Título: Footloose Realizador: Herbert Ross Ano: 1984
Footloose - A Música Está Do Teu Lado é um clássicos 80's flick, sub-género de filmes que só foi possível terem sucesso por terem sido feitos numa década caracterizada por uma incrível sobreposição de tendências que tinham em comum uma terrível e assustadora noção de mau gosto. Além disso, foi o filme que lançou Kevin Bacon - foi aqui, neste já longínquo dia de 1984, que Bacon começou a tecer a sua infindável teia que é o seu Oráculo de Bacon.
No entanto, Footloose tem um defeito que me irrita. Aliás, tem vários, mas há um em particular que me aborrece particularmente. É que Footloose é um filme sobre um miúdo (o próprio Bacon, claro) que se muda de Chicago para uma terra da província dominada pelo moralismo do padre de serviço (vénia a John Lithgow ) que, com uma forçada correlação às drogas e à promiscuidade, proibiu o rock'n'roll e a dança(!). Cansado de tanta parvónia, Bacon vai revoltar-se e organizar um baile para pôr aquela gente toda a bater o pé.
Ou seja, Footloose é um filme sobre rock'n'roll. E um filme onde toda a gente desata a dançar sem explicação aparente e mesmo sem ser um musica. É um filme onde Kevin Bacon, para expressar a sua raiva, vai para um armazém abandonado dançar à bruta(!). No entanto, apesar do corte de cabelo e do guarda-roupa à new-wave (inclui referência a Bowie), Bacon passa o filme todo a ouvir electric-rock manhoso. E, tirando a theme-song, toda a banda-sonora é um misto de mau rock-fm, hair-rock e outros sub-géneros foleiros que a década de 80 pariu, incluindo a Bonnie Tyler, os Foreigner ou o Sammy Hagar.
Enfim, Footloose é um feelgood movie daqueles que os anos 80 produziram em massa, em que perpetuam o sonho americano junto dos jovens (olá O Segredo Do Meu Sucesso, olá Namorada Aluga-se...): se acreditares realmente conseguirás realizar os teus sonhos. Para isso basta apoiares-te nos teus amigos (um magro Chris Penn ou uma muito jovem (mas já irritante) Sarah Jessica Parker), discursos motivadores e, já agora, cantilenas que façam dinheiro na rádio.
Longe do tão mau que se torna bom - é apenas mau -, Footlosse tem, ao menos, a vantagem de ser inofensivo e, por isso, ser tolerável à vista. O problema é que às vezes nos esquecemos que ser um clássico não é a mesma coisa do que ser um clássico dos anos 80. Para mim é um Happy Meal e já chega.
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4:05 PM |
Terça-feira, Outubro 26, 2010
PELE:
Título: Pele Realizador: Fernando Vendrell Ano: 2006
Pele abre com um plano magnífico, daqueles que vendem filmes: sentado com um pano vermelho por trás, JP Simões dedilha despreocupadamente uma guitarra eléctrica, vestido à Sgt. Pepper. Nisto alguém o chama e a câmara segue-o, tudo muito natural, até ao outro lado do tal pano vermelho: o palco de um baile de máscaras, onde JP Simões é o frontman de uma banda de rock'n'roll.
A partir daqui, Olga (Daniela Costa) engata um tipo na pista de dança e este leva-a para o banco de trás do seu carro, na esperança de a conseguir comer à bruta por trás. No entanto, quando lhe tira a máscara e vê que ela é mulata tem a infelicidade de dizer: "não te imaginava uma Venus tão morena". Olga arma-se em drama queen e abandona o carro armada em virgem ofendida.
Esta cena é sintómática do resto de Pele. Olha tem dinheiro, é a melhor do seu curso e vem de uma família aristocrata da linha de Cascais, mas é preta. E se hoje em dia isso ainda é um grande entrave em muitas áreas da nossa sociedade, imaginem no Portugal dos anos 70, pré-Revolução dos Cravos. No entanto, também é verdade que Olga exagera, armando-se em attention whore. E, pior que tudo, começa a vingar-se na própria família, na melhor amiga e, principalmente, na sua vida, começando a dar-se com quem não devuia ou experimentando coisas menos apropriadas. Descriminaram-se por causa da cor da pele? Ai é, então vão ver eu a desgraçar-me, yeah, sou bué rebelde.
Fernando Vendrell pega neste cliché da jovem que tem de enfrentar o preconceito racial, contextualiza-o numa época específica mas nem por isso mais apropriada e deixa-o desenrolar pelos seus próprios lugares comuns. E, quando chega aos últimos vinte minutos, já só fica a patinar em seco sem mais nada para dizer.
Tentando, quiçá, evocar um cinema de uma época em que a juventude rebelde era a protagonista - Fúria De Viver, Esplendor Na Relva, etc... -, Pele tem uma magnífica reconstituição histórica. Além disso, Olga apresenta um guarda-roupa exemplar que fazem dela uma verdadeira pin-up, apenas comparada pela Beatriz Batarda de biquini escarlate em A Costa Dos Murmúrios.
Fora isso, Pele é mais ou menos um sucedâneo de fait-divers, que não significam mais do que um Cheeseburger.
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3:51 PM |
Domingo, Outubro 24, 2010
JACUZZI - O DESASTRE DO TEMPO:
Um filme sobre uma banheira-jacuzzi que viaja no tempo parece, há partida, uma ideia demasiado parva para resultar. Mas se pensarmos que um tipo que viaja no tempo quando veste um colete de forças e entra numa gaveta de uma morgue (Colete De Forças, anyone?) já deu azo a um filme - e um sério! -, então até se calhar não estão a esticar tanto a corda como parecia.
Jacuzzi - O Desastre Do Tempo aproveita a boleia de A Ressaca para fabricar uma das comédias da temporada. Agarra num grupo de amigos suficientemente heterogéno - o geek, o loser, o chato e o preto -, coloca-lhes uma série de problemas existenciais e, através dum gimmick divertido, fá-los enfrentarem os seus própris fantasmas. Parece a fórmula de mais uma comédia adolescente batida e rebatida mais e mil vezes, mas, desde o sucesso de A Ressaca, que os jovens deixaram de ser os protagonistas; agora é o tempo dos jovens adultos, uma geração cada vez mais a questionar o seu futuro.
Tentando reviver os seus tempos de glória e maluquice, quando os dias pareciam maiores, esse tal grupo de amigos já não tão amigos quanto antes, procuram repetir um último e derradeiro fim-de-semana louco, numa estância de inverno que também já viu melhores dias. No entanto, um jacuzzi em curto-circuito com uma bebida ilegal russa(!) leva-os atrás no tempo, até aos anos 80. Como todos já viram Regresso Ao Futuro e outros filmes sobre viagens no tempo, escusa-se de estar a explicar porque é que eles têm que ter cuidado para não alterarem a linha temporal. Mas a tentação de mudar as suas vidas miseráveis pode falar mais alto.
Jacuzzi - O Desastre Do Tempo é como A Ressaca, mas mais ecatológico. É um filme sobre jovens adultos que voltam a ser adolescentes e, por isso, é humor inteligente a que se admite (perdoa?) alguma javardice. Depois é também absurdo (um jacuzii que viaja no tempo, c'mon) e, por isso, dá-se ao luxo de alguns momentos what the fuck. Jacuzzi - O Desastre Do Tempo é como um episódio de Family Guy, onde vale tudo, e, por isso, a referência soa a elogio.
Por fim, Jacuzzi - O Desastre Do Tempo tem um último trunfo na manga: a reconstituição dos anos 80, década do caraças, onde a noção de bom-gosto esteve dormente. No entanto, esta é a parte em que o filme parece não se ter esforçado tanto como podia (devia?). Com excepção à música (olá sintetizadores manhosos, olá Poison), o resto limita-se ao mínimo indispensável, o que, mesmo assim, é suficiente para parecermos estarmos a ver um episódio do mítico Já Tocou.
Jacuzzi - O Desastre Do Tempo preenche os seus buracos com distinção, apesar de alguma alarvice pelo meio, nunca perdendo a noção da sua ideia inicial. Só por isso já merece uma palavra de apreço. Além disso, mais meia-dúzia de momentos inspirados e alguns esgares bem-intencionados que provoca valem, e bem, o McBacon.
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12:06 PM |
Quarta-feira, Outubro 20, 2010
PREDADORES:
Título: Predators Realizador: Nimród Antal Ano: 2010
Aquele bicho feio e mau que o cinema criou e baptizou simplesmente de Predador é um dos monstros do top 3 da sétima arte, um pódio que partilha com o monstro da Lagoa Negra e, claro está, com o seu compincha Alien. No entanto, com excepção da bem intencionada sequela, tudo o que foi feito ao franchise após o excelente filme de John McTiernan foi apenas arrasta-lo na lama. Por isso, de certa forma, aceita-se este reboot feito à série.
Comparado com tudo o que já foi feito no universo Predador, este Predadores é o que está mais próximo de emular o espírito do filme original. E, para isso, basta atentar aos nomes por detrás do filme: Robert Rodriguez, na cadeira de produtor, e o húngaro Nimród Antal, de O Motel e, especialmente, do desconhecido mas genial Kontroll. Predadores é, portanto, um exercício mais perto do série-b clássico e económico do que das tretas sci-fi de Paul W. Anderson.
Os bons filmes de acção começam assim: como se entrássemos, perigosamente, num comboio a alta-velocidade em andamento. Predadores começa literalmente assim: dispensando o genérico inicial, apanhamos o super-soldado Adrien Brody em queda livre, sem saber onde está nem tão pouco porquê. Portanto, desde o primeiro segundo que o conhecemos que está a lutar pela sobrevivência, só parando para respirar quando tudo está acabado. É por isso que só ouvimos o seu nome nos instantes finais do filme.
Predadores inverte Predador: em vez de um grupo de soldados a caçar um Predador, temos vários Predadores a caçar um grupo de soldados, trazidos para um planeta desconhecido tipo reserva de caça natural, para treino especial dos bichos. Já vimos isto antes, quando o Ice-T se tornou presa humana em Presa Mortífera, mas nunca a este nível.
Temos então um herói colectivo que parece vindo dum anúncio da Benetton: um soldado das guerrilhas da Serra Leoa, outro dos cartéis da América do Sul, outro da Faixa de Gaza, outro da Yakuza... E como em qualquer série-b que se preze, o americano é o líder, quem salva o dia e quem fica com a miúda no fim. Como se não bastasse, Predadores honra ainda a memória do cinema de segunda categoria, colocando no grupo o cada vez mais deus, Danny Trejo. E faz dele o que o cinema trash sempre fez dele: mata-o ainda antes da meia-hora de filme.
Predadores é um filme de guerra, com violência gráfica e sanguinária, que apenas patina quando Antal decide inventar: um sub-enredo caído do céu perto do final, que não serve para coisa nenhuma senão temntar justificar mais um euro do preço do bilhete; um Lawrence Fishburne caído do céu para coisa nenhuma; ou um mano-a-mano entre um Predador e um tipo da Yakuza em modo samurai.
Está feito o reboot à série, de forma mais ou menos honesta e conseguida, a modos de um McBacon. agora que Deus Nosso Senhor nos ajue com as inevitáveis sequelas.
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12:03 PM |
Segunda-feira, Outubro 18, 2010
O PROTEGIDO:
Título: Unbreakable Realizador: M. Night Shyamalan Ano: 2000
Antes de cair no descrédito total, com uma série de filmes que não lembram à carochinha, M. Night Shyamalan era um dos poucos realizadores vivos a quem valia a pena ver filmar. Os filmes até podiam não ser grande coisa, mas a forma como controlava as emoções e colocava a câmara faziam dele o sucessor de Alfred Hitchcock enquanto mestre do suspense.
Depois da consagração com (o genial) O Sexto Sentido, Shyamalan realizou aquele que é o seu trabalho favorito e o dos geeks: O Protegido, espécie de tributo ao mundo da banda-desenhada e aos seus próprios aficionados.
David Dunn (Bruce Willis) é então um indivíduo vulgar, com um casamentos prestes a entrar em ruptura e dificuldades em se relacionar com o filho. No entanto, quando está prestes a optar por recomeçar tudo de novo noutra cidade, um incidente leva-o a ponderar toda a sua vida: ao escapar ileso de um descarrilamento catastrófico do comboio onde seguia, Dunn conhece um tipo com os ossos frágeis como cristal (Samuel L. Jackson) que o convence que é um sobre-humano predestinado a ajudar os fracos e oprimidos.
O Protegido é, portanto, o oposto de Kick Ass - O Novo Super-herói: enquanto este era sobre homens ordinários que querem ser super-heróis, O Protegido é sobre super-heróis que são simples homens ordinários e não o sabem/não querem saber. Shyamalan filma então um filme de super-heróis como se fosse um drama familiar, fugindo ao género, sempre com a família como núcleo da trama, seguindo a tradição clássica e Hollywood, de Capra a Spielberg, em que a família é sempre o tema fundamental das histórias, mesmo quando são filmes de terror.
Shyamalan filma O Protegido de forma cuidada, com um ritmo lento e em que cada plano é meticulosamente estudado, seja no ângulo arrojado, seja na posição pouco convencional da câmara, fazendo com que cada cena seja única. Aliado a isso, Bruce Willis ajuda ao acumular da tensão e do suspense com uma prestação low profile, fazendo do underacting uma arma. Quanto a Samuel L. Jackson limita-se a ser Samuel L. Jackson. E isto é um elogio. No final, lugar ainda ao inevitável twist característico dos trabalhos de Shyamalan, algo previsível, mas eficaz.
O Protegido é um grande filme, mas nem por isso deixa de ter já alguns sinais de um realizador ingénuo, que se acabou por revelar nos últimos tempos, como um final em anti-clímax (se bem que pode ser encarado como um tributo ao universo dos comics) ou algumas manobras narrativas ridículas e forçadas. Contudo, esta era um tempo em que, mesmo com isto, ver um filme de Shyamalan era como degustar um McRoyal Deluxe.
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12:08 PM |
Quinta-feira, Outubro 07, 2010
DEAD SNOW:
Título: Død Snø Realizador: Tommy Wirkola Ano: 2009
Depois de strippers zombies ou de ovelhas zombies é já difícil ficar impressionado com o que quer que seja. Mesmo que estejamos a falar de nazis noruegueses zombies, o mote de Dead Snow, filme sensação de Tommy Wirkola, nome que os internatutas mais ferrenhos já conehciam da paródia javarda a Kill Bill, Kill Buljo.
Apesar de ser um zombie-flick, Dead Snow começa por seguir a estrutura do teen-slasher: um grupo (onde impera a paridade de sexos) de adolescentes com as hormonas aos saltos (não há pele à mostra no filme, mas há uma cena de sexo que é, no mínimo, a coisa mais nojenta do filme, numa casa-de-banho one o elemento masculino estava a cagar e nem sequer teve tempo de lavar as mãos) vão passar uns dias a uma cabana deserta no meio de umas montanhas geladas. Como era de esperar, vão acabar por morrer um a um, mas a diferença é que, em vez de haver um serial killer demente, há um exército nazi zombie(!).
Um bom filme de zombies precisa, essencialmente, de uma de duas coisas: um bom papel de crítica política e/ou social para ser envergado pelos zombies; e/ou uma boa explicação para justificar o aparecimento dos mortos-vivos. E se Dead Snow ignora ostensivamente a primeira premissa, a segunda cumpre-a com distinção: no final do Reich, o exército invasor malvado e cruél daquela cidade norueguesa fora perseguido pela população em fúria, refugiando-se do massacre anunciado no topo das montanhas nevadas, levando consigo o máxoimo do aque entretanto pilhado aos noruegueses.
Jovens e zombies nazis embarcam então numa demanda carniceira, onde apenas impera a máxima mata ou morre! E, por isso, as mortes vão sendo cada vez mais gráficas e imaginativas. Por exemplo, Vegar Hoel antecipa Machete, ao experimentar escalada com um intestino grosso. Yeah! E, segundo a tradição do gore (olá Peter Jackson), Dead Snow não dispensa o humor, controlando-o sempre para não cair na caricatura desmiolada.
Dead Snow é, portanto, um Peter Jackson meets Sam Raimi. Começa por ser um A Noite Dos Mortos-Vivos e transforma-se numa matança do porto tipo Morte Cerebral, mas com mortos-vivos. Correcção, nazis-mortos-vivos. Como se fosse preciso dizer mais alguma coisa para justificar este McRoyal Deluxe, não é?
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11:49 AM |
Segunda-feira, Outubro 04, 2010
TEMPESTADE TROPICAL:
Título: Tropic Thunder Realizador: Ben Stiller Ano: 2008
Antes de haver A Ressaca (filme manifestamente pobrezinho), Tempestade Tropical era a comédia de que todos gostavam. Ou seja, era a comédia que conseguia ter piada sem ter de ser brejeira ou escatológica, era a comédia que agradava tanto às massas como à crítica e, bem, era a comédia que fazia realmente rir. No entanto, apesar de todo o hype criado na altura, o meu corpo desenvolveu anti-corpos que só agora consegui contornar. Tudo porque o seu realizador é Ben Stiller.
Ben Stiller é um nome com algum crédito, especialmente por vir de uma família com história na comédia norte-americana. No entanto, por cada filme giro que faz, correspondem dez outros execráveis a que não me atrevo a mexer nem com um pau de dez metros. Quanto à sua faceta de realizador, os entendidos apelidam-no de cineasta incompeendido. Contudo, ainda outro dia apanhei O Melga no Canal Hollywood e voltei a não perceber onde estava a graça daquilo. Das duas uma: ou os filmes de Ben Stiller são demasiado inteligentes para mim ou incompreendido signifca sem piada nenhuma.
Mas é com Tempestade Tropical que Ben Stiller limpa o seu nome de vez e eu deixo de alar mal de si. Tempestade Tropical é uma comédia realmente inteligente e divertida, que merece muito mais o estatudo de a comédia (reparem no itálico do artigo definido) do que A Ressaca. Vamos lá então.
Tal como os filmes que realizou antes, Tempestade Tropical é uma sátira que, desta vez, parodia a própria indústria cinematográfica de Hollywood. Ou seja, Ben Stiller morde a mão de quem lhe dá de comer, gozando com aqueles que lhe estão a pagar para o fazer. Só aqui, Tempestade Tropical demonstra logo grande coragem. E, como se sabe, a meta-comédia é a nova tendência desta década.
Tempestade Tropical é a estória da produção de um épico filme de guerra, tão grandiosa e caótica quanto a de Apocalipse Now. Principalmente porque no plateau convivem um grupo de actores prima-donas, cheios de caprichos e esmagados pelo próprio ego. E é logo aqui que Tempestade Tropical ganha pontos em relação ao seu antecessor, por exemplo. Enquanto que em Zoolander, sátira do mundo da moda, as personagens eram simples caricaturas, aqui são personagens verdadeiras de carne e osso.
Temos então Ben Stiller, um jovem Stallone que procura desesperadamente a credibilização enquanto actor sério, para lá do simples action-heroe-saco-de-músculos; temos Jack Black, o actor cocainómano e o elo mais fraco do elenco; temos Brandon T. Jackson, em registo Mos Def, o rapper que experimenta o cinema; e o super-Robert Downey Jr., actor extremista do método de Stanislavski, que pigmenta a própria pele para fazer de preto, falando como um e agindo como um durante todo o filme, no papel mais racista, mas também mais acutilante da comédia deste milénio. No entanto, é impossível não colocar Tom Cruise no topo do bolo, no papel irreconhecível do milionário produtor do filme, com a mesma cadência a dizer palavrões do que Dennis Hopper, em Veludo Azul, e com mais próteses do que Charlize Theron, em Monstro.
Tempestade Tropical é então um maravihloso manual de referências cinéfilas, onde nem sequer falta um furioso Jon Voight a ser derrotado nos Oscares, como em 1969. Sátira divertida, subversiva, mas também descarada, que tem ainda como bónus alguns filmes dentro do filme: os porno-fetiche de Jack Black e Simple Jack, o filme de Stiller a fazer de atrasado mental e a ofender meio mundo. Só pelo politicamente incorrecto, numa altura em que cansa tanto conformismo, Tempestade Tropical já merece este McRoyal Deluxe.
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11:25 PM |
Sábado, Outubro 02, 2010
KICK ASS - O NOVO SUPER-HERÓI:
Título: Kick Ass Realizador: Matthew Vaughn Ano: 2010
Tal como os outros sub-géneros, também a banda-desenhada necessitou de empo para ganhar o seu espaço e lugar de respeito. Nos anos 60, a bd era apenas veículo de propaganda ou simples fonte de entretenimento infanto-juvenil. Mas quando esta geração cresceu e continuou a consumi-la, a bd passou a ser aceite até se estabelecer definitivamente com o surgimento dos graphic novels: romances ditos sérios em formato de tiras de quadradinhos.
O ponto zero desta viagem foi a obra-prima de Alan Moore, Watchmen, que há pouco tempo também já foi adaptada ao grande ecrã com a mesma pompa e circunstância dos grandes clássicos da literatura. A partir deste tomo, os super-heróis deixaram de ser os personagens bidimensionais e invencíveis (uma espécie de deuses sobrehumanos), para se tornarem personagens mais compelxas e metafísicas.
Kick Ass - O Novo Super-herói, adaptado da graphic novel homónima, parte deste princípio, mas assenta numa premissa ainda mais terra-a-terra: Dave Lizewski (Aaron Johnson) é um jovem "normal" atormentado por uma questão existencial: com tanta bd no mundo, como é que nunca houve um maluco que decidisse vestir um fato de licra e decidir combater o crime com as próprias mãos? Dave decide então ser esse maluco: compra um fato de homem-rã verde, assume o alter ego de Kick Ass e decidide defender os fracos e oprimidos, apenas com os poderes da preserverança, do bom coração e da auto-confiança que o anonimato lhe transmite.
Numa reviravolta do argumento, que envolve outros super-heróis sem poderes, mas também outros a sério - o Batman wannabe de Nicholas Cage, próximo do homem-morcego seminal de Adam West, e a sua filha de 11 anod, Hit Girl (Chloe Moretz ), verdadeira máquina de matar -, assim como gangsters, reis do crime e respectivos filhos, Kick Ass - O Novo Super-herói mistura o humor subversivo e seco (próximo do humor de A Empresa, que tem vindo a fazer escola) com a mensagem moral mais introspectiva, dando com igual seriedade a volta à máxima do Homem-aranha: "com grandes poderes vêem grandes responsabilidades" vs "sem grandes poderes vêm grandes responsabilidades na mesma".
Kick Ass - O Novo Super-herói é ainda um filme de cção estilizado até aquele limite em que deixa de ser cool para passar a ser uma caricatura. Inevitável, aliás, quando o argumento inclui uma criança a delicerar gangues itneiras armadas até aos dentes. No entanto, o realizador fá-lo ao som dos Sparks ou da Joan Jett e a coisa torna-se tolerável. E ao mesmo tempo dizem-se as verdades a brincar.
Kick Ass - O Novo Super-herói pode ainda ser visto como a derradeira história dos inadaptados sobre a sociedade - um nerd torna-se super-herói, salva o dia e ainda saca a miúda mais popular do liceu (que por acaso é luso descendente e chama-se Lyndsy Fonseca) - e como um pertinente manifesto à cultura globalizada e à velocidade de um clique em que vivemos hoje, em que, graças à internet, é cada vez mais fácil, mas também mais volátil, ter acesso aos tais 15 minutos de fama que Andy Warhol preveu. Kick Ass - O Novo Super-herói diz muita coisa séria e ao mesmo tempo, de forma aparentemente descontraída, mas muito actuliante. E para filmes destes, o McRoyal Deluxe costuma ser o menu prescrito.
Posted by: dermot @
6:53 PM |
COTAÇÃO:
10 - Royale With Cheese
9 - Le Big Mac
8 - McRoyal Deluxe
7 - McBacon
6 - McChicken
5 - Double Cheeseburger
4 - Cheeseburger
3 - Caixinha de 500 paus (Happy Meal)
2 - Hamburga de Choco
1 - Pão com Manteiga