Terça-feira, Fevereiro 15, 2011
A BELA E O PAPARAZZO:Título:
A Bela E O PaparazzoRealizador: António-Pedro Vasconcelos
Ano: 2010

António-Pedro Vasconcelos sempre foi um dos mais queridos realizadores daquela coisa nefasta que continua a ser o cinema português, muito em parte devido a
O Lugar Do Morto, o primeiro blockbuster nacional, e depois a
Os Imortais, recentemente aqui recuperado no
Baú do Trash. Talvez sentindo o seu lugar em perigo, devido à proliferação do chamado cinema comercial (mas que devia ser chamado cinema americanizado, vide
Arte De Roubar ou
Second Life), António-Pedro Vasconcelos regressou às longas com um desastroso (e pornográfico)
Call Girl.
Por isso, quando vi que o seu mais recente trabalho,
A Bela E O Paparazzo, voltava a ter Soraia Chaves como protagonista, a minha vontade de ver o filme começou a desvanecer-se. Além disso, dias depois da estreia, o realizador benfiquista envolveu-se num triste bate-boca com o crítico Vasco Câmara (e Pedro Borges e Nuno Markl juntaram-se à festa) nas páginas de um suplemento cultural de um dos nossos diários que eu não vou dizer qual é, mas que começa por I e acaba em N e tem psilo no meio, e aí o que restava da minha vontade de o ver desapareceu por completo. Por isso, foi preciso ser Natal e
A Bela E O Paparazzo dar na televisão para que eu finalmente lhe desse uma chance.
Ainda bem que o fiz, pois estava a ser bastante injusto. Afinal,
A Bela E O Paparazzo não é nada do que estava à espera. António-Pedro Vasconcelos volta a ir buscar Soraia Chaves, mas, pela primeira vez no cinema português, não se assiste ao culto do seu corpo. Aliás, nem sequer há umas mamas ou uma cena de sexo em
A Bela E O Paparazzo, o que na cartilha de outro realizador nacional significaria suicídio comercial.
A Bela E O Paparazzo é antes uma comédia romântica ligeira, sobre uma celebridade das novelas cansada de ser constantemente capa de revistas cor-de-rosa (Soraia Chaves, claro), que acaba por se apaixonar, acidentalmente e sem saber, pelo paparazzo que a perseguia diariamente (Marco D'Almeida). O filme rima, portanto, com sátira social, já que os dois protagonistas são, eles próprios, habitués da imprensa cor-de-rosa.
A Bela E O Paparazzo surge na tradição das comédias screwball clássicas, com um olho óbvio no cinema de Billy Wilder. É certo que lhe falta uma cinematografia mais apurada, de grande ecrã - ou pelo menos a elegância de
O Lugar Do Morto -, mas António-Pedro Vasconcelos também não se põe a inventar. Não arrisca em demasia e mantém-se na sua zona de segurança. A excepção é um momento em que tenta fazer um bocadinho de magia, com o par romântico do filme a dançar descalço, numa passadeira no Rossio. Lembramo-nos de
Serenata À Chuva e dos grandes clássicos da época de ouro de Hollywood e, inesperadamente, nem estranhamos. Assim como nos lembramos de Woody Allen enquanto António-Pedro Vasconcelos passeia por Lisboa. Também Soraia Chaves se safa relativamente bem como actriz. Desde que não lhe peçam coisas muito difíceis, claro, como chorar ou demonstrar emoções muito profundas.
A Bela E O Paparazzo presta ainda homenagem à comédia portuguesa dos anos 30, ou não fosse
A Canção De Lisboa o filme favorito de António-Pedro Vasconcelos. É neste campo que surge a personagem de Nuno Markl, que tem a seu cargo o comic relief (é uma espécie de Rui Unas, em
Os Imortais), fazendo de si próprio com aquele humor acutilante que lhe deu fama no programa radiofónico
O homem que mordeu o cão. Markl, sempre de t-shirt do Cão Azul, tenta declarar a independência do seu prédio, numa história paralela que acaba por se perder às tantas por falta de tempo de antena.
Afinal de contas, António-Pedro Vasconcelos não desaprendeu de fazer bons filmes simpáticos. E também
A Bela E O Paparazzo é bastante simpático, ou seja, um McBacon. Ah, e Nicolau Breyner também preenche aqui a sua quota pessoal (claro!, mas há algum filme português em que não o faça?), desta vez num papel que deve ser inédito na sua carreira: o de gay. Mas porque é que nos filmes do António-Pedro Vasconcelos tem que haver sempre um maricas?
Posted by: dermot @
12:46 PM
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