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Royale With Cheese | ||
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ORCA - A FÚRIA DOS MARES:
Título: Orca Realizador: Michael Anderson Ano: 1977 ![]() Perante o enorme sucesso de Tubarão, o mítico produtor Dino De Laurentis teve uma magnífica ideia: aproveitar o ímpeto e fazer um filme sobre um animal marinho ainda mais terrível que um tubarão. E o único bicho capaz de matar um tubarão branco era uma orca. Mesmo que isso implique que o filme tenha o título ridículo de... Orca. Orca está, portanto, ao nível de outros filmes do género, como aquela recente banhada do tubarão gigante que dá saltos e abate aviões que vão a passar. Mas a diferença é que este leva-se a sério. Tão a sério que Ennio Morricone foi contratado para compor a banda-sonora, com uma xaropada que passa quase em loop, mas provando que é um verdadeiro autor. Morricone não tem pejo de trabalhar em qualquer filme, seja ele um épico como Era Uma Vez Na América, seja numa alarvidade como a sequela de que nunca ninguém se lembra de O Exorcista. O primeiro objectivo de Orca era ser melhor que Tubarão. Por isso, o filme começa com uns caçadores de tubarões que tentam salvar um mergulhador que, como profissional experiente que é, caiu do bote e não consegue subir de volta. E quando este está quase a ser devorado, eis que surge uma orca, que dá uma cabeçada no lombo do tubarão(!), que dá um salto para fora de água(!!) e se desfaz em sangue(!!!). Juro que é mesmo isto que acontece! Posto isto, arranca o filme. Primeiro com uma aula extensiva sobre a orca: um animal muito forte, com um cérebro com mais ligações que o do Homem, que comunicam entre si, são fiéis a uma só companheira em vida e, atenção a este ponto, tem o instinto de vingança. É que depois, o tal caçados de tubarões, Richard Harris, vai caçar uma orca, mas engana-se e mata uma fêmea que, por azar, estava prenha e, coincidência, pare um feto subdesenvolvido no exacto momento em que é içada para o interior do barco. O macho assiste a tudo e jura vingança, num mítico plano em que grita para o céu (juro!) e onde o Van Damme se inspirou para os seus filmes, certamente. They mess with orca's husband. Big mistake! A partir daqui, a orca macho vai perseguir Richard Harris, com uma obsessão doentia de vingança que inverte os papéis do clássico de Herman Melville, Moby Dick. E sempre que se cruzam há uns planos lindos dois dois a olharem-se, que inclui um grande plano do olho da orca raiado de sangue e a brilhar de vingança. E o giro é que é sempre o mesmo plano, mas dá para todas as cenas. A orca vai então matar os amigos de Richard Harris um a um, arrancar uma perna à então estreante Bo Derek, afundar os barcos dos seus colegas e até explodir-lhe a casa(!) até ao duelo final, mano a mano. A orca é tão inteligente que parece que estamos a ver o Sozinho Em Casa, com o bicho a preparar uma série de armadilhas para o inimigo. Ao contrário de Tubarão, que era um filme sobre um tubarão em que mal se via o animal, Orca é um filme em que se vê demasiadas vezes a orca. Seja em momentos BBC Vida Selvagem, seja em planos subaquáticos aleatórios de orcas. E estas cenas não servem só para encher. Servem também para o desenvolvimento emocional da personagem da orca. A sério! Orca é tão maravilhosamente mau que é impossível reter uma lágrima de felicidade. Orca é um Royale With Cheese de bom mau cinema. Xungaria trash no seu melhor! ![]()
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10:15 AM Quarta-feira, Junho 23, 2010 BRUCE, O TODO-PODEROSO: Título: Bruce Almighty Realizador: Tom Shadyac Ano: 2003 ![]() Comecemos pelo que mais interessa: Bruce, O Todo-poderoso é o filme em que Morgan Freeman faz de deus. E, perante isto, tudo o resto é acessório. Este é o papel que lhe faltava para a vida ser justa. Mesmo que depois tenha feito de Nelson Mandela, isso não interessa para nada perante Bruce, O Todo-poderoso, onde faz de Deus, o primeiro Deus preto do cinema (pelo menos que eu me lembre). Um facto tão significativo quanto a Alanis Morisette a fazer de primeira mulher Deus, em Dogma. Morgan Freeman é, portanto, Deus,, mas pretende tirar uns dias de férias. E como precisa de alguém que o substitua contrata para o seu lugar Bruce, ou melhor, Jim Carrey, aproveitando para lhe dar uma lição também. É que Bruce passa o início do filme todo a culpar a incompetência de Deus por todos os azares da sua vida. "Achas que fazes melhor? Então toma!". Podia muito bem ser o que a classe política devia fazer com a maioria da população, mas não, é apenas a premissa desta comédia. Jim Carrey (ou melhor, Bruce) não é Deus, mas fica com os seus poderes. E, deslumbrado com isso, começa a olhar apenas para o seu umbigo: aumenta as mamas da namorada (Jennifer Aniston, a última namoradinha da América), arranja um carrão e arruina a carreira do seu rival no telejornal onde trabalha (o genial Steve Carell, cuja participação so peca por fugaz, algo que acabou por ser compensado na sequela, onde assumiu o papel de protagonista). Claro que depois o mundo definha à sua volta, Bruce arrepende-se, aprende uma lição e tudo volta aos eixos, vivendo feliz para sempre. Ou seja, Deus é bom, devemos ter fé, nunca questionar os seus desígnios e rezar todas as noites para ele nos compensar. Bruce, O Todo-poderoso é o filme mais pró-cristão de que tenho memória, propaganda religiosa descarada, mascarada timidamente com meia-dúzia de piadas mais alarves. O realizador Tom Shadyac tem no seu currículo meia-dúzia de comédias, onde se inderes uma das três melhores de Jim Carrey - Ace Ventura - Detective Animal (atenção que eu disse uma das três melhores comédias de Jim Carrey e não um dos três melhores filmes de Jim Carrey). Bruce, O Todo-poderoso é então uma comédia certinha, com momentos divertidos (podemos não rir propriamente, mas esboçar um sorriso com uma comédia é algo cada vez mais raro no cinema de hoje) e que (quase) consegue controlar o over-acting de Carrey. Atenção, quase! No entanto, não se esqueçam: Bruce, O Todo-poderoso é o filme onde Morgan Freeman faz de Deus. E isso quase é suficiente para justificar o McBacon. ![]()
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12:21 PM Segunda-feira, Junho 21, 2010 UMA AVENTURA NA CASA ASSOMBRADA: Título: Uma Aventura Na Casa Assombrada Realizador: Carlos Coelho da Silva Ano: 2009 ![]() Quando a Valentim de Carvalho começou a fazer filmes, confesso que fiquei esperançoso. Afinal de contas, eram produções com dinheiro, sobre grandes personalidades nacionais e outras boas ideias, que tinham tudo para dar certo. Mas depois de ver Amália e A Vida Privada De Salazar, concluir que o melhor é, afinal, Uma Aventura Na Casa Assombrada faz-me pensar que algo não está a correr particularmente bem. Os livros de Uma Aventura, de Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada, são uma instituição juvenil nacional. Aposto que não há ninguém nascido após os anos 80 que não tenha crescido a ler as aventuras do Pedro, o geek, do João, o puto, o Chico, o corajoso, e das gémeas, as... miúdas do grupo. Por isso, uma adaptação ao cinema era mesmo uma grande ideia. Mesmo que já haja uma série de teçevisão de qualidade mais ou menos duvidosa. Este podia ser o nosso filme do Harry Potter e, talvez por isso, o livro escolhido para adaptar tenha sido Uma Aventura Na Casa Assombrada. Como o título indica, é o habitual flick da casa assombrada - a casa habitada por sombras -, que envolve fantasmas, espíritos brasileiros da serra amazónica na serra de Sintra e diamantes perdidos. Os efeitos especiais são bons, os decors são óptimos (a mansão escolhida não fica nada a perder para a clássica do género, a de A Casa Maldita), os actores não vacilam (apesar de serem todos morangada) e há um certo compromisso em conseguir gastar o dinheiro da produção a favor do argumento, algo que o chamado cinema comercial recente português não tem feito (alguém mencionou as produções do Alexandre Valente?). Uma Aventura Na Casa Assombrada começa com o Chico (Francisco Areosa) numa escarpa a fazer montanhismo com uma velocidade, uns planos picados de grua e uns aéreos de helicóptero que o Tom Cruise e o Missão: Impossível 2 enchem-se de vergonha. Em menos de cinco minutos, já o grupo completo arranja uma amiga nova (Sara Salgado) e salta para uma mansão abandonada (mas devidamente mobilada e arrumada), com o realizador Carlos Coelho da Silva a despachar argumento, esquecendo-se que estava a fazer um filme para cinema e não um episódio para a série televisiva. A partir daqui começa a haver uma sucessão de acontecimentos parnormais e fantásticos, com flashbacks históricos para dar tempo de antena a Ricardo Pereira, uns vilões alemães vestidos de fantasmas que não se percebe o que andam a fazer no filme, uma linguagem jovem e cool, cheias de piadolas em lume brando, e as gémeas a assumirem-se como mestres de karaté(!). Tal e qual os livros, lembram-se. A cozer tudo isto estão vários planos vermelhos, como que vistos através de um diamante espelhado, que dão um efeito de acid trip ao filme. Eu sei que a juventude hoje tem um problema de défice de atenção, mas um filme como este não ajuda a resolver isso (aliás, só acentua ainda mais), com tanta coisa a acontecer ao mesmo tempo e a uma velocidade vertiginosa. Apesar de não ter argumento, Uma Aventura Na Casa Assombrada vê-se bem, com o cérebro desligado e cara de parvo. E como também não dura muito tempo não ofende ninguém. Quem diria que este Cheeseburger saberia melhor que a Amália e o Salazar, hein? ![]()
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10:29 AM Domingo, Junho 13, 2010 26. FESTRÓIA: Dia 8 Este ano só vi dois filmes da secção oficial e, coincidência das coincidências, apanhei o grande vencedor desta edição. Uma Espécie De Cavalheiro, do norueguês Hans Petter Moland, levou para casa quatro golfinhos, incluindo o de melhor filme e melhor actor. A outra estrela da noite foi Rogério Samora, homenageado com o prémio de carreira. Rogério Samora deu um verdadeiro show na conferência de impresa promovida pelo festival: afável, bem disposto e divertido, falou de tudo e todos, sem papas na língua. Este vai ser um assunto para ler em mais detalhe na próxima edição da Take. Ante-Estreia - ATRAÍDOS PELO CRIME: Título: Brooklyn's Finest Realizador: Antoine Fuqua Ano: 2009 ![]() De quando em vez acontece no nosso país casos infelizes de polícias que matam cidadãos. Quando estes são negros e vivem em bairros sociais, a comunicação social apressa-se a montar um circo mediático em redor do bairro, os analistas acusam a sociedade e o poder central de não integrarem aqueles cidadãos e a família e os amigos da vítima têm um inesperado tempo de antena extra para garantirem que o rapaz era boa pessoa, não fazia mal a uma mosca e que os polícias são racistas homicidas. Um par de dias depois sai nas notícias que o rapaz tinha um cadastro mais extenso que um livro do Lobo Antunes e que fugia às autoridades depois de um assalto à mão armada, mas já ninguém liga. Paralelamente, as forças policiais queixam-se da falta de apoio do Estado, de más condições de trabalho e de fracas renumerações, revoltando-se contra o que consideram ser acusações injustas e ingratas. Os nacionalistas e populistas aproveitam logo para se queixarem da falta de autoridade a polícia e exigem a expulsão dos emigrantes do país. Perante tudo isto, os comentadores televisivos e alguma opinião mais esclarecida (ou não) desabafa: "Só em Portugal". Mas agora, Antoine Fuqua dá-nos uma notícia de última hora em primeira mão: afinal este não é um cenário exclusivamente português. Atraídos Pelo Crime (novamente os tradutores portugueses a quererem ser mais reveladores do que deviam) passa-se nos Estados Unidos mas podia muito bem passar-se em Portugal. Bastava trocar Brooklyn por um dos nossos bairros problemáticos – o do Aleixo, a Bela Vista ou a Cova da Moura – e a polícia distrital de Nova Iorque pela nossa PSP e Atraídos Pelo Crime era uma sequela do Zona J. Antoine Fuqua volta a imiscuir-se no submundo das ruas nova-iorquinas, um terreno que conhece como a palma das suas mãos e que, em tempos, foi território exclusivo de Martin Scorcese. Atraídos Pelo Crime é um thriller policial urbano, cru e violento como um Sam Peckinpah citadino, sobre três polícias cujas histórias decorrem em formato mosaico sem se cruzarem. O primeiro é Richard Gere, actor mui odiado neste tasco cinéfilo e cada vez mais a tentar ser o Harrison Ford. Gere está a dias da reforma e tão anestesiado do que se passa nas ruas que os novatos que são colocados como seus parceiros não conseguem compreender a sua moral. O segundo é Ethan Hawke que, como bom cristão que é, não usa preservativo e tem mais filhos que um coelho. Por isso, precisa de dinheiro urgentemente para comprar uma casa maior. Até porque a sua tem bolor e ele nunca ouviu falar de obras. O último é Don Cheadle, agente infiltrado há demasiado tempo, que começa a ter dificuldades em distinguir quem ajudar. Fuqua estiva estes polícias até ao limite, aproximando-os do lado negro da força, até à catarse final, onde estes aprendem que o crime não compensa (alguns pela pior maneira). Os clichés são muitos – às vezes os actores dão um pontapé numa pedra e sai de lá debaixo um –, mas aposto que já o deviam ter previsto falei de um polícia a poucos dias da reforma. Felizmente, Fuqua consegue filmá-los com novas roupagens para a coisa parecer minimamente nova. Por fim, uma palavrinha sobre o elenco, onde se destaca o regresso de Wesley Snipes, actor xunga injustamente esquecido quando se fala de action heroes dos anos 90. Aliás, todo o elenco é um espécie de constelação de estrelas do ocaso: o já mencionado Wesley Snipes, o velhote Richard Gere, que já não sai da cepa torta há anos, ou Ethan Hawke, que parece que vai mesmo passar ao lado de uma carreira melhor. Só Don Cheadle escapa a estes rótulos. E como eu sou muito bom a rotular gente e coisas, rotulo Atraídos Pelo Crime com um McBacon. ![]()
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12:04 PM Sábado, Junho 12, 2010 26. FESTRÓIA: Dia 7 Cinema Português - OS SORRISOS DO DESTINO: Título: Os Sorrisos Do Destino Realizador: Fernando Lopes Ano: 2009 ![]() Contigo aprendi uma grande lição Não se ama alguém que não ouve a mesma canção. Rui Veloso cantava assim, em 1990, no êxito A Paixão (Segundo Nicolau da Viola), do duplo Mingos & Samurais. E Carlos (Rui Morrison) só não o ouviu porque não quis. Enquanto ele gosta de jazz e de boleros, a sua mulher (Ana Padrão) gosta de música clássica. Obviamente, este é uma relação condenada ao insucesso, apenas à espera que ela conheça um político angolano maneta (Milton Lopes) para que arranje, oficialmente, um amante. Fernando Lopes volta a abordar os relacionamentos disfuncionais e inusitadios, ou não fosse ele o realizador da adaptação do clássico de José Cardoso Pires, O Delfim. E até Rogério Samora e Alexandra Lencastre, novamente enquanto casal, passam pelo filme, numa breve aparição que tem muito de simbólica. Mas em comparação com O Delfim, Os Sorrisos Do Destino é muito mais moderno. Depois de descoberta a traição, Carlos torna-se amigo do amante da mulher, formando um triângulo amoroso pouco convencional, até porque o seu vértice feminino é o único que não se sente confortável com isso. Os Sorrisos Do Destino encontra aqui muito mais semelhanças com Vicky Cristina Barcelona do que com os triângulos amorosos do cinema francês (alguém mencionou Jules E Jim?). Triângulos amorosos até não são uma temática estranha ao cinema nacional, mas o que é raro e Os Sorrisos Do Destino tem com fartura são bons diálogos. E que não sejam teatrais e que pareçam mesmo pessoas reais a falar. E que, de preferência, sejam escorreitos e tenham piada. E Rui Morrison é uma agradável surpresa neste capítulo. Só pela possibilidade de ver um filme português com bons diálogos, que não sejam forçados, já vale a pena ver Os Sorrisos Do Destino. E mesmo que o argumento resvale algumas vezes para a irrelevância e a repetição, o filme vale um McBacon na boínha. ![]() Sexta-feira, Junho 11, 2010 26. FESTRÓIA: Dia 6 O filme de Inês Oliveira, Cinerama, passou na sessão de meia-noite, uma hora imprópria para muito boa gente ver cinema. São sessões que costumam estar com muito pouca gente e esta não foi excepção. Quando chegou ao fim, das sete pessoas iniciais, só duas permaneciam na sala. E uma delas, um convidado estrangeiro do festival, perguntava-me excitadíssimo se a realizadora estava presente em Setúbal. Infelizmente não, mas aposto que Inês Oliveira ganhou um fã! Homem e a Natureza - COZINHANDO A HISTÓRIA: Título: Cooking History Realizador: Péter Kerekes Ano: 2009 ![]() Ora aqui está algo em que nunca tinha pensado e que faz todo o sentido: a comida é um pormenor deveras imporante na guerra e uma vitória ou uma derrota no campo de batalha pode depender definitivamente da alimentação dos soldados. Foi isso que Péter Kerekes se propôs a mostrar, no documentário Cozinhando A História, abordando vários casos verídicos ao longo da história no Velho Continente. Kerekes começa na Rússia durante a primeira grande guerra, passa pelo Holocausto na Alemanha, vai à revolução checa, pesquisa a invasão argelina pela França, escuta o conflito jugoslavo e até vai ao pormenor da ementa pessoal diária do camarada Tito (que até aparece numa foto ao lado do nosso Mário Soares). Estas histórias são todas divididas em episódios, que terminam invariavelmente com uma receita típica do país em questão. E, apesar de na maior parte das vezes serem testemunhos dramáticos (como o do padeiro judeu que envenenou mil e um pães para os soldados nazis), Kerekes nunca perde o sentido de humor e consegue contar aquelas histórias com grande à-vontade e ligeireza. Aliás, custa muito mais ver os soldados russos a degolarem uma vaca ou os húngaros a matarem um porco para fazerem salchichas, do que ouvir as traumatizantes histórias de quem teve que matar para não ser morto. Além disso, Kerekes não se limita a documentar, querendo também fazer cinema. Por isso, recorre a imagens de arquivo e encena os seus entrevistados em pequenas reinterpretações da história (como se estivesse a ensaiar pequenas peças de escola) ou em momentos simbólicos. Como o soldado-cozinheiro de um submarino russo que terminou afogado, que vai assar costeletas para dentro do rio enquanto a maré sobe e o submerse. Também as entrevistas são muito bem feitas, com Kerekes a fazer o trabalho de casa e a conseguir dissecar as tensões militares de cada conflito. O exemplo mais claro é no frente-a-frente entre um cozinheiro croata e duas cozinheiras sérvias, onde em meia dúzia de minutos se percebem o porquê de tantos anos de guerra. Apende como se faz, Michael Moore! Cozinhando A História é uma lição de bom cinema (aliás, de bom documentário), mostrando que este género também pode ser inovador, excitante e original. Só foi pena ninguém dar a receita do Le Big Mac. ![]() Cinema Português - CINERAMA: Título: Cinerama Realizador: Inês Oliveira Ano: 2009 ![]() Três pessoas preparam um golpe. Dois homens e uma mulher vão entrar no edifício de uma grande empresa durante a noite, distrair o porteiro e encurralarem o patrão, que acusam de ser o responsável pelo suicídio de um amigo comum. Com tudo nos sítios certos, só faltava mesmo uma música funk (o Green Onions, de preferência) para estarmos num heist-movie. E quando falamos em heist-movies portugueses falamos, claro, de Crónica Dos Bons Malandros. E isso é bom. No entanto, assim que se dá o golpe tudo se transforma. Cinerama deixa de ser um filme de assalto (aliás, deixa de ser um filme convencional) e transforma-se num trip-movie, onde surrealismo é a palavra de ordem. O filme entra nos terrenos da video-arte, da instalação e de Matthew Barney. Mas, tendo em conta a curta anterior de Inês Oliveira, O Nome E O N.I.M., já devíamos estar à espera. O primeiro momento não-convencional de Cinerama começa por ser uma sequência absurda, muito dada aos Monthy Phytons. Da grande empresa do início do filme saltamos para um edifício modernista em ruínas, onde deambulam vários engravatados, alguns a dançar (e lembramo-nos logo do ministry of silly-walks) e outros tantos a terem diálogos sem nexo (e desta vez lembramo-nos do Gato Fedorento e do célebre sketch do papel). Entendemos essas sequências como uma ideia de um mundo alienado, criticando as grandes corporações, a burocracia e a tecnocracia, por onde andam os fantasmas de uns tipos a fazer parkour(?). E é tudo tão fora que até achamos piada. O pior é o momento seguinte, em que Inês Oliveira entra no surrealismo puro e duro, destruindo o que restava de qualquer associação com a realidade e o argumento inicial. Como ela própria definiu, Cinerama é um filme que se auto-imola. Construído como que por camadas justapostas, o filme vai deambulando por uma mesquita muçulmana, por entre dioramas, spoken word, rituais hindus e outras coisas que fazem pouco sentido e que, por isso, parecem ser gratuitamente inseridas. No final, termina tudo, pertinentemente, com um caleidoscópio. Cinerama é como A Cara Que Mereces: começa por ser um filme convencional e, de repente, sem nada que o pudesse prever, transforma-se num surreal Alice No País Das Maravilhas, uma trip que, felizmente, se aceita e se vê bem porque só tem uma hora de duração. Mais do que isso o meu cérebro já começa a rejeitar e a regurgitar o Cheeseburger comido. ![]() Quinta-feira, Junho 10, 2010 26. FESTRÓIA: Dia 5 Das duas uma: ou este é o ano dos filmes de prisão no Festróia ou então eu ando a escolher as sessões a dedo. Três filmes do género de seguida é obra. Homem e a Natureza - CORAGEM DE MÃE - CONFRONTANDO O AUTISMO: Título: Sólskinsdrengurinn Realizador: Fridrik Thor Fridriksson Ano: 2009 ![]() Fridrik Thor Fridriksson é um antigo conhecido do Festróia, uma vez que já inscreveu o seu nome na lista dos vencedores do Golfinho de Ouro. Um amigo meu passou a semana a melgar-me a cabeça, ansioso com um filme novo do realizador islandês, depois de ter ficado maravilhado com Febre Gelada, o tal filme que venceu o festival de Setúbal em 1996 e que tinha banda-sonora dos Sigur Rós quando ainda era fixe ouvir Sigur Rós. E eu deixei-me entusiasmar também. Como o título indica, Coragem De Mãe: Confrontando O Autismo é um documentário sobre uma mãe islandesa, Margrét Dagmar Ericsdottir, com um filho autista, que embarca numa viagem pelos Estados Unidos (e não só) para compreender melhor a doença. Esta é a segunda experiência de Fridriksson no documentário: depois de ter revelado a cena rock islandesa, em Rock Em Reiquiavique, agora ensaia uma abordagem mais humanista, temática querida no Festróia. No entanto, mais do que um documentário, Coragem De Mãe é quase uma daquelas reportagens alargadas que agora os nossos canais generalistas tanto gostam de passar depois dos telejornais e que chama de televisão de qualidade. Coragem De Mãe não é um mau documentário: Margrét faz o roteiro completo, entrevista as pessoas certas e coloca as questões indicadas, mas o filme tanto podia ter sido feito por Fridrik Thor Fridriksson como por um qualquer documentarista desconhecido. Coragem De Mãe interessa, por isso, sobretudo a dois públicos-alvo: aos que têm um contacto próximo com o autismo e querem saber mais sobre o assunto; ou aqueles que conseguem ficar fascinado com este tipo de reportagens. Para quem está à procura de cinema é pouco. Além disso, Coragem De Mãe também tem tido alguma visibilidade em vários festivais mais ou menos conceituados por duas razões: porque é assinado por Fridriksson, que não é, propriamente, um desconhecido no circuito europeu; e porque tem Kate Winslet como narradora. Olá Happy Meal! ![]() Secção Oficial - UMA ESPÉCIE DE CAVALHEIRO: Título: En Ganske Snill Mann Realizador: Hans Petter Moland Ano: 2010 ![]() Eis um filme norueguês sobre um ex-recluso acabado de sair da prisão, depois de ter morto um homem com um tiro. Esse homem é Ulrik (Stellan Skarsgård), increvelmente parecido ao Dick Dale, que ficamos a saber que tem conecções com a máfia local. Foram eles que lhe providenciaram uma pensão à sua família durante o tempo que esteve tempo e são eles que agora lhe arranjaram um tecto onde ficar e um trabalho. Ulrik só tem agora que matar o tipo que o entregou para acertar contas e fazer vingança. Lemos esta sinopse de Uma Espécie De Cavalheiro, conferimos a sua nacionalidade e apostamos dois dedos da mão esquerda como vamos ver um drama nórdico, cheio de intensidade e pressão acumulada. E, quando termina, damos graças por não termos apostado, porque senão, neste momento, tinha que escrever este texto com menos dois dedos. Uma Espécie De Cavalheiro é antes um filme de gangsters bastante descontraído e que, apesar de um argumento mais profundo, não se esquiva à comédia. Recorrendo a personagens e a situações mais caricatas - gangsters anões, senhorias que dão quecas por piedade, mecânicos que falam a mil à hora e sem respirar... -, Uma Espécie de Cavalheiro até podia ser comparado aos filmes do Guy Ritchie da sua fase boa se fosse um pouco mais espalhafatoso. Mas estamos a falar de um filme nórdico e, claro, é muito mais contido. Hans Petter Moland apercebe-se que tem meia-dúzia de cenas que funcionam bem (especialmente a tal senhoria, uma velha que não vê pila há que tempos e que se convence de que dar uma queca com Ulrik é estar a ajuda-lo por caridade) e cai na tentação de as repetir mais que uma vez, tornando-as algo forçadas. Fora isso, tudo o resto corre sobre rodas, atando as pontas soltas do argumento (que se vão revelando ao longo do filme, nunca nos são dadas logo de mão beijada) e terminando tudo com a devida mensagem moral. Uma Espécie De Cavalheiro pode dormir descansado, porque de faltar ao dever cumprido ninguém o pode acusar. E se não levar para casa o Golfinho de Ouro é porque houve alguém melhor que ele. Olá Mcroyal Deluxe. ![]() Quarta-feira, Junho 09, 2010 26. FESTRÓIA: Dia 4 Secção Oficial - ALMA EM PAZ: Título: Pokoj V Dusi Realizador: Vladimír Balko Ano: 2009 ![]() Cinco anos na prisão mudam uma pessoa. Qualquer pessoa. É como a guerra: quando alguém vai para lá regressam alterado. É isso que acontece com Attila Mokos, em Alma E Paz, o mais recente sucesso de bilheteira da Eslováquia. Alma Em Paz é um daqueles dramas gelados por fora e em ebulição por dentro, em que os países nórdicos são peritos em fazer. Por isso, é impossível contornar o nome de Ingmar Bergman como influência, na forma de captar todas aquelas convulsões emocionais internas. Além disso, Alma Em Paz tira o retrato social da Eslováquia, com todas as suas questões raciais, ao dar um sidekick cigano a Attila Mokos. Renegado pelos seus antigos companheiros, numa vila onde sente dificuldade em voltar a chamar sua, Mokos encontra solidariedade ao lado de alguém que estava habituado a despreza, apercebendo-se de como é duro estar naquela situação. Sem ser propriamente genial, Alma Em Paz anda sempre em voo rasante do muito bom, valendo por isso um bem digno McBacon. ![]() Primeiras Obras - R: Título: R Realizador: Tobias Lindholm & Michael Noer Ano: 2010 ![]() R- é o alter-ego e o projecto a solo de Ricardo Martins, o hiperactivo baterista de um sem número de projectos de referência do underground musical português (Lobster, I Had Plans, etc, etc). R é um prisioneiro numa penitenciária dinamarquesa. Ao ser condenado por esfaquear um indivíduo, Rune (Johan Philip Asbæk) é reduzido a uma letra, apenas mais um no interior daquela prisão. O que tem um a ver com o outro? Absolutamente nada! Mas achei que era uma boa altura para mencionar boa músca nacional num blogue de cinema. R é um filme de prisão, duro e pesado, filmado de forma mnimalista, sobre as agruras de uma vida encarcerado. A prisão é uma espécie de microcosmos, onde as regras de comunidade, de fidelidade e de cidadania são bem diferentes das do mundo cá de fora. E isso modifica qualquer homem, seja ele bom ou mau. É esta a mensagem de R e de, basicamente, todos os (bons) filmes de prisão. Aliás, R é muito semelhante a Um Profeta, recente filme sensação do género. No entanto, enquanto que nesse o protagonista ganha estatuto e sobe na hierarquia prisional após matar outro recluso por encomenda de terceiros, aqui Rune continua a ser humilhado mesmo depois de despachar um albanês a mando do cabecilha de uma das gangues da prisão. Por isso, tem que fazer pela vida e lutar pela sua própria sobrevivência dia a dia. E esta é a principal diferença entre R e Um Profeta. Perto do fim, R tem ainda um truque engraçado, com o filme a trocar de personagem principal. Não chega a ter o efeito de Psico, mas funciona muit bem como manobra argumentativa para mostrar o outro lado da moeda. R é um excelente filme de prisão e destrona com categoria Um Profeta do lugar de melhor filme do género dos últimos tempos, com um McRoyal Deluxe muitobem servido.
Posted by: dermot @
12:06 PM 26. FESTRÓIA: Dia 3 Isto é o que se chama de um azar do caraças. No dia em que tinha menos tempo disponível e que tive de escolher as sessões a dedo, um dos projectores deu o badagaio e lá me fiquei apenas por um filme [sad face]. Independentes Americanos - TENNESSEE: Título: Tennessee Realizador: Aaron Woodley Ano: 2008 ![]() O road movie é uma das imagens de marca do cinema norte-americano por duas razões: primeiro, porque os Estados Unidos são um país relativamente recente e, como não têm história nem propriamente um sentido de lugar, encontram na estrada e na viagem uma grande identificação cultural; e segundo porque é um género extremamente fácil de se fazer. Basta apontar uma câmara da janela de um carro em andamento para se ter, automaticamente, uma dúzia de planos jeitosos. Por isso, o road movie é, simultaneamente, uma coisa boa e uma má no cinema norte-americano. Boa porque existem muitos exmeplos do género com qualidade elevada. E má porque existem ainda mais exemplares de qualidade ainda mais duvidosa. Tennessee é um dos road moves que mostram como este é um género traiçoeiro, capaz de cair no facilitismo à mínima distração. A história é a de dois irmãos, Carter (Adam Rothenberg) e Ellis (Ethan Peck), que embarcam numa viagem até ao Tennessee para reencontrarem o pai, que lhes ba6tia em pequenos e quem abandonaram desde o primeiro momento em que tiveram idade para se governarem sozinhos. É que o mano mais novo tem leucemia e precisa de encontrar um dador compatível. E a saúde está em primeiro lugar que as divergências pessoais. Crivado de clichés, Tennessee é ainda um filme inseguro. O realizador Aaron Woodley sente-se necessitado em atirar de pára-quedas meia-dúzia de flashbacks, que parecem de outro filme, para ilustrar o passado das suas personagens. Em contrapartida tem uma fotografia cinco estrelas, que capta aquele ambiente nostálgico e decadente do Texas, cheio de cáubóis, poeira, rednecks e wife beaters. E por falar em wife beaters, falta mencionar Mariah Carey, a empregada de bar, mas aspirante a - surpresa! - cantora, que foge com eles, enquanto são perseguidos pelo seu marido, polícia e agressor. Este é uma das melhores coisinhas de Tennessee: Lance Reddick destila maldade por todos os poros (pelo olhar, pelos músculos...) e Aaron Woodley dá-lhe um tratamento de vilão, sempre impávido e sereno por detrás de uns raybans de aviador espelhados (já vimos este truque vezes sem conta - olá Exterminador I´mplacável 2 -, mas fica sempre bem). No entanto, também isto desca,ba quando Lance Reddick ajuda um "colega wife beater" a pasar impune, o que arruina a credibilidade da sua personagem. No entanto, o momento mais infeliz de Tennessee é quando Mariah Carey - inevitavelmente - mostra os seus dotes vocais: uma cowboy do Texas, num concurso de country, canta uma música r&b(!)... e ganha(!!). E, com a letra da canção, resolve todos os problemas do filme(!!!). No final, um twist dramático a puxar o tearjerker e um Double Cheeseburger para comer na viagem de regresso. ![]()
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11:25 AM Segunda-feira, Junho 07, 2010 26. FESTRÓIA: Dia 2 O Festróia continua igual a si próprio: a maioria dos filmes continua a ter presente os seus realizadores, que o apresentam, respondem a perguntas e se mostram disponíveis para a confraternização. Isso é um dos principais pontos que fazem com este seja um festival especial. Homem e a Natureza - CARTAS AO PADRE JACOB: Título: Postia Pappi Jaakobille Realizador: Klaus Härö Ano: 2009 ![]() Leila (Kaarina Hazard) é uma mulher assustadoramente parecida com a Kathy Bates, de Misery - O Capítulo Final, que foi condenada a prisão perpétua por ter morto um homem. No entanto, o padre Jacob (Heikki Nousiainen), que vive cego e sozinho num presbitério enorme, intercede em seu favor, pede que a perdoem e contrata-a para sua ajudante. O padre Jacob recebe dezenas de cartaz por dia de fiéis a pedirem-lhe ajuda e necessita de alguém que as leia e responda por ele. No fundo, o padre Jacob tem demasiado bom coração, o que deve ser para compensar a sua falta de jeito para fazer de cego. Mas como seria de esperar Leila tem também mau feitio e vai fazer daquilo um frete. Começa a jogar as cartas fora para não ter que as ler todas, espanta o carteiro e limita ao mínimo o seu relacionamente com o padre. Este, em contrapartida, vê naquele ritual diário a sua razão de continuar a respirar neste mundo, enquanto vai convertendo Leila até à catarse emocional final. Cartas Ao Padre Jacob é, portanto, um filme de dois actores, duas personagens opostas que se relacionam até acabarem por estreitar laços de forma demasiado íntima. É um Miss Daisy ao contrário. Representante finlandês ao Oscar de melhor estrangeiro do último ano, Cartas Ao Padre Jacob é, como todo o cinema nórdico, de uma precisão milimétrica e fria. Além disso, faz-se apenas de dois actores (ao todo, existem mais três actores no filme todo), que descarnam Cartas Ao Padre Jacob de tudo o que é acessório, até ficarem a esgravatar no seu âmago. E que é, simultaneamente, as nossas entranhas mais emocionais. Como ferramentas para esta tarefa, o realizador Klaus Härö utiliza uma fotografia exemplar, da gélida Finlândia rural, também comum no cinema nórdico. Cartas Ao Padre Jacob é uma pérola e, por ser tão bom, incomoda-me bastante um buraco no argumento que anda lá pelo meio, visto que não há razão nenhuma para deixarem de chegar cartas ao padre Jacob de um dia para o outro. Se conseguirem ultrapassar this major flaw, não se vão arrepender do Le Big Mac. ![]() Cinema Português - A RELIGIOSA PORTUGUESA: Título: A Religiosa Portuguesa Realizador: Eugéne Green Ano: 2009 ![]() Houve uma vez que fiquei fechado no quarto sem querer e, impossibilitado de sair, fiquei a ver a tinta da parede a secar. Foram três horas da minha vida perdidas, mas mesmo assim não foram tão más como as que passei a ver A Religiosa Portuguesa. É incomcebível que este filme exista. Das duas uma: ou alguém algures conseguiu dividir por zero e o mundo, antes de entrar em colapso, criou este objecto; ou então alguém abriu um portal para um dimensão alternativa, onde tudo é uma versão disforme da nossa, e sacou cá para fora o filme. São as únicas explicações plausíveis que encontro para explicar A Religiosa Portuguesa. Ou então é uma piada. Sim, só pode ser isso, uma piada. A Religiosa Portuguesa é uma produção nacional realizada pelo francês Eugéne Green que, apaixonado por Lisboa, decidiu adaptar o clássico Lettres Portugaises, de Gabriel-Joseph Guilleragues. No entanto, ao contrário de Wim Wenders (olá Viagem A Lisboa), A Religiosa Portuguesa soa mais a insulto do que a homenagem. Eugéne Green enamora-se por todos os clichés do cinema nacional, aqueles que têm levado o público a divorciar-se dos seus filmes, e abusa numa coisa irreal de planos tão demorados que chegam a ser em câmara lenta, diálogos teatrais lidos directamente de uma folha de papel e movimentos tão mecanizados que tudo é falso e pouco natural. O filme inicia-se com uma franco-portuguesa (Leonor Baldaque) a registar-se num hotel e a explicar que está em Lisboa para fazer um filme. O senhor do check-in pergunta-lhe então e quando chegam os actores?. Infelizmente estes nunca chegam. Tirando o frete da Beatriz Batarda, tudo o resto está ao nível das peças da paróquia da aldeia alentejana do meu pai. Leonor Baldaque então é impressionante, passando o filme todo rigida que nem um bacalhau seco e os olhos super-arregalados, que nos deixam perturbados a partir de certo ponto. Além disso, Eugéne Green ([início do modo ironia]ele próprio um actor de exceoção[/fim do modo ironia]) filma os diálogos de forma nunca vista - com grandes planos frontais dos actores, a olharem directamente para a câmara, como se estivessem a apresentar o telejornal. Quanto ao filme em si é uma sequência de cenas sem cabimento, prestações confrangedoras, postais ilustrados de Lisboa e um cameo do Camané e da Aldina Duarte, que não têm culpa nenhuma de os terem posto numa coisa destas. Qual petição para a redução do número de deputados qual quê! Façam mas é uma petição contra coisas destas. Já há uns anos Portugal tinha dado dinheiro para produzir um filme igualmente mau, Animal, mas que não era tão péssimo. Eu confesso que não aguentei até ao fim. Mas mesmo assim não tenho problemas nenhuns em clamar por um Pão Com Manteiga. Ou então em passar fome. ![]() Domingo, Junho 06, 2010 26. FESTRÓIA: Dia 1 Sábado de sol, a praia a poucos quilómetros e, mesmo assim, sessões bem compostas no Festróia. Assim dá gosto ir ao cinema. A excepção foi a com o último filme de Theodoros Angelopoulos. De facto, o realizador grego merecia um bocadinho mais de atenção: ter o seu filme na sessão da meia-noite de um sábado era arriscar a passar despercebido. Honenagem à Eslováquia - PARAÍSO, INFERNO... TERRA: Título: Nebo, Peklo... Zem Realizador: Laura Siváková An: 2009 ![]() Na apresentação de Paraíso, Inferno... Terra, a realizadora Laura Siváková explicou que este era um filme que captava a essência feminina. De facto, não podia ser mais verdade. Paraíso, Inferno... Terra é uma história sobre aquelas coisas que só fazem sentido às mulheres. É por isso que elas deviam vir com manual de instruções. Ora vejamos: Zuzana Kanóczová é uma jovem cheia de saúde que recebe um par de cornos gigante do seu namorado; no entanto, antes de o deixar, ainda lhe dá uma queca de recompensa(!); depois, enamora-se por um homem mais velho (Dagmar Bláhová) que lhe dá boleia numa estrada no meio da mata(!!); e, mesmo com um historial de mulherengo e alguns rumores de bater na ex-mulher, Zuzana vai viver com ele até acabarem por se enrolar. Enquanto vivem juntos, ela como babysitter da sua filha, Paraíso, Inferno... Terra é um ligeiro filme de suspense, com o qual Alfred Hitchcock faria milagres. No entanto, Laura Sivá apenas consegue ficar-se pelas intenções. No final, o velhote abandona também Zuzana, trocando-a pela regressada ex-mulher, e esta volta a ficar na lama. Mas os homens é que são maus, não são as mulheres que são parvas. Então está bem. VOu comer um Cheeseburger e não dizer mais nada. ![]() Independentes Americanos - GRANDE MUNDO DO SOM: Título: Great World Of Sound Realizador: Craig Zobel An: 2007 ![]() A série britânica A Empresa veio lançar uma nova vaga de comédia: pequenas espécies de mockumentários sobre o mundnao quotidiano do indivíduo vulgar, que funciona como crítica social e moral da sociedade dos nossos tempos. É uma comédia-dramática com um estilo televisivo, muita improvisação que se confunde com a vida real (é por isso que anda a ser confundida amiúde com o também actual mumblecore) e que herda muito mais do cinema independente dos Coen do que do Cassavetes. Grande Mundo Do Som pertence a esta família de comédias indie, que num passado recente já nos trouxe o muito bom Kenny, mockumentário sobre um tipo cuja profissão é limpar as famosas casas-de-banho portáteis que encontramos nos festivais de verão. A história foca-se mais sobre dois homens, Martin (Pat Healy) e Clarence (Kene Holliday), mas acaba por ser mais sobre a produtora musical Great World Of Sound. Quer dizer, chamamos-lhe produtora musical, mas na verdade é um grande esquema de vendas para enganar parvos: faz audições em pequenas terreolas cheias de white trash, convence os músicos que os vão tornar famosos e extorquem-lhes o máximo de dinheiro possível. Martin e Clarence são so dois melhores vendedores da Great World of Sound, mas, tal como os seus clientes, também eles estão convencidos que aquilo é uma produtora a sério. E à medida que se vão apercebendo da verdadeira situação e a realidade vai-lhes dando umas chapadas em cheio da cara, o filme vai espraindo-se e ganhando maior profundidade dramática. Pelo meio, um sem-número de audições a la Ídolos (mas, por incrível que pareça, parecem bem mais credíveis que os maluquinhos que vemos na televisão) vão-nos fazendo rir à séria. Grande Mundo Do Som é ficção, mas podia muito bem ser realidade. Grande Mundo Do Som é uma espécie de Alta Fidelidade versão A Empresa e, apesar de ter um final demasiado moralista que parece pertencer a outro filme, é uma pequena obra-prima daquelas que deve ser procurada incessantemente nos meios ilegais de sacar filmes da internet. Tenho dúvidas se nesta edição do Festróia vamos ver algo melhor que este Le Big Mac. ![]() Grandes Realizadores Europeus - O PÓ DOS TEMPOS: Título: I Skoni Tou Hronou Realizador: Theodoros Angelopoulos An: 2008 ![]() Ao que consta, Theo Anglelopoulos anda fascinado com o tempo e o passar do tempo. Deve ser uma coisa da idade… Por isso, o conceituado realizador grego anda de volta de uma trilogia sobre a temática. E O Pó Dos Tempos é o segundo tomo. Willem Dafoe, novamente com uma personagem sem nome como em Anticristo (e não é por acaso, porque tal como no filme de Von Trier, aqui também não é a personagem que interessa, mas sim o arquétipo), é um realizador a fazer um filme sobre o passado da sua família. Esta, ainda vivinha da silva, é composta pela mãe, Eleni (Irene Jacob), o pai (Spyros) e um amigo judeu (Bruno Ganz), cujas histórias vão-se desenrolar em paralelo. Além disso, projectam-se no futuro, uma vez que a filha de Dafoe també entra na equação: tem o mesmo nome da avó e acabou de fugir de casa. As várias camadas temporais de O Pó Dos Tempos sobrepõem-se e desenrolam-se em paralelo (às vezes parece que em simultâneo), sem que o tempo fosse uma limitação. Para Theo Angelopoulos não existe essa coisa quarta dimensão e, por isso, constrói o filme como um bolo, tornando-o denso e, muitas vezes, confuso. Com ares de épico, O Pó Dos Tempos faz uma viagem por quase um século e termina bem na viragem do milénio. Mais uma vez, tal não é coincidência. Além disso, rompe com as barreiras geográficas tal como ignora as barreiras temporais. Começa nos gulags da União Soviética, no dia em que Estaline morreu, passa pelos campos de concentração do Holocausto, visita a revolução grega (a história helénica é uma constante no cinema de Angelopoulos e aqui há uma obsessão pelo mito da terceira asa) e chega até ao presente contemporâneo nova-iorquino. O argumento é, portanto, mais metafórico do que linear e, por isso, cada cena é um símbolo. Ao espectador resta-lhe decifrar o enigma e absorver o tempo a passar, num neo-realismo socio-político de se tirar o chapéu, num filme lírico e com cenas surreais à Fellini. Não é por acaso que a personagem de Willem Dafoe anda a montar o seu filme nos estúdios da Cinecittá. Além disso, a sua personagem não consegue disfarçar umas referências auto-biográficas do próprio realizador helénico. Por isso, O Pó Dos Tempos remete para outro mestre que, chegado a uma certa idade, atirou as convenções fílmicas às urtigas para fazer um projecto bastante pessoal também sobre o passar do tempo (olá Coppola, olá Uma Segunda Juventude). O neo-realismo é uma seca nos tempos que correm, caracterizados pelo défice de atenção e pela massificação da informação. Numa era em que somos bombardeados com quantidades massificadas de informação, que temos de filtrar e arquivar em tempo recorde, vermos um filme contemplativo como O Pó Dos Tempos não é fácil. Especialmente, quando Angelopoulos continua a filmar com uma pose melodramática, que cheira a falso por todos os lados (Willem Dafoe parece fazer um frete na maior parte das vezes). Por isso, não é de estranhar que a visibilidade de Angelopoulos já não seja o que era. Se ao segundo episódio já vai num Cheeseburger, acho que não vou querer ver o terceiro filme da trilogia. ![]()
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12:06 PM Sábado, Junho 05, 2010 26. FESTRÓIA: Dia 0 Surpresa! Estamos no Festróia para mais um acompanhamento integral do festival internacional de cinema de Setúbal, depois do interregno do ano passado. E, como de costume, não iríamos faltar à sessão de abertura, com um filme da secção deste ano, Histórias de Resistência, algo tão apreciado pela população sadina, ou não fosse esta uma cidade com um passado ligado à resistência. A edição deste ano, a 26ª, decorre novamente em sala emprestada - este ano no auditório da paróquia da Anunciada -, mes pelo menos este ano niguém vai ficar om saudades do antigo fórum Luísa Todi, uma vez que as cadeiras são igualmente de pau e não há ar condicionado. Por isso, em questões de desconforto, o festival mantém-se igual. Quanto à qualidade dos filmes é isso que vamos opinar nos textos seguintes. Quanto à sessão de abertura foi uma seca do cacete, com uma apresentação do júri em sequências de fotos à powerpoint e trailers de filmes eslovacos em eslocavo que pareceram durar a noite toda. Ah, é verdade, e se tudo correr bem, teremos uma mãozinha extra. Histórias de Resistência - BERLIN 36: Título: Berlin 36 Realizador: Kaspar Heidelbach Ano: 2009 ![]() Em 1999, no mundial de atletismo de Berlim, a sul-africana Caster Semenya bateu o recorde mundial dos 800 metros. Perante a facilidade com que pulverizou a sua concorrência (e o seu aspecto físico, claro), levantaram-se dúvidas sobre o seu verdadeiro género. Seria mesmo uma mulher? Os testes concluiram que Semenya é hermafrodita, mas a polémica continua ainda: poderá a sul-africana correr contra outras mulheres? O caso é estranho, não é? Mas não tanto como o caso onde se baseia este Berlim 36. Nos Jogos Olímpicos de Berlim de 1936 (novamente Berlim, será coincidência?), o regime de Hitler deixou bem claro que judeus a ganhar medalhas era coisa que não queria ver acontecer. Infelizmente para eles, a germânica favorita no salto em altura era a judia Gretel Bergmann (Karoline Herfurth) e os americanos ameaçaram boicotar os jogos se os alemães não a convocassem. O reich tinha então que encontrar outra atleta que vencesse Gretel. E acharam no meio do campo Dora Ratjen (aqui baptizada Marie Ketteler e encarnada por Sebastian Urzendowsky), um homem com uma deficiência nos órgãos genitais, que acabou por competir pela Alemanha durante anos como mulher. Até que um dia, depois de bater o recorde mundial, foi apanhada (apanhado?) no comboio bêbado (bêbada?) e com a barba por fazer. Estava desfeito o segredo. O que é estranho, porque Dora Ratjen tinha mais músuculos que eu, pêlo no peito e maçã de adão. Berlin 36 é a história romanceada desse episódio pré-Jogos Olímpicos, especialmente da relação que acabou por florescer entre Gretel e Dora no estágio antes da competição. Por isso, apesar de se poder comparar a Munique, Berlim 36 tem uma dimensão mais pessoal, enquanto que o filme de Spielberg é mais ambicioso e colectivo. Berlim 36 é um drama sobre as relações humanas, mas para filmes deste género são necessárias personagens. E aqui elas têm dificuldade em existir. Dora Ratjen (ou Marie Ketteler, como é baptizada no filme) praticamente não existe. E ainda bem, porque o jovem que lhe dá corpo confunde representar com olhar para o chão com um olhar esgazeado. Quanto a Gretel acaba por ter que se esforçar para que tenhamos pena dela, uma vez que os acontecimentos acabam por não ter espessura suficiente para sentirmos as pressões que levou sobre os ombros: a do regime nazi, que tentou tudo por tudo para que desistisse da competição; a da sua família, que podia sofrer com o desfecho daquela situação; e a dos opositores ao reich, que viam na sua possível vitória a oportunidade perfeita para derrubarem a teoria da supremacia racial ariana. No final, Gretel Bergmann foi excluída dos Jogos Olímpicos pelo ministro do desporto alemão (alegando uma falsa lesão) e Dora Ratjen não chegou sequer ao pódio, ficando na quarta posição e, alegadamente, perdendo de propósito. O que esperamos que seja verdade para o orgulho da reputação masculina; um homem perder no salto em altura para três mulheres é uma humilhação. Por isso, se perdem todos, Berlim 36 é quase uma não-história. É um drama muito certinho, mas que não consegue o tão almejado tearjerker, ficando-se pelo McBacon. ![]()
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12:23 PM Quarta-feira, Junho 02, 2010 AS ERVAS DANINHAS: Título: Les Herbes Folles Realizador: Alain Resnais Ano: 2009 ![]() Apesar de já ter 80 anos, Alain Resnais continua a filmar como quando tinha 20 anos. Ao contrário de outros contemporâneos seus, autênticas múmias da nouvelle vague (alguém mencionou Philippe Garrel?), o cinema de Resnais continua a demonstrar um vigor digno de nota. Só é pena que os seus filmes venham a definhar desde Hiroshima Meu Amor. Mais do que um filme de autor, As Ervas Daninhas é um filme artístico. Esteticamente, é um regalo aos olhos. Resnais dá-lhe um tratamento estético quase plástico, com uma paleta de cores vibrantes que saltam fora da tela, com a amplitude de um glorioso technicolor. Outras vezes, o cabelo ruivo da protagonista, a sua habitué Sabine Azéma, enche o ecrã de um vermelho fogo, que parece que estamos a ver constantemente o Vermelho, de Kieślowski. Depois, o ancião realizador francês continua a abordar cada plano coo se fosse o último da sua vida (talvez porque, com aquela idade, pode mesmo vir a ser). Cada vez que a câmara começa a gravar há algo de novo para ela fazer, sejam movimentos menos convencionais, sejam enquadramentos mais arriscados. Entremeado com isto há uma panóplia de truques (visuais, mas também argumentativos) que têm de pretensioso como de absurdo. As Ervas Daninhas é todo ele forma e pouco conteúdo. A trama té é interessante - um homem, com um passado duvidoso, cria uma obsessão doentia pela dona de uma carteira que encontra na rua e vice-versa -, mas acaba engolida em tanto simbolismo e non-sense. O filme faz tão pouco sentido que chegamos a pensar se não estamos a ver um filme do David Lynch. É certo que não há anões a andar para trás, mas As Ervas Daninhas tem momentos tão aleatórios e ridículos que ficamos com um nó no cérebro, a pensar que o problema de não estarmos a perceber nada só pode ser nosso. Mas não é, é mesmo muita diarreia mental. A gota que faz transbordar o copo é a última cena - saída do nada, uma criança pergunta à mãe: "Quando for gato posso comer croquetes?" Felizmente o filme termina logo de seguida, porque não é fácil continuar na sala após uma coisa destas. Se fosse mais jovem, diria que Resnais andava metido nos ácidos. Assim, é claramente um caso de demência causado pela velhice. Toma lá um Happy Meal porque não se deve contrariar os maluquinhos. ![]() O VINGADOR TÓXICO: Título: The Toxic Avenger Realizador: Michael Herz & Lloyd Kaufman Ano: 1984 ![]() Depois de ver A Última Famel sentia-me tão sujo que tive que ir ver lixo a sério. E quando se fala de cinema trash fala-se, invariavelmente, da mítica Troma Entertainment. A produtora de Lloyd Kaufman é a mais demente e gratuita fazedora de filmes maus, uma verdadeira fábrica de filmes de culto e berço de clássicos como O Preservativo Assassino ou Surf Nazis Must Die. Mas é O Vingador Tóxico o seu ex-libris, o O Mundo A Seus Pés do cinema trash e o verdadeiro impulsionador das más sequelas. Apesar de ter sido pensado para ser uma paródia aos filmes de ginásio, depois de Lloyd Kaufman (mentor da Troma, mas também desta alarvidade) ter visto Rocky, O Vingador Tóxico transformou-se num filme de monstros. Ou melhor, num teen movie que se transforma em filme de monstros. Só que com a variação de que o monstro é que é o bom da fita. O monstro herói! Este monstro herói é Melvin (Mark Torgl), o miúdo que cuida da faxina no ginásio de Tromaville, capital nacional dos despejos tóxicos. Melvin é o típico nerd trapalhão, dentuça e tímido com quem toda agente judeia. Até que um dia, após uma mega-humilhação pública, Mevin cai num barril de lixo tóxico e transforma-se num vingador fedorento e disforme, mas com uma voz suave(!). É tempo de vingança e de limpar aquela Sodoma de toda a violência gratuita, corrupção e luxúria. Se virmos bem, O Vingador Tóxico é o típico flick juvenil que os anos 80 trataram tão bem: o do triunfo do inadaptado. E depois cristaliza uma série de outras coisas típicas dessa década xunga. E já nem estou a falar dos penteados armados com laca e os casacos com enchumaços; falo antes do hair-rock e cheio de shredding nas guitarras, os liceus cheios de tipos basofes e as montages musicais. Aliás, há uma montage romântica que rivaliza de perto com a de Team America - Polícia Mundial por um lugar na história da sétima arte. Claro que tudo isto é secundário e tirado a ferros pela minha capacidade sobrehumana de dissecação fílmica, porque a maioria de O Vingador Tóxico é sensacionalismo gratuito de todos os tipos de filmes exploitation. Cena sim cena não é metida a martelo um pretexto para mostrar umas tipas voluptuosas com muita pele à vista; as cenas terminam, invariavelmente, em sequências de gore impensável, com efeitos especiais caseiros e muito xarope de amora; e os diálogos, que preenchem os espaços em branco, são brega e tongue in cheek. Tudo isto é embrulhado em más representações (o overacing de Jim Carrey em comparação com isto parece o método Stanislavski), má edição, maus decors e mau gosto - crianças com cabeças esmagadas (esta mítica cena, que o youtube disponibiliza em baixo, tornou-se no cartão de visita do filme), bebés ameaçados com caçadeiras de canos cerrados e velhinhas espancadas até à morte. O Vingador Tóxico é revoltante, nojento e ordinário! E nós adoramos! Mas também confesso que adoro só até ao Cheeseburger.
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