, ambos criaram uma persona cómica para si mesmos e limitam-se a repeti-la over and over again, até à exaustão. Nada contra isso, até porque já houve quem tivesse feito carreiras brilhantes da mesma forma (olá Jerry Lewis); apenas contra o facto do overacting cheio de caretas e sem piada de Sandler ser insuportável (contudo, sou seu fã incondicional do seu trabalho no Saturday Night Live, nomeadamente o Opera Man). Por sua vez, o pateta feliz de Ferrell já é bem mais tolerável. Semi-pro é, portanto, mais um filme de Will Ferrell a fazer de Will Ferrell: um idiota que não deve muito à esperteza, mas que compensa com muito boa vontade e bom coração. Além diso, Semi-pro é mais uma das suas comédias desportivas, desta vez no mundo do basquet amador. No entanto, apesar do mesmo layout e do mesmo protagonista, há qualquer coisa de especial em Semi-Pro. Talvez seja pela sobreposição de elementos com tanto de aleatório quanto de inesperado: Ferrell é um empresário burguês de Flint (aquela cidade deprimida e abandonada pelo tempo que ficámos a conhecer em Roger E Eu), que é simultaneamente: a) dono da equpa de basquet lá do sítio (onde Andre 3000, dos Outkast, é a estrela residente b) poste titular dessa mesma equipa (que já dá para atestar o grau de qualidade dos seus jogadores) c) e o Marco Paulo lá do sítio. Ou então talvez seja apenas da atmosfera, circa final dos anos 70/início dos anos 80, recriada em grande estilo, com uma banda-sonora funk-disco que podia pertencer ao repertório do Chef de Isaac Hayes, em South Park, e com um guarda-roupa cheio de fatiotas glam, de purpurinas e calças à boca de sino à la Disco Stu. Semi-Pro não se esquiva aos habituais números de humor escatológico que parecem ser obrigatórios em todas as comédias deste novo século - e.g. a incapacidade de Ferrell em vomitar, completamente desnecessária e sem piada -, mas na maioria das vezes faz-se apenas daquele humor circunstancial que Judd Apatow aprimorou e transformou em fórmula. Quanto à história, Semi-pro é o habitual conto do underdog, com os Tropical de Flint a terem que se superar a si próprios para tentarem acabar o campeonato em quarto lugar (quando o faziam invariavelmente em último), recorrendo à ajuda de um ex-jogador da NBA - um Woody Harrelson que dá um brilho extra ao filme. Esta conjugação de factores que, aparentemente, nada têm a ver entre si, acaba por formar um todo divertido e um Mcbacon com uma certa magia. ![]() Segunda-feira, Fevereiro 21, 2011 EX-DRUMMER: Título: Ex-Drummer Realizador: Koen Mortier Ano: 2007 ![]() Confesso que nunca tinha ouvido falar de Herman Brusselmans, mas, depois de um rápida pesquisa no google, fiquei a conhece-lo melhor do que a sua mãe. Brusselmans é um dos mais conceituados escritores da nova geração da literatura flamenga, cuja obra é caracterizada pelas temáticas do sexo, da droga, da violência e do enfado, além de ser recorrentemente autobiográfica, algo que os seus detractores consideram de preguiçoso e aborrecido. Posto isto, olhei para Ex-Drummer, a adaptação cinematográfica do seu romance homónimo, e conferi: sexo, check; droga, check; violência, check; enfado, check. Quer dizer que a única coisa nova em Ex-Drummer é mesmo o rock'n'roll. Ex-Drummer é a história de Dries (Dries Van Hegen), um escritor famoso (estão a ver as referências autobiográficas?) que é procurado constantemente pelos fãs para as coisas mais absurdas. Certo dia, três tipos mal encarados batem-lhe à porta. São os três deficientes, têm uma banda, mas falta-lhes um baterista e, por isso, decidem convida-lo a ocupar o cargo. Koen (Norman Baert) é o vocalista, com ar de neo-nazi, que detesta mulheres e, por isso, volta e meia, ou mata uma ou amassa-lhe a cara com um tijolo; Jan (Gunter Lamoot) é gay, tem um braço morto, um pai atado à cama e uma mãe careca, que é comida à força regularmente pelo colega Koen; e Ivan (Sam Louwyck) é surdo, drogado e tem uma filha pequena, desleixada pela mãe igualmente drogada e iletrada. O grupo é autêntico refugo da sociedade, autênticos trastes humanos, mas Dries aceita o repto, seduzido pela possibilidade de mergulhar num mundo incómodo que não é o seu, utilizando aquele grupo como combustível para o seu novo romance que está a escrever. Não é por acaso que Ex-Drummer tem sido comparado amiúde com Trainspotting, uma vez que, tal como este, tira um retrato aos subúrbios e a uma fatia da sociedade que, normalmente, é considerada problemática e deixada de parte. Mais vale ignorar, que pode ser que desapareça, do que tentar resolver, porque aquela gente não quer nem deixa ser ajudada, costuma ser a justificação que ouvimos. No entanto, Ex-Drummer é muito mais assustador e perturbador do que aquele grupo de bêbados e vândalos irlandeses de Danny Boyle, aproximando-se vertiginosamente da apologia da violência de Laranja Mecânica, mas levando-a a outros níveis, uma vez que é mais real. O realizador, Koen Mortier, fá-lo de uma forma arty, com sequências simbólicas e surreais, que tanto incluem cenas em que Big Dick, um tipo com uma pila que parece o braço de uma criança, mostra como a namorada tem a xirita arrebentada e entram pela vagina adentro, como o Portugal dos Pequeninos versão-porno, como incluem sequências absurdas e figurativas, próximas daquela pérola húngara chamada Taxidermia, como a casa de Koen, onde ele anda sempre no tecto. Essa opção ajuda a tornar Ex-Drummer ainda mais perturbador e a deixar-nos abananados, porque por vezes já não sabemos o que estamos a ver. Apenas nos sentimos angustiados e enojados na maior parte das vezes. Como se isto não bastasse, Koen Mortier aumenta a vertigem com uma banda-sonora rock completamente perigosa. Curiosamente, o grupo de deficientes até toca bem para cacete, num terrorismo sónico próximo do noise, cortesia dos belgas Millionaire. Mas a banda-sonora tem ainda Lightning Bolt (vénia, vénia), Isis ou Mogwai, para além de um extra fabuloso: Arno, o Tom Waits belga e cantor subvalorizado da chansoin francesa que todos deviam conhecer, a tocar ao vivo, numa prestação que só peca por curta. A maior parte dos filmes com uma pendente surrealista acabam por nos dar um nó no cérebro, mas este dá-nos antes um nó no estômago. E, mesmo depois de acabar, continuamos durante horas perturbados sem saber bem porquê. Infelizmente, em termos narrativos, Ex-Drummer dá demasiadas voltas desnecessárias, perdendo-se ainda em sub-enredos que não levam a lado nenhum, como o da tipa que se envolve em menage a trois com Dries e a sua esposa e que está a fazer uma tese de mestrado sobre dor colectiva. Enfim, se virmos bem, Ex-Drummer é completamente pointless. Mas já diziam os Sex Pistols, naquele mote máximo do punk, no future. Double Cheeseburger em modo auto-destruição. ![]()
Posted by: dermot @
11:43 AM Domingo, Fevereiro 20, 2011 BAÚ DO TRASH: CISNE NEGRO: Título: Black Swan Realizador: Darren Aronofsky Ano: 2010 ![]() Há dias em que queremos mesmo ver um filme bom, um daqueles que nos faça acreditar que ainda não vimos tudo no cinema. Dirigindo-me ao Amoreiras (sim, desta vez paguei para ir ao cinema) e decidido em ver este Cisne Negro, qual é o meu espanto quando apanho a sessão das 21 horas de um domingo esgotada. "Só há bilhetes para ver... um filme qualquer que se chama... hmmm". Ok, segue para o Londres onde, apesar de não ter desconto, a sala está vazia. Lugar à porta, cafezinho e uma expectativa moderada para ver um daqueles supostos filmes do ano. Ora bem, eu nem aprecio muito ballet, apesar de, por acaso, ter visto no ano passado o Lago dos Cisnes em São Petersburgo, mas Mila Kunis e Natalie Portman a fazerem umas cenas lésbicas não pode ser mau. Tenho que dizer que os primeiros 15/20 minutos do filme não me impressionaram em nada, com a câmara sempre em movimentos que me fazem ter vontade de vomitar, conversa sobre o nada e muito bailarico que parece ser metido para encher chouriços, até que Vincent Cassel (no papel de encenador) e Mila Kunis (como uma das novas bailarinas) entram em cena e a coisa torna-se muito, muito interessante. Em poucas palavras, Natalie Portman é uma bailarina que tem, pela primeira vez, a oportunidade de ter o papel principal no Lago dos Cisnes, bailado em que interpreta o Cisne Branco e o Cisne Negro. Mas Natalie, a viver com uma mãe psicótica e tendo tido uma vida de solidão e rigidez, não parece ter o carisma para dançar o Cisne Negro. Contudo, com a ajuda do seu encenador, um mulherengo e uma pessoa altamente controladora, e da nova bailarina da companhia, que lhe vai mostrar o que é divertir-se (além de lhe mostrar o par de bagas), ela lentamente vai adquirindo a personagem e ficando louca. Mais do que a história e o lesbianismo, a coisa mais interessante aqui neste filme é a carga emocional, o terror leve e, sobretudo, uma fotografia fantástica. O filme evolui claramente connosco e o final, apesar de ser bastante previsível, é eye-candy puro e duro. Não é um daqueles filmes que eu pagaria de novo 6 euros para rever e, provavelmente, quando sair em dvd e eu o comprar, vai ficar com o plástico intacto durante vários meses, até a minha namorada dessa altura dizer "olha que giro, este até ganhou um Oscar, não foi? Olha, eu nunca o vi... podemos ver os dois no sofá?". Leva McRoyal Deluxe. ![]() Quarta-feira, Fevereiro 16, 2011 MISTÉRIOS DE LISBOA: Título: Mistérios De Lisboa Realizador: Raúl Ruiz Ano: 2010 ![]() Depois de um mexicano ter feito O Crime Do Padre Amaro, agora é a altura de um chileno fazer Mistérios De Lisboa. E esse chileno é Raúl Ruiz, o mais mainstream dos surrealistas e realizador de obra profícua, que já fez muita coisa boa (Três Vidas E Uma Só Morte), mas inevitavelmente (afinal estamos a falar de uma filmografia com mais de cem títulos) ainda mais coisas más (alguém mencionou Klimt?). Este não deixa de ser um processo curioso, tendo em conta que há quem defenda que, tal como é impossível gostar dos Beatles e dos Rolling Stones por igual, também é impossível gostar de Eça de Queirós e de Camilo Castelo Branco da mesma forma. Por um lado faz sentido. Enquanto que Eça é um realista dos sete costados, Camilo é um romântico que, por ter sido o primeiro escritor português a viver exclusivamente da escrita, tinha que se cingir na maior parte das vezes às modas e tendências do grande público. Mistérios De Lisboa é um longo folhetim de Castelo Branco (novela com uma narrativa ágil e respectivos cliffhangers para deixar o leitor em expectativa até ao próximo capítulo) adaptado em mais de quatro horas ao grande ecrã (para a televisão, o filme vai ter mais de seis horas, divididos em episódios) e com enorme fôlego, uma vez que não se compadece da antiga arte do cinema português a passo de caracol. Além disso, Ruiz consegue uma coisa impensável: é um filme português com mais de quatro horas (e, por isso, com dezenas de actores da nossa praça) que não tem nem o Nicolau Breyner nem o Rogério Samora. O leque de actores de Mistérios De Lisboa inclui os grandes nomes do cinema (e televisão também) da actualidade nacional, o que não quer dizer que isso seja propriamente bom. Por exemplo, Afonso Pimentel não tem estaleca para a pose trágica que é exigida à sua personagem ou Maria João Bastos está cada vez mais parecia à Ana Moreira - pálida e pau de virar tripas-, mas em mau. Dos novos nomes, Ricardo Pereira é, inesperadamente (pelo menos para mim, demasiado habituado ao seu sorriso-Colgate em anúncios a bancos), aquele que se safa melhor. Quanto ao único veterano desta lista, Adriano Luz, acaba por ser, curiosamente, o elo mais forte de Mistérios De Lisboa. Adriano Luz é, portanto, o padre Dinis, uma personagem com a mesma estrutura moral dos (anti)heróis dos film noirs norte-americanos. Apesar de ser um religioso honesto e de bom coração, o padre Dinis tem um passado recheado de segredos que envolvem barganhas com ciganos, temporadas ao serviço de Napoleão Bonaparte ou uma vida dupla em Itália e França. No entanto, não é o padre Dinis a peça central desta trama. Numa narrativa que vai fornecendo dispositivos que despoletam novas narrativas, o padre Dinis é apenas a charneira para o desenrolar interminável da história de Pedro (primeiro João Arrais e depois Afonso Pimentel), um bastardo destinado a um fado trágico de sofrimento, ou não fosse ele filho de um amor proibido e igualmente trágico, contado em regime analepses e prolepses constantes. Mistérios De Lisboa é um épico cosmopolita (viaja por Portugal, vai a Itália e fixa-se em França, antes de regressar a Lisboa), filho dos neo-realistas italianos, nomeadamente na representação socio-política de uma época. No entanto, ao contrário de trabalhos como O Leopardo, Ruiz não se preocupa em nada em se aproximar da realidade. Mas se esperava um tratamento fantasista do realizador chileno ao folhetim romântico de Castelo Branco então poderá sair frustrado, uma vez que Ruiz contém o seu experimentalismo surrealista a uma atmosfera algo insinuante, conseguida sobretudo pela câmara que deambula pelos planos, em travellings fantasmáticos e enquadramentos menos convencionais. No entanto, apesar da fluídez, Mistérios De Lisboa é, claramente, grande de mais. Até porque não havia razão para ser tão longo. O próprio Ruiz estrutura-o em das partes, que podiam muito bem viver de forma autónoma, apesar de precisarem uma da outra. Mais ou menos como em Kill Bill. Por isso, quando a história se demora em França, já não há quem queira saber de mais bastardos, primogénitos, paixões proibidas e outras tragédias do coração e do sangue. Apesar de não conseguir ir além do Double Cheeseburger, aponto em Mistérios De Lisboa outras valências que valem bem mais: a sua aclamação internacional colocam no mapa o cinema português (apesar de Raúl Ruiz ser chileno, a produção é nacional); e a literatura de Camilo Castelo Branco pode ganhar, definitivamente, o reconhecimento que merece, em vez de o limitar ao redutor epíteto de rei da novela. ![]() Terça-feira, Fevereiro 15, 2011 A BELA E O PAPARAZZO: Título: A Bela E O Paparazzo Realizador: António-Pedro Vasconcelos Ano: 2010 António-Pedro Vasconcelos sempre foi um dos mais queridos realizadores daquela coisa nefasta que continua a ser o cinema português, muito em parte devido a O Lugar Do Morto, o primeiro blockbuster nacional, e depois a Os Imortais, recentemente aqui recuperado no Baú do Trash. Talvez sentindo o seu lugar em perigo, devido à proliferação do chamado cinema comercial (mas que devia ser chamado cinema americanizado, vide Arte De Roubar ou Second Life), António-Pedro Vasconcelos regressou às longas com um desastroso (e pornográfico) Call Girl. Por isso, quando vi que o seu mais recente trabalho, A Bela E O Paparazzo, voltava a ter Soraia Chaves como protagonista, a minha vontade de ver o filme começou a desvanecer-se. Além disso, dias depois da estreia, o realizador benfiquista envolveu-se num triste bate-boca com o crítico Vasco Câmara (e Pedro Borges e Nuno Markl juntaram-se à festa) nas páginas de um suplemento cultural de um dos nossos diários que eu não vou dizer qual é, mas que começa por I e acaba em N e tem psilo no meio, e aí o que restava da minha vontade de o ver desapareceu por completo. Por isso, foi preciso ser Natal e A Bela E O Paparazzo dar na televisão para que eu finalmente lhe desse uma chance. Ainda bem que o fiz, pois estava a ser bastante injusto. Afinal, A Bela E O Paparazzo não é nada do que estava à espera. António-Pedro Vasconcelos volta a ir buscar Soraia Chaves, mas, pela primeira vez no cinema português, não se assiste ao culto do seu corpo. Aliás, nem sequer há umas mamas ou uma cena de sexo em A Bela E O Paparazzo, o que na cartilha de outro realizador nacional significaria suicídio comercial. A Bela E O Paparazzo é antes uma comédia romântica ligeira, sobre uma celebridade das novelas cansada de ser constantemente capa de revistas cor-de-rosa (Soraia Chaves, claro), que acaba por se apaixonar, acidentalmente e sem saber, pelo paparazzo que a perseguia diariamente (Marco D'Almeida). O filme rima, portanto, com sátira social, já que os dois protagonistas são, eles próprios, habitués da imprensa cor-de-rosa. A Bela E O Paparazzo surge na tradição das comédias screwball clássicas, com um olho óbvio no cinema de Billy Wilder. É certo que lhe falta uma cinematografia mais apurada, de grande ecrã - ou pelo menos a elegância de O Lugar Do Morto -, mas António-Pedro Vasconcelos também não se põe a inventar. Não arrisca em demasia e mantém-se na sua zona de segurança. A excepção é um momento em que tenta fazer um bocadinho de magia, com o par romântico do filme a dançar descalço, numa passadeira no Rossio. Lembramo-nos de Serenata À Chuva e dos grandes clássicos da época de ouro de Hollywood e, inesperadamente, nem estranhamos. Assim como nos lembramos de Woody Allen enquanto António-Pedro Vasconcelos passeia por Lisboa. Também Soraia Chaves se safa relativamente bem como actriz. Desde que não lhe peçam coisas muito difíceis, claro, como chorar ou demonstrar emoções muito profundas. A Bela E O Paparazzo presta ainda homenagem à comédia portuguesa dos anos 30, ou não fosse A Canção De Lisboa o filme favorito de António-Pedro Vasconcelos. É neste campo que surge a personagem de Nuno Markl, que tem a seu cargo o comic relief (é uma espécie de Rui Unas, em Os Imortais), fazendo de si próprio com aquele humor acutilante que lhe deu fama no programa radiofónico O homem que mordeu o cão. Markl, sempre de t-shirt do Cão Azul, tenta declarar a independência do seu prédio, numa história paralela que acaba por se perder às tantas por falta de tempo de antena. Afinal de contas, António-Pedro Vasconcelos não desaprendeu de fazer bons filmes simpáticos. E também A Bela E O Paparazzo é bastante simpático, ou seja, um McBacon. Ah, e Nicolau Breyner também preenche aqui a sua quota pessoal (claro!, mas há algum filme português em que não o faça?), desta vez num papel que deve ser inédito na sua carreira: o de gay. Mas porque é que nos filmes do António-Pedro Vasconcelos tem que haver sempre um maricas? ![]()
Posted by: dermot @
12:46 PM Segunda-feira, Fevereiro 14, 2011 IT MIGHT GET LOUD: Título: It Might Get Loud Realizador: Davis Guggenheim Ano: 2008 ![]() Ainda It Might Get Loud não começou à 5 minutos e já nós nos levantámos para tirar o chapéu a Jack White. Com apenas uma tábua, uma garrafa de Coca-cola vazia, uma corda e alguns pregos, o líder dos recentemente extintos White Stripes (chuif, chuif) constrói uma one-string Didley bow em menos de nada e sola para cacete. Até ao fim do filme, ainda nos vamos levantar mais uma série de vezes para voltar a tirar o chapéu a Jack White. Como quando ele encomenda uma guitarra com um microfone retráctil incorporado ou quando toca o Sittin' on the trop of the world ao piano. It Might Get Loud é o novo trabalho de Davis Guggenheim que, depois de ganhar um Oscar com Uma Verdade Inconveniente, decidiu deixar-se de tretas e fazer um documentário sobre o que realmente importa: guitarras eléctricas e rock'n'roll. Assim, reuniu no mesmo estúdio alguns dos melhores guitarristas vivos e o The Edge (os guitarristas são Jack White e Jimmy Page) e convidou-os a levarem os seus instrumentos, discos e memorabilia. O objectivo é falarem das suas relações com a guitarra, como começaram a ouvir música, os seus métodos de composição e outras coisas parecidas. Mas como estão ali reunidos e com as guitarras por perto, é óbvio que, mais tarde ou mais cedo, vão acabar por tocar qualquer coisa em conjunto. Só não estávamos à espera que fosse o The Weight. Sem desprimor para a música, mas... é um major let down. Como todos os rockumentários, It Might Get Loud dirige-se, sobretudo, aos apreciadores de música. E são estes que vão ver o quão triste é o The Edge e os U2, mais a sua parafernália de pedais e efeitos digitais ranhosos. Depois vão ainda ver o génio de Jack White e algum comodismo do Jimmy Page. Além disso, há ainda uma série de grandes músicas, de Son House a Flat Duo Jets, passando por Link Wray. Guggenheim vai preenchendo os eapaços em branco com imagens de arquivo e é aqui que nos deliciamos com um Jimmy Page novo, ainda nos tempos dos Yardbirds e até antes (e descobrimos que foi ele que gravou a theme song de 007 Contra Goldfinger, quando era músico de estúdio), e nos lembramos como os U2 eram uma grande banda pós-punk/new-wave quando apareceram e agora se tornaram na coisa mais medonha e maçadora do mundo da música. Mas em It Might Get Loud nem tudo são rosas, uma vez que existem algumas opções do realizador de gosto duvidoso. Como duas sequências em animação que caem do céu por não ter unhas, completamente desnecessárias. Ou uma ou outra divagação visual, de forma a ilustrar de forma simbólica os discursos existenciais dos intervenientes. Mas It Might Get Loud é um portento para quem gosta de música. Mas atenção, música a sério, ou seja, música de guitarras. Um McRoyal Deluxe do rock!
Posted by: dermot @
11:49 AM Domingo, Fevereiro 13, 2011 TAKE - CINEMA MAGAZINE: ![]() Página Oficial
Posted by: dermot @
12:24 PM Quinta-feira, Fevereiro 10, 2011 O DISCURSO DO REI: Título: The King's Speech Realizador: Tom Hooper Ano: 2010 ![]() Por alturas da primeira metade do século XX, o príncipe Albert, duque de York, tinha um grave problema: era gago. E um gago com mau feitio. Isso era um empecilho grave no protocolo real, para uma pessoa cuja principal tarefa era comunicar com o povo, ou não fosse o rei a voz do seu povo. Felizmente, Albert não era o primogénito do rei George V e, por isso, não iria ocupar o trono. No entanto, uma crise política levaria o seu irmão, o rei Eduardo VII, a renunciar ao trono, fazendo-o avançar um lugar na sucessão. O príncipe Albert tornava-se assim o rei George VI e Lionel Logue tornara-se o seu terapeuta da fala, ajudando-o a ultrapassar a gaguez e todo o trauma que daqui provinha. O Discurso Do Rei dramatiza de forma mais ou menos livre uma daquelas relações que o cinema tanto gosta, a dos opostos que se atraem. O príncipe/futuro rei e um terapeuta da fala australiano, com um gosto particular em se misturar com a plebe, são, à partida, dois companheiros improváveis, mas o destino leva-os a tornarem-se confidentes e amigos. O cinema está cheio de histórias destas e, uma das mais relevantes, será a de Miss Daisy: uma senhora de meia-idade, aristocrata e racista, e o seu motorista preto. No entanto,há algo de diferente na composição de O Discurso Do Rei. Quando falamos de filmes de época ingleses, lembra-mo-nos logo, qual cão de Pavlov, do porte do realismo da BBC. Mas o realizador Tom Hooper filmar O Discurso Do Rei de forma diferente, numa abordagem mais contemporânea, câmara ao ombro e planos menos convencionais, que fazem o filme fugir daquele espartilho que o protocolo de filme real exige. Em comparação, por exemplo, com A Raínha, O Discurso Do Rei é um filme transgressor, o que por si só já vale alguma coisa. Mas à parte deste formalismo pouco ortodoxo e de um jeito natural de Tom Hooper para contar a história, O Discurso Do Rei tem ainda a sorte de contar com dois actores a sério. Geoffrey Rush é o informal e até algo insolente, Lionel Logue, que dá um toque de humor ao filme e principal catalisador daquela relação com o actual príncipe e futuro rei; mas é Colin Firth, que se conseguir conjugação de filmes certos nos próximos tempos irá certamente receber o título de Sir, o principal artífice de O Discurso Do Rei. Em Um Homem Singular, Firth já havia mostrado toda a sua sensibilidade e expressividade representativa, mas aqui leva essas qualidades a um nível mais palpável e dramático. O Discurso Do Rei é um filme fácil de se gostar, com tudo no sítio certo e a seriedade típica de um filme de época, mas também sem medo de arriscar algo mais. É um daqueles filmes feito à medida dos Oscares e não é por acaso que é um dos favoritos às principais vitórias na cerimónia deste ano. No entanto, aqui neste tasco cinéfilo, somos exigentes e não nos deixamos impressionar facilmente, por isso o veredicto é o McBacon. ![]()
Posted by: dermot @
12:52 PM Quarta-feira, Fevereiro 09, 2011 KANDAHAR: Título: Safar E Ghandehar Realizador: Mohsen Makhmalbaf Ano: 2001 ![]() Até há bem pouco tempo, o Afeganistão era, para a maioria das pessoas, um país qualquer no meio do Médio Oriente, para onde o Rambo tinha viajado uma vez para ajudar os locais a guerrilharem contra os soviéticos. Depois, um afegão até então igualmente desconhecido da maioria, mandou uns aviões contra o World Trade Center e fez ruir o mundo ocidental como nós o conhecíamos. Agora toda a gente sabe que o Afeganistão é um dos berços do terrorismo, um dos principais países do Eixo do Mal, onde Bin Laden se esconde e onde os Estados Unidos andam em guerra há uma eternidade, a instaurar a democracia. Além disso, toda a gente sabe que é um país onde não existe respeito pela mulher e pela condição feminina, uma sociedade que ostraciza as mulheres, as obriga a andarem veladas pela burka e onde não têm direito de votar, de falarem, do que quer que seja. Esta opressão é complementada por uma série de literatura de supermercado sobre desfiguradas, queimadas, esfaceladas, picadas e apedrejadas. No fundo, o que sabemos do Afeganistão é quase nada. E o que sabemos é filtrado pelos órgãos de comunicação ocidentais, nomeadamente os anglo-saxónicos. Felizmente temos o cinema para nos salvar. Mohsen Makhmalbaf é um realizador iraniano, que vive no Afeganistão há muito tempo, e Kandahar é o seu filme que nos permite conhecer o país por dentro, através dos olhos dos seus habitantes. A história de Kandahar é minimal: Nafas (Nelofer Pazira) é uma afegã refugiada no Canadá, que regressa ao seu país Natal para tentar salvar a irmã, que prometeu suicidar-se no dia do eclispe solar. Para isso, precisa de chegar a Kandahar em três dias, o que não é propriamente fácil num país em que os principais meios de transporte são as carroças puxadas a burro e aquelas piaggios-triciclo e, ainda para mais, em guerra. Por isso, Kandahar é uma espécie de survivor feminino, sobre uma mulher que vai conhecendo diferentes tipos de gente ao longo do seu percurso - um miúdo pobre, que procura sobreviver a qualquer custo, um médico afro-americano que se faz passar por afegão, um aldrabão que tenta vender tudo o que arranja e um acampamento de próteses da Cruz Vermelha - e ultrapassando os vários obstáculos à medida que os encontra. Filmado de forma incógnita no deserto do Aferganistão e com poucos (nenhuns?) recursos, Kandahar é pouco mais do que amador. Contudo, Mohsen Makhmalbaf filma com uma sinceridade tão primária e objectiva, próxima do cinéma verité de Pedro Costa (a maioria dos actores são amadores e fazem deles próprios), que Kandahar torna-se numa narrativa fortíssima e de uma agressividade desconcertant. Por exemplo, o episódio da escola de sacerdotes, onde crianças são tratadas com autoridade e rigidez, faz lembrar a violência física e psicológica dos soldados em Full Metal Jacket - Nascido Para Matar; e o acampamento de próteses da Cruz Vermelha, cheio de afegãos coxos, é trespassada por um desespero palpável. Chamaram-lhe um poema trágico, o que é sempre daquelas descrições subjectivas. Mas, neste caso, até faz algum sentido. O bailado colorido das burkas, anónimas e impessoais, dá uma componente estética, mas também trascendental, a Kandahar, que é mil vezes mais forte do que qualquer livro de relatos de mulheres segregadas. Por isso, se quer saber mais sobre o Afeganistão, Kandahar é o filme certo para si e um McBacon acertado. Só é pena é terem-se esquecido de fazer o final, porque o filme termina antes de chegar ao fim. ![]() Terça-feira, Fevereiro 08, 2011 SOLDADOS DA FORTUNA: Título: The A-Team Realizador: Joe Carnahan Ano: 2010 ![]() Há uma eternidade atrás, quando as minhas tardes eram organizadas em função do que a Vera Roquete nos tinha para mostrar no mítico Agora Escolha, havia três séries que seguia religiosamente: Dempsey & Makepeace, Os Três Duques e Soldados Da Fortuna. Quando não era nenhuma destas que vencia a votação de casa, via apenas o Bocas e depois a minha tarde incluía, invariavelmente, jogar à bola lá fora. Destas três séries, a última é a única que ainda consigo ver hoje em dia do princípio ao fim, sem que tenha ficado intoleravelmente datada (quer dizer, Dempsey & Makepeace nem me dou sequer ao trabalho de rever). Por isso, Soldados Da Fortuna é um dos pilares da minha infância televisiva. Foi com o grupo de ex-soldados de elite injustamente acusados de um crime que não cometeram e fugitivos de um tribunal marcial - Hannibal Smith, Cara, Murdock, BA e, claro, o ferro de soldar que aparecia em todos os episódios - que aprendi a magicar elaborados planos com o ferro-velho da minha garagem para deter gangues de motociclistas arruaceiros ou a praticar sempre o bem perante os injustiçados e oprimidos. Eu e mais umas boas centenas de milhar de pessoas espalhadas por este mundo fora. Portanto, um filme dos Soldados Da Fortuna em 2010 é um pau de dois bicos. Por um lado, não conseguimos deixar de sentir borbuletas no estômago com a ansiedade, uma vez que é algo por que sempre ansiámos. Por outro lado, já temos idade para não nos deixarmos comer por parvos e sabemos que, muito provavelmente, o filme será uma banhada. Mas enchemo-nos de coragem e vamos lá desbaratar o folclore criado por Frank Lupo e Stephen J. Cannell naquela década do caraças que foram os anos 80. Soldados Da Fortuna é uma prequela das aventuras televisivas do grupo. É aqui que eles conhecem BA Baracus (estranhamente despromovido da sua patente de sargento), é aqui que BA fica com fobia a aviões, é aqui que aparece a célebre carrinha preta com uma risca vermelha e, claro, é aqui que os soldados de elite se tornam soldados da fortuna, acusados de um crime que não cometeram. Esse crime é uma intriga internacional complicadíssima, que envovle o Iraque, militares traidores, o exército, a CIA e muçulmanos e muitos diálogos extensos e monótonos. O grupo faz uma entrada em cena de arromba, especialmente Hannibal, com direito a theme-song e tudo, reminiscente dos heróis aventureiros das matinés de domingo - e lembramo-nos de Indiana Jones neste último seu filme. É certo que, como diz o meu colega Trash, estes não são os Soldados Da Fortuna que conhecemos: Liam Neeson não é Hannibal, aquele preto não é o BA... Mas talvez atacado pela nostalgia e pela entrada em força, não conseguimos deixar de sentir alguma simpatia por Soldados Da Fortuna. É claro que esta é uma versão musculada da série de televisão. Aqui não estamos a falar de entretenimento familiar e, por isso, eles atiram a matar. E o bodycount é altíssimo. Soldados Da Fortuna é um filme de guerra sempre no vermelho, com a testosterona no máximo que, quanto mais avança na história, maior, mais explosivo e mais rápido fica. E com o CGI não há limites: caças destruídos por um tanque com pára-quedas(!), cargueiros de contentores virados ou emboscadas com carros de alta cilindrada, helicópteros e outra maquinaria pesada. Soldados Da Fortuna começa a tornar-se cansativo, esticando uma história de informação e contra-informação que nunca na vida justifica duas horas e tal de duração. Há momentos de humor engraçados, Rampage Jackson até faz uma homenagem competente a Mr. T (vénia, vénia), que inclui uma tatuagem com pity e outra com fool e, até a coisa se perder em filme de acção fantochada com fogo-de-artífico a mais e essência a menos, é um serão interessante para se ver com o cérebro desligado. Confesso que não esperava terminar esta prosa com um McChicken, mas se tivesse que quantificar o comportamento do realizador/produtor do filme, então seria um rançoso Pão com Manteiga. Porque chamar os originais Dwight Schultz e Dirk Benedict para um cameo e depois pô-los em cenas escondidas após os créditos finais é mais feio que cuspir na sopa. ![]()
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11:37 AM Domingo, Fevereiro 06, 2011 STONE - NINGUÉM É INOCENTE: Título: Stone Realizador: John Curran Ano: 2010 ![]() Quando apareceu, em A Raíz Do Medo, Edward Norton parecia que iria ter o Mundo a seus pés. Logo de seguida, fez de uma assentada os geniais Clube De Combate e América Proibida, para depois se juntar a dois ícones da representação, Marlon Brando e Robert De Niro, no fraquinho, mas simbólico, Sem Saída. Contudo, quando tudo lhe parecia correr de feição, eis que os astros se desalinham e, desde aí, Norton só faz filmes da treta. Eis Edward Norton de volta ao ponto de partida: o de condenando que tenta convencer alguém da sua inocência. Em Stone - Ninguém É Inocente (novamente, a tradução nacional a revelar mais do que precisava), Norton é um presidiário, que após sete anos encarcerado, procura convencer Robert De Niro, agente de liberdade condicional a poucos dias da reforma, que está reabilitado. Para isso, vai atiçar-lhe a sua sensual (e louca) esposa, Milla Jovovich. O realizador John Curran lança assim os dados para um thriller psicológico, mais reflexivo do que indicador, à volta de um quadrado sentimental: um Robert De Niro conservador, que se esconde atrás de Deus e do whisky para justificar uma vida que considera insuficiente e que o consome aos poucos; a sua esposa, a passiva Frances Conroy, presa a um casamento infeliz de 35 anos; Edward Norton, manipulador, mas também manipulado pelo seu próprio jogo, já que uma epifania lhe revela o poder de Zukangkor, uma treta new-age inventada por um qualquer argumentista preguiçoso; e Milla Jovovich, a rebelde, que ama o seu marido, mas que ama ainda mais ir para a cama com outros. Como o subtítulo em português indica, nesta intriga ninguém é inocente. As suas personalidades são apenas máscaras que escondem um passado de segredos reprimidos, que vão ameaçando saltar a qualquer instante, qual panela de pressão. Era assim no film noir, um dos pilares do cinema clássico norte-americano, e é assim neste herdeiro mais ou menos indirecto. Curran dá espaço à sugestão e o silêncio ou os pequenos sinais tornam-se fundamentais para o desenrolar de um drama ao relantim. O mesmo acontece com o programa religioso que De Niro ouve, recorrentemente, no rádio, e que, apesar de parecer ser insignificante, acaba por ser um narrador fundamental para o sucesso de Stone - Ninguém É Inocente. Infelizmente, falta um terceiro acto condizente para rematar Stone - Ninguém É Inocente, já que o pathos final parece não ter a mesma força que o resto do filme. Milla Jovovich também se revela aos poucos um erro de casting, além de precisar, claramente, de comer mais, já que parece um pau de virar tripas. Talvez este McBacon já a ajude qualquer coisinha. ![]() Sábado, Fevereiro 05, 2011 RIP: ![]() 1952 - 2011
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10:46 AM Quarta-feira, Fevereiro 02, 2011 BAÚ DO TRASH: THE BLOODSTAINED BUTTERFLY: Título: Una Farfalla Con Le Ali Insanguinate Realizador: Duccio Tessari Ano: 1971 ![]() Um dos géneros que me é mais queridos no mundo do cinema é o giallo que, para quem não sabe, é o thriller/mistério italiano. Muito já papei eu disto, dos anos 60 aos 80, e, muito devido à onda trash que invadiu os Estados Unidos por essa altura, a malta em Itália decidiu começar a fazer destes filmes praticamente a metro. Existem sempre uns clássicos, mas a maior parte deles acabam por ser bastante merdosos. O assassino de luva preta, Mario Bava, Luciano Fulci e Dario Argento são, sem dúvida, os grandes nomes desta época gloriosa para o trash europeu. Mas muitos outros também tentaram, como é o caso deste Duccio Tessari, que nos traz mais um mistério que não é tão misterioso como isso e onde a sincronização do som com a imagem nunca é conseguida. Isto é tipico dos filmes italianos devido à necessidade de existir dobragem em duas línguas (italiano e inglês) e porque, normalmente, o elenco era composto por uma miscelânea de actores de diferentes nacionalidades, que quando estão a ser filmados falam na sua língua mãe. Isto até é agradavel, porque dá um ar ainda mais trash ao filme e, obviamente, as situações involuntárias de riso são de chorar. Mas vamos lá tentar fazer uma sinopse deste. Após um inicio em Bergamo, com uma miúda a percorrer as ruas, corta-se para Milão, onde uma beldade da época é morta num parque, tendo vários transeuntes visto um homem a escapar do local. Esse homem é apanhado através de uma pessoa que estava a foder no carro nessa altura e que identifica o assassino através de um programa de televisão(?). Passa rapidamente para um tribunal, onde a defesa tenta arranjar um alibi, até nos convencer mesmo a nós que aquele não é o assassino e onde, claramente, percebemos que estamos perante um bando de sodomitas que fodem uns com os outros e onde todos têm um motivo para o assassínio. Acaba por ser uma grande confusão em que não se percebe nada. Este é um daqueles filmes que, como referi ao principio, são uma bela merda, do género Happy Meal. ![]() Terça-feira, Fevereiro 01, 2011 VALHALLA RISING - DESTINO DE SANGUE: Título: Valhalla Rising Realizador: Nicolas Winding Refn Ano: 2009 ![]() Ao passar os olhos pelo blogue do Mister Red (um dos mais promissores da nossa blogosfera cinematográfica), dei-me conta de um novo filme do dinarmarquês Nicolas Winding Refn. Este é o emsmo tipo que, em 2008, nos deu Bronson, um interessabte filme que não passou comercialmente em Portugal e, por isso, passou despercebido a muito boa gente. Refn tinha então algum crédito aqui neste imodesto antro cinéfilo e, portanto, decidi dar uma oportunidade a Valhalla Rising - Destino De Sangue. Valhalla Rising - Destino De Sangue é um filme de vikings (que saudades de quando punham espanhóis a fazerem de vikings...), em particular um muito específico: é zarolho, tem as costas que parecem um passevite e é uma máquina de matar com as próprias mãos. One Eye (Mads Mikkelsen) é tão letal e perigoso que o seu dono mantém-no à distância, com umas trelas, para depois o lançar em combates a dinheiro que, invariavelmente, ganha. No entanto, se por esta sinopse ficou à espera por uma versão viking de Danny The Dog - Força Destruidora ou de um épico brutamontes tipo 300, então não podia ter ficado mais enganado. O principal termo de comparação de Valhalla Rising - Destino De Sangue tem um só nome: Terence Mallick. E como Refn leva os seus vikings para a América, numa demanda inesperada pela cristianização (fazendo uma vaga ponte ao mito da pedra de Kensington), Valhalla Rising - Destino De Sangue rima, inevitavelmente, com O Novo Mundo: um cinema contemplativo, demorado, com grandes momentos de landart à Gerry (mas ondem, infelizmente, faz falta um tripé) e uma inspiração do alheamento de Gus Van Sant, dando uma nova amplitude à psicose nórdica. No entanto, o facto de Refn diminuir uma velocidade no andamento da maior parte do filme, reduzindo os diálogos ao mínimo e trocando o som ambiente por uma banda-sonora constante feita maioritariamente de drones (os Mogwai eram para ter feito qualquer coisa, mas a agenda não os deixou), fazem de Valhalla Rising - Destino De Sangue uma acid-trip, que se aproxima mais das maluquices do Kennenth Anger. Valhalla Rising - Destino De Sangue tem tanto de diarreia mental quanto de artístico e, consequentemente, presunçoso. No entanto, devido ao final encriptado, a balança tende a pender, infelizmente, para o Cheeseburger. E digo infelizmente porque este era filme que me apetecia mesmo muito gostar. ![]() |
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