Título: A Última Famel Realizador: Jorge Montereal Ano: 2010
Apesar de ser praticamente inexistente, a indústria cinematográfica portuguesa inclui alguns casos de produções independentes. Claro que a quantidade desses casos se contam pelos dedos de uma mão. É natural que seja proporcional à dimensão do nosso cinema, não é? Como essa é uma história curta, vou aproveitar para a contar aqui neste parágrafo. Começou com O Ninja Das Caldas, filme de artes-marciais amador que ganhou inesperado sucesso na SIC Radical; a reboque deste veio Balas & Bolinhos que, de inesperado, apenas teve a sequela; depois houve o hype Sorte Nula, com Fernando Fragata a provar que se podia fazer cinema sem o apoio do ICA; e, por fim, 100 Volta, o Velozes E Furiosos português, que até teve distribuição comercial.
O mais recente capítulo desta verdadeira epopeia chama-se A Última Famel, filme semi-amador de Jorge Montereal, um tipo que, aparentemente, esteve na Quinta Das Celebridades, mas de quem eu nunca tinha ouvido falar. Este socialite juntou os seus amigos mais ou menos famosos (e o seu dinheiro) e filmou este filme que acabou por ter transmissão na Benfica TV. Porquê? Ninguém sabe, mas as cunhas são sempre coisas simpáticas. Como seria de esperar, A Última Famel é mau como as cobras (raios, lá estou eu a antecipar-me e a revelar já o fim desta prosa), mas e depois? Produções independentes como esta não trazem mal nenhum ao mundo e só as vê quem quer. Além disso, prova que qualquer um pode ser realizador, basta meia-dúzia de amigos com boa vontade e uma câmara. Por isso, estranho quando vejo pessoas que estudaram cinema e que agora, resignados, cortam fiambre no Jumbo (e eu conheço alguns), queixando-se de que ninguém lhes dá dinheiro para fazerem filmes e criticando de alto a baixo quem os faz.
Agora que já desabafei, vamos ao filme. Como o título indica, A Última Famel é uma pequena elegia (em formato anedota) à famosa motorizada de 7.1 cavalos e refrigerada a água (também a ar), que durante anos foi fabricada em Portugal e que cada velho tinha uma. Ao mesmo tempo, poderia também ser uma elegia a Águeda, a cidade onde estava sedeada a fábrica, mas Jorge Montereal não aproveita a homenagem, limitando-se a meia-dúzia de postais ilustrados e uma tímida feferência ao glorioso Recreio de Águeda. Tudo o resto apenas serve de mau exemplo.
A história de A Última Famel (claro que chamar-lhe história é simpatia) passa por José Carlos Pereira a encontrar o último exemplar da mota Famel. Depois de um leilão efectuado num armazém com a mobília empilhada num canto e uma cartolina escrita à mão a dizer "Hoje há leilão", a mota vai parar à posse de Pedro Anjo, um aguedense que acaba por ser amigo de José Carlos Pereira, uma vez que não há secundários suficientes para que os actores não tenham de fazer vários papéis. Depois há o pessoal do motoclube local que vai tentar roubar a mota e mais uma série de coisas que a minha memória selectiva já fez o favor de apagar.
A Última Famel é uma amálgama de perseguições de mota em fast forward, que faz lembrar Os Deuses Devem Estar Loucos, piadas dos Malucos Do Riso, mas em pior, actores amadores que parecem recrutados de um mau filme porno, muitos zoom outs de tão mau gosto que nunca foram vistos na história do cinema e inúmeros planos tremidos porque não devia haver tripé sequer. O humor de Jorge Montereal resume-se a abusar do sotaque nortenho, algo que perdeu a piada na primeira anedota que o Fernando Rocha contou na sua vida. E, tal como em Balas & Bolinhos, o resultado de tanta morquice é uma valente dor de cabeça ao fim de poucos minutos.
O filme tem ainda o condão de arruinar em poucos minutos a credibilidade de Ana Brito e Cunha e tem um cameo irreal de Dani, que hipoteca uma possível carreira no cinema com a mesma velocidade que hipotecou a sua carreira no futebol, rematando a sua brilhante prestação com a famosa piada do "queres quê'te'chupe?", enquanto passa uma embalagem de ketchup à modelo Raquel Loureiro. Por isso, depois de tudo isto, ao ler esta notícia, não consigo deixar de ficar assustado. O que é estranho, porque com esta idade já não me devia assustar com isto. Realmente, ter dinheiro e os amigos certos continua a ser tão bom.
A melhor coisa de A Última Famel é quando ele acaba. E o genérico inicial que, não sei se é coincidência ou não, mas foi feito por outra pessoa. Depois de perder uma hora da minha preciosa vida, prefiro ficar sozinho com o meu Pão Com Manteiga, em posição fetal, enquanto choro muito a pensar no estado actual do nosso cinema.
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4:58 PM |
Segunda-feira, Maio 24, 2010
UM LUGAR PARA VIVER:
Título: Away We Go Realizador: Sam Mendes Ano: 2009
Quando Burt e Verona descobrem que vão ter um bebé, entram em pânico. Eles odeiam a pequena cidade onde vivem, e agora os pais de Burt estão de partida para Bruxelas, deixando-os sem qualquer tipo de apoio. Então decidem fazer-se à estrada em busca de um lugar para viver, criar raízes e fazer uma família. Pelo caminho eles visitam uma data de velhos amigos ou familiares, porém ou se deparam com famílias excêntricas, ou casais histéricos, ou então com gente extremamente inspiradora, transformando esta viagem numa experiencia de partir o coração, cheia de graça e que ao mesmo tempo os encaminha para o mais inesperado lugar para viver e perceberem que afinal só precisam um do outro para construir algo muito valioso.
Esta é a sinopse oficial de Um Lugar Para Viver. Confesso que a li várias vezes, mas de todas as vezes que tentei isto foi apenas o que consegui ler: road movie, road movie, road movie, road movie... De facto, Um Lugar Para Viver é tudo aquilo que um road movie pressupõe: duas pessoas em viagem (neste caso, o casal composto por John Krasinski e Maya Rudolph), literal e psicologicamente.
Ainda ontem estava a ler uma crónica do António Pedro Vasconcelos no Sol, em que ele dizia que o cinema americano era o único que continuava a ser um campo de experimentação, inovação e originalidade, ocupando o lugar que pertenceu ao cinema europeu durante muito tempo. Eu torci o nariz, mas depois ri muito quando li um dos exemplos que ele dava: Sam Mendes. Curiosamente, este novo trabalho do autor do genial Beleza Americana acaba por ser o seu filme mais europeu de todos.
Um Lugar Para Viver é Sam Mendes a tornar-se indie, num pequeno filme intropesctivo, com aquelas vibrações muito próprias do actual cinema independente norte-americano que já se tornou numa escola (olá Garden State). Um Lugar Para Viver é um road movie à Jim Jarmusch, daqueles aparentemente sobre nada que, por acaso, também é o realizador americano mais europeu de todos. Um casal de jovens adultos, viajam pelas estradas intermináveis do continente americano, mas a verdadeira viagem processa-se no seu interior, em que o alcatrão funciona mais uma vez como símbolo de um ritual de passagem.
Um Lugar Para Viver é um espelho das novas gerações: nós, jovens da década de 80, cada vez saímos de casa dos pais mais tarde, cada vez nos entregarmos à parentalidade mais tarde, cada vez nos tornamos verdadeiramente independentes mais tarde. E isso é confuso e precisamos de catarses filmícas como esta para sentirmos que há mais gente na mesma situação que nós e que nos compreendem. E que, por isso, não somos freaks esquisitos. É isso que o cinema indie é: pôs or freaks a mostrar que são iguais aos normais.
Um Lugar Para Viver é uma comédia light, onde as emoções se sobrepõem ao próprio filme com uma grande subtileza, uma banda-sonora acertada (folk, americana e pop choninhas em doses certas) e um ritmo discreto. John Krasinski, por exemplo, é um Woody Allen invertido: um neurótico geek introvertido, contido e optimista. E Um Lugar Para Viver transforma-se aos poucos num McBacon que vamos trincando em dentadas cada vez maiores.
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12:20 PM |
SOUL KITCHEN:
Título: Soul Kitchen Realizador: Fatih Akin Ano: 2009
Desde que apareceu com Head On - A Esposa Turca que Fatih Akin fez logo a crítica levantar-se e apontá-lo como o futuro do cinema alemão. Só com um filme, Fatih Akin remeteu Tom Tykwer ao desprezo da crítica internacional, em detrimento dos seus dramas e romances naturalistas, impregnados com as tensões turco-germânicas que denunciavam as suas origens.
No entanto, Fatih Akin é humano e, como tal, falível. E como acontece com a maioria dos realizadores (uns mais cedo, outros mais tarde), Akin também quis experimentar outros géneros. E, como acontece na maior parte dessas vezes, essa não costuma ser uma experiência que corra particularmente bem. Soul Kitchen é, portanto, uma comédia mundana, com as marcas do cinema do germânico, mas que tanto presta tributo aos quotidianos circenses de Woody Allen (e Fellini), como às comédias mudas de Chaplin e Keaton.
No cerne da questão está, como de costume, um romance: Zinos (Adam Bousdoukos) está dividido entre abandonar a sua profissão e a sua Hamburgo natal e mudar-se para perto da sua namorada, na China, ou ficar na Alemanha e arriscar perder o seu amor. Longe da vista, longe do coração, já diz o adágio. No entanto, a personagem central do filme é mesmo o seu restaurante, o Soul Kitchen (o título já o dizia, mas de início recusamo-nos a acreditar). O restaurante é a âncora da trama, à volta do qual gravitam as personagens secundárias (o irmão fura-vidas, a empregada rebelde, o chef lunático...), e é o espelho da vida de Zinos: quando o negócio está em altas, a sua vida corre bem; quando está quase na falência, tudo lhe corre mal.
O problema de Soul Kitchen está precisamente aí, nas mudanças de ritmo pouco credíveis. A coisa lembra-me o Tentação, quando Joaquim de Almeida parecia meter-se e sair da droga consoante a fase da lua que apanhava naquele dia. Aqui, o Soul Kitchen tanto está às moscas, prestes a encerrar portas para sempre, como na noite seguinte já é o spot da cidade onde todos querem ir, apenas porque tem uns cdjs novos.
E depois há uns momentos metidos a martelo, como uma festa que acaba em orgia, com uma funcionária camarária a ser comida à bruta por trás no meio de todos. De tão aleatória que é, parece ser apenas uma forma gratuita de enfiar uma cena de sexo (e um par de mamas) no filme. Não é que haja algum mal nisto, claro. Em contrapartida, o melhor de Soul Kitchen é a sua banda-sonora. Akin já havia provado que era um tipo do rock, ao encher Head On - A Esposa Turca de posters da Siouxsie and the Banshees. E, apesar de não ter acanção homónima dos Doors, Soul Kitchen tem uma excelente jukebox soul, que lhe dá um ar de dinner americano.
Mesmo Head On - A Esposa Turca não me tinha convencido muito de Fatih Akin enquanto futuro do cinema alemão. E este Cheeseburger num filme tão ligeiro só me ajuda a consolidar a opinião.
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11:27 AM |
Quinta-feira, Maio 20, 2010
ROYALE WITH CHEESE:
Este blogue faz parabéns! Seis aninhos de vida. E quando? O mês passado. Parece mentira, mas é verdade. Pelo terceiro ano consecutivo esqueci-me do aniversário deste eu imodesto tasco cinematográfico, que celebra parabéns todos os dias 2 de Abril. Mas desta vez bati o recorde: mais de um mês de atraso!
Pode parecer um sinal de que o blogue anda um pouco a definhar, com poucas actualizações. Certo? Errado! Tem tudo a ver com a minha situação pessoal e profissional. Em breve tudo regressa à normalidade. E com muitas novidades. Por isso, nos aguardem, sim?
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12:11 PM |
Quarta-feira, Maio 12, 2010
EU AMO-TE PHILLIP MORRIS:
Epifania - súbita sensação de realização ou compreensão da essência ou do significado de algo. O termo é usado nos sentidos filosófico e literal para indicar que alguém "encontrou finalmente a última peça do quebra-cabeças e agora consegue ver a imagem completa" do problema. Existem pessoas que passam a vida inteira a procurar epifanias e não conseguem. Depois, há meia-dúzia de escolhidos que conseguem ter essa sorte e as suas vidas ganham sentido e orientação. E depois há Steven Russell (caso real impressionante, daqueles stranger than fiction, aqui interpretado por Jim Carrey) que teve três(!) epifanias na sua vida.
Eu Amo-te Phillip Morris é o biopic deste homem, Steven Russell, um dos mais famosos burlões e evadidos dos Estados Unidos da América. Russell teve a primeira epifania quando ainda era criança e descobriu que era adoptado: ai, deicidiu ser a pessoa mais boa do mundo. Depois, na adolesência, encontrou a sua mãe biológica e ela voltou a renega-lo. Aí, deixou de acreditar em Deus e passou a dedicar-se mais a si próprio. Até que, certo dia, teve um acidente de viação e, ao ver a luz ao fundo do túnel, voltou a fazer outra resolução: sair do armário e assumir a sua homossexualidade sem rodeios.
No entanto, há algo que descobriu pela pior maneira: ser uma bicha espampanante custa muito dinheiro. E para manter aquele nível de vida, Steven Russell tornou-se num burlão de sucesso. Entra para cargos em empresas de sucesso para os quais não tem habilitações, engana as altas instituições e lesa toda a gente que consegue lesar. Depois, quando é descoberto e apanhado, magica formas mirabolantes de escapar da prisão.
Por tudo isto, Eu Amo-te Phillip Morris é um primo de Apanha-me Se Puderes, com uns pozinhos de filme de prisão, mas em versão gay. Mas, apesar da realidade temporal e espacial ser praticamente a mesma, Eu Amo-te Phillip Morris não se parece nada com os filmes de espiões à cinema clássico ou com os filmes de reclusos; é antes uma comédia flamboyant, com um humor disfuncional e um toque indie.
Tal como O Anti-Pai Natal, filme subvalorizado escrito por esta dupla de realizadores, Ficarra e Requa, Eu Amo-te Phillip Morris é uma inusitada mistura de estilos, que parece uma coisa e é outra. Por exemplo, se olharmos para o cartaz e vermos casal gay photoshopado que parece a Ruth Marlene na Playboy, imaginamos uma comédia alarve com o overacting de Jim Carrey. Nada mais errado, é antes uma comédia subtil e inteligente. E se o tratamento dado parece o da comédia romântica tradicional (se bem que homossexual), a verdade é que Eu Amo-te Phillip Morris é mais um melodrama movido a Xanax do que outra coisa.
Mas, como o título indica, Eu Amo-te Phillip Morris é, na sua essÊncia, uma história de amor: a história de amor entre Steven Russell e Phillip Morris (Ewan McGregor tão frágil como nunca se viu), um loiro de olhos azuis que conhece na prisão e pelo qual se apaixona perdidamente. E a quem está disposto a correr todos os riscos para lhe dar uma vida na alta roda da vida.
Eu Amo-te Phillip Morris é uma comédia com um toque especial, um Jim Carrey num registo pouco habitual (mas se pensarmos bem, aquele seu overacting mistura-se muito bem com aquelas bichas histéricas irritantes) e uma história bastante enjoyable. Por isso, Eu Amo-te Phillip Morris é, sobretudo, uma surpresa inesperada e um McBacon confortável.