Podia ser aqui mauzinho e coparar António Ferreira ao José Peseiro, o treinador dos quases. Tal como o ex-técnico leonino, que quase ganhou tudo no Sporting (quase ganhou o campeonato, quase ganhou a taça UEFA e quase ganhou a taça de Portugal), António Ferreira quase se tornou no novo melhor realizador nacional quando fez Esquece Tudo O Que Te Disse, o quase melhor filme português desde há muito tempo.
No entanto, António Ferreira não deixa de ser um dos mais estimados cineastas nacionais da actualidade. Para isso, basta atentar ao trabalho da sua sempre profícua Zed Filmes (agora Persona Non Grata). Além disso, tem um trabalho próximo da malta do rock de Coimbra, o que é sempre bom. Por isso, o seu regresso às longas, depois da interessante, mas não muito bem recebida curta Deus Não Quis, era algo esperado. Especialmente quando ainda tem o bónus de adaptar um conto de José Saramago e tem como protagonista Filipe Costa, ex-Bunnyranch e actual Slowrider de Sean Rider.
Infelizmente, Embargo é um filme sem chama. Filmado a ocres e tons sujos, num hipotético cenário de um embargo a Portugal que deixa o país "esgotado", Filipe Costa tenta obsessivamente vender um digitalizador de pés que inventou para salvaguardar o futuro da sua família. Contudo, um qualquer e inexplicável obscuro motivo impede-o de sair do carro(!). De repente, lembramo-nos do pós-apocalipse de Mad Max - As Motos Da Morte e de Christine - O Carro Assassino com vontade própria.
Mas não tem nada a ver. Apesar do absurdo da situação, comum na obra tardia de Saramago - uma cegueira inexplicável, uma população inteira a votar em branco, a morte a meter férias... -, Embargo não consegue tirar proveito da situação, andando a correr atrás do próprio rabo montes de tempo e marinando em lume brando algumas situações em que tenta ser engraçado.
Quanto ao filme em si, acaba por ser uma história de amor sobre um homem que redescobre que a verdadeira riqueza é a família. Moral de pacotilha, portanto, explorada num cenário de crise nacional económico-social ainda mais grave que o nosso actual e que é sempre mais interessante que o o enredo profissional. Embargo é, portanto, um filme simpático e despachado, mas que não deixa muito para dizer. Mesmo assim, Mcchickens estes não se vêem todos os dias no cinema português.
Posted by: dermot @
11:07 PM |
Domingo, Setembro 05, 2010
KUNG-FU-ZÃO:
Título: Kung Fu Hustle Realizador: Stephen Chow Ano: 2004
É verdade que o recente artigo do jornal i veio esclarecer-nos algumas coisas sobre o fantástico mundo das traduções dos títulos dos filmes para português, mas agora que sabemos quais os parâmetros usados já podemos criticar com conhecimento de causa. No texto em causa, Pedro Espadinha, do departamento de marketing da Columbia TriStar Warner, explica que um dos parâmetros usados passa por "posicionar o filme com o tom certo para o público a que se dirige". Tudo muito certo. O problema é que escolher o título Kung-Fu-Zão faz com que o espectador mais desatento pense que está à beira de um filme de imbecis para público pouco exigente.
Só isso pode explicar como é que este filme pode ter passado incólume pelas salas de cinema em 2004 sem que eu lhe tenha posto a vista em cima, especialmente quando estamos a falar do novo filme de Stephen Chow, o realizador de uma das melhores comédias deste novo século - O Ás Da Bola. Kung-Fu-Zão é, portanto, uma comédia de acção, mas nada tem de filme de imbecis e muito menos de filme para público pouco exigente.
Kung-Fu-Zão é um tributo aos filmes de Hong Kong artes-marciais, que fizeram as nossas delícias nos tempos em que o clube de vídeo do nosso bairro definia o nosso cardápio cinéfilo. E Stephen Chow fá-lo à maneira de Quentin Tarantino, prestando homenagem ao género, fazendo referência a um sem número de pormenores retirados dessa cultura popular de credibilidade algo duvidosa e estilizando ao máximo a violência, os diálogos e as personagens. Kung-Fu-Zão é tão estilizado que passa o limite do cool e transforma-se em caricatura.
Alguém definiu Kung-Fu-Zão como a mistura do Kill Bill com o Looney Tunes. Às gigantescas sequências de pancadaria, em que mestres de kung-fu defrontam batalhões inteiros de mercenários (olá Bruce Lee, olá Beatrix Kiddo) em deliciosas coreografias em que o wi-fu ganha novos limites, Stephen Chow junta um sentido de humor apurado, desenrolando um argumento previsível dentro do género, mas arrumadinho e com tudo nos sítios certos: amor, acção, melodrama e um final arrebatador, em que o herói passa de patinho feio a choosen one, com as suas próprias nódoas negras para sensibilizar ainda mais o espectador.
Falta então falar da história: Kung-Fu-Zão abre nas ruas da China do princípio do século passado, com um gangue de facinoras a imporem respeito numas ruas desertas com o sol a pôr-se ao longe, com amplitude technicolor a fazer lembrar logo os cenários imponentes pintados à mão em papel crepe de As Lágrimas Do Tigre Negro. Depois a tal Gangue dos Machados vai meter-se com uma aldeia irredutível (e até há uma desvairada sequência tributo a Astérix, com os personagens a correrem como desenhos-animados), onde se desdobra o tal subplot de um mestre de kung-fu escolhidos, outros reformados que são obrigados a retomar o caminho dos punhos e um super-assassino do kung-fu.
Anda para aí uma sequela prometida, mas Kung-Fu-Zão não precisa dela para ser o melhor filme chinês de sempre. E a caríssima Helena terá de me desculpar, mas Zhang Ke Jia vai sempre olhar de baixo para cima para Stephen Chow. Kung-Fu-Zão é o Shoot 'Em Up - Atirar A Matar chinês, o melhor filme do Bruce Lee sem o Bruce Lee e o Le Big Mac mais saboroso daquele lado do oriente.
Posted by: dermot @
4:49 PM |
Sexta-feira, Setembro 03, 2010
VELUDO AZUL:
Título: Blue Velvet Realizador: David Lynch Ano: 1986
She wore blue velvet Bluer than velvet was the night Softer than satin was the light From the stars Depois de ter visto Veludo Azul, de David Lynch, ouvir Blue Velvet, o temaralhão de Bonny Vinton, nunca mais foi a mesma coisa. Agora, sempre que oiço os primeiros acordes da canção, fico com os pêlos dos braços em pé, um estranho friozinho na barriga e uma sensação perturbadora percorre-me a espinha, ficando com a sensação de que o Dennis Hopper vai irromper a qualquer momento na sala e começar a gritar fuck na minha direcção.
É verdade, venho-vos falar de Veludo Azul e vou fazer uma coisa que raramente (nunca) faço neste humilde tasci cinematográfico: dizer mal de um filme que a maioria dos "entendidos" gosta. Ou pelo menos, dizer que não gosto de um filme que a maioria das pessoas que me conhece acha que eu devia gostar (já me disseram isto mais do que uma vez, portanto...). E eu sou um grande fã do Lynch antes dele queimar de vez (Inland Empire, anyone?), atenção.
O meu problema com Veludo Azul é semelhante ao meu problema com Sangue Por Sangue, outro neo-noir com algumas semelhanças com este. Ambos são filmes com um estranho sentido de ritmo, que se despega das personagens e do argumento, fazendo com que não consiga manter uma relação com o filme. E não é por falta de esforço, porque o colorido da fotografia, o burlesco das personagens ou o mistério surreal da história é apelativo.
Veludo Azul é um filme da fase de Lynch em que ainda conseguia haver coerência nas suas histórias, se bem que aqui os conceitos de "personagem" e de "argumento" não são propriamente os convencionais. Veludo Azul é um neo-noir dos subúrbios (no fundo, é também esta a génese de Twin Peaks), em que Lynch leva demasiado a sério a parte do noir, povoando de sombras e fantasmas sombrios o idílico e melodramático sonho americano de Douglas Sirk.
Tudo começa quando Jeffrey (Kyle MacLachlan) encontra uma orelha num baldio da sua terreola e, armando-se em detective, vai descobrir um estranho caso de rapto, que envolve a cantora Dorothy Vallens (Isabella Rossellini), o filho e o marido desta, polícias corruptos e a cereja no topo do bolo, Frank (Dennis Hopper). O argumento é sempre muito vago e é quase mais um fio condutor do que propriamente uma história, porque no final nunca chegamos a saber os motivos do rapto, quem era aquela gente e qual a relação entre os bandidos e a polícia.
O que interessa é dar forma aos desvarios de David Lynch, ainda longe da diarreia mental dos seus actuais trabalhos, mas já com alguns laivos de esquisitice doentia. Num ambiente de perfume ordinário que faz lembrar o Sapatos Pretos, andamos em bordéis com meninas obesas e um chulo gay-palhaço que canta Roy Orbison ou em decors kitsch de cores garridas que lembra pastiches como o 8 Mulheres. E depois há Dennis Hopper, paz à sua alma, que faz com que Veludo Azul não seja uma total perca de tempo.
Dennis Hopper concentra em si todos os desvarios sexuais, por mais perturbadores e doentios que sejam, que se possa imaginar. E fala-vos alguém que já viu A Pianista, claro. Sempre a snifar uma máscara de gás que lhe dá tusa, Hopper é um psicopata de olhos vidrados, sempre a gritar e que coloca fuck em todas as frases que diz, incluindo a mítica "Baby wants to fuck" (que em tradução livre é algo como o Bebé quer foder e em que o bebé em causa é ele) - no final desta prosa está disponível via youtube essa maravilhosa cena, em que Isabella Rossellini acaba violada à bruta.
Thriller psicológico, neo-noir pós-modernista ou outra verborreia qualquer do género. Cá para mim, Veludo Azul é só e apenas um Cheeseburger e já muito esticado.
Posted by: dermot @
11:05 AM |
COTAÇÃO:
10 - Royale With Cheese
9 - Le Big Mac
8 - McRoyal Deluxe
7 - McBacon
6 - McChicken
5 - Double Cheeseburger
4 - Cheeseburger
3 - Caixinha de 500 paus (Happy Meal)
2 - Hamburga de Choco
1 - Pão com Manteiga