Sábado, Novembro 26, 2011
CAMINO:Título:
CaminoRealizador: Javier Fesser
Ano: 2008

Ainda não tinha estreado e já
Camino criara frisson em Espanha. Tudo porque, aparentemente, o filme era baseado em Alexia González-Barros, uma menina espanhola da Opus Dei que morreu em 1985, com 14 anos, e que está actualmente em processo de beatificação. A sua família manifestou-se publicamente contra o filme, com petições e apelos sentimentalistas na comunicação social, mas Javier Fesser sempre se defendeu, dizendo que era tudo ficção. O que ninguém percebeu é que a família da (pseudo)santinha só não queria era que fosse o realizador de
Mortadela E Salamão - A Grande Aventura a fazer um filme sobre a sua filha.
Camino (uma debutante e surpreendente Nerea Camacho) é uma menina a quem é diagnosticado um cancro na coluna quase no mesmo instante em que se apaixona à primeira vista por um menino do clube de teatro da sua escola. A sua família, temente a Deus e fiéis à Opus Dei, trata-a de forma conservadora, num hospital da igreja, enquanto os padres vêm ali a oportunidade perfeita para uma santificação. A excepção é o seu pai (Mariano Venancio), um tipo passivo e espezinhado pela esposa, que não quer perder a segunda filha, depois da mais velha se ter "alistado" na reclusão que é a Opus Dei.
Fesser tem o bom-senso de resistir a tentação de fazer com
Camino um panfleto anti-Opus Dei e anti-qualquer fundamentalismo religioso, apesar de percebermos ali alguma manipulação, sempre que vemos os responsáveis religiosos a tentarem aproveitar-se da fé dos pais de Camino para encontrarem ali motivos para uma santificação (e para sacarem mais alguns trocos sempre que possível, como quando os convencem a muda-la de hosptial para um dos seus). No entanto, é na parte mais real dessa facção religiosa que
Camino é mais assustador e perturbador. Como quando vemos como a Opus Dei segrega as mulheres; ou como usam a devoção e a fé para justificar tudo.
Camino faz lembrar
Jesus Camp pelo extremismo.
Camino recorre ao melodrama para contar a história daquela menina que só queria ser como as outras. E é aqui que a coisa corre pior a Fesser. Primeiro porque parece não conseguir saber onde parar de forçar o tearjerking; e segundo porque cai em alguns esquemas telenovescos, especialmente nas cenas familiares. Pelo contrário, o lado melhor de
Camino surge na subversão que Fesser monta através de um jogo de múltiplas leituras e de espelhos. Começa logo pelo nome da protagonista, que é o mesmo que o título do livro fundador da Opus Dei; e continua pelo pai da menina, que se chama José, e termina no nome do menino por quem Camino se apaixona, pertinentemente Jesus.
Camino ilustra ainda esta parte com umas alucinações meio-Disney-meio-Burton que dão um toque especial ao filme.
Camino é um filme sério que, depois de ter arrecadado uma remessa de estatuetas na cerimónia dos Goyas desse ano (os Oscares da indústria cinematográfica espanhola), reabilitou o estatuto de Javier Fesser, que agora pode começar a ser tratado com mais consideração. Só é pena é
Camino ter chegado a Portugal com un três anos de atraso. Já o McBacon está quase estragado e fora do prazo de validade.
Posted by: dermot @
11:58 AM
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