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Royale With Cheese | ||
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Título: Please Give Realizador: Nicole Holofcener Ano: 2010 ![]() Nova Iorque, a cidade que nunca dorme, uma das mais populosas dos Estados Unidos e centro nevrálgico do sistema económico mundial. E não só, também um dos centros influenciadores da moda, da cultura e do entretenimento global. Durante anos tem sido o cenário quase exclusivo dos filmes de Woody Allen, tornando-se ela própria uma personagem nos seus trabalhos. E agora é também o pano de fundo de Encontros Em Nova Iorque, de Nicole Holofcener. É neste pequeno mundo chamado Nova Iorque, em que as pessoas perderam o contacto entre si e a Natureza, e em que a aparência e a impessoabilidade se impõem cada vez mais em detrimento da essência, que vivem as personagens de Encontros Em Nova Iorque. Kate (Catherine Keener a especializar-se sempre no mesmo papel) e Alex (Oliver Platt), são um casal feliz, com uma filha rebelde em plena puberdade, que gerem um antiquário. Os dois compraram o apartamento ao lado do seu para poderem fazer dos dois um, mas têm que esperar que a sua dona morra primeiro: Andra (genial Ann Morgan Guilbert, velha rabugenta próxima do registo de Jerry Stiller em Seinfeld), uma avó com mau feitio, com duas netas (Rebecca Hall e Amanda Peet) que tomam conta de si. Numa pequena comédia dramática indie, em que a estrutura narrativa não obedece à estrutura convencional em três actos da intriga, Encontros Em Nova Iorque segue estas personagens na sua vida e nos seus encontros entre si. Oliver Platt trai a mulher com Amanda Peet, que por sua vez faz tratamentos de pele à filha de Catherine Keener, que sente remorsos de estar à espera que Ann Morgan Guilbert morra, que manipula o tempo livre da sua neta Rebecca Hall, cujo feitio é o oposto da de Ann Morgan Guilbert. Portanto, a trama move-se em círculos, já que tudo na nossa vida é um enorme círculo: tudo compreende um ponto de partida e um de chegada. Encontros Em Nova Iorque é um filme sobre a perda e a falta de contacto humano, mas é também um filme sobre a passagem do tempo e a morte. Catherine Keener preocupa-se demasiado com o Mundo e com a inevitabilidade de que a nossa passagem por cá e efémera e não deixa marca; o seu marido sente-se velho e por isso enrola-se com uma bimba mais nova; Amanda Peet enrola-se com qualquer um porque vê-se a ir para velha e não consegue arranjar alguém; e todos eles, sem excepção, estão à espera que Ann Morgan Guilbert morra, seja par se libertaem daquele fardo, seja para ocuparem o seu apartamento. Aparentemente, Encontros Em Nova Iorque é um daqueles filmes em que nada acontece, apenas o relato do quotidiano de pessoas normais e iguais a nós próprios, mas no fundo sentimos que algo se alterou... em nós(!). E, de forma circular, Encontros Em Nova Iorque encerra de forma natural e fluída, terminando com elegância um filme simpático e com grande precisão cirúrgica. É como naqueles dias em que dizemos que não temos fome, mas acabamos por nos surpreender a nós próprios com a facilidade com que enfardamos o McBacon. ![]()
Posted by: dermot @
10:39 AM Quinta-feira, Janeiro 27, 2011 O DEMÓNIO: Título: Devil Realizador: John Erick Dowdle Ano: 2010 ![]() Quando nos tentam impingir um filme com o argumento de que é uma história do M. Night Shyamalan devemos desconfiar. Será que o melhor que o filme tem para nos oferecer nem é sequer quem escreveu o argumento, mas sim o tipo que teve a ideia para a história? É que até como estratégia de marketing a táctica é discutível, uma vez que o crédito Shyamalan já há muito que se esgotou. No entanto, também podemos ver a coisa pelo lado positivo. Ao menos, O Demónio não é tão rebaixado quanto Skyline - Os Alvos Somos Nós, anunciado como o filme dos criadores dos efeitos-especiais(!) de Avatar. O Demónio arranca com uns planos aéreos de Filadélfia que, como nós sabemos desde A Sinfonia De Uma Capital, é como se Deus estivesse a observar a cidade-fetiche das histórias de mistério de Shyamalan. No entanto, os planos estão de pernas para o ar. E toda a gente sabe que Deus invertido só pode ser coisa do Diabo. Além disso, já todos vimos A Queda e, por isso, quando vemos a câmara a pairar por entre os arranha-céus, percebemos que qualquer coisa maligna está a vir das profundezas do inferno para nos visitar, infelizes mortais. Esse demónio é o Diabo em pessoa, que às vezes assume a forma humana para brincar e castigar os pobres homens. E, por isso, vai encurralar num elevador uma série de cretinos pecadores - uma ladra, uma mentirosa, um burlão, um agressor e um aparente bombista -, os quais vai manipular e assassinar. Tudo isto é explicado tim-tim por tim-tim por um segurança mexicano estereotipado, não fosse algum espectador não perceber o óbvio, enquanto um polícia com fantasmas passados recentes tenta salvar aquela gente toda. O Demónio é um thriller psicológico, com laivos de terror, que encurrala o espectador num elevador com cinco vítimas. Contudo, nunca chega a ser realmente claustrofóbico (lembram-se de Cabine Telefónica?) porque passa mais tempo cá fora, junto ao polícia salvador, do que com aqueles que tentam salvar-se das garras afiadas do Diabo. Contudo, apesar de não ter a mestria de um mestre do suspense, como o próprio M. Night Shyamalan, O Demónio acaba por ter um je ne sais quoi de episódio de Quinta Dimensão (a grande inspiração da obra - ou pelo menos da melhor parte dela - de M. Night Shyamalan) e uma economia de série b que lhe dá um ar especial. O problema de O Demónio é que o seu realizador, John Erick Dowdle, limita-se a construir a história sem a ilustrar realmente. Falta-lhe um pouco de ambição, para que não se perca no esquematismo do argumento, como no final, quando joga a sugestão às urtigas e nos apresenta, em pessoa, o próprio Belzebu. No entanto, limita-se a escurecer os olhos a uma velhinha, que continua com a mesma voz de avó que tinha antes, fazendo de O Demónio mais um exercício fílmico do que um filme a sério. E para exercício, já John Erick Dowdle tinha feito o remake americano de [Rec]. Ah, é verdade, esqueci-me de dizer que este texto está carregadinho de spoilers. Pelo menos lembrei-me de avisar antes de chegar ao fim, onde remato esta prosa com um McChicken. ![]() Quarta-feira, Janeiro 26, 2011 ANVIL! THE STORY OF ANVIL: Título: Anvil! The Story Of Anvil Realizador: Sacha Gervasi Ano: 2008 Anvil. O mais certo é o nome não lhe dizer absolutamente nada. Mas se diz, das duas uma: ou o caro leitor é um metaleiro da década de 80 ou então é porque esteve no Japão, em 1984, durante o gigantesco Rock Festival, que juntou no mesmo estádio os então gigantes do heavy-metal Bon Jovi, Scorpions, Whitesnake e... Anvil. Filhos de uma época em que o heavy-metal e o rock'n'roll rimavam com grandes permanentes (um flagelo chamado hair-rock), solos azeiteiros e roupas que misturavam lantejoulas e motivos medievas, os Anvil foram grandes durante um ano e pouco. E depois desapareceram. Anvil! The Story Anvil começa precisamente por aí, com imagens de arquivo do Rock Festival e umas legendas a lembrar que esse festival foi um momento decisivo na carreira daquelas bandas, que a partir dali venderam milhões. Todas elas, excepto uma. Ninguém consegue explicar porquê, mas a acreditar nas palavras de uma série de notáveis que desfilam no arranque do filme - Lars Ulrich, Slash, Lemmy... - não foi pela falta de qualidade. Este documentário vai então em busca do que estão a fazer hoje em dia os Anvil. E o realizador Sacha Gervasi encontra-os no Canadá, envelhecidos, com menos cabelo, casados e com empregos "normais". Num registo de cinema verdade, acompanhamo-los pelo seu dia-a-dia, entre o trabalho e... um concerto num bar da cidade. Elah, então os velhotes ainda rockam? Rockam, já na casa dos 50 anos, é certo, mas os Rolling Stones ou os The Who são mais velhos e continuam aí finos para as curvas. O problema é que os Anvil estão parados no tempo. Fiéis ao hair-rock, os Anvil continuam a ensaiar (agora com dois membros novos desde os anos 80), a gravar discos caseiros (uma discografia de doze álbuns), a fabricar merchandise oficial e a dar concertos nas redondezas, para fãs hardcore, com idade para ter juízo e ar de quem não tem muitos amigos (nem sexo regularmente). A coisa tem a sua piada, mas rapidamente começa a ganhar contornos trágicos, quando nos apercebemos que Lips e Robb Reiner, os dois membros fundadores e amigos de infância, continuam a levar aquilo a sério. Muito a sério. E a acreditar piamente que ainda poderão repetir o sucesso dos anos 80. Como ainda por cima a vida é madrasta, a banda vai receber alguns sinais de que algo pode acontecer. Como quando onhecem pela internet uma manager holandesa, fã de longa data, que os leva por uma digressão europeia. Claro que a dedicação dela é mais coração do que cabeça e, apesar de meia dúzia de festivais de médio porte, começamos a acompanhar a banda por uma digressão de datas em bares manhosos, a tocarem para uma audiência de cinco pessoas e o promotor a fugir com o dinheiro (ou com a falta dele) no final. Como se isso não bastasse, acontece-lhes de tudo, desde os casos mais curiosos (concertos promovidos com cartazes escritos à mão com um marcador preto) aos mais infelizes (perderem um avião ou não terem comboio por estarem todos esgotados). Apesar de ser um documentário, Anvil! The True Story não se faz de entrevistas, mas antes do acompanhamento do que se vai passando. E nós vamos seguindo aqueles homens cinquentões, que continuam a acreditar que um produtor qualquer poderá estar no próxmo concerto e voltar a colocá-los na ribalta, enquanto se enterraram cada vez mais. Anvil! The True Story parece-se assustadoramente com This Is Spinal Tap. E digo assustadoramente porque a diferença é que aqui é bem real. E, o mesmo que em This Is Spinal Tap era divertido, aqui é triste. Muito triste. E cruél. Apesar de documentário, Anvil! The True Story é mais triste do que um drama qualquer. Ao pé dele, A Lista De Schindler é uma brincadeirinha de crianças. Que se lixe o sofrimento dos judeus, isto é muito mais real! A peça central de todo este sofrimento é Lips, o vocalista e fundador da banda, uma espécie de criança grande, que continua a acreditar que o destino lhes vai dar razão, mais cedo ou mais tarde, e que até agora todos os revés que tiveram foi devido simplesmente ao azar ou aos "malvados" produtores da "malvada" indústria musical. Apetece lembrar-nos daquela revista americana que considerou que a Vanda, no Juventude Em Marcha, era uma das melhores actrizes do ano e dizer que Lips é o melhor actor dramático de sempre. É, sem sombras de dúvidas, um dos melhores documentários da história do cinema e, portanto, um Royale With Cheese. Que outro documentário nos faz comover, rir e chorar, de forma tão sincera, como este? ![]() Segunda-feira, Janeiro 24, 2011 BAÚ DO TRASH: PAGAFANTAS: Título: Pagafantas Realizador: Borja Cobeaga Ano: 2009 ![]() Mais uma pérola do cinema e da comédia espanhola, um must see de parvoíce com apenas 79 minutos. Enfim, um must see não direi, mas que até é divertido isso sim, é. Ou seja, se não tiverem dinheiro nas contas de poker online, a namorada não estiver para vos fazer uma mamada, a televisão não estiver a dar bola e os amigos estiverem todos fora, metam este no dvd em vez de começarem a organizar a vossa colecção de vídeos porno. Mas atenção que este é para quem percebe espanhol bem, porque se falam apenas portinhol de Badajoz... estão fodidos. O início é muito bem conseguido, com um programa de TV que parece ser do Leste Europeu e onde são explicados alguns conceitos em espanhol. O primeiro é "fazer uma cobra", que, na realidade, é quando saltamos à boca de uma rapariga e ela inclina-se para trás para nós não a conseguirmos beijar. Corta para Chema, o nosso pseudo-herói, que não passa de um tonto que poderia ter estudado mecânica em qualquer universidade da Beira e que acabou com a namorada e começa a sair que nem um maluco com o seu amigo, também com pinta de tonto social. A coisa não corre muito bem e é ai que conhecemos as personagens da vida de Chema: uma avó com uma doença terminal que lhe ocupou o quarto, uma mãe um pouco neurótica e um amigo de família para o qual ele trabalha numa loja de fotos (sem fotos digitais) (Mas porque não vendes camaras digitais? Porque não prestam! Mas toda a gente as compra não é? É, mas toda a gente compra droga e não é por isso que eu a vendo aqui na loja pois não?. Já estão a ver o estilo dos diálogos, a lembrar Torrente ou Alex de la Iglesia. Mas porque é que este não se transforma instantaneamente em clássico de (mega)culto? É simples: porque falha na parte básica, ou seja, no argumento central. Chema conhece uma miúda argentina bem tesudinha, pela qual rapidamente se apaixona, mas que no final apenas quer ser sua amiga, e é nisso obviamente que ele se torna. Depois temos uns quantos gags a gozarem com esta situação, até a um final em que o realizador deve ter ido à casa de banho e despejado todo o pó que tinha e metido pela narina a dentro, estilo Scarface. Podia ter sido um grande filme. Aliás, tinha todos os factores para o ser: enredo engraçado, gaja tesuda, gags bem idealizados, personagens hilariantes... Mas o realizador decidiu deitar tudo a perder, provavelmente devido ao seu vício em anãs hermafroditas e heroína. É pena, por isso apanha apenas um Double Cheesburger. Se bem que a actriz argentina, Sabrina Garciarena, apanhava mas era com o mastro. ![]() Domingo, Janeiro 23, 2011 VAIS CONHECER O HOMEM DOS TEUS SONHOS: Título: You Will Meet A Tall Dark Stranger Realizador: Woody Allen Ano: 2010 ![]() Woody Allen está de regresso a Londres. E, para o seu quarto filme na capital inglesa, levou na bagagem o costume: o seu bom gosto pela ópera, a literatura e a arquitectura contemporânea; o jazz clássico, especialmente os standards das big bands; e o seu cinema simples, de personagens reais e situações quase circunstanciais do quotidiano (e que hoje se tornaram quase numa imagem de marca daquilo a que se convencionou chamar de cinema indie). Vais Conhecer O Homem Dos Teus Sonhos é, como a maioria (todos?) dos filmes do mestre norte-americano, uma história sobre a vida e a natureza do ser humano, numa análise rápida, mas mais certeira do que parece à primeira vista. A culpa é do estilo nervoso de Allen, cujas personagens reflectem sempre o seu carácter neurótico e obsessivo, e que, maioritariamente, fazem as situações descambar naquele circo felliniano em que a câmara move-se por entre os actores em demorados long shots feitos de diálogos rápidos e inteligentes. Neste campo, Allen volta a dar-nos alguns dos seus melhores momentos, especialmente aqueles em que entra o tirângulo composto pelo casal Naomi Watts e Josh Brolin e a mãe da primeira, Gemma Jones. Woody Allen volta a não participar como actor, mas como de costume há um duplo seu. Desta vez é Anthony Hopkins, que tal como Jack Nicholson, também já chegou à idade de representar tipos com crises de meia-idade. Aqui, a menopausa vai fazê-lo pedir o divórcio da sua esposa de longa data, tornar-se metrossexual e arranjar para noiva uma prostituta novinham, com mamas grandes e cérebro pequeno. Mas Hopkins é apenas a ponta do iceberg, num conjunto de personagens todos relacionados por laços familiares ou de amizade, que têm algo em comum: de uma forma qualquer e por um motivo ou por outro, são pessoas que chegaram a um ponto da sua vida em que se vão interrogar sobre o futuro e optar por uma mudança brusca na vida. Vais Conhecer O Homem Dos Teus Sonhos acaba por fazer uma análise desapaixonada da vida, mas extremamente realista, lembrando-nos quão aleatório é o destino e efémera é a especificidade da vida humana e daquela coisa a que todos almejamos e a que chamamos felicidade. Qualquer que seja o caminho que sigamos ou as escolhas que façamos, a nossa felicidade depende de nós e da nossa consicência. E é por isso que a maioria das personagens de Vais Conhecer O Homem Dos Teus Sonhos termina mal o filme. E, num golpe que não esperávamos de um ateu como Woody Allen, a personagem que se safa é aquele que se agarra à fé, mesmo que seja uma crença no oculto e numa farsante, sublinhando essa coisa da aleatoriedade do destino. Woody Allen lança um filme por ano, num ritmo de trabalho non-stop e, por isso, percebemos que não é realizador para se preocupar muito com os seus filmes. Interessa-lhe sobretudo as histórias que conta e as personagens que cria e, por isso, o filme é apenas uma ferramente narrativa, recorrendo a artifícios que lhe permitam avançar na história, não tendo problema em recorrer a um narrador sempre que é preciso preencher algum buraco ou utilizar uma analepse preguiçosa para dar um salto no tempo. No entanto, fá-lo de forma tão natural que já nem nos questionamos. No final, é que Allen volta a terminar de forma abrupta, como se se tivesse desinteressado do seu próprio filme. E, normalmente, é isso que faz com que alguns dos seus filmes sejam denominados de menores. No entanto, é sabido que um Allen menor é sempre maior do que a maioria dos bons filmes que por aí andam. E este McBacon está aqui para o comprovar. ![]() Quinta-feira, Janeiro 20, 2011 A TEMPO E HORAS: Título: Due Date Realizador: Todd Philips Ano: 2010 ![]() Quando vi A Ressaca confesso que cheguei a ficar preocupado comigo mesmo. Depois de todo o buzz à volta do filme, a comédia-sensação de 2009, pus-me a ver A Ressaca e apenas sorri uma vez durante todo o filme. No entanto, quando cheguei ao fim, pus-me a pensar realmente naquilo e cheguei à conclusão que, afinal, não tisa sido um sorriso, mas apenas um esgar nervoso. Oh diacho, pensei de mim para mim, que raio se passa comigo? Será que A Ressaca é demasiado inteligente para mim ou o pessoal está cada vez menos exigente no que diz respeito ao humor? Por isso, a estreia de A Tempo E Horas, o novo filme de Todd Philips, inesperadamente transformado no novo realizador de comédias favorito de Hollywood, passou-me ao lado. Entretanto, apanhei uma entrevista dele algures, em que dizia que A Tempo E Horas era melhor que A Ressaca por um simples razão: porque era verdadeiramente sobre alguma coisa. Inesperadamente, convenceu-me. E, mais uma vez, voltei a ficar preocupado comigo mesmo. Mas porque é que sou tão facilmente sugestionável? Agora que já vi A Tempo E Horas, tenho uma novidade para Todd Philips. Afinal, o seu novo filme, tal como A Ressaca, não é propriamente sobre alguma coisa. Filmes em que dois tipos muito diferentes entre si têm que fazer uma viagem juntos há aos pontapés e até criaram um subgénero muito específico: os road movies. Aliás, o próprio Philips sabe isso porque é ele o realizador de Road Trip - Sem Regras. Eu até sou capaz de dar outro exemplo de um road movie igual a este: Antes Só Que Mal Acompanhado, o clássico em que Steve Martin e John Candy tentavam chegar a casa a tempo e horas do Dia de Acção de Graças (a tempo e horas, perceberam a referência?). Aqui, os dois tipos diferentes são Robert Downey Jr. (a provar que é capaz de fazer qualquer filme valer a pena), um empresário yuppie e bem sucedido, e Zach Galifianakis (a nova coqueluche da comédia, que nem ele sabe ainda bem como), uma criança grande aspirante a actor, que têem que atravessar os Estados Unidos para chegarem a Los Angeles a tempo do primeiro assistir ao nascimento do seu primeiro rebento. Como em qualquer road movie, filmes de viagens que compreendem, inevitavelmente, um ponto de partida e um de chegada, está implícito um ritual de passagem de qualquer espécie. Em A Tempo E Horas isso passa-se com o ritual de crescimento dos dois personagens, que não só se descobrem um ao outro, como se descobrem a si próprios. Além disso, como estamos a falar de uma coméia buddy movie, a estrutura de A Tempo E Horas obedece a uma sucessão de peripécias, cada vez mais absurdas e improváveis, apesar de não ser tão aleatório quanto A Ressaca. E agora a grande revelação. Afinal, A Tempo E Horas é bem mais divertido que A Resscada. Sem ser propriamente uma comédia para gargalhar, é um filme engraçado e com momentos bem esgalhados (em grane parte, ter Robert Downey Jr. é meio caminho andando), como o cão masturbador ou uma das melhores cenas de trip desde Taking Woodstock (se bem que ninguém alucina com erva, mas pronto). A Tempo E Horas é um giro McBacon, mas nem por sombras Todd Philips se tornará num vulto da comédia contemporânea. ![]() Quarta-feira, Janeiro 19, 2011 I'M STILL HERE: Título: I'm Still Here Realizador: Casey Affleck Ano: 2010 ![]() Em 2008, contra todas as previsões, Joaquin Phoenix anunciou ao mundo que se iria retirar da representação para se dedicar ao hip-hop. A justificação? Phoenix estava cansado da fama e sucesso e queria ser ele próprio. De repente, o mundo ficou boquiaberto. E, pouco depois, quando este começou a aparecer em público de forma desleixada (tu não desististes do cinema, desististe foi da tua higiene pessoal, atirou-lhe David Letterman às tantas), com ar de drogado e falando à arrumador de carros, toda a gente temeu que o actor atormentado seguisse os passos do seu irmão, River, e se perdesse para sempre. No entanto, Casey Affleck andava sempre atrás com uma câmara de filmar e, como o povo não é parvo, toda a gente viu que aquilo não passava de uma farsa. Assim, depois do choque inicial, o pessoal riu da piada e deixou de ligar. Phoenix e Affleck não desistiram, insistiram na piada e levaram-na até ao fim, até não a conseguirem esticar mais. E quando já ninguém se lembrava deles, lançam I'm Still Here, filme que regista esse ano de mudança de Phoenix. Como ninguém lhes estava a ligar nenhuma, anunciaram então ao mundo - e sem qualquer spoilers alert - que tudo tinha sido uma partida. Por isso, ver agora I'm Still Here é como ver O Sexto Sentido sabendo que Bruce Willis é um fantasma ou que o Edward Norton e o Brad Pitt são a mesma pessoa, no Clube De Combate. Assim, I'm Still Here é uma performance a Andy Kaufman. Sob o pretexto de fazerem uma sátira ao universo das celebridades, ao mundo vampiresco dos tablóides e à exploração exaustiva das estrelas, colocando-se eles próprios à análise sobre-exaustiva do público, Joaquin Phoenix e Casey Affleck embarcam num mockumentário de situações e personagens reais. I'm Still Here não foge, portanto, a parentes próximos como Borat ou Brüno, mas procura ser mais arrojado, pois implica que o seu protagonista - Phoenix, claro - transforme a sua própria vida no filme. A ideia é boa, admitimos, e eu até gosto particularmente deste tipo de mockumentários. Também temos que louvar a coragem. Mas I'm Still Here não funciona. Quer dizer, funciona, mas apenas nos momentos em que Joaquin Phoenix interage em situações reais e não forjadas. Como na mítica entrevista ao David Letterman, que correu mundo no youtube e que levou Ben Stiller a proporcionar-nos um dos melhores momentos da história da cerimónia dos Oscares, ou as aparições públicas em concertos desafinados que, invariavelmente, não passavam do primeiro tema. E, mesmo assim, nem tem tanta piada assim, porque Phoenix criou um boneco giro, mas depois nem se esforça, limita-se a sê-lo e a ver o que acontece. A excepção é a tal cena no talk-show do Letterman, mas porque quem tem graça é o David Letterman e não Joaquin Phoenix. Quanto ao resto de I'm Still Here é apenas um apanhado de cenas banais e, a maioria, aleatórias, de Joaquin Phoenix a drogar-se, a contratar prostitutas, a discutir, a ficar cada vez mais gordo, a ficar cada vez mais barbudo e, especialmente, a falar muito sem se perceber nada do que diz. Casey Aflleck confessou-se influenciado pelo trabalho de Gus Van Sant, com quem trabalhou no contemplativo Gerry, e nós percebemos porquê. I'm Still Here lembra-nos o cinema alheado de Gus Van Sant e ver Joaquin Phoenix perdido faz-nos lembrar Michael Pitt a deambular por Last Days - Últimos Dias. Mas em pior. I'm Still Here é, portanto, uma piada sem graça e esticada por mais de hora e meia. E Joaquin Phoenix perdeu um ano de vida para fazer este Happy Meal que nem quinhentos paus vale. Terça-feira, Janeiro 18, 2011 O AMERICANO: Título: The American Realizador: Anton Corbijn Ano: 2010 ![]() O holandês Anton Corbijn é um dos mais conceituados fotógrafos da indústria musical da actualidade. O seu trabalho com os U2 deverá ser o mais próximo do público português em geral (especialmente depois de ter internacionalizado o cenário pós-industrial barreirense, depois de mil e uma bandas góticas e de metal da margem sul o terem feito durante anos a fio, sem ninguém lhes ligar nenhuma), mas a carreira de Corbjin foi feita ao lado dos Joy Division e dos Depeche Mode. O vídeo de Enjoy The Silence, por exemplo, é seu, assim como o conceito da imagem da banda de Ian Curtis. Por isso, ninguém estranhou quando Corbijn realizou Control, o biopic dos Joy Division, porque apesar de nunca ter realizado uma longa-metragem, o holandês já tinha feito dezenas de telediscos. E, ao fim e ao cabo, Control era uma espécie de teledisco dos Joy Division expandido. Por isso, bem mais estranho é O Americano, com Anton Corbijn a realizar um policial europeu. O americano do título é George Clooney, devidamente a entremear uma carreira entre Hollywood e filmes de autor, um assassino que, ao ser encontrado por uns inimigos suecos, se refugia num vilarejo perdido na costa italiana, onde lhe é encomendado novo trabalho. Ao mesmo tempo, Clooney vai às putas e, depois de fazer vir-se Violante Placido, esta apaixona-se por si. Os sentimentos de Clooney são recíprocos, mas o facto de (aparentemente) andar a ser perseguido (ou não) fazem-no entrar numa espiral de paranóia que pode deitar tudo a perder. Num ritmo lento e pausado, O Americano desenvolve-se de forma contemplativa, com poucos diálogos, contribuindo para o acumular de uma perigosa tensão psicológica. Isso, aliado à fotografia de Corbijn, rima com o cinema do alheamento de Antonioni, especialmente com Profissão: Repórter, filme sobre a identidade e, de alguma forma, de temática semelhante. O background de fotógrafo de Corbijn reflecte-se em O Americano, numa fotografia estilizada e bastante equilibrada, que fazem de cada plano uma polaroid impressionista. O Americano remete também para aquele clássico dos policiais neo-noir (aqueles em que o protagonista é sempre um anti-herói, de moralidade duvidosa), que é o pós-nouvelle vague O Ofício De Matar, especialmente pelo seu ritmo pausado e pelos seus silêncios (assim como a cara de enjoado de Clooney, a emular a de Alain Delon). No entanto, é nesta comparação que O Americano também perde, porque falta a Corbijn a capacidade de criar a mesma atmosfera de Melville, negra e espessa. O Americano é demasiado flat para o sentirmos a oprimir-nos, da mesma forma que a paranóia de Clooney o vai deixando cada vez mais desconfiado e assustado. Contudo, isto não belisca a excelente prestação de O Americano, um policial sóbrio e bastante físico, com um cartaz belíssimo e várias mensagens subliminares sobre a nacionalidade americana de Clooney, como o Tu vuò fà l'americano a dar na rádio num café italiano. Mesmo assim, apesar do McBacon, aconselho Anton Corbijn a não deixar o seu emprego de dia. ![]()
Posted by: dermot @
10:12 AM Domingo, Janeiro 16, 2011 ESPECIAL MONTY PYTHON: E porque, em 2011, ainda há gente que não conhece ou nunca viu nada dos Monty Pythons, eis o serviço público do Royale With Cheese, com um especial sobre todos os filmes dos Gato Fedorento ingleses. MONTY PYTHON E O CÁLICE SAGRADO: Título: Monty Python And The Holy Grail Realizador: Terry Jones & Terry Gilliam Ano: 1975 ![]() Os Monty Python são um grupo de seis tipos ingleses que são uma espécie de Gato Fedorento inglês, mas com duas diferenças: também sabem representar e já faziam o que o Gato Fedorento faz hoje antes da trupe de Ricardo Araújo Pereira saber sequer falar. Assim, depois de cinco anos a construírem uma instituição de culto, que entre nós foi traduzida como Os Malucos Do Circo, o sexteto inglês tinha reunido o crédito suficiente para fazer a sua primeira longa-metragem: Monty Python E O Cálice Sagrado. Como o título indica, os Monty Python atiram-se ao folclore britânico, nomeadamente à mítica lenda do Rei Artur, do reino de Camelot, os seus cavaleiros da Távola Redonda e uma busca pelo sagrado Graal (muitos anos antes de O Código Da Vinci, claro). Graham Chapman faz de Rei Artur, mas também de mais outras quatro personagens, tal como o resto do grupo, que se multiplica pelos vários bonecos que vão criando. A novidade aqui é que não há homens a fazer de mulheres, algo que se tornaria também numa imagem de marca do grupo. Em Monty Python E O Cálice Sagrado existem mesmo actrizes sempre que necessário. Os Monty Python constróem o filme numa sequência de gags que acompanham, de forma livre, a cronológica história do Rei Artur. Não há propriamente um fio narrativo consistente e, portanto, Monty Python E O Cálice Sagrado aguenta-se como um conjunto de sketches, com um humor inteligente, mas também absurdo e non-sense. É a sillyness característica do grupo, num humor ainda mais seco que o próprio humor britânico e que, anos mais tarde, os irmãos Zucker iriam adoptar naquilo que ficou conhecido como o ZAZ style (olá Ultra Secreto). E para a posterioridade ficam duas cenas, perpetuadas pelo maravilhoso mundo do youtube: o duelo sangrento entre Artur e o Cavaleiro Negro e a prova para atravessar a Ponte da Morte. Terry Jones e Terry Gilliam dividiram a cadeira da realização e, segundo consta, a demanda não correu propriamente bem, com vários diferendos entre os dois. Por isso, a parelha nunca mais seria repetida. No entanto, é inquestionável o contributo de Gilliam na direcção de Monty Python E O Cálice Sagrado, numa abordagem cinematográfica que não voltaria a ser vista na obra do grupo. Como aquele plano em que, em fila indiana, o Rei Artur e os seus cavaleiros cavalgam no horizonte, com um crânio em primeiro plano, como que macacos a saírem do seu nariz. Um plano que tem Terry Gilliam escrito em todo o lado e que é arte, cinema e humor ao mesmo tempo. Monty Python E O Cálice Sagrado, apesar do baixo orçamento, tenta imitar uma solenidade de filme televisivo de prestígio (olá BBC), mas depois de uma abertura em que o genérico sóbro, com legendas suecas (olá Ingmar Bergman), se transforma numa rambóia de mariachis e piñatas, dinamita qualquer tentativa de parecer sério. O grupo contorna então as limitações do orçamento da melhor maneira. Não há cavalos? Não faz mal, mete-se um tipo a caminhar atrás dos cavaleiros e a bater dois cocos um no outro, qual foley artist. E quando não há bonecos de peluche ou cenários de cartão que os valham, Terry Gilliam saca de sequências de animação brutais, entre o vitoriano e a stop motion insana. Como um episódio longo de Os Malucos Do Circo, Monty Python E O Cálice Sagrado é um McRoyal Deluxe cheio de pequenos Royale With Cheese espalhados lá pelo meio. ![]() A VIDA DE BRIAN: Título: Life Of Brian Realizador: Terry Jones Ano: 1979 ![]() Depois do sucesso de Monty Python E O Cálice Sagrado, o grupo não só se consolidou como o maior e o mais importante colectivo humorista da Inglaterra e arredores, como ganhou o legítimo direito de gozar com qualquer assunto que quisesse. Por isso, não foi de admirar que o seu projecto seguinte fosse A Vida De Brian, derradeira sátira sobre a religião, o cristianismo e a vida de Jesus Cristo. Claro que o filme acabou banido em vários países (na Noruega, por exemplo, o que levou a sua vizinha Suécia a publicita-lo como o filme tão divertido que os noruegueses até o baniram, num rarocaso de humor sueco), o que apenas ajudou a consolidar o seu estatuto de obra ímpar na história da comédia. Assim, 4 anos após a busca pelo Santo Graal, os Monty Python foram à procura da Terra Santa. No entanto, como ficava muito caro ir até Jerusalém, aproveitaram as sobras dos cenários de Jesus Da Nazaré e viajaram para a Tunísia, dividindo entre si a maioria das personagens do filme (há ainda cameos do beatle George Harrison e do comediante Spike Milligan, tendo Keith Moon morrido afogado no seu próprio vómito antes de poder participar e George Lazenby não ter tido disponibilidade de agenda para fazer de Jesus Cristo em pessoa) e entregando a realização, exclusivamente, a Terry Jones, de forma a evitar os atritos com Terry Gilliam, como havia acontecido durante a parceria de ambos em Monty Python E O Cálice Sagrado. Numa variação da história da Natividade e de Jesus Cristo, Brian (Graham Chapman) é um judeu da Galileia, que fica logo fadado a um destino messiânico quando os três reis magos se enganam no estábulo no dia do nascimento do menino Jesus. Depois, junta-se à resistência judaica contra a ocupação romana, porque os romanos nunca fizeram nada por nós, excepto as estradas, a saúde pública, a educação, o saneamento básico e a paz, torna-se profeta por acaso (aconteceria o mesmo a Jeff Goldblum no genial e subvalorizado The Favour, The Watch And The Very Big Fish) e acaba pregado a dois pedaços de pau, num momento inesquecível em que todos os crucificados cantam aquela clássica canção, Always Look At The Bright Side Of The Life. A Vida De Brian é uma paródia acutilante aos filmes bíblicos (e começa logo por destroçar essa solenidade com Terry Gilliam enquanto mãe de Brian e a maioria das personagens a fazerem vozes e sotaques esquisitas - alguém mencionou Pilatos com dificuldade em dizer os éles?), mas é, sobretudo, uma sátira inteligentíssima não só à religião e ao cristianismo, mas também à fé. A Vida De Brian pode não ser tão imediato quando o humor de Monty Python E O Cálice Sagrado, mas não há nenhuma cena em que o humor não seja requintado, subversivo e/ou subliminar. Mas isso não significa que não haja sillyness, absurdo e non-sense, imagens de marca do grupo inglês, como aquela sequência em que uma nave espacial passa pelo filme(!). E cenas como Pilatos a discursar com o seu grande amigo, Biggus Dickus(!), perante uma plateia de judeus e soldados romanos a rirem a bandeiras despregadas, são absolutamente míticas. Além disso, continua ainda mais seguro ao brincar com as limitações do orçamento e do cenário, aproveitando esse percalço para mais uma ferramenta humorística. Portanto, A Vida De Brian não é apenas o melhor filme dos Monty Pythons, é também a melhor comédia de todos os tempos d.C. E, como acontece neste imodesto antro cinematográfico sempre que qualquer filme é superlativado, esta prosa opinativa termina com um Royale With Cheese. ![]() O SENTIDO DA VIDA: Título: The Meaning Of Life Realizador: Terry Jones Ano: 1983 ![]() Quatro anos depois do enorme sucesso de A Vida De Brian, pressionados para fazerem novo filme, os Monty Python lá magicaram uma forma de colocarem juntos uma série de sketches dispersos, com pouca relação entre si. Propuseram-se então descobrir o sentido da vida, baseando-se livremente nas sete idades do Homem, indicadas por Shakespeare. Foram ter com os produtores e leram um poema escrito por eles, em vez de apresentarem qualquer argumento ou ideia. Inesperadamente, deram-lhes o dinheiro para o filme, o que só mostra o respeito que o grupo nutria. Assim, ao contrário de Monty Python E O Cálice Sagrado de A Vida De Brian, O Sentido Da Vida não tem uma história coerente, limitando-se a agrupar vários sketches, mais ou menos independentes entre si, sob o pretexto de descobrir um significado para a vida terrena. Ou seja, é o mesmo que dizer que, recorrendo à estrutura de Os Malucos Do Circo, os Monty Python voltam a parodiar tudo e todos, da religião à política, com o mesmo humor inteligente, seco e absurdo que os caracterizaram. Nesta série de sketches, há piadas para todos os gostos (e até algumas sem graça). Entre as míticas está a de Mr. Creosote, o obeso Terry Jones que come (e vomita) até rebentar (literalmente), ou a de Terry Gilliam a doar um rim quando ainda está vivo(!). Depois há aquele clássico do surrealismo, magicado pela mente demente de Gilliam, conhecido por Find the fish, em que um homem com longos braços, um elefante e um drag queen(!) desafiam o espectador a encontrar um peixe(!!), num momento wtf, que prima por não ter qualquer explicação. E O Sentido Da Vida tem, desde Always look on the bright side, o melhor tema musical dos Monty Python: All sperm is sacred, cantado em coro por dezenas de crianças, num sketch megalómano que consumiu quase todo o orçamento do filme. O Sentido Da Vida abre ainda com uma curta-metragem independente do próprio filme, realizada por Gilliam. A Segurada Permanente Crimson, em que um grupo de mediadores de seguros arma um motim e, qual bando de piratas, navega num prédio por entre a alta roda das finanças norte-americanas, era para ser um sketch de Terry Gilliam, mas como o próprio explicou, ninguém o mandou parar e ele foi continuando até aquilo se transformar numa curta de 15 minutos. Portanto, O Sentido Da Vida é o menos coerente e mais caótico filme dos Monty Pyhton, aquele em que se limitaram a divertir-se e a fazerem o que sabiam fazer melhor: fazer rir. Não é bem um filme, mas verdade seja dita, os anteriores também não eram. Vale um McBacon. ![]()
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10:45 AM Sexta-feira, Janeiro 14, 2011 BAÚ DO TRASH: PURANA MANDIR: Título: Purana Mandir Realizador: Shyam Ramsay & Tulsi Ramsay Ano: 1984 ![]() Há uns meses atrás recebi um daqueles livros de pseudo-cineastas chamado 333 that will scare you to death e, ao desfolha-lo, percebi que já tinha visto 90 por cento do que para ali andava. Contudo, encontrei pelo meio um filmezinho indiano que, segundo o autor, era o melhor filme de terror de Bollywood, apesar de existirem muitos muitos muitos. Para quem já viu, sabe que a experiência de ver um filme indiano, seja ele qual for, de que género for e em que sítio for (lembro-me que o Cine 222 tinha sessões deste cinema a copiarem edições americanas do mesmo) is in for a treat. Normalmente com muita dança e cantoria. Ora, este Purana Mandir não é excepção em nada, numa mistura entre a com~édia e o terror. Temos uma abertura inicial na Índia do século XIX, onde um marajá lá do sitio persegue um demónio (indiano, com a pele pintada), que depois de o encontrar, decide condená-lo à decapitação e ordena que escondam a cabeça num lado e o corpo no outro. Claro que o demonio não se fica e reza uma praga ao marajá: até o seu corpo e cabeça serem de novo juntos, todas as mulheres da dinastia do marajá morrerão no parto. E~no dia em que as suas partes se juntarem, a dinastia acabará. Ou algo parecido. Corta para Mumbai nos anos 80 e o descendente do marajá é um rico empresário que tem uma filha que, para indiana, até é tesuda, e que se apaixonou por um pintas que anda de Famel Zundap e que, claramente, tem de melhorar o guarda-roupa. O pai, temendo pelo destino de todas as mulheres da família, primeiro opõe-se, mas depois explica a situação. O apaixonado rapaz decide então partir para o antigo palácio da familia para quebrar a maladição. A partir deste momento é anything goes, com um desfile de personagens do mais ridículo possivel. Começamos com pessoas amputadas, depois anões, gajos que pensam que são engraçados, musas do Ganges (que devem cheirar mal, uma vez que aquilo é porquíssimo) e ainda demasiada cantoria, sempre no mesmo tom, e algumas danças também claramente desnecessárias. No final é obvio que, mais uma vez, tudo acaba bem, mas algumas cenas do filme fazem-me questionar se a cerveja que estou a beber não terá qualquer alucinogénico. Não sei se será de não estar habituado a estes filmes, mas este não me pareceu ter terror nenhum e no final ainda fiquei com a sensação WTF. Leva Cheesburger. ![]()
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11:51 AM Quinta-feira, Janeiro 13, 2011 OS RAPAZES DA NOITE: Título: The Lost Boys Realizador: Joel Schumacher Ano: 1987 ![]() Se, por qualquer razão obscura, um extraterrestre viesse à minha casa e pedisse para lhe explicar o que foram os anos 80 através da televisão, eu mostraria-lhe três dvds. O primeira eram as temproadas integrais de Acção Em Miami, escaparate ideal para mostrar a moda dos anos 80 (casacos com enchumaços, blazers de cetim branco e mullets, muitos mullets); depois, mostrava o Purple Rain, do Prince, especialmente aquela cena, que certamente já todos viram nem que seja no teledisco do When The Doves Cries numa das mil e quinhentas maratonas da VH1, em que ele vai todo mauzão num fato púrpura(!), em cima dum motão, mas que quando a câmara vira é apenas uma 125cc com uns plásticos gigantes(!!) - para além de ter tido uma noção de bom gosto discutível, os anos 80 também tiveram um ideal de bad boy muito discutível. E, por fim, mostraria-lhe Os Goonies, teen movie goes matin+e de domingo. Ou então, se estivesse com pressa, mostraria apenas Os Rapazes Da Noite, que é a mistura de tudo isto, e aproveiava o resto do tempo livre para jogar ao novo Call of Duty. Outro dos filmes-chave para entender este Os Rapazes Da Noite é o clássico Os Selvagens Da Noite, o survivor urbano sobre as gangues nova-iorquinas, altamente esteriotipadas e igualmente mal vestidas. Este é também um filme sobre esse tipo de gangues juvenis, cujo líder é um muito novinho Kiefer Sutherland em registo super-badass (e que podia ter um bocadinho mais de tempo de antena). A novidade em Os Rapazes Da Noite é que aqui essa é uma gangue de... vampiros. Sutherland e a sua gangue de mortos-vivos sugadores de sangue dominam então as ruas de Santa Cruz, uma localidade balnear sem muito para fazer e que se auto-intitula "capital internacional do homicídio". É para aqui que se mudam os irmãos Michael (Jason Patric) e Sam (Corey Haim). O primeiro vai ser aliciado para se juntar aos vampiros, atraiçoado pelas suas hormonas e pela bela Star (Jami Gertz), enquanto que o segundo vai conhecer os irmãos Frog, caçadores de vampiros e protectores do american way of life (Corey Feldman e Jamison Newlander). Os Rapazes Da Noite é um dois em um: é um filme de vampiros adolescente (não confundir com a saga Crepúsculo, se faz favor), sexy e intenso, com uma componente mística (não é por acaso que o poster do xamã Jim Morrison domina o covil dos vampiros e o People are Strange faz parte da banda-sonora, no meio de tantos sintetizadores manhosos); e é um filme tipo Goonies, com humor familiar e um savoir faire bem distantes do gore da outra metade do filme. Inesperadamente, Os Rapazes Da Noite acaba por funcionar melhor do que se esperava, contendo ainda aquela mística especial que só os filmes dos anos 80 tiveram, uma espécie de aura feelgood ingénua que se cola ao cérebro como pastilha elástica. Ou como McBacons. ![]()
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10:15 AM Terça-feira, Janeiro 11, 2011 MALDITO UNITED: Título: The Damned United Realizador: Tom Hooper Ano: 2009 ![]() José Mário dos Santos Mourinho Félix, vulgo José Mourinho, nascido em Setúbal, em 1963, começou por treinar o Benfica e, depois, ganhou tudo o que havia para ganhar no FC Porto, no Chelsea e no Inter de Milão. Chamam-lhe o Special One. É uma espécie de Dr. House do futebol, uma vez que, para além de ser o melhor naquilo que faz, alia-o a um carácter directo, sem papas na língua e até insolente. Por isso, toda a gente conhece Mourinho, quer o amem ou o detestem, pela forma única como aborda o futebol. Ùnica? Será? Ainda Mourinho não sabia andar e já o Brian Clough andava a dar cartas no mundo do futebol, com o mesmo estilo: arrogante, sem medo de dizer o que pensava e envolto em polémicas. E ganhando. Muito. Clough é um mito do futebol inglês, ele que levou o Derby County da segunda divisão a campeão nacional e, mais tarde, o Nottimgham Forest da segunda divisão a campeão da Europa. Por duas vezes. A diferença entre Clough e Mourinho é que, enquanto o português vai ganhando tudo o que há para ganhar com colossos ricos e recheados de estrelas, Clough fê-lo com dois clubezecos modestos, que nunca mais saíram da cepa torta. Mas também o futebol era outro nessa altura. Clough tem três estátuas em Inglaterra, uma no estádio do Derby County, outra no do Nottingham Forest e outra ainda na sua terra natal, Middlesbrough. E agora tem um filme, Maldito United, biopic que universaliza este primeiro Mourinho de métodos pouco ortodoxos. No entanto, ao contrário do que seria de esperar, Maldito United não é um filme sobre o sucesso de Clough, mas sim sobre o seu único insucesso: o de treinador do Leeds United, onde apenas esteve 46 dias antes de ser despedido. Ora bem, o Leeds United era um dos grandes do futebol inglês na década de 60. Don Revie fora o treinador por treze anos, mas havia saído para ir treinar a selecção, que estava a atravessar uma crise de resultados depois de falhar a qualificação para o Mundial. E, para o seu lugar, a direcção foi buscar o irascível Brian Clough (aqui interpretado por um Michael Sheen com pinta), que também já havia deixado o Derby County, depois de se desentender com o presidente, e que agora andava pela terceira divisão. Contudo, Clough era o rival número um do Leeds, clube que criticava sempre que possível e que perseguia com uma vendeta pessoal. E os jogadoresm, liderados pelo capitão e Bruno Alves lá do sítio, Billy Bremmer (um Stephen Graham com um tratamento capilar ridículo), nunca o perdoaram. Fizeram então panelinha, perderam os jogos quase todos e Clough foi despedido ao fim de sete jogos e apenas uma vitória. Ou, pelo menos, é assim que Maldito United conta a história, uma vez que faz uma dramatização livre dos eventos. Porque, como François Reichenbach costumava dizer, entre uma maçã e uma maçã pintada por Cezanne, prefiro a maçã de Cezanne. Maldito United é um biopic pouco convencional, que se socorre dessas muletas dramáticas para contar antes a história de um homem e não de um mito. E o realizador Tom Hooper fá-lo com um formalismo com o qual não estavamos à espera. Por exemplo, numa das cenas principais de Maldito United, em que um despedido Brian Clough é entrevistado em directo para a televisão ao lado de Don Revie, com quem se pega e deixa um profético também o vais ser na selecção, Hooper monta a coisa com o mesmo esquematismo minimal de Frost/Nixon (que, curiosamente, também estrelava Michael Sheen). Tom Hooper tem ainda o bom-senso de não tentar recriar qualquer jogo de futebol, ciente de que isso parece sempre ridículo no cinema (digam-me um filme com jogos de futebol credíveis que não seja O Ás Da Bola), recorrendo sempre que possível a imagens de arquivo. Não há bola a rolar, mas há o ambiente das bancadas, a tensão no ar e a atmosfera que fazem do futebol o melhor espectáculo do Mundo. Maldito United é um excelente pequeno filme e um McBacon. ![]() Segunda-feira, Janeiro 10, 2011 SHREK PARA SEMPRE: Título: Shrek Forever After Realizador: Mike Mitchell Ano: 2010 ![]() Desde que comecei a prestar atenção ao cinema que sempre me regi por uma regra que me tem livrado de muitos diassabores. Reza assim: num filme normal, quanto maior for a sequela, pior é; num filme porno, quanto maior for a sequela, melhor é. A história do cinema sempre me deu razão, da triologia de Regresso Ao Futuro à de Indiana Jones ou O Padrinho, por oposição aos cinco Rockys ou às dezenas de Academia De Polícia. Mas os tempos mudam e este conceito parece ter-se tornado datado. Agora, uma triologia já não é suficiente - desde os milhentos Saw aos intermináveis Harry Potter -, e até mesmo as antigas se sentem tentadas a acrescentar mais episódios às suas séries (alguém mencionou Indiana Jones E O Reino Da Caveira De Cristal?). Por isso, quando Shrek teve o sucesso que teve e os produtores se apressaram a anunciar sequelas, nós vimos logo que o pobre ogre verde não iria parar antes do quarto volume. Pois bem, aqui estamos nós em Shrek Para Sempre, o episódio que encerra as aventuras do ogre verde a quem Mike Myers dá voz, no Reino Bué Bué Longe, que certa vez salvou uma princesa amaldiçoada em ogra (Cameron Diaz). No entanto, longe vão os tempos em que Shrek era a coqueluche da Dreamworks. Os filmes têm vindo sempre a decair e Shrek tornou-se apenas num estafado franchising. E após um Shrek, O Terceiro muito fraquinho, a estreia e a promoção algo envergonhada de Shrek Para Sempre já deixavam adivinhar que algo não estava bem. A verdade é que nem o Shrek inicial era um filme extraordinário, ou pelo menos ao nível de um Pixar. Mas foi bom o suficiente para que este Shrek Para Sempre seja uma enorme desilusão. A série está esgotada de ideias, o argumento é forçado (inclui viagens no tempo e realidades alternativas, o que num episódio da Quinta Dimensão é motivo de regozijo, mas num desenho-animado é sinal pouco motivador), as personagens secundárias são uma sombra de si mesmo (o Burro de Eddie Murphy agora é só um boneco irritante) e os gags a subverterem os contos de fadas (que eram o trunfo de Shrek) são uma miragem. Shrek Para Sempre nem sequer se importou em ter uma banda-sonora em condições, algo que, nos episódios anteriores, teve particular atenção por parte dos produtores. Aqui limita-se a reciclar o I'm a believer, dos Monkees, num cover ainda mais anónimo de que o dos Smashmouth. A única coisa positiva de Shrek Para Sempre é ser o último filme que vamos ver do ogre verde. E isso vale o Double Cheeseburger. ![]() Sábado, Janeiro 08, 2011 BAÚ DO TRASH: OS IMORTAIS: Título: Os Imortais Realizador: António-Pedro Vasconcelos Ano: 2003 ![]() Há muitos muitos anos que o cinema português anda pelas ruas da amargura, desde merdices pseudo-intelectuais que se movem à velociadade de uma tartaruga perneta a filmes que prometem sexo e Soraia Chaves. Mas muito de vez em quando lá aparece um que desafia tudo e todos e em que ficamos a olhar para o ecrã e a dizer "epá, afinal isto até é bom". Este Os Imortais é um desses e, sem dúvida, o meu preferido feito em Portugal. Os Imortais são um grupo de ex-comandos portugueses que, voltando à pátria depois da guerra colonial e de terem andado a fazer de mercenários noutros países de África, escolhem sempre uma altura por ano para se encontrarem e fazerem trepolias. Mas como diria Vitor Pratas (o nosso Rui Unas), tudo acaba mal sempre por causa de uma mulher que, neste caso, é Madeleine (Emmanuelle Seigner), esposa de um traficante de armas francês de colarinho branco e que se apaixona por Roberto Alua (Joaquim de Almeida). O grupo vai todo para o Algarve com um grupo de mulheres, cada um com a sua, mas com o intuito de criar um alibi para um assalto a um banco em Vilamoura, que acabar por não correr pelo melhor. Do grupo fazem ainda parte Horácio Lobo (Rogério Samora) e o gago Sérgio Mano (Joaquim Nicolau). Atrás do grupo anda o habitué de todos os filmes portugueses (o homem tirou a senha!), a fazer de inspector da PJ à beira da reforma e que vai descobrir a tramóia toda sem dizer "água vai": Malarranha (Nicolau Breyner). Ainda temos a participação de outras vedetas como Maria Rueff, no papel de filha fufa, ou Alexandra Lencastre, no papel de mulher fufa. Com uma banda sonora de faduchos, a história não vale por si só, mas o mais importante são, sem dúvida, o recriar de 1985 ao pormenor, como o Carlos Fino a apresentar o Telejornal ou os diálogos de partir o côco a rir, nomeadamente Rogério Samora, no papel de um boçal sanguinário que gosta é de bater em mulheres e humilhá-las, e sobretudo Rui Unas, dono também de uma casa de fados e com grande apet~encia para a ordinarice. António-Pedro Vasconcelos já tinha feito outro filme português de grande nível e que tinha sido o mais visto de sempre até a O Crime Do Padre Amaro, O Lugar do Morto, e este leva por tabela o Le Big Mac. ![]() Quinta-feira, Janeiro 06, 2011 SINAIS DE FOGO: Título: Sinais De Fogo Realizador: Luís Filipe Rocha Ano: 1995 ![]() Nunca li Sinais De Fogo, considerado por muito boa gente (e má também - olá Miguel Sousa Tavares) como um dos grandes romances da literatura portuguesa, mas tenho-o aqui em casa, na pilha de livros a ler. E está quase quase a chegar a sua vez. No entanto, como sou um tipo sem grande critério, decidi ver o filme primeiro. Adaptar ao grande ecrã Sinais De Fogo não deve ser fácil, uma vez que o livro parece uma enciclopédia - um calhamaço de 700 páginas, sem fotografias! Não sei como é que alguém consegue chegar ao fim daquilo... Por isso, compreende-se que o realizador Luís Filipe Rocha (ele que, no ano seguinte, assinava um dos filmes maiores da filmografia lusa, Adeus Pai) tenha optado pela intriga política e cingindo-se ao relacionamento amoroso do protagonista, Jorge (Diogo Infante a provar que é mesmo bom actor). Jorge de Sena, qual Eça de Queirós, espelhava a realidade do seu tempo, com grande perspicácia política e, consequentemente, social (com enfoque na média burguesia, na ressaca da chegada de Salazar ao poder). Em plena guerra civil espanhola, Portugal ressente-se do conflito e as motivações ideológicas desenrolam o filme num thriller político que envolve um grupo de portugueses - o grupo de amigos de Diogo Infante, que todos os verões de juntam na Figueira da Foz para passar as férias - a ajudar um par de espanhóis a dar o salto. Tudo isto é cozinhado a lume brando, sem grandes arrebatamentos. Mais arrebatada é a paixão de Diogo Infante por Mercedes (a espanhola Ruth Gabriel, porque esta é uma co-produção luso-espanhola), que no entanto já está prometida a um comunista do aparelho partidário (Rogério Samora). Segundo consta (porque eu ainda não li), o livro de Jorge de Sena é apaixonado e chega a raiar o pornográfico (só é pena não ter imagens *cara triste*), uma vez que este é, acima de tudo, uma história de iniciação. E a todos os níveis. Sinais De Fogo é como American Pie - A Primeira Vez, mas em sério, com José Airosa a ganhar aqui pontos, como o tipo que marcha tudo: pescadores, gays, velhas... Agora o que é mesmo mau são os violinos que Luís Filipe Rocha mete em cada cena, a realçar as emoções e tudo o que ache importante para o filme. Ignorando por completo a sugestão, Luís Filipe Rocha sublinha e sublinha as cenas por baixo, como se estivesse a lidar com espectadores com trissomia 21. Fora isso, Sinais De Fogo é uma versão económica do livro (que eu prometo que vou ler em breve), que se vê de forma despachada e não se pensa mais nisso. E o McChicken serve para ir trincando enquanto se lê o romance. ![]()
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12:17 PM Quarta-feira, Janeiro 05, 2011 DORIAN GRAY: Título: Dorian Gray Realizador: Oliver Parker Ano: 2009 ![]() O Eça de Queirós inglês, Oscar Wilde, é um dos dez maiores escritores do Mundo. Do Mundo não, do universo, que é para verem a consideração que tenho pelo homem. E O Retrato de Dorian Gray, apesar de ser o seu único romance, é um livraralhão. Por isso, quando estreia uma adaptação cinematográfica do livro, com um elenco com caras conhecidas de Hollywood (Colin Firth à cabeça) e este passa praticamente despercebido é poque algo se passa. Mas como eu um tipo tolerante, toca lá a dar uma chance a Dorian Gray. Para quem não sabe, Dorian Gray (aqui interpretado por Ben Barnes) era um tipo da Inglaterra vitoriana extremamente belo - o terror das mulheres, mas também dos homens, que o diga o seu amigo, Basil Hallward (Ben Chaplin), um pintor gay reprimido que, obcecado pela beleza de Gray, pinta-lhe um retrato super-realista. Tão realista que, numa variação do mito de Fausto, Dorian Gray troca a alma pela do quadro, podendo assim entregar-se a uma vida de vícios (drogas, tabaco, putas e orgias onde vale tudo), com o quadro a envelhecer no seu lugar. O seu outro amigo, o insolente Henry Wotton (Colin Firth), é que fica a roer-se de inveja por vê-lo a viver a vida que não teve a coragem de viver. Carpe diem muthafucka, qual O Clube Dos Poetas Mortos qual quê. Claro que depois, tal como Fausto, Dorian Gray vai arrepender-se da sua juventude eterna, vendo-se a braços com um dilema: se não morro nem envelheço, que raio faço da minha vida? Infelizmente, Dorian Gray ignora esta parte mais metafísica (a excepção é a excelente citação alguns prazeres só o são por serem fugazes), ficando-se antes por uma abordagem muito superficial. O realizador, Oliver Parker, aposta tudo no terror e no thriller psicológico, mas esquece-se que há mil coisas como estas. E melhores. Por isso, o filme chama-se apenas Dorian Gray, abolindo a parte de O Retrato De, na decisão mais acertada de toda esta produção, uma vez que, aqui, este é apenas um acessório da intriga, quando o romance original se desentola todo em sua função. Com uma primeira parte mais ou menos simpática, os últimos dois terços de Dorian Gray são passados em sofrimento. Ciente de que prdera a tensão do início do filme, Parker inventa um relacionamento amoroso para Gray, metido à martelada. Além disso, cede à tentação de ir mostrando o retrato envelhecido e cheio do pecado de Gray, quando se sabe que o poder da sugestão é muito mais assustador do que qualquer velho em CGI a deitar larvas pelos olhos e a gemer, como se tivesse comido um puré de batata estragado ao jantar. Por fim, lamentar o erro de casting de Ben Barnes. Quando lemos o romance, Oscar Wilde gaba tanto Dorian Gray que quase sentimos vontade de nos apaixonarmos por ele. Por isso, quando vemos um canastrão como Barnes, com uma expressividade facial que se limita a boca aberta e boca fechada, não conseguimos evitar um enorme facepalm. Inacreditavelmente, Dorian Gray acaba por não ser tão mau quanto eu o estou a pintar e consegue sobreviver no limiar do suportável. Vale assim um Double Cheeseburger, mas mal aviado. ![]()
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10:14 AM Segunda-feira, Janeiro 03, 2011 CHIVO XAVIER: Título: Chico Xavier Realizador: Daniel Filho Ano: 2010 ![]() O brasileiro Chico Xavier foi (é?) um dos maiores espíritas de sempre, talvez só comparado mesmo a Allan Kardec (não o jogador do Benfica, mas o escritor da doutrina do espiritismo). Claro que o seu maior reconhecimento acontece no Brasil, terra em que a macumba faz tanto parte do seu código genético social quanto o samba ou a corrupção. No entanto, nos anos 60 e 70, altura em que o seu lugar ao sol brilhou mais, Chico Xavier chegou a ter, inclusive, um cantinho seu no português Almanaque de Notícias, enquanto que, no Brasil, era como uma estrela rock. Basta ver como, nos seus Rayban Wayfarer, pulverizou as audiências ao participar no debate televisivo do Pinga-Fogo, no já ido ano de 1971, num programa inicialmente previsto pra 60 minutos, mas que acabou por ter mais de 180(!). É à volta desta entrevista que Chico Xavier se desenrola, num biopic muito convencional, que, servindo-se das analepses, vai contando a vida do espírita desde a sua infância (retratado por um desconhecido Matheus Costa, de 9 anos), a sua adolescência (Ângelo António) e a sua velhice (Nélson Xavier). Como previra, Chico Xavier veio a falecer apenas no dia em que todos os brasileiros estavam felizes, ou seja, no dia 30 de Junho de 2002, apenas algumas horas depois do Brasil se sagrar penbtacampeão de futebol. Chico Xavier, um tipo com cara de caipira e o mesmo guarda-roupa que o Raul Indipwo, teve uma infância trágica como convém a qualquer herói. Depois da sua mãe morrer, Xavier foi vítima da crueldade da sua madrasta, que lhe espetava garfos na barriga, convencida que ele tinha o Diabo no coropo, uma vez que ele conversava com os mortos, tal e qual o miúdo de O Sexto Sentido. Depois, na adolescência, tomou consciência das suas capacidades de médium, tendo tornado-se num profícuo psicografista, tendo escrito mais de 400 livros, a maioria ditados pelo seu espírito guia, Emmanuel (um espírito francês, não o cantor pimba). Isso sem contar com as suas sessões públicas de espiritismo e toda aquela palhaçada que estas coisas costumam envolver. Chico Xavier não procura responder à eterna questão da "verdade ou fraude", partindo do pressuposto que toda a história foi verdadeira. Chico Xavier fala com os mortos, vê espíritos e psicografa como se não houvesse amanhã, perante a desconfiança de terceiros, a ira dos descrentes ou a insatisfação dos insatisfeitos. É sempre uma tarefa ingrata compilar num filme uma vida inteira e, por isso, Chico Xavier acaba por fazer uma abordagem ao de leve de vários momentos importantes da vida do espírita, sem se concentrar verdadeiramente em nenhum. No entanto, dá a ideia que o realizador Daniel Filho tem algum receio em abordar os casos mais duvidosos da sua vida, deixando como nota de rodapé alguns casos polémicos, como a denúncia de fraude de um dos seus sobrinhos, ou dando apenas uma sugestão de que a perdição de Chico Xavier possa ter estado naquele pecado mortal terrível que é a vaidade. Isto faz com o retrato final de Chico Xavier seja a de um mártir e não de um um homem. Chico Xavier tem ainda espaço para um sub-enredo, que envolve um Tony Ramos mais inchado e com menos pêlo no peito, pai de uma criança baleada mortal e acidentalmente por um amigo e que, durante o julgamento, mandou uma mensagem a Chico Xavier para que o juíz absolvesse o colega. Num caso sem precedentes em todo o Mundo, o juíz aceitou a mensagem psicografada do Além e considerou o rapaz inocente. Só mesmo no Brasil, claro. O caso é curioso, mas perante o pouco tempo livre do filme, dispensava-se esta história paralela, que só vem encher chouriços. Em ano de biopics (o de Lula da Silva foi, inclusive, escolhido para representar o Brasil na corrida aos Oscares), o cinema brasileiro aproveitou os 100 anos de Chico Xavier para um filme que se aproxima sempre mais da cartilha de Hollywood do que do realismo de favela do novo cinema brasileiro. O que não tem que ser sempre necessariamente mau. É um filme equilibrado e que apresenta o essencial de Chico Xavier para os mais desconhecidos, sob o formato de um McBacon. ![]() TOP 10: Esta é a altura em que nos armamos num blogue cinéfilo respeitável, tentamos não dizer palavrões e apresentamos também o nosso TOP DOS MELHORES FILMES DE 2010 PARA O DERMOT E PARA O TRASH: 10º Lugar Predadores ![]() 2010 foi um bom ano para o cinema xunga, bons maus filmes para ver com o cérebro desligado. Predadores não é, propriamente, um grande filme, mas depois do flagelo que foi a série Alien vs Predador, Nimród Antal fez um reboot competente à série, voltando ao espírito inicial de Predador: survivor movie na selva goes monster movie, com um Adrien Brody promovido a saco de músculos e um monstro com muita pinta. ..::crítica opinativa aqui..::.. 9º Lugar A Estrada ![]() Como já alguém escreveu, o cinema habituou-nos que o futuro pós-apocalíptico vai ser um mundo esgotado cheio de canibais com ar de chulos em carros rebaixados saídos do Pimp my ride. A Estrada, adaptado no romance homónimo de Cormac McCarthy, dá-nos uma visão diferente, mais desoladora, mas igualmente perturbadora, num filme resumido a dois actores, muita poeira e desespero no ar. ..::crítica opinativa aqui..::.. 8º Lugar Até Ao Inferno ![]() Acusado de se ter vendido ao sistema, depois de ter ido para Hollywood fazer a trilogia do Homem-Aranha, Sam Raimi decidiu voltar aquilo que sabe fazer melhor: um filme económico de série-b, com efeitos-especiais analógicos e iguais doses de gore e humor negro. Agora fica novamente com crédito suficiente para fazer outra banhada qualquer em Hollywood, que lhe dê para pagar a prestação do barco. ..::crítica opinativa aqui..::.. 7º Lugar Kick Ass - O Novo Super-Herói ![]() Os nerds são o novo cool. Kick Ass - O Novo Super-Herói é a versão cartoonesca de O Protegido: um super-hero movie subversivo, com humor seco, acção estilizada, Nicolas Cage armado no Batman de Adam West e uma miudinha de 9 anos a matar bandidos com as próprias mãos como se não houvesse amanhã. ..::crítica opinativa aqui..::.. 6º Lugar Anticristo ![]() Anticristo é o filme what the fuck de 2010. Arriscado, perturbador, sensacionalista, gratuito... Os adjectivos que se lhe podem colar são inúmeros, mas todos eles redutores. Podemos não perceber muito bem o que estamos a ver às tantas, mas Anticristo é sempre um regalo à vista. Charlotte Gainsbourg e Willem Dafoe dão (literalmente) o corpo ao manifesto nesta experiência sensorial. Como filme não é grande coisa, mas como experiência numa sala de cinema é única. ..::crítica opinativa aqui..::.. 5º Lugar Piranha 3D ![]() Se 2010 foi um bom ano para o cinema xunga, Piranha 3D foi a cereja no topo do bolo. Filme sem argumento (com um título destes o que se esperava?), mas com meia hora de autêntica matança do porco, jerricans de sangue e muitas mamas à mostra. Com filmes como este como querem que a gente cresça? ..::crítica opinativa aqui..::.. 4º Lugar O Laço Branco ![]() Michael Haneke continua a fazer os seus filmes sobre a violência, cada vez mais crus e intensos. Desta vez joga-se a uma história medieval, a preto e branco, onde aparentemente nada se passa, apenas a nossa cabeça vai se sentindo cada vez mais pesada sem sabermos bem porquê. ..::crítica opinativa aqui..::.. 3º Lugar Polícia Sem Lei ![]() Werner Herzog é um tipo com uma grande pancada, que tanto faz um grande filme como faz uma treta experimental qualquer. Em Polícia Sem Lei, o cineasta alemão encontra na esquizofrenia de Nicolas Cage o veículo ideal para expressar a sua loucura, num polícia mergulhado na dependência de drogas, com métodos pouco ortodoxos, muitas iguanas espalhadas sem motivo pelo plateau e com ecos do grande filme homónimo de Abel Ferrara. E ainda tem a melhor cena do cinema de 2010. ..::crítica opinativa aqui..::.. 2º Lugar A Origem ![]() Cristopher Nolan já tinha feito parte desta lista no ano passado e, se continuar assim, irá fazer parte todos os anos em que lançar um filme. Baseado livremente numa história do Patinhas, A Origem é um filme daqueles que é feito por camadas e que, por isso, pode ir sendo interpretado vezes sem conta a cada visualização ou pelos idiotas que passam a vida na net, em acesas discussões em fóruns da especialidade. ..::crítica opinativa aqui..::.. 1º Lugar Scott Pilgrim Contra O Mundo ![]() E se o nerd é o novo cool, então o Michael Cera é o rosto desta tendência. Nesta adaptação da série de BD homónima, Cera é um nerd badass, num filme-ovni que mistura referências de cultura popular, rock'n'roll (Beck em modo garage-rock), kung fu e influências orientais (olá anime, olá manga), onde tudo acontece rápido de mais e de forma como nunca vimos. Scott Pilgrim Contra O Mundo é um passo em frente no cinema, em que, tal como em Matrix, sentimos que estamos a ver algo novo. ..::crítica opinativa aqui..::.. Menção Honrosa Cartas Ao Padre Jacob ![]() Este que foi o candidato finlandês ao Oscar de melhor filme estrangeiro no ano passado é um drama emocional gelado, na boa tradição dos dramas humanistas nórdicos, sobre a relação entre uma gorda ex-condenada e com mau feitio, assustadoramente parecida com a Kathy Bates, e um padre cego de bom coração, até à catarse violenta (e inevitável) da primeira. ..::crítica opinativa aqui..::.. 5º Lugar Srpski Film - A Serbian Movie ![]() Da Sérvia vem este shock-trash com toques de crítica social. Milos é um actor porno reformado que aceita fazer um último filme a troco de uma fortuna, mas o filme não é de todo porno normal e Milos vai descer ao maior inferno do style-porn com muitas cenas que nos vão fazer pensar "porque diabo estou a ver isto?". Não é para os mais sensíveis de todo, mas vale a pena. 4º Lugar Machete ![]() Mais trash, desta vez em mainstream, graças ao senhor Tarantino, que fez com que filmes que têm argumentos altamente cinema-Encarnação-com cadeira-de-pau passem a ser mainstream, com actores como Robert De Niro ou mesmo Lindsay Lohan de mama ao léu a entrarem na palhaçada. É um regalo para os olhos. 3º Lugar Harry Brown ![]() Do Reino Unido vem este O Justiceiro Da Noite em versão ghetto british, com um Michael Cane que, farto de ser incomodado e agredido pelos deliquentes locais, decide começar a fazer de justiceiro. Slow beat com grande fotografia e uma incompreensão de como este filme não teve mais sucesso. 2º Lugar O Concerto ![]() A história de um bando de músicos da antiga URSS que, depois de 20 anos, voltam a tocar pela primeira vez em Paris, numa mistura de drama e comédia com um final altamente comovente e com a esperança de que, se todo o cinema fosse assim, as coisas seriam bem melhores. 1º Lugar O Segredo Dos Seus Olhos ![]() Não é de 2010, aliás, levou o Oscar do ano passado para melhor filme estrangeiro, mas só estreou na Europa este ano. Policial passado durante algumas décadas atrás na Argentina, que vale não apenas pela história, mas também pela bela fotografia e cenários. E a ditura argentina a lembrar a portuguesa em muita coisa.
Posted by: dermot @
11:58 AM |
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