Segunda-feira, Abril 04, 2011
BURIED:Título
BuriedRealizador: Rodrigo Cortés
Ano: 2010

Em 2002, Joel Schumacher colocou Colin Ferrell dentro de uma cabine telefónica e fez um filme lá dentro. O resultado foi um dos filmes de acção mais claustrofóbicos desta viragem de século. Agora, o espanhol Rodrigo Cortés repete o gesto, mas vai ainda mais longe, ao colocar Ryan Reynolds dentro de uma caixa de madeira debaixo da terra e a fazer todo um filme dentro de um caixão. E quando digo todo, é mesmo todo, não há uma única cena noutro sítio nem sequer um flashback que seja.
Buried é, portanto, arrojado. É certo que um filme de uma hora e meia exclusivamente passado dentro de um caixão corria o risco de ser, no limite, um exercício formal e de estilo, mais à semelhança de
A Corda de que
Cabine Telefónica, mas
Buried consegue ser mais que isso. É um filme hermético, perturbador, claustrofóbico... E é uma tour de forc impressionante de Ryan Reynolds, que leva o filme às costas, uma vez que ele é a única personagem. Quer dizer, ele e o caixão, claro.
Numa das melhores cenas de
Kill Bill 2, Uma Thurman é enterrada viva. Tarantino filma-a numa exígua caixa de madeira, rodeada de breu e em silêncio quase absoluto. Enquanto tenta escapar, a sequência é uma das coisas mais angustiantes da história do cinema e faz a crucificação de Jesus Cristo, em
A Paixão Da Cristo, parecer uma coceguinha nos pés. Agora imaginem isso ampliado a hora e meia, numa colecção de grandes planos e alguns macros, com um trabalho de fotografia notável, uma vez que apenas o essencial vai sendo iluminado sempre que o protagonista acende um perene isqueiro zippo.
Buried abre com uma interminável sequência a negro. Estamos dentro de um caixão, debaixo de terra, com um tipo cuja história vai sendo revelada aos poucos. Paul Conroy (Ryan Reynalds) é um camionista de mantimentos destacado no Iraque, que é capturado por terroristas, enterrado vivo com um telemóvel e exigido um resgate astronómico. A ter que lutar contra o tempo (ou melhor, contra a bateria do telemóvel e contra o oxigénio existente no caixão), Paul tem que tentar desbloquear a sua situação com oito palmos de terra sobre si, mas acaba por se perder num labirinto kafkiano, de descrença geral e, sobretudo, burocracia, que fazem de Buried um acutilante comentário social e político ao conflito armado no Iraque e, consequentemente, a tudo o que está a ele inerente.
Buried é, assim, uma das melhores coisas que o cinema vai parir nos próximos tempos. E, mais uma vez, fica provado que um bom filme é apenas uma boa história (ou, no limite, uma boa ideia), que não precisa de uma parafernália de efeitos-especiais, cgi e outras masturbações digitais.
Buried é bastante económico, mas vale cada dentada do Le Big Mac até ao esgotar da última partícula de oxigénio naquela exígua caixa de madeira.
Posted by: dermot @
10:51 AM
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