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Royale With Cheese | ||
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![]() 1926 - 2010 Desapareceu um dos actores que marcaram a minha infância. Bom ou mau, merece a homenagem do Royale With Cheese, com um TOP 5 DOS FILMES DE LESLIE NIELSEN: O Aeroplano ![]() Não me interpretem mal. O Aeroplano é um dos filmes mais divertidos de sempre e uma das comédias mais importantes do humor absurdo, logo a seguir aos Monty Phytons. Contudo, a posição tão baixa nesta lista justifica-se com o facto de Leslie Nielsen ser apenas uma personagem secundária aqui, não fazendo deste um verdadeiro filme seu. No entanto, é sua a memorável piada do don't call me Shirley. 4º Lugar Onde Pára O Diabo? ![]() Depois do sucesso de Aonde Pára A Polícia (ver mais à frente), qualquer filme que Leslie Nielsen fizesse era traduzido em Portugal como um onde pára qualquer coisa. Mesmo que não fosse uma comédia. Desse todos, o único que merece destaque é este Onde Pára O Diabo?, onde parodiam O Exorcista. No entanto, há um bónus: a própria Linda Blair como protagonista, a ser possuída outra vez pelo demónio, só que desta vez por um com sentido de humor. 3º Lugar Triologia Aonde Pára A Polícia ![]() A triologia Aonde Pára A Polícia abriu dois precedentes: primeiro consolidou o ZAZ style, os filmes da tripla Jim Abrahams, Jim Zucker e David Zucker, que pautavam por um humor absurdo e non-sense; e depois abriu as portas aos filmes-paródia, que gozam com filmes que faem sucesso na bilheteira e que agora florescem que nem cogumelos nas nossas salas de cinema para mal dos nossos pecados. É difícil escolher qual dos três é o melhor (até não é, mas pronto), mas é fácil escolher uma série de pontos de destaque: Priscilla Presley a fazer de mulher de Leslie Nielsen, OJ Simpson antes de matar (ou não) a mulher, aberturas por Weird Al Yankovic e uma série de piadas memoráveis. 2º Lugar Planeta Proibido ![]() Antes de ser um actor de comédia, Leslie Nielson era um actor sério. Ou pelo menos tentava ser. E nessa sua fase o melhor filme é Planeta Proibido, o clássico da ficção-científica que introduz o mítico Robby, The Robot. Também não é o protagonista aqui, mas que se lixe, é um dos meus filmes favoritos e fica em segundo lugar. 1º Lugar Polícias À Parte ![]() Não é um filme, é uma série de televisão (Nielsen teve uma carreira farta no pequeno ecrã), só teve seis episódios, mas mesmo assim é a coisa mais fenomenal na sua carreira. Sem Polícias À Parte não havia Aonde Pára A Polícia (Frank Drebin é um rip-off da série), não havia ZAZ style, não havia o lendário genérico mil e uma vezes pilhado e, enfim, não havia a carreira de Leslie Nielsen. E que saudades do Agora Escolha e da Vera Roquete. Vamos a factos. Somos um blogue duradouro. Quase sete anos em idade de internet é quase uma vida. Somos o Manoel de Oliveira da blogosfera nacional. E, tal como o realizador portuense, só os bloggers mais velhos nos conhecem e nos seguem. Somos ecléticos. Apesar dos textos opinativos sobre os filmes serem os mais comuns aqui neste imodesto tasco, temos uma série de secções que, de quando em vez, são reactivadas. E temos um template datado. Não nos adaptámos ao progresso cibernético e temos tardado a aderir aos novos gadgets. Termos ido parar ao Facebook já foi um grande avanço para mim, um tipo sem grande paciência (e tempo) para essas rabetices. Mas prometo que estamos a preparar uma novidade. Uma supresinha para quando menos esperarem. E que interessa isto hoje? É que vamos inaugurar uma nova secção. E um novo colaborador. Ah pois é, por esta é que não estavam à espera, não é? Senhoras e senhores, meninas e meninos, dêem as boas vindas a Diogo Santos, o mentor do saudoso Trash Cinema (a melhor coisa que aconteceu à blogosfera cinéfila nacional desde o Cinema Xunga), que uma ou duas vezes por seman a vai abrir o seu BAÚ DO TRASH para nos presentear com alguns dos melhores tesourinhos da sétima arte. BAÚ DO TRASH Título: Needle Realizador: John V. Soto Ano: 2010 Ao vaguear pelo mundo da pirataria, algures num site escuro, escrito em cirilico e com anúncios onde jovens loiras oferecem serviços em troca de um visto para entrar na comunidade europeiade, encontrei este direct-to-dvd australiano e passando os olhos pela sinopse fiquei com uma vontade de experimentar… ou seja… o que me fez gostar de cinema, ou melhor, o filme que me fez apaixonar por isto é deste género, "misterioso psicopata com problemas de infância, que no final é sempre o melhor amigo". E como quem gosta deste género sabe, encontrar qualquer filme novo em que se consiga dizer, epá cheguei quase a meio sem saber quem era o psicopata, já é pedir muito. Enfim, este Needle pareceu-me pelo menos, decente. Tudo começa com uns créditos meio manhosos feitos num programa de computador oferecido com a compra do 24 horas, onde alÉm de aparecer uma maquineta qualquer, se percebe logo que o realizador utilizou um orçamento do tamanho da hipoteca da casa. Como já é normal neste tipo de filmes, temos a cena inicial onde alguÉm morre de uma forma macabra e que só iremos perceber no final do filme porquê (a menos que não sejamos deficientes mentais). Corta para dez anos depois, típico colégio norte americano, com malta agarrada à bola de futebol americano, festas todas malucas em casarões de 10 hectares e gajas tiradas das revistas da Playboy a fazerem de estudantes de antropologia. Mas a nossa história centra-se apenas num grupo de estudantes de arqueologia, nomeadamente num rapaz enconado chamado Ben, que recebe do advogado de família um último artefacto da colecção do pai (morto há 2 anos e também amante da arte de pilhar túmulos da antiguidade), uma caixa de madeira com uns escritos em francês. Entretanto e depois de uma noite em que Ben bebe mais do que a habitual mini acompanhada de uma bucha e depois de ter decidido adormecer, apesar de uma tesuda do caralho lhe querer enfiar as bagas na cara à força, o tal artefacto é roubado de debaixo da sua cama. Para ajudar à festa, temos a chegada do irmão de Ben, que tudo o que fiquei a perceber é que vive num barco, não falava com o irmão há 2 anos e que tem um trabalho muito dúbio como fotógrafo para a policia local. Obvio que a caixa é um antigo método de vingança em que juntando sangue, cera, uma fotografia da vítima e muita imaginação, se consegue com uns alfinetes e um boneco (ya... vudu) matar qualquer pessoa. Um a um, todos os amigos de Ben vão fazer tijolo. Tendo em conta o orçamento, que deve andar a rondar o dos filmes portugueses (aqueles subsidiados pelo ICA, não os da Cofidis), os efeitos especiais são bastante bons. Os actores é que enfim, parecem ter deixado água a ferver em casa e estão ali numa de fazer uns minutos até se poder pôr o arroz a coser. Ou então são apenas familiares do realizador e não querem seguir carreira. Um pouco como os jogadores da selecção de futebol de San Marino. Bem, na realidade algumas das caras até são relativamente conhecidas, uma nova vaga de jovens actores da Oceânia, que podem ser vistos em outros grandes filmes, como Daybreakers - O Último Vampiro ou A Máscara 2 - A Nova Geração. O argumento, apesar de não ser dos piores, é fraquito, com muitos momentos em que não percebemos muito bem o que diabo se anda para ali a passar e o filme chega a um ponto em que parece que se acabou o sumo de tomate e deixa de haver gore para se passar para pequenas facadas e tiros. Vá lá mas o facto que eu até consegui chegar ao fim e apenas parei por duas vezes, não utilizando nenhuma forma de fast forward, merece o Cheesburger. ![]() Quarta-feira, Novembro 24, 2010 A REDE SOCIAL: Título: The Social Network Realizador: David Fincher Ano: 2010 ![]() Ok, sejamos sinceros, à partida um filme sobre o Facebook não parece uma grande ideia e eu próprio, confesso, tive que fazer muita força para resistir à tentação desta opinião não ser só assim ![]() Mais do que um filme sobre a criação da rede social mais popular do planeta por parte de dois amigos nerds (Jesse Eisenberg, em registo Michael Cera em sério, e Andrew Garfield, o futuro novo Homem-Aranha), A Rede Social é um filme sobre poder, controle, dinheiro e tudo o que isso traz agarrado. Se simplificarmos a história, A Rede Social pode parecer uma versão para o século XXI de O Segredo Do Meu Sucesso - um jovem sobre na vida graçar ao seu génio, mas também ao seu desenrascanço. Mas se virmos mais de perto, A Rede Social pode ser o novo O Mundo A Seu Pés. A Rede Social até tem um mcguffin escondido, que podia ser o rosebud de Mark Zuckerberg, o criador do Facebook - uma paixão recalcada (ups, spoilers alert). Mas para este ser o Orson Welles de fincher ainda falta mais qualquer coisa. Falta-lhe um golpe de asa final, um remate à história que seja mais do que ums simples notas de rodapé. A Rede Social termina em anti-clímax e, num filme como este, isso sabe a coito interrompido. A verdade é que, num filme de Fincher, estamos sempre à espera de algo que nos arrebate. E no anterior isso não aconteceu. O Estranho Caso De Benjamin Button começava com um gimmick interessante - um homem que nasce velho e que rejuvenesce até à morte -, mas de resto era um pouco... normal. A Rede Social é ainda mais clean, mas, contudo, ganha por KO técnico ao seu antecessor. Fincher e o argumentista, Aaron Sorkin, têm aqui uma autêntica lição de cinema. A Rede Social podia ser um maçador filme de tribunal, mas flashbacks entremeados com o presente vão contando a história em tempo real, com diálogos tarantinescos, um ritmo non-stop e duas horas de parlapiê que passam num piscar de olhos. Fincher, qual Douglas Coupland, volta a radiografar a geração X e o tempo dos nossos tempos, arrumando na gaveta Wall Street: O Dinheiro Nunca Dorme e condenando-o à insignificância. Portanto, eu like muito de A Rede Social. Eu like um McRoyal Deluxe. ![]() Sábado, Novembro 20, 2010 A ESTRADA: Título: The Road Realizador: John Hillcoat Ano: 2009 ![]() É certo que ainda não li nenhum dos seus livros considerados pelos entendidos como fundamentais (aqueles que foram adaptados ao cinema, pelo menos), mas do que li até agora confesso que achei muito chocho. No entanto, reconheço que Cormac McCarthy tem uma aura muito especial à sua volta, uma espécie de espírito mágico e sobrehumano que os escritores, na sua generalidade, perderam há já muito tempo. Portanto, ainda não li o seu best-seller A Estrada (que, se a Oprah diz que é bom, é porque é mesmo bom), mas depois de ver a sua adaptação homónima para o cinema, estou decidido em dar mais uma chance a McCarthy. Depois de Escolha Mortal (vénias com saída à rectaguarda), o realizador John Hillcoat agarrou neste A Estrada, outra história com um ambiente muito semelhante. Aliás, Nick Cave, que fora o argumentista de Escolha Mortal, também é um autor bastante próximo destas atmosferas decadentes e mórbidas, basta ler o seu primeiro romace E O Burro Viu O Anjo (este é que eu gostava que a Oprah lesse). A Estrada é uma espécie de derradeiro filme pós-apocalíptico, onde um Homem (Viggo Mortensen) e um Rapaz (Kodi Smit-McPhee) vagueiam por uma Terra devastada e quase deserta. A Estrada faz assim lembrar o cenário distópico, mas também pós-apocalíptico, de Mad Max 2: O Guerreiro Da Estrada, cruzado com os cenários inquietantes de avenidas inteiras desertas e abandonadas de Eu Sou A Lenda. No entanto, A Estrada é ainda mais perturbador, sempre sob um céu pesado de cinza-chuva, decors chamuscados e podridão e sujidade acumuladas. O desespero é, por isso, palpável e Michael Haneke é chamado à recepção, para compor o ramalhete de influências com o seu O Tempo Do Lobo. A razão do holocausto que apanhamos a meio em A Estrada nunca é revelado, assim como muitas coisas ao longo do filme. Aliás, apenas o essencial é explicado e mostrado, fazendo deste um filme simbólico. As próprias personagens não têm nome, funcionando também como símbolos. Lembramo-nos do recente Anticristo, onde isso também acontecia, fazendo dos filmes metáforas mais profundas e abrangentes do que simples histórias com algo para dizer. A Estrada é do tempo em que os filmes nos faziam pensar. Rima com temáticas actuais da nossa praça pública – a ameaça atómica, o aquecimento global, a preservação da biodiversidade... -, mas emparelha, sobretudo, com questões mais universais, como a Humanidade, a solidariedade ou a fraternidade. A Estrada é uma história sobre o Homem e sobre a condição do ser humano, levado ao extremo da sua racionalidade e colocado no limite da navalha, em que os instintos pela sobrevivência se confundem perigosamente com os seus instintos animais. Nunca li A Estrada livro, mas se for tão bom quanto o Le Big Mac de A Estrada filme, então acho que vou reabilitar Cormac McCarthy na minha consideração. ![]() Segunda-feira, Novembro 15, 2010 COMER ORAR AMAR: Título: Eat Pray Love Realizador: Ryan Murphy Ano: 2010 ![]() Confesso que ao fim de cinco minutos de Comer Orar Amar, fiz uma pausa para confirmar se estava mesmo a ver o filme certo. Uma mulher moderna (Julia Roberts), escritora de profissão, viaja pelo Mundo enquanto conversa com o espectador em modo narrador. Não é, mas parece um episódio de Sexo E A Cidade em versão one-woman-show. Julia Roberts é então uma escritora de literatura de supermercado, infeliz com a sua vida actual. Assim, pede o divórcio ao marido e liberta-se dos grilhões do matrimónio, tirando um ano da sua vida inteirinho para si, planeando uma viagem purificadora pela Itália, pela Índia e pelo Bali. O que têm estas três localidades a verem umas com as outras? Absolutamente nada excepto uma conjugação muito forçada de ocorrências do argumento, mas servem que nem ginjas para dar um colorido exótico e diferente a Comer Orar Amar. Comer Orar Amar é o típico filme de gajas, ideal para mulheres em crise de meia-idade, que vão olhar para a história e identificarem as suas próprias vidas cinzentonas, cujo déspota do marido, além de nunca baixar a tampa da sanita, não as deixam viver com liberdade suficiente. Assim, vão suspirar enquanto vêem Julia Roberts em cenários exóticos, a estoirar as suas poupanças e a engatar gajos mais novos a torto e a direito, pensando para os seus botões: “podia muito bem ser eu”. E que mal tem isto? Absolutamente nenhum. Isto se Comer Orar Amar não se estendesse por umas intermináveis duas horas e tal, que fazem dele o Ben Hur dos chick flicks. Acabasse ali a meio e não seria acusado de chover no molhado. Por isso, Comer Orar Amar ganha visibilidade mesmo é pelo regresso de Julia Roberts. É certo que o cinema precisava do seu retorno, nem que fosse para emparelhar uma das mais famosas namoradinhas da América com um dos novos galãs da sétima arte, Javier Bardem. Curiosamente, é com a entrada deste em cena que o filme começa a perder interesse até à irrelevância total. Bardem, a fazer de brasileiro (son peligrosas las meninas), parece sofrer do mesmo síndrome que Penélope Cruz; os filmes que faz fora de Espanha são sempre treta. Então porque um Cheeseburger tão inflado? Porque o Neil Young está na banda-sonora. ![]()
Posted by: dermot @
10:41 AM Quinta-feira, Novembro 11, 2010 OS AMIGOS DE ALEX: Título: The Big Chill Realizador: Lawrence Kasdan Ano: 1983 ![]() Sempre que algum maluco chega a Hollywood cheio de diarreia mental, com ideias megalómanas para filmes com aranhas mecânicas gigantes, cidades inteiras subaquáticas ou civilizações de criaturas azuis mutantes, devia haver alguém com uma cópia de Os Amigos De Alex no bolso de trás das calças para lhe esfregar nas ventas. Os Amigos De Alex é aquele filme que, numa época em que o cinema está cada vez mais artificial e fútil, nos lembra que o que realmente importa nesta indústria é uma boa história. Tal como Doze Homens Em Fúria, Os Amigos De Alex é o tipo de filme em que o argumento é o protagonista. Mais do que um filme de actores, é um filme de argumentista. E, para isso, apenas precisa de meia-dúzia de actores - aqui o rol é de luxo, incluindo por exemplo Kevin Kline, Glenn Close, William Hurt ou Jeff Goldblum -, um local e uma boa história. Não há cá cambalhotas à frente e à rectaguarda ou outras muletras argumentativas acessórias para rirmos, chorarmos e nos comovermos. A premissa é a seguinte: Alex (interpretado por Kevin Costner da forma como deviam ser todos os seus filmes: sem aparecer) suicida-se. O motivo é desconhecido e o seu funeral vai reunir o seu grupo de melhores amigos, que durante um fim-de-semana vão recordar os melhores tempos das suas vidas, desempoeirar antigas paixões, desenferrujar discussões velhinhas e, sobretudo, repensar as suas próprias vidas. Os Amigos De Alex é um filme maravilhosamente bem escrito. Quando começa, já o grupo de amigos está reunido e Alex morto; mas com uma segurança e um à-vontade brutal, o realizador Lawrence Kasdan vai apresentando-os aos espectador, ataravés de simples planos observatórios, pormenores aparentemente inofensivos (como o conteúdo das suas bagagens, que parece uma coisa sem importâcia, mas que conta mais das personagens do que a maioria dos diálogos do filme) e uma banda-sonora cheia de clássicos, que deixa rolar despreocupadamente enquanto a câmara vai seguindo os actores nas suas tarefas banais, como se estivessemos a ver um episódio do Big Brother. Mas em bom. É certo que Os Amigos De Alex foca um tempo específico: um grupo de jovens filhos da flower generation da década de 60, que vinte anos depois se encontram transformados em yuppies acmomodados, longe dos sonhos revolucionários que tinham idealizado para si próprios. Terá sido por isso que Alex se suicidou? No entanto, esse é um tema universal e, portanto, Os Amigos De Alex é mais intemporal do que podia parecer à partida. Para quem tem mais de 25 anos: quem é que nunca pensou nas suas vidas e colocou em causa tudo o que andou a fazer até agora? Para além de um filme com uma grande paleta de emoções, Os Amigos De Alex é uma lição de cinema. Não é de admirar que apaixone todos aqueles que querem fazer filmes. Basta ver como serviu de influência para Um Funeral À Chuva, de Telmo Martins, o filme independente que, recentemente, esteve nas nossas salas. Com um final um pouco mais objectivo e seria muito mais do que um McRoyal Deluxe. ![]()
Posted by: dermot @
11:18 AM Terça-feira, Novembro 09, 2010 VAN HELSING: Título: Van Helsing Realizador: Stephen Sommers Ano: 2004 ![]() Começo a ficar seriamente farto de vampiros. Agora que são a grande tendência do momento, eles estão toda a parte: acendo a televisão e está a dar uma novela com vampiros; vou ao cinema e em cartaz só estão filmes de vampiros; vou à casa de banho durante a noite e está lá um vampiro; dou um pontapé numa pedra e sai um vampiro lá de baixo... Cacete, já chega! Precisava de um escape. E, assim, decidi ir ver qualquer coisa de quando os vampiros eram sinónimo de bom mau cinema. Peguei então no Vampiras Lésbicas, do Jess Franco, mas se era para chafurdar na lama, então mais valia ir directo a uma lobotomia ao cérebro. Eis Van Helsing! Van Helsing é a prova de como a distância entre um grande filme e um grande desastre é minúscula. Stephen Sommers teve uma grande ideia, que tinha tudo para dar certo e para resultar em um grande filme. Mas não conseguiu controlar a coisa, perdeu-se em megalomanias e Van Helsing acabou por sair ao lado e ser uma simples anedota de rodapé na história do cinema. Mas, apesar de grande, palerma e super-cheesy, continua a ser melhor que a maioria das tretas que estreiam semanalmente nas salas de cinema. Van Helsing é o epíteto do trash: num tributo aos clássicos filmes de monstros da Universal, Sommers pilha tudo o que mexe e mistura o Drácula, com o Frankenstein e o Lobisomem e mete-os a serem caçados pelo Van Helsing (Hugh Jackman). Claro que é uma adaptação livre. Muito livre, aliás, basta dizer que Van Helsing é ele próprio um lobisomem(!), que caça monstros para o Vaticano(!!) e que é destacado para a Transilvânia, para capturar o Drácula, que tenta dar vida a uma mão cheia de filhos através da tecnologia do Frankenstein(!!!). Confusos? Normal, Van Helsing é muito confuso. Como qualquer bom filme série b, Van Helsing dispensa o genérico inicial e arranca logo a meio de um rip-off do Frankenstein, de Karloff. Incluindo o preto e branco, seguimos uma turba em fúria até ao castelo do doutor Frankenstein, onde ele dá vida ao seu monstro. Mas logo vemos que está lá o conde Drácula, incluindo as suas esposas reminiscentes do Drácula De Bram Stoker, e começa o fogo-de-artífico. Cenas de acção vertiginosas, abusando à força toda do CGI. Começa assim a viagem pela montanha-russa Van Helsing. Logo a seguir, conhecemos o nosso herói a caçar o doutor Hyde em Paris, em mais outra cena de acção gigante. E logo a seguir outra, na Roménia. E outra e mais outra e ainda mais outra. As cenas de acção surgem em catadupa e são cada vez maiores e mais ambiciosas. Por isso, no final, já Hugh Jackman tem poderes, já existem cada vez mais monstros no ecrã e temos cada vez mais o cérebro feito em papa. Sommers entusiasma-se e não consegue parar e vai esticando o filme over and over. E, ao mesmo tempo, vai jogando cada vez mais informação para dentro do filme, fazendo dele uma história confusa e com coisas a mais (desnecessárias?) pelo meio. É tanta coisa em Van Helsing que não há espaço para as coisas realmente importantes neste género de filmes, a saber: humor; estilo; one-liners espirituosas; e pele à vista. Além disso, Hugh Jackman - começa a especializar-se em heróis peludos - não consegue fazer uso dos seus níveis de coolness num fato demasiado grande e com um chapéu à Undertaker. Enfim, é uma pena que alguém receba carta branca para fazer uma coisa como Van Helsing e depois resulte nisto. Um desperdício. Eu fazia melhor. Mas eu também com um terço do poder de Deus e tinha o mundo num brinquinho, por isso mais valia darem a oportunidade ao Filipe Melo, que partiu dum conceito semelhante no (genial) livro de BD, As Aventuras De Dog Mendonça E Pizza Boy. Cheeseburguer que eu simpatizo com os monstros da Universal. Sexta-feira, Novembro 05, 2010 APARELHO VOADOR A BAIXA ALTITUDE: Título: Aparelho Voador A Baixa Altitude Realizador: Solveig Nordlund Ano: 2002 ![]() Quando aqui há uns meses estreou um filme português que a malta apelidava de primeiro filme português de ficção-cintífica (alguém mencionou Contraluz?), lembrei-me logo de Aparelho Voador A Baixa Altitude. Não sei se será o primeiro filme de ficção-científica feito por um português (até porque Solveig Nordlund é uma portuguesa adoptada), mas se não for será, certamente, um dos melhores. Aliás, deixo aqui o desafio: digam-me filmes portugueses de ficção-científica. Adaptado de um conto homónimo de J.G. Ballard, Aparelho Voador A Baixa Altitude é uma história distópica sobre um futuro onde a humanidade está prestes a extinguir-se. Devido às mutações genéticas, as mulheres deixaram emprenhar e as que conseguem geram seres deformados, cegos e apenas sensíveis a cores fluorescentes - os Zote! Margarida Marinho e Miguel Guilherme podem ser o último casal a ter um bebé normal e, com alguma manha pelo meio, fogem de uma Suécia prestes a fechar as portas e refugiam-se nos hóteis abandonados de Tróia, a saudosa e decadente Torralta que os Roxette usaram para os seus clips, pré-resortes-de-luxo-do-tio-Belmiro. Aliás, a Torralta é mesmo o grande trunfo de Aparelho Voador A Baixa Altitude. As torres abandonadas no meio de uma praia idílica são o veículo perfeito para transmitir uma sensação de desespero e de mundo prestes a colapsar, qual pós-apocalipse em CGI. E podem esquecer as ruas desertas de Eu Sou A Lenda. Quanto ao resto não havia muito dinheiro para gastar, por isso as personagens são transportadas o mais rápido possível para a freguesia de Grândola, passando o menos possível por locais que denunciem o nosso tempo. Solveig Nordlund nasceu na Suécia, mas naturalizou-se portugues há muito tempo, tendo trabalho com João César Monteiro e com Manoel de Oliveira. Por isso, o cinema da palavra português está-lhe no sangue, assim como os dramas gelados de Ingmar Bergman. O que resulta é uma obra muito própria, contemplativa e reflexiva, mas com espaço para os actores. Especialmente para Margarida Marinho, com uma interpretação acima da média (há um sonho em que se contorce ensaguentada numa cadeira de ginecologia no meio de uma sala abandonada que faria os produtores de Saw - Enigma Mortal terem um AVC de felicidade), abrindo o livro num filme que acaba por ser sobre a maternidade, temática reincidente por Nordlund no seguinte A Filha. Aparelho Voador A Baixa Altitude tem ainda o ambiente claustrofóbico de Bunker Palace Hotel, com o casal de protagonistas encerrado num hotel de aspecto caquético com um grupo de idosos que já devem anos à morte, enfiados em paranóia e outros distúrbios mentais. É o que dá conviver com Badaró, que anda por lá a balançar os pés à borda da piscina. Portanto, Aparelho Voador A Baixa Altitude é o grande filme nacional de ficção-científica, o que se traduz em miúdos por um McBacon. Terça-feira, Novembro 02, 2010 SPLICE - MUTANTE: Título: Splice Realizador: Vincenzo Natali Ano: 2009 ![]() Apesar do sucesso de Cubo, que inclusive deu direito a duas sequelas (cada uma delas mais feia do que cuspir na sopa), Vincenzo Natali tem tido um percurso discreto. Em Portugal então os seus filmes nem estreia comercial têm tido. Quem fica a perder mais uma vez, claro, é o espectador nacional, que assim não tem acesso a um dos mais simpáticos realizadores de ficção-científica da actualidade, herdeiro daquele espírito especial da Quinta Dimensão, um pathos difícil de descrever. Ou se conhece ou não se conhece, é chato, mas é mesmo assim. Splice é a nova incursão de Natali por uma sci-fi mais high-tech (tanto Cubo como Cypher eram assim), mas desta vez mais atenta à actualidade: a clonagem e a manipulação genética. Adrien Brody e Sarah Polley são então dois jovens cientistas que, depois de conseguirem clonar com sucesso uma nova espécie que reunia o ADN de várias outras criaturas distintas, decidem dar um passo em frente à revelia de todos e experimentarem uma outra nova espécie, desta vez acrescentando ADN humano. Temos então o Homem a entrar nos domínios de Deus e a brincar à criação e isso comporta logo uma séie de questões morais e existencialistas. Para não falar da dicotomia religião versus ciência, que começa logo por ser colocada aos dois jovens cientistas. E isso vai resultando enquanto o bicho recém-criado é uma simples pila gigante. Mas quando este começa a evoluir para uma cara de cú tipo Rubber Johnny e depois para uma bela criatura feminina alada (encarnada a meias por Delphine Chanéac e uma excelente manipulação de CGI) entramos na área do doutor Frankenstein. Bem-vindos à sequela não-oficial de Espécie Mortal. Mas Splice não é um filme contido ao género e a ficção-científica costuma ganhar maior amplitude nas mãos de Natali. Aqui, rima com maternidade e paternidade e coisas mais profundas, como complexos de Édipo e afins. Ou seja, tem tudo a ver com sexo, como diria Freud e como Adrien Brody vai corroborar lá mais para perto do final. E lembramo-nos inevitavelmente de Alien - O Reencontro Final e do duelo Mãe/criatura, assim como de A Semente Do Diabo, filme em que os medos de ter um filho são filtrados pelas lentes do terror. Apesar do seu terror psicológico ter mais impacto que a sua parte mais gráfica, Splice acaba por funcionar melhor na teoria do que na prática, uma vez que o argumento não vai conseguindo evitar alguns tropeções e previsibilidade. Contudo, não deixa de ser um serão paranormal entretido perto dos níveis normais do McBacon. E como bónus tem uma cena dementemente divertida, cheia de gore, que inclui a fila de frente de uma plateia a levar com um jerrican de sangue em cima. Segunda-feira, Novembro 01, 2010 ESPECIAL SEQUESTRO DO ÔNIBUS 174: 12 de Junho de 2000: ao início da tarde, o jovem Sandro Barbosa do Nascimento sequestra durante cinco horas um grupo de 10 reféns no interior do autocarro 174, no centro do Rio de Janeiro, Brasil, depois da polícia ter abordado o veículo. Em menos de nada, a polícia, o BOPE e a comunicação social cercam o local. De repente, ninguém quer saber do Big Brother. O sequestro do autocarro 174 é um fenómeno seguido em directo por toda a gente, incluindo o desfecho trágico, em que Sandro abandona a camionete, um polícia falha o tiro fatal, uma refém morre e o sequestrador é asfixiado pelas forças policiais no interior da carrinha celular. O caso fica conhecido, em bom brasileirês, como o sequestro do ônibus 174, que entretanto muda de número, inserindo-se na memória colectiva dos brasileiros de forma marcante, levantando uma série de discussões sociais e políticas e dando azo a um documentário e a um filme. ÔNIBUS 174: Título: Ônibus 174 Realizador: José Padilha & Felipe Lacerda Ano: 2002 ![]() Foi com Ônibus 174, documentário sobre o sequestro do autocarro 174, e com Cidade De Deus, filme estreado quase de seguida, que o cinema brasileiro deu o pontapé de saída para uma espécie de subgénero, que tem ganho cada vez mais visibilidade internacional. É uma espécie de realismo de favela, em que os bairros pobres brasileiros tornam-se no protagonista e os seus moradores ganham voz e direito a tempo de antena. De repente, a favela já não são só traficantes e bandidos, mas sim vítimas de uma política de segregação e ostracização. No fundo, foi preciso um sequestro de um autocarro em directo durante cinco horas para a televisão para que a praça pública brasileira percebesse isso. E foi preciso este documentário para que não se esqueçam mais. Sandro do Nascimento havia sido um dos sobreviventes daquilo que ficou conhecido como o massacre da Candelária, em que um grupo de extermínio constituído por polícias fuzilou a sangue frio dezenas de crianças sem-abrigo que dormiam no largo de uma igreja do Rio de Janeiro. Na teoria, Sandro foi colocado num centro de recuperação, mas na prática foi abandonado em instituições com condições desumanas, que contribuiram para a sua degenração em vez da sua regeneração. Combinando a live footage do sequestro com entrevistas a vários intervenientes, José Padilha e Felipe Lacerda documentam a vida de Sandro do Nascimento, desde o seu crescimento numa favela, o assassinato da sua mãe, a sua fuga para as ruas de Copacabana, o massacre de Candelária e o sequestro do 174. E, acima de tudo, dá voz à favela, denunciando ainda uma série de podres da sociedade civil brasileira e da sua burocracia institucional, como as condições das prisões sobrelotadas, em que vinte pessoas partilham uma cela que mal dá para quatro, empoleirando-se em cordas presas no tecto como catatuas. Apesar de abordar temas sensíveis e delicados, Ônibus 174 não é sensacionalista nem oportuno, falando com toda a gente - os polícias envolvidos na operação, a família de Sandro, as próprias vítimas do sequestro... - e dando todos os pontos de vista. Além disso, faz um trabalho de casa completo, não se limitando a enumerar as imagens reais que passaram na televisão nesse dia de Junho. Mas o que faz de Ônibus 174 um grande filme e não apenas um grande documentário é o facto de saber ser cinema. Não basta apenas ter a informação toda, porque para isso existem as grandes reportagens, como agora os nossos canais generalistas lhe chamam e se orgulham de passar em horário nobre; é preciso algo mais, dar-lhe uma parte estética, sem descurar o conteúdo. E Ônibus 174 fá-lo com mérito, dispensando inclusive qualquer necessidade de ter um narrador ou sequer as indicações a identificarem os entrevistados, o que é um sinal de como a história está superiormente bem estruturada, montada e contada. Ônibus 174 tem então o mesmo efeito de panela de pressão que, muito possivelmente, se sentiu naquele dia de Junho durante cinco horas, para quem assistiu a tudo no local ou, simplesmente, sentado no sofá de sua casa colado à televisão. E, no fim, tudo soa a tragédia grega, como se fosse encenado. Mas não precisa, a realidade ultrapassa sempre a ficção, não é? Um Le Big Mac sem espinhas. ![]() AUTOCARRO 174: Título: Última Parada 174 Realizador: Bruno Barreto Ano: 2008 ![]() Bruno Barreto aproveitou uma série de coisas para fazer Autocarro 174. Acima de tudo, o sucesso do documentário Ônibus 174 e a cicatriz que esse episódio deixou na memória colectiva brasileira; mas também a visibilidade internacional de A Cidade De Deus e, consequentemente, do novo cinema brasileiro. Mais do que o caso do adolescente que, durante cinco horas, sequestrou um autocarro com dez reféns, acompanhado em directo por toda a televisão brasileira, Autocarro 174 propõe-se a retratar o passado e o contecto social desse jovem, Sandro (Michel Gomes), dando voz às vítimas e seguindo aquela máxima que Bob Dylan imortalizou na imortal Like a rolling stone: quando não tens nada, não tens nada a perder. A Cidade De Deus dava tempo de antena a favela e mostrava com um realismo apurado como os seus delinquentes eram mais vítimas do ambiente do que bandidos por maldade e convicção. No entanto, Bruno Barreto confune isso com a favelexploitation em que se transforma Autocarro 174. Seguindo a escola de Larry Clark, Autocarro 174 começa a sobrepôr episódios atrás de episódios, em que o sensacionalismo barato é a chave de tudo, sem se preocupar com qualquer construção temporal ou de personagens. A história vai assim avançando no tempo a cem à hora e sem qualquer aviso, salvo algumas indicações inscritas em rodapé, enquanto que as personagens secundárias vão entrando, saindo e reentrando como se tivessem estado sempre lá. O caso mais flagrante é o da namorada de Sandro, a prostituta Chris Vianna, que este reencontra uns dez anos depois, na praia, beija-a na boca e é como se ela tivesse estado sempre com ele. Autocarro 174 é, portanto, um filme volátil, com personagens frágeis e pouco convincentes que, se não tivessemos visto Ônibus 174 e se não conhecessemos a história real, não iríamos preocupar-nos um milímetro. Autocarro 174 é só hype, que vem atrelado a Ônibus 174, A Cidade De Deus e ao novo cinema de favela brasileiro. Um decepcionante Happy Meal, especialmente após ver o documentário Ônibus 174. ![]()
Posted by: dermot @
10:26 AM |
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