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Royale With Cheese | ||
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HAWAI AZUL:
Titulo: Blue Hawaii Realizador: Norman Taurog Ano: 1961 ![]() Aqui há uns tempos escrevi um especial do Elvis, com cinco filme do Rei, e esqueci-me alarvemente de Hawai Azul. É quase imperdoável deixar passar aquele que foi o seu maior sucesso de bilheteira, mas tenho duas justificações que me perdoam esse lapso: primeiro, porque esse filme não vinha na box que comprei na FNAC; e segundo, porque falar de Hawai Azul ou de Paraíso Havaiano, Lindas Encrencas, As Garotas ou outro filme qualquer do Elvis é a mesma coisa, uma vez que eles são todos iguais. Quem vê um vê todos! Mas mesmo assim, vale a pena mencionar Hawai Azul à parte porque foi aquele que mais gente levou às salas de cinema. As razões podem ser duas: o facto de ser ambientado no Hawai, num filme-propaganda turística à ilha paradisíaca como haviam uns quantos na altura (Amor Havaiano, com Bing Crosby, por exemplo, que é o autor do tema que dá nome a este Elvis flick), um ambiente exótico e atraente; ou o simples facto de Elvis andar de tronco nu. O que é certo é que a junção dessas e outras tantas contignências resultaram numa banda-sonora que se tornou num dos discos de maior sucesso do Rei, com o super-clássico Can't help falling in love with you, a versão de Blue Hawai ou do clássico hawaiano Aloha Oe ou algumas patetadas como Ku-u-i-Po ou Ito Eats. Enfim, até para um filme do Elvis há cantoria a mais... No entanto, não deixa de ser curioso a opção de manter no alinhamento alguns temas tradicionais da ilha, transformando Hawai Azul no primeiro exemplo de world music, uma década antes de ter sido criado esse conceito, para catalogar o álbum Brian Jones Presents The Pipes of Pan At Jajouka, em que o fundador dos Rolling Stones descobriu e gravou a secular banda da aldeia marroquina de Jajouka. Outra curiosidade de Hawai Azul é a forma como a história reflecte um pouco a vida e a carreira de Elvis Presley. Tal como na vida real, o Elvis do filme é um jovem que regressa da tropa para um destino há muito traçado para si, mas por terceiros. Só que enquanto na vida real esse fado era delineado pelo Coronel Tom Parker, o infame manager que geriu a sua carreira influenciado por obscuros motivos, em Hawai Azul são os seus pais (a mãe é Angela Lansbury, de Crime, Disse Ela, que já na altura era velha) que têm o seu futuro planeado: ser vice-presidente da empresa de ananases da família. Claro que o Rei prefere outra vida, próxima da sua namorada hawaiana (Joan Blackman) e dos seus amigos na praia, surfando e tocando guitarra. A diferença entre o filme e a vida real é que aqui Elvis Presley dá a volta por cima. Hawai Azul é então uma sucessão de episódios mais ou menos desmiolados, que acabam invariavelmente com uma cantilena ou com uma piadola acompanhada por uma careta (Os Trapalhões a fazer escola) e que fazem rir de tão ingénuos. E, no final, Elvis dá uns açoites no rabo de uma adolescente reguila, tornando-a melhor pessoa e menos refilona. Porque levar palmadas do Rei é outra coisa! Só essa cena (reproduzida imediatamente em baixo) e a banda-sonora valem um Happy Meal. ![]()
Posted by: dermot @
11:37 AM Quarta-feira, Agosto 25, 2010 ATTACK OF THE 50 FOOT WOMAN: Título: Attack Of The 50 Foot Woman Realizador: Nathan Juran Ano: 1958 ![]() Durante o período clássico de Hollywood, a ficção-científica foi vista como um género menor. Basicamente, servia apenas para agradar a uma minoria de geeks ou servia de alegoria para que alguns malucos passagem as suas mensagens de forma mascarada. É neste contexto que surge Attack Of The 50 Foot Woman, filme de culto da ficção-científica, mas no mesmo sentido dos filmes de Ed Wood: tão mau que se torna mau. Por alguma razão obscura, os produtores de Attack Of The 50 Foot Woman decidiram apostar forte e feio na promoção do filme, quando este tinha sido feito apenas com meia-dúzia de miseráveis tostões e quando o próprio realizador recusava admitir que tinha sido ele o autor de tamanha peça. Não faço ideia o que lhes terá impressionado assim tanto. Terão sido os efeitos-especiais percursores dos home videos do Rei dos Gnomos? Terá sido a mulher-gigante que, de cena para cena, aumenta de tamanho consoante a distância a que está da câmara? Ou terá sido a inconsistência narrativa, em que automóveis mudam de modelo assim que os gigantes pegam neles? Enfim, como qualquer b-movie, Attack Of The 50 Foot Woman não tem propriamente um argumento e começa direito ao assunto e logo com uma tipa a gritar desalmadamente (selo de qualidade de qualquer filme de segunda categoria). Temos então uma nave espacial a aterrar na Terra e lá dentro vem um gigante que, por qualquer razão, rouba diamantes como se não houvesse amanhã e que, por obra do acaso, arranha o pescoço de Allison Hayes. Também não se sabe porquê, mas a partir daí Allison Hayes começa a transformar-se numa gigantone destruidora, aproveitando o tamanho para ir perseguir o marido, que a trai à bruta com uma flausina qualquer. O verdadeiro interesse de Attack Of The 50 Foot Woman é mesmo pôr a escultural Allison Hayes em trajes reduzidos, enquanto faz uns disparates sem sentido, antecipando a exploitation em década e meia. Mas de forma subversiva, Nathan Juran acaba por fabricar um panfleto feminista, com uma mulher que se emancipa cotnra os cornos que o marido lhe põe. Attack Of The 50 Foot Woman é uma piada de filme, um clássico com apenas uma hora de duração e que, mesmo assim, ainda teve direito a um remake pior. E deve ser o único caso da história do cinema em que o cartaz é melhor que o próprio filme. Só por isso vale o Cheeseburger. ![]() A ORIGEM: Título: Inception Realizador: Cristopher Nolan Ano: 2010 ![]() Consta por aí, em vários arraiais da internet, que a estória de A Origem foi roubada de um livro do Patinhas. Das duas uma, ou foi ou não foi. Mas as conslusões a que chego são: Cristophr Nolan é um realizador tão bom que até consegue fazer um grande filme a partir de uma máquina inventada pelo professor Pardal; e, ao contrário do que a minha mãe dizia, os livros da Disney que eu teimava em ler quando era gaiato não eram tão disparatados quanto isso. A Origem é um thriller sci-fi que, apesar de parecer um simples blockbuster de verão, é muito mais que isso. Até porque os blockbusters de verão costumam ser mais acessíveis. Mindblowing movies não costumam atrair as massas... A culpa de parecer o típico filme de silly season começa logo pelo elenco de luxo, cheio de nomeados e vencedores de Oscares e liderado por um Leonardo Di Caprio cada vez mais feito actor, continua pelo orçamento de milhões e termina no aparente heist movie de tiros e explosões que a trailer oferece. De forma simples, A Origem é assim: Di Caprio é um ladrão a soldo, especialista em roubar... sonhos. Há uma máquina que permite entrar na mente humana e, com uma equipa cheia de especialistas - um Arquitecto, um Químico e uma mão cheia de outros profissionais designados assim mesmo, com letra maiúscula, que parece que estamos a jogar Dungeons & Dragons -, é possível andar no subconsciente e descobrir coisas. E se dentro de um sonho criarem outro sonho, a coisa torna-se mais convicente. Mas o perigo aumenta exponecialmente, claro. Ora então, à superfície A Origem é um heist movie e um thriller corporativista cheio de hi-tech e tecnocratas, mas no fundo é muito mais amplo, proque Nolan aproveita o formato blockbuster para construir um filme cheio das suas marcas: a manipulação temporal (olá Memento), a atmosfera clsutrofóbica (olá Insónia) e o filme de acção sério e adulto (olá Cavaleiro Das Trevas). E até no elenco encontramos habitués seus, como Cillian Murphy que volta a passar o filme com um saco na cabeça. Como se isto não bastasse, A Origem é um filme intrigante, que pode segundas visualizações, mas também inovador. Ou seja, A Origem é o novo Matrix: não tem as cenas de acção tão vertiginosas, apesar de belas cenas em slow motion hd e uma inesquecível sequência em gravidade zero, mas tem o mesmo ambiente distópico, surreal e supratecnológico. E Nolan faz valer a sua faceta de esteta, marcando o filme visualmente sem ter que recorrer à parafernália visual do cgi. No final, Cristopher Nolan deixa-nos ainda um intrigante fim em aberto, que faz lembrar o de Blade Runner - Perigo Iminente, oresta homenagem à prestação de Marion Cotillard enquanto Edith Piaff, ao colocar Non, Je Ne Regrette Rien como elemento de destaque da arratuva e dá visibilidade comecial a um dos melhores jovens actores da actualidade, Joseph-Gordon Levitt (para quem duvida, espreite Mysterious Skin). A Origem é um clássico instantâneo e um Le Bic Mac daqueles que vai dar muito que falar na história da ficção-científica e em que geeks demasiado desocupados vão criar clubes de discussão intermináveis na internet. ![]() Segunda-feira, Agosto 23, 2010 OS MERCENÁRIOS: Título: The Expendables Realizador: Sylvester Stallone Ano: 2010 ![]() Os Mercenários é o sonho húmido de qualquer cinéfilo de verdade: o filme de acção que junta os maiores brutamontes da sétima arte. Quem é que não passou os anos 90 a ansiar por ver Sylvester Stallone, Arnold Schwarzenegger e Bruce Willis reunidos no mesmo sítio que não fosse um Planet Hollywood, amaldiçoando os produtores de Hollywood pela falta de visão estratégica? O curioso é este filme surgir quando já ninguém esperava: Stallone é já um sexagenário, Schwarzenegger é governador da Califórnia e Willis, bem... Willis tem outro nível. Mas Os Mercenários tem a visão mais ampla do que reunir apenas estes três dinossauros do cinema de acção. Até porque Arnie e Willis aparecem apenas num cameo, metade brincadeira de amigos, metade referêcia de cultura pop para emoldurar para a posterioridade. Em Os Mercenários, Stallone - realizador e impulsionador do filme - teve a ideia de reunir o leque certo de action heroes de ontem e de hoje. Do passado trouxe ainda Mickey Rourke e um muito acabado Dolph Lundgren, e do presente reuniu Jason Statham e Jet Li. Os bónus são Steve Austin e Randy Couture, da WWE e UFC respectivamene, e o ex-hóquista Terry Crews. Portanto, Os Mercenários não engana ninguém e quem o vai ver à espera de outra cosia é porque é parvo. Temos uma equipa de cinco rambos e um deles sabe kung fu. E se um rambo causa muita destruição, imaginem uma mão cheia deles. A história é então um misto de homens a lutar com facas e corpo-a-corpo, a matarem-se ao tiro e a a provocarem explosões. Muitas explosões. Por entre tanta testosterona, one-liners espirituosas e piadas machistas, há ainda um pseudo-argumento, simples, conciso e straight-to-the-point: uma ilha qualquer que não é mais do que o Brasil, um ditador-fantoche controlado pela CIA baseado livremente em Bolivar e os Mercenários a serem contratados para o limpar. Paralelamente a isto, há ainda uma história de amor associada a Statham e outra a Stallone, com a tipa das novelas, Giselle Itié, mas que, acreditem, não serve mesmo para nada, nem sequer para mostrar pele. Vamos então ao que realmente intetressa em Os Mercenários: Jet li luta contra Dolph Lundgren e, mesmo acabado para a vida, Lundgren ganha. Só é pena o filme sofrer do síndrome MTV e a edição da luta ser algo confusa e epiléptica. Infelizmente, fica a faltar o rematch entre Rocky e Drago. Couture e Austin também se engalinham e o primeiro sai por cima. Stallone e Statham são os principais e o primeiro faz questão de passar ao segundo o testemunho da sua própria sucessão. Os Mercenários é um McChicken desmiolado, mas não conseguimos evitar de nos sentirmos mais preenhidos depois de o vermos. E como ao que tudo indica vai haver ums sequela, resta-nos sugerir mais nomes para o próximo filme. Eis as minhas sugestões: Wesley Snipes, Bolo Yeung e, claro, Chuck Norris. Steven Seagul não, porque já vai aparecer no Machete. Quarta-feira, Agosto 11, 2010 TERROR NA AUTO-ESTRADA: Título: The Hitcher Realizador: Robert Harmon Ano: 1986 ![]() A minha avó sempre me avisou para não dar boleia a estranhos. Normalmente, dizia ela, quem anda de dedo espetado à beira da estrada quer é levar-nos para um sítio escuro e violar-nos no rabo. Eu sempre segui escrupulosamente esse conselho, mas C. Thomas "Punyboy" Howell aprendeu-o da pior forma, ao dar boleia a um misterioso Rutger Hauer. C. Thomas Howell só queria companhia para não se deixar de dormir enquanto atravessava o deserto norte-americano para ir entregar um carro no outro extremo do estado. Mas Hauer tinha outros planos: cortar-lhe as pernas, os braços e a cabeça. Por isso, vai serpsegui-lo de forma cruél, implacável e perturbadora. Toda a gente coloca o rótulo de thriller em Terror Na Auto-estrada, mas na verdade este é um filme de monstros. Aliás, até há muitas semelhanças entre este e Jeepers Creepers (jovens a serem perseguidos por um monstro carniceiro ao longo da auto-estrada, anyone?). A diferença é que o monstro de Terror Na Auto-estrada é humano. Mas a forma como aparece e desaparece sem ninguém dar por ele, a capacidade quase sobre-humana de escapar e massacrar a polícia e a forma serena de como persegue as suas vítimas, que por mais que corram têm-no sempre no encalço (Jason Voorhees a fazer escola) não enganam ninguém: Terror Na Auto-estrada é um filme de monstros. O vilão criado por Rutger Hauer é mesmo o mais impressionante do filme. Talvez ainda inspirado pela impessoabilidade do seu ciborgue em Blade Runner - Perigo Iminente, Hauer faz de serial killer implacável e sangrento, cuja aura misteriosa em seu redor (não tem identificação, cadastro e ninguém sabe quem é - rima com o carácter simbólico do espaço onde se desenrola o filme: o incaracterístico deserto norte-americano, um não-lugar trespassado pela mítica route 66, metáfora intemporal da viagem, da mudança e do rumo ao desconhecido. Terror Na Auto-estrada é ainda um filme de grande economia de meios (forma simpática de dizer que teve um orçamento baixo) que, aliado ao thriller psicológico e ao ambiente meio minimalista, faz lembrar outro filme do género: o primeiro Exterminador Implacável. Apesar de só ter tido este one hit wonder, o realizador Robert Harmon tira ainda meia-dúzia de coelhos da cartola (como a cena em que C. Thomas Howell encontra um dedo nas batatas-fritas do seu hamburga), sempre a preferir a sugestão ao grafismo extremo e com um tom negro pouco habitual nos anos 80. Em última instância, Terror Na Auto-estrada ainda ensaia algo sobre o valor da vida humana e a validade e justeza da máxima olho por olho, dente por dente, antecipando numa década o final de Sete Pecados Mortais. Terror Na Auto-estrada é um filme de culto dos anos 80, uma das obras-primas de Rutger Hauer (vénia) e um McBacon que não merecia o remake ordinário de 2007. ![]()
Posted by: dermot @
11:53 AM Terça-feira, Agosto 10, 2010 TOY STORY 3: Título: Toy Story 3 Realizador: Lee Unkrich Ano: 2010 ![]() Em 1995, um filme de desenhos-animados revolucionou o género, conciliando a animação com o público adulto, introduzindo definitivamente a animação digital e consagrando a Pixar como o futuro da animação, dignos sucessores do entretenimento familiar da Disney, mas fundido-o com o carácter fabulástico e mais crescido do mestre Miyazaki (vénia). Quinze anos depois, a Pixar termina a trilogia com um capítulo que continua a soar pertinente no panorama cinematográfico actual, a respirar frescura e originalidade e a ter a mesma qualidade que o primeiro filme. Por isso, de certa forma, a trilogia Toy Story é o equivalente dos desenhos-animados da trilogia Indiana Jones. Um dos problemas inevitáveis das sequelas é que o tempo nunca pára (nem sequer nos desenhos-animados) e as personagens não páram de envelhecer. Claro que há a excepção que confirma a regra e essa excepção chama-se Regresso Ao Futuro. Aparentemente, esse não era um problema que afectasse Toy Story 3, uma vez que os protagonistas são (quase) todos brinquedos que só ganham vida quando ninguém está a ver. Mas há uma personagem fundamental, humana, que está quinze anos mais velha em relação a Toy Story: Andy, o miúdo dono dos brinquedos em causa, já está tão crescido que está prestes a ir para a universidade. E, como qualquer universitário, Andy já não brinca com brinquedos. Por isso, o dilema dos seus brinquedos é: ou ir para o sótão ou fugir para os breços de outra criança que lhes dê o mesmo amor e atenção que o Andy nos seus anos de infância. Claro que Toy Story 3, tal como os anteriores, tem a habitual estrutura de filme de aventura, em que os brinquedos vão parar por engano a um infantário controlado por um maligno urso de peluche que dá abracinhos, mas a premissa do filme tem a ver com o envelhecer e com aquela marcante fase de passagem para a adolescência. E fá-lo com doses iguais de drama, aventura e humor, que no final nos aperta o coração e nos deixa os olhos húmidos. Porque todos nós brincámos e sabemos como foi aquela fase. Mas ao contrário de Up - Altamente, por exemplo, Toy Story 3 é comovente sendo lamechas. O que não quer dizer que ser lamechas no cinema seja necessariamente mau. Em relação a cenas e momentos memoráveis que perpetuem a tradição dos anteriores, Toy Story 3 tem dois: a nova personagem do Ken, boneco metrossexual e assustadoramente parecido ao José Castelo Branco; e o Buzz Lightyear em versão espanhola. E, claro, continua a haver o magnífico Cabeça-de-batata! Não será porventura o melhor da trilogia, mas Toy Story 3 encerra a série (será?) com chave de ouro e um McRoyal Deluxe. ![]()
Posted by: dermot @
11:39 AM Segunda-feira, Agosto 09, 2010 A LISTA DE SCHINDLER: Título: Schindler's List Realizador: Steven Spielberg Ano: 1993 ![]() A perseguição e o extermínio dos judeus durante a Segunda Guerra Mundial sempre foi um tema apreciado e bem visto pelo cinema. No entanto, o melhor filme sobre essa temática só surgiu em 1993, quando o judeu Steven Spielberg decidiu que já estava pronto para abordar o assunto. Portanto, A Lista De Schindler é o filme sobre o Holocausto (atentem no itálico do artigo definido). A Lista De Schindler é um biopic sobre Oskar Schindler (Liam Neeson), um empresário (especulador?) alemão que aproveitou a situação socio-política da Segunda Grande Guerra para contratar judeus a preços mais baixos e enriquecer à conta de uma fábrica de esmalte. Contudo, à medida que a perseguição judaica ia apertando e a solução final ia se extremando, Oskar Schindler foi tomando aquela questão numa demanda pessoal e, empatando a sua fortuna, acabou por ajudar a escapar da morte nos campos de concentração 1100 trabalhadores, mantendo-os a trabalhar na sua fábrica. Hoje em dia são recordados como os Judeus de Schindler. E Spielberg presta tributo ao homem num filme que vale mais do que qualquer estátua, fundação ou nome de rua. No entanto, A Lista De Schindler é mais do que a simples vida de Schindler, uma vez que, em pano de fundo, vai-se desenrolando o próprio Holocausto, com uma naturalidade tão grande que impressiona pela crueldade das acções. E a encarnar esta faceta está o então desconhecido Ralph Fiennes, na pele do oficial nazi Amon Goeth. Goeth é o oposto de Schindler: enquanto este é o espelho do respeito, da coragem, da bondade e do altruísmo, o primeiro é o rosto da crueldade, da injustiça, da impiedade e da violência arbitrária. Spielberg filma a preto e branco (o filme mais caro de sempre rodado assim) e as duas cores não só servem para acentuar a habitual dicotomia do bem e do mal, como acentua a seriedade da própria história. A excepção é uma cena em que uma menina aparece trajando um casaco vermelho, que vai permitir o espectador reconhece-la mais lá para a frente do filme, em situação pouco aconselhável a corações menos preparados. Além disso, Spielberg filma o Holocausto com uma espécie de olhar europeu, num cinema observador que tanto acena ao neo-realismo italiano como ao sóbrio cinema nórdico. A Lista De Schindler é um épico de três horas que se desenrolam de forma fluída por entre as atrocidades do regime nazi, com Spielberg a evitar a solenidade que este tipo de filmes costuma não conseguir contornar, obrigando-nos a todos a recordar para não esquecer um período da História tão negro. E Steven Spielberg tomou a tarefa tão a peito que, no final, não evitou (nem parece ter querido tentar evitar) prestar homenagem a Oskar Schindler, filmando os sobreviventes Judeus de Schindler a visitarem a sua campa e a perpetuarem no grande ecrã o seu respeito por aquele homem. Pode não ser o melhor filme de Spielberg, mas é, certamente, o melhor filme sério sobre o Holocausto. E o melhor filme sobre o Holocausto é equivalente ao Le Big Mac. ![]() Sábado, Agosto 07, 2010 A MANSÃO: Título: The Haunting Realizador: Jon De Bont Ano: 1999 ![]() Há alguns anos atrás, Jan De Bont andava a pensar numa forma de provar a Hollywood que Speed - Perigo Em Alta Velocidade não tinha sido apenas sorte principiante quando apanhou numa sessão tardia da TCM a obra-prima de Robert Wise, A Casa Maldita. E de repente fez-se luz na sua cabecinha holandesa: fazer um remake desse clássico do terror, um filme em que apenas precisava de quatro pessoas e um local para filmar. Aparentemente, nada mais fácil. A Mansão actualiza então esse exemplar superior do flick da casa assombrada, juntando quatro nomes semi-famosos de Hollywood (Liam Neeson, Lili Taylor, Catherine Zeta-Jones e Luke Wilson) numa mansão gigantesca, sob um pretexto manhoso - com a falso desculpa de fazer um estudo sobre insónias, o dr. Marrow (Neeson) reúne um grupo de pessoas com problemas em adormecer numa enorme mansão semi-abandonada e forja uns fenómenos paranormais para, na verdade, realizar um teste sobre o medo. O que Jon De Bont não se lembrou (ou, se calhar, não percebeu ao ver A Casa Maldita) é que a personagem mais importante do filme não é a insonsa Eleanor (Lili Taylor), uma jovem traumatizada por uma vida inteira a cuidar da mãe tirana, mas sim a própria casa em si. É ela - a casa assombrada, ou melhor, a casa habitada pelas sombras - o leitmotiv de todo este subgénero do terror, mas De Bont ignora a questão e nem se preocupa em aproveitar essas questões arquitectónicas, manipulando as sombras, a luz, os espaços vazios ou mesmo os não-espaços. Mesmo quando tinha ao seu dispor uma mansão gigantesca, alguresw entre o castelo de sucata de Francisco Leitão, o rei dos Gnomos, e o Xanadu de Charles Forster Kane. É então criada uma artifical (para não escrever ridícula) história de fantasmas, em que os espíritos de criancinhas mortas naquela casa ao longo de décadas pedem ajuda para se libertarem do jugo do antigo dono da casa, também já morto e em forma de espírito(!). No entanto, A Mansão é capaz de ser o primeiro filme de terror que experimenta a psicologia invertida para assustar o espectador: não só começa logo por revelar que os heróis vão ser encurralados naquela casa sob falso pretexto e que vão ser forjados momentos assustadores, como a própria heroína do filme confessa que fantasmas não a assustam: depois de uma vida de pasmaceira a pôr a mãe a fazer xixi e cocó, Lili Taylor diz que uma aventura fantasmática era mesmo o que precisava. Como se isto não bastasse, A Mansão é ainda um daqueles filmes de terror lançados para o mercado com o intuito de arrecadar mais dinheiro possível. E a melhor forma de arrecadar umas massas é levar pais e filhos ao cinema. E para levar pais e filhos ao cinema, o entretenimento não pode ter sangue, gore e outras coisas más mais gráficas. Por isso, A Mansão é um filme de terror com fantasmas em que só morre uma pessoa e que não se vê sequer uma pinga de sangue. Então qual é o interesse disso? Exacto, pouco ou nenhum. A melhor coisa deste Happy Meal é mesmo o facto de nos fazer recordar desse fantástico filme que é A Casa Assombrada. ![]() Quinta-feira, Agosto 05, 2010 OS NOVOS DEZ MANDAMENTOS: Título: The Ten Realizador: David Wain Ano: 2007 ![]() Desde que os Monty Python's fizeram A Vida De Brian e passou a ser tolerável gozar com a religião, que não havia tamanha alarvice de humor bíblico como Os Novos Dez Mandamentos, um pequeno filme independente que fez sucesso em Sundance, em 2007. Se bem que chamar-lhe filme até é um pouco forçado, uma vez que Os Novos Dez Mandamentos é um conjunto de short stories sobre a mesma temática - os dez mandamentos escritos por Deus em tábuas de pedra e entregues ao profeta Moisés. David Wain reinterpreta então essas dez leis divinas - adorar a Deus e amá-lo sobre todas as coisas, não invocar o nome de Deus em vão, santificar os domingos e festas de guarda, honrar o pai e mãe, não matar, guardar castidade nas palavras e nas obras, não roubar, não levantar falsos testemunhos, não cometer adultério e não cobiçar as coisas alheias - à luz dos dias de hoje, da cultura popular e de uma visão adolescente da coisa. O resultado é uma comédia screwball, reminiscente de American Pie - A Primeira Vez, mas já com os olhos postos na nova vaga do humor dos chick flicks para gajos do Judd Apatow, em nove sketchs + um apresentados por Paul Rudd (que não perde um filme destes desde Virgem Aos 40 Anos). No entanto, o tipo de humor, ao contrário do que poderia parecer, não tem nada de javardo nem de escatológico. Ok, de escatológico tem um bocadinho, mas de forma inteligente. É antes um humor absurdo, que deve muito mais aos Monty Python's do que ao estilo ZAZ, mas tão vincado que passa o absurdo para ser apenas estúpido. Mas tão estúpido que mete piada. Há, por exemplo, tipos que caem de avião sem pára-quedas e ficam para sempre enterrados até à cintura, desenhos-animados à Ren & Stimpy com rinocerontes que fazem poias com uma flor em cima, festas ao domingo de homens que faltam à missa para se despirem ou mulheres apaixonadas por bonecos de ventríloco. Claro que nessas dez histórias há umas melhores que outras; e há aquelas que se nota que custaram mesmo a parir e foram apenas diarreia mental. No entanto, no geral, o balanço acaba por ser positivo e, inesperadamente, divertido. Claro que não é um humor propriamente convencional e para toda a gente, por isso atenção ao McChicken. Mesmo assim, a parte mais impressionante de Os Novos Dez Mandamentos é, mais ou menos a meio, quando ouvimos um estrondo enorme. É o barulho da carreira de Winona Ryder a bater oficialmente no fundo. ![]() Terça-feira, Agosto 03, 2010 VOANDO SOBRE UM NINHO DE CUCOS: Título: One Flew Over the Cuckoo's Nest Realizador: Milos Forman Ano: 1975 ![]() Há uma teoria que defende que os malucos é que podem estar certos e nós, aparentemente os sãos e normais, é que estaremos todos errados e a viver num mundo de ilusão. A ser verdade, todo o mundo como o conhecemos seria invertido. É sobre isto que Voando Sobre Um Ninho De Cucos se propõe a reflectir. Além disso, o filme é um alerta social sobre o que se passava nos hospícios do chamado mundo civilizado, uma realidade muitas vezes escondida, que chegava a ser pertubadora e cruél. É por isso que o hospício de Voando Sobre Um Ninho De Cucos, para onde Jack Nicholson é mandado, parece-se mais com uma prisão do que com um hospital. Todo o filme é filmado no interior daquelas paredes, herméticas e sob vigilância apertada constante (com excepção de uma pequena escapadela dos pacientes para irem a uma pescaria, numa cena que Milos Forman, inicialmente, nem queria utilizar), aumentando o sentimento de claustrofobia e de isolamento. Há filmes de prisão que respiram mais liberdade que este... Jack Nicholson vai então parar a um hospício onde estão uma série de malucos, entre eles um debutante Christopher Lloyd, um Danny DeVito ainda com cabelo, Vincent Schiavelli com umas olheiras todo o tamanho, o então desconhecido Brad Dourif e um índio enorme surdo-mudo (Mel Lambert). O objectivo é Nicholson ser avaliado para que se perceba se ele tem alguma desordem psicológica ou se é apenas um preguiçoso com mau-feitio, que está sempre a ser preso. Este é daqueles papéis que parece ter sido feito à medida de Nicholson, onde pode dar liberdade a todo o seu ar demente, lunático e psicótico. A par deste só mesmo a sua encarnação de Joker. Nicholson vai então intregrar-se naquela comunidade muito própria e o seu comportamento rebelde vai fazer com que os doidos comecem a pensar pelas suas próprias cabeças e questionem todas aquelas regras. E, de repente, os papéis são invertidos: os doidos são as vítimas e os sãos os malucos autênticos. No fim, tudo descamba num daqueles finais à Clube Dos Poetas Mortos, com suicídios injustos, fugas desesperadas, castigos cruéis e, claro, muita lágrima derramada. Aparentemente, Voando Sobre Um Ninho De Cucos nem tem argumento. Limita-se a ser uma sequência de episódios mundanos no quotidiano daqueles pacientes, com as suas psicoses e maluquices. Mas quando damos por nós estamos tão integrados com aquela gente que começamos a sentir na pele as mesmas injustiças que eles. E, de repente, estamos a insurgir-nos em voz alta contra aquela gente arrogante e com o rei na barriga e a revoltar-nos contra tudo aquilo, ameaçando partir qualquer coisa que esteja mais à mão na televisão. Voando Sobre Um Ninho De Cucos é um dos grandes filmes da história da sétima arte e um dos poucos a vencer o grand slam dos Oscares: melhor filme, melhor argumento, melhor actor, melhor actriz e melhor realizador. Não é que isto seja um selo de qualidade inequívoco, eu sei que um Le Big Mac dos meus vale muito mais que isto. Mas já dá para ter uma ideia, não é? ![]()
Posted by: dermot @
12:46 PM Segunda-feira, Agosto 02, 2010 ADAM RENASCIDO: Titulo: Adam Resurrected Realizador: Paul Schrader Ano: 2008 ![]() Existe uma mania no cinema norte-americano que me irrita solenemente. Eu até percebo que os produtores não queiram filmes falados noutras línguas que os obriguem a pôr legendas, porque os norte-americanos não gostam de (não sabem?) ler e que, por isso, todos os povos deste mundo (e, às vezes, até dos outros) falem inglês. Mas porque raio é que têm que falar inglês com sotaque desse país? Paul Schrader até já sabia que isso não era grande ideia, porque em A Última Tentação De Cristo a opção de pôr judeus e romanos a falar inglês com sotaques diferentes deu que falar. Então porque raio foi fazer um filme com alémães a falarr inglês ássim? Paul Schrader é um óptimo argumentista, mas um realizador que sempre passou despercebido. Aliás, na vez que lhe deram oportunidade de brilhar e de fazer um filme com visibilidade, acabaram por lhe retirar o tapete debaixo dos pés. E a sua prequela de O Exorcista passou a ser uma alternativa ao alternativo. No entanto, como argumentista aplaudimo-lo de pé. Bravo Taxi Driver, bravo A Última Tentação De Cristo. Resumindo, Schrader gosta de filmes que explorem a profundidade metafísica e humana do Homem. Gosta de sociopatas afectados e transformados pela sociedade que o rodeiam ou gosta de profetas incapazes de suportar o fardo de serem o salvador de todos os homens. E, por isso, enamorou-se pelo livro de Yoram Kaniuk, em que o judeu Adam Stein (Jeff Goldblum), o palhaço mais respeitado da Alemanha, seja obrigado a fazer de cão de um capitão nazi sem escrúpulos (Willem Dafoe, quem mais?) durante um ano. Assim, depois de se ter transformado em mosca, Goldblum transformou-se em cão. Durante um ano andou como um, ladrou como um e privou com um, partilhando a mesma jaula. E isso enquanto a sua família era torturada e morta. Por isso, ficou afectado dos carretos e encontramo-lo agora internado numa instituição para sobreviventes do Holocausto que endoideceram, apesar de ser bom-falante, apraz e bem-disposto. Até que aparece um outro doente que também pensa que é um cão e faz Adam renascer e recuperar os seus fantasmas passados, vendo-se obrigado a limpar o armário. Adam Renascido decorre no presente, ams recua constantemente em flashbacks a preto e branco ao Holocausto nazi, com Willem Defoe a humilhar cruelmente e de forma perversa Jeff Goldblum. E este faz do filme um tour de force brutal, com uma força dramática poderosa. E Paul Schrader sente-se nas sete quintas ao explorar este conflito humano, filmando de forma pouco convencional - tanto a câmara passeia ao ombro, qual dogma 95, como entra em picados ambiciosos e travellings arriscados. Além disso, Adam Renascido tem ainda uma vertente mística, que pode ser vista como uma realidade paranormal, surreal ou, apenas, alternativa. E, por isso, Adam Renascido é o filme mais parecido com A Última Tentação De Cristo sem ser sobre religião de que há memória. Adam Renascido passou despercebido nas salas e a edição em DVD até tem sido mal tratada no nosso país, andando aí aos trambolhões nos supermercados por dois euros. Mas é uma pequena obra-prima que merece ser vista e analisada com olhos de ver. E aproveitem a ida ao supermercado e tragam um Le Big Mac para acompanhar. ![]() |
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