Sexta-feira, Dezembro 02, 2011
O TIO BOONMEE QUE SE LEMBRA DAS SUAS VIDAS ANTERIORES:Título:
Loong Boonmee Raleuk ChatRealizador: Apichatpong Weerasethakul
Ano: 2010

Exemplo aleatório número 1 de
O Tio Boonmee Que Se Lembra Das Suas Vidas Anteriores:
- o tio Boonmee, a cunhada e um sobrinho jantam descansadamente no alpendre da casa do primeiro, quando o fantasma da sua esposa se materializa numa das cadeias vagas. Os três encolhem os ombros, como quem diz
estás cá hoje, hein. Nisto, entra em cena um humanóide peludo com os olhos vermelhos, que confessa ser o filho de Boonmee, desaparecido há muitos anos, explicando que fugira para a floresta, onde acasalara com uma mulher-macaco e constituiu família. Os três (mais o fantasma), mais uma vez, reagem como se estivessem perante a coisa mais natural do mundo. E, calmamente, os quatro jantam em amena cavaqueira.
Exemplo aleatório número 2 de
O Tio Boonmee Que Se Lembra Das Suas Vidas Anteriores:
- uma princesa feia e envelhecida lamenta-se à beira de um rio por não ser tão bonita
quanto o seu reflexo. Um peixe-gato vem à superfície e diz-lhe(!) para não chorar, porque gosta muito dela. A princesa entra na água e acasala com o peixe-gato(!!).
Como podem imaginar, coerência não é coisa que se encontre com facilidade em
O Tio Boonmee Que Se Lembra Das Suas Vidas Anteriores. Por isso, não é difícil de perceber o porquê do zumzum criado pela sua Palma de Ouro no último festival de Cannes - o último filme do tailandês Apichatpong Weerasethakul é um verdadeiro OVNI cinematográfico, que rejeita qualquer convenção daquilo que entendemos convencionalmente por filme. E a crítica têm-no trazido de tal forma nas palminhas que é difícil não ficarmos a gostar dele sem sequer o vermos.
É verdade que
O Tio Boonmee Que Se Lembra Das Suas Vidas Anteriores é um filme fácil de se gostar. Com o seu realismo mágico, Apichatpong mistura fantasia Disney, animais que falam e criaturas sobrenaturais (os homens-macacos de olhos vermelhos que deambulam pela selva são assombrosos) com os planos longos de Mizoguchi ou o cinéma verité do "miserabilista" Béla Tarr. Aliás, o tailandês recicla camadas e camadas de cinema, seja a noite americana do plano de abertura, em que um boi foragido se torna no melhor actor do filme; ou uma viagem de carro, cheia de jump cuts, que lembra logo a nouvelle vague a desbotar em
O Acossado.
Mas odeia-se
O Tio Boonmee Que Se Lembra Das Suas Vidas Anteriores com a mesma facilidade com que se ama. Porque os seus planos teimam em não se mexerem para lá do suportável, porque o ritmo do filme leva-o em longas meditações zen sem grande alvoroço ou porque, pura e simplesmente, as situações são descabidas e não colam. Eu repito: há uma cena a meio do filme em que uma princesa é violada por um peixe-gato. Diz quem sabe que, se conhecermos a mitologia tailandesa, cenas como essa ou como os homens-macaco juntos com os soldados na guerra fazem todo o sentido. Infelizmente, parece que não sou suficientemente inteligente.
O Tio Boonmee Que Se Lembra Das Suas Vidas Anteriores é uma experiência arty, que desperta curiosidade e atenção, tal como o fazem os trabalhos de Andy Warhol ou outras divagações surrealistas. Mas mais do que um Double Cheeseburger já me custa a engolir.
Posted by: dermot @
10:50 AM
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