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TOP 5:
Por causa de uma obrigação profissional, tive que andar a fazer uma compilação de cenas de dança famosas do cinema. Claro que, após tanta gente a dançar, a ideia ficou aqui a palpitar até ter tempo suficiente para a concretizar. Falo, obviamente, de mais uma famosa lista do Royale With Cheese: eis o TOP 5 DAS MELHORES CENAS DE DANÇA DO CINEMA: Namorada Aluga-se, de Steve Rash (1987) É um dos mais iconográficos filmes dos anos 80, um daqueles flicks adolescentes que proliferaram na década das más permanentes e dos casacos com enchumaços. Actualmente, é relembrado como um kitsch filme de culto ou, simplesmente, como o filme de Patrick Dempsey quando era jovem e ainda não tinha o sucesso de Anatomia De Grey. A cena em causa - e que, por sinal, é a mais memorável do filme - é uma dançaria bastante particular: Patrick Dempsey vai ao baile de finalistas com a rapariga mais popular do liceu e, por isso, precisa desesperadamente de aprender a dançar. Para isso, aproveita a televisão e programa matinal de aeróbica. Só que engana-se e o que vê é a dança do papa-formigas africano. Tudo muito idiota, mas como Dempsey está com a rapariga mais popular do liceu, ele é por osmose o rapaz mais popular do liceu. E, por consequência, a dança do papa-formigas africano torna-se num fenómeno de popularidade. Coração De Cavaleiro, de Brian Helgeland (2001) A ideia é genial: fazer um filme medieval anacrónico, com música rock. Sofia Coppola fê-lo há pouco tempo e até não correu mal. No entanto, Coração De Cavaleiro é um desastre, principalmente porque o argumento não é mais do que um filme romântico de adolescentes no tempo dos cavaleiros. No entanto, esta cena prova como o filme poderia ser muito giro: durante um baile no castelo para a corte do reino, a musiquinha pastoral descamba no Golden Years, do David Bowie (excelente mashup, há que referir), com coreografia a preceito. 3º Lugar Para Onde O Vento Sopra, de Tom Barman (2003) Para Onde O Vento Sopra corria o risco de ser apenas conhecido por ser o filme realizado por Tom Barman, o tipo dos dEUS, mas, inesperadamente, é um dos filmes indoe com mais pinta desta década que terminou. Para além de ser um filme bastante arty, Para Onde O Vento Sopra não podia deixar de ser bastante musical. E, para além da banda-sonora muito catita, tem um final castiço com as personagens todas do filme a dançarem uma coreografia à pinguim numa festa num apartamento. 2º Lugar A Filha Do Comandante, de George Sidney (1943) Falar de cenas de dança no cinema é o mesmo que falar de Gene Kelly e Serenata À Chuva. No entanto, só para ser diferente, o filme que vou apontar é A Filha Do Comandante, nomeadamente o excelente sapateado a solo com uma esfregona. Claro que também podia ter apontado a famosa cena em que Gene Kelly dança com o Jerry (do Tom e Jerry), em Paixão De Marinheiro, e recentemente parodiada no Family Guy. 1º Lugar Pulp Fiction, de Quentin Tarantino (1994) ex-aquo Bande À Part, de Jean-Luc Godard (1964) Eu sei que era demasiado óbvio num blogue chamado Royale With Cheese considerar a melhor cena de dança a de Uma Thurman e John Travolta no Pulp Fiction. No entanto, o que é bom é para ser dito e não há volta a dar. No Jack Rabbit's Slim Contest é tudo perfeito: os actores, a coreografia, a edição, o trabalho de câmara do Tarantino, a música do Chuck Berry e, claro, o próprio filme. No entanto, seria injusto falar do Pulp Fiction e não referir o Bande À Parte. Aparentemente os dois filmes não têm nada a ver (excepto o nome da produtora do Tarantino), mas se os virmos de seguida ficamos parvos com tantas influências e referências. E não falo apenas de uma cena de dança. Menção Honrosa Stormy Weather, de Andrew L. Stone (1943) Numa lista como esta, há dezenas de cenas que, lamentavelmente, tiveram que ficar de fora, de Footlose - A Música Está DO Teu Lado a Flashdance, passando por Brilhantina. O máximo que posso fazer para minimizar isso é atribuir uma menção honrosa. E esta vai directinha para Stormy Weather, por duas razões: a primeira porque inclui um sapateado de os reis do sapateado, os Nicholas Brothers (vejam-nos aqui com o Michael Jackson); e segundo porque me permite mencionar Fred Astaire, outro nome obrigatório a aparecer numa lista destas. Foi ele que descreveu esta cena como o melhor número musical alguma vez filmado. Quinta-feira, Fevereiro 18, 2010 O LAÇO BRANCO: Título: Das Weisse Band - Eine Deutsche Kindergeschichte Realizador: Michael Haneke Ano: 2009 ![]() Já vos falei do A Cinemateca Deu Cabo De Mim, o meu novo blogue de cinema favorito? Ainda não, respondem vocês, perguntando logo de seguido mas que raio é que isso interessa agora? Interessa porque eu quero usar como introdução desta prosa sobre O Laço Branco o texto que o(?) Salustio escreveu para o filme. E, se me acusarem de estar a copiar de outros blogues, eu já posso defender-me e dizer que foi uma referência ou uma homenagem. Aqui vai então. Depois de hilariantes comédias românticas como Jogos Perigosos e A Pianista, o jovial Michael Haneke presenteia-nos com mais um filme bem-disposto muito ao seu estilo, capaz de agradar a jovens dos 9 aos 99. Verdade verdadinha. Mas a 180 graus. Para quem conhece a obra do realizador alemão, nome muito estimado por este imodesto tasco cinematográfico, este O Laço Branco não constitui surpresa, uma vez que não destoa da sua linha de trabalho: filmes crus e viscerais, que revolvem as entranhas do ser humano de forma hiper-realista e sem ser gráfico. Ao contrário de Von Trier, Haneke não precisa de mostrar clitóris dilacerados para provocar o mesmo efeito poderoso. E sempre sem usar banda-sonora, uma das suas imagens de marca e algo que me continua a deixar fascinado por não entender como isso é possível. O Laço Branco é o relato das peripécias recambolescas de uma aldeola alemã em vésperas da primeira guerra mundial. Naquele microcosmos meio feudal concentram-se todas as tensões sociais que se acumulavam na Europa naquela altura, qual barril de pólvora prestes a explodir, e que foram despoletadas pelo assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando. Além disso, com uma segunda visualização ou um pouco mais de imaginação e consegue-se vislumbrar uma espécie de crítica social-barra-limpeza de fantasmas do armário ao passado alemão e ao seu nacional-socialismo. Mas falemos objectivamente de O Laço Branco. Em tom coloquial e aproveitando-se do professor da aldeia (Christian Friedel) para narrador, Haneke relata o quotidiano daquela aldeia desde o início de uns acontecimentos estranhos até ao descambar de toda a ordem na comunidade. Aparentemente, a paz daquela aldeia parece ter sido quebrada quando o médico é alvo de uma armadilha, o filho do barão é torturado ou o deficiente da aldeia é espancado. No entanto, há medida que o narrador vai relatando as simples vidas pasmaceiras do barão e da baronesa, do feitor, da parteira ou, simplesmente, de algum agricultor, nós percebemos que as coisas já estavam podres há muito tempo: violações, incesto, inveja, traições... Tudo pratos do dia-a-dia, servidos às escondidas e com a maior naturalidade do mundo. O Laço Branco disfarça-se então de um Buñuel e das suas crónicas de costumes, mas filmado à maneira gélida e racional de Ingmar Bergman (influência também descarada) e como o cinema de antigamente de Jiri Menzel. Com uma fotografia irrepreensível a preto e branco (que serve também para acentuar essa dictomia do Bem e do Mal), Haneke limita-se a mostrar o que se passa, sem encenar nada (mais uma vez, nem sequer há banda-sonora). O realizador alemão é a prova viva de que o cinema é, no limite, contar uma história. E que isso é possível (e com toda a força) da forma mais despegada possível. Sóbrio e contido, mas extremamente poderoso, O Laço Branco tem uma vitalidade surpreendente para um registo quase teatral. È a diferença entre os bons e os maus realizadores: Haneke fez um cinema de antigamente que continua a fazer sentido nos dias de hoje e a saber a um McRoyal Deluxe. ![]()
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12:34 AM Terça-feira, Fevereiro 16, 2010 OS RAPAZES NÃO CHORAM: Título: Boys Don't Cry Realizador: Kimberly Peirce Ano: 1999 ![]() Hilary Swank qualquer dia recebe o prémio de actriz com a carreira mais esquisita de sempre. Ora vejamos: começou por ser conhecida como a nova Karate Kid de mr. Miyagi, quando era apenas uma gaiata imberbe (o que me faz lembrar que vem aí um remake de O Momento Da Verdade); depois deu-se a conhecer, já adolescente feita, no indie Os Rapazes Não Choram, sendo inundada de elogios (e de um Oscar) pelo seu papel a fazer de rapaz; e, por fim, repetiu o prémio da Academia anos mais tarde pela boxeur paraplégica de Clint Eastwood, em Million Dollar Baby - Sonhos Vencidos. E pelo meio disto o que houve? Aboslutamente nada! Os Rapazes Não Choram é um filme independente de 1999 sobre a história verídica de Teena Brandon (Hilary Swank), uma norte-americana com um problema de identidade sexual. Teena era um rapaz num corpo de rapariga e, como não tinha dinheiro para a operação de mudança de sexo, decidiu simplesmente assumir a sua masculinidade e esconder a sua feminilidade. Teena apaixonou-se então por uma miúda (Chloë Sevigny) e acabou violada e morta pelos amigos desta. Tudo porque decidiu fazer todas essas coisas no sítio mais intolerante da sociedade ocidental: o sul dos Estados Unidos, cheio de rednecks e white trash, que pensam com as pilas. E, mesmo assim, só às vezes. É uma história trágica, próxima até das tragédias gregas e, por isso, adivinhava-se um dramalhão de faca e alguidar. E é, só que segundo os moldes do típico cinema independente americano dos anos 90, um género fora de qualquer catalogação, apenas fiél à visão do seu realizador. E Kimberly Peirce, realizadora que nunca mais fez nada, apesar de o montar como uma sequência relâmpago de episódios de melodrama barato (leia-se telenovela), acaba por o tornar num objecto especial, ao dar-lhe uma atmosfera algo alienada. Esta aura começa por ser transmitida pelo próprio universo de toda esta história: um lugarejo perdido nos Estados Unidos sulista, um daqueles locais por onde o tempo não passa e limita-se apenas a consumi-lo lentamente, rodeado por um deserto gigantesco, um estigma industrial, música country com slide guitar e muder ballads e muita mescalina. Por isso, são comuns simbolismos habituais nestas temáticas, como as estradas (o alcatrão sempre como um espelho de fuga), os néons ou o próprio deserto. Tudo isto é o veículo ideal para a exploração dos sentimentos das personagens principais, especialmente a de Hilary Swank. Teena Brandon era uma tipa revoltada e mentirosa compulsiva que acabava por se ver envolvida em sarilhos constantemente. Essa falta de paz interior não era um sentimento de rebeldia sem causa, como a juventude que se insurgia conta a sociedade condescendente (olá James Dean, olá Rebelde Sem Causa, olá toda uma época do cinema juvenil clássico), mas antes um reflexo de um rapaz preso num corpo que não era o seu. Por isso, Os Rapazes Não Choram é um filme com uma segunda camada mais metafísica. Os Rapazes Não Choram não deixa de ter, portanto, alguns ecos desse cinema sobre a juventude, do qual Os Marginais foi o último grande exemplo. Aliás, o paralelo com o filme de Coppola é evidente, uma vez que aqui os protagonistas também são todos adolescentes desconhecidos que se vieram a tornar actores de créditos (mais ou menos) firmados: Hilary Swank, claro, mas também Chloë Sevigny (a melhor actriz de sempre a fazer de Courtney Lov..ups, de puta drogada, queria eu dizer) e, principalmente, Peter Sarsgaard. E Hilary Swank? Está assim tão bem a fazer de rapaz? Confirmo! Se bem que não deixa de ser assustador as suas semelhanças com John Francis Daley. Claro que não posso terminar esta prosa sem analisar o facto de este ser um filme em que duas raparigas se comem à bruta várias vezes. Ora bem, é certo que Chloë Sevigny a fingir orgasmos é brilhante (acho que o namorado dela devia começar a ficar preocupado), mas uma gaja com ares drogada com uma gaja que parece um gajo esquisito não é propriamente uma boa cena erótica. Ok, tudo isto junto vale um McBacon. ![]()
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11:33 PM Segunda-feira, Fevereiro 15, 2010 ACTIVIDADE PARANORMAL: Título: Paranormal Activity Realizador: Oren Peli Ano: 2007 ![]() O Projecto Blair Witch foi uma ideia de um milhão de dólares. Um par de amigos juntaram-se e, sem dinheiro, fazem um mockumentário com eles próprios que rende balúrdios, faznedo-se passar por aontecimentos reais. O plano foi genial e para o filme que era, O Projecto Blair Witch também não o era menos. Só é estranho o tempo que demorou até alguém voltar a pegar na ideia, num mundo em que a espertice é cada vez mais frequente. Assim, oito anos depois, eis o primeiro rip-off de O Projecto Blair Witch - Actividade Paranormal. Aqui o investimento ainda foi mais reduzido. Apenas dois actores e um único decór, a casa de ambos. Só é pena ser pouco credível que uma estudante de línguas e um músico por conta própria consigam pagar um casarão nos subúrbios, com piscina, dois andares e uma dezena de assoalhadas. Mas ei, se a casa fosse um T0 o filme só teria dois planos. Continuando, Katie (Katie Featherston) e Micah (Micah Sloat) são dois namorados que têm uma assombração em casa. Por isso, decidem comprar uma câmara e filmar tudo o que se passa, incluindo quando estão a dormir. Ao optar por este esquema de filme, o realizador Oren Peli encontrou um campo de minas. No entanto, parecia ter tudo controlado, ao iniciar o filme sem sucumbir à tentação de explicar tudo muito bem explicadinho, comol um argumento normal com princípio, meio e fim. Vemos Micah a experimentar a câmara nos primeiros dias e só vamos percebendo o que está a acontecer ao longo das conversas entre ambos. No entanto, isso é sol de pouca dura, porque até ao final Actividade Paranormal vai entrar uma espiral vertiginosa pelo abismo dos clichés. Eles são planos tirados da câmara que fica, pertinentemente, ligada e ficada em locla estratégico; ele é muitos ruídos estranhos e sombras misteriosas; ele é muito medo sugestionável. O suspense é bom e em crescendo, mas temendo não ser suficiente, Oren Peli arrisca tudo com umas imagens na net de uma miúda possuída que nada tem a ver com o filme e parece ali metida a martelo. No final, apercebemo-nos que são duas horas da nossa vida que nunca mais vamos recuperar, mas a Paramount já anunciou toda contente uma sequela. Obrigado, investir dez mil euros num filme que rende cento e vinte mil na primeira semana, também eu queria. Aqui neste imodesto antro cinéfilo rendeu apenas um Double Cheeseburger, essa é que é essa. ![]() Terça-feira, Fevereiro 09, 2010 UM PROFETA: Título: Un Prophète Realizador: Jacques Audiard Ano: 2009 ![]() O trabalho anterior de Jacques Audiard, De Tanto Bater O Meu Coração Parou, era um filme girote com um título bastante interessante. Por sua vez, este novo Um Profeta é um filme bastante interessante com um título girote. Em comum, ambos são histórias sobre personagens que têm que se exceder a si próprios para contornar a capa exterior das suas personagens. O protagonista aqui é o desconhecido Tahar Rahim (um tour de force fantástico, num filme todo dele), que conhecemos no dia em que é condenado a seis anos de prisão. Nunca ficamos a saber a razão nem se foi uma condenação justa, mas desde logo percebemos que ele, de ascendência árabe, é um tipo quase analfabeto e sem grande sensibilidade para resolver problemas. No entanto, ser mal formado não é, necessariamente, sinal de burrice. E a esperteza é um instinto natural de sobrevivência. Um Profeta é um filme sobre esse instinto da sobrevivência do mais apto, num microcosmos muito particular: o das prisões. O filme de prisões é, aliás, um subgénero muito particular, sobre o qual não vou dizer muito porque há muito para dizer sobre ele e aqui não tenho espaço suficiente. Vou apenas apontar que é um estilo de histórias que está, normalmente, ligado a conceitos básicos de masculinidade, lealdade e honra. Aliás, tudo valores máximos ligados também à máfia. Filme de prisão e filme de máfia, tudo junto num só, enquanto observamos um épico de três horas sobre a ascensão do profeta Tahar Rahim de simples underdog até rei do crime daquela prisão francesa, dividida em grupos de várias raças e poderes, especialmente corsos e árabes. Um Profeta é uma mistura de O Padrinho com Prisioneiro, filmado com aquele novo realismo impressionista que começamos a encotnrar cada vez mais na nova vaga da nouvelle vague francesa (salvo a redundância). Câmara à mão e alguns toques arty pelo meio, é assim que Jacques Audiard filma Um Profeta durante duas horas e meia, tempo que ultrapassa por pouco o recomendável a este filme. E, apesar de a banda-sonora ser toda ela pianos pesados e sons diagéticos, há dois momentos musicais brutais: uma primeira sequência ao som de Nas, com o genial Bridging the Gap, que casa na perfeição a cultura urbana contemporânea com aquelas conotações habituais de marginalidade e rebeldia; e uma segunda ao som de Turner Cody, um Bob Dylan wannabe, que lhe dá um toque de existencialismo popular de algibeira que soa, inesperadamente, bem. Entretanto, Um Profeta está nomeado para o Oscar respeitante a melhor filme estrangeiro, mas quem merece todos os louros é o actor Tahar Rahim. Porque é ele que faz tudo por este McBacon. ![]() Segunda-feira, Fevereiro 08, 2010 ENTREVISTA A FERNANDO ALLE: Lembram-se quando o Royale With Cheese fazia entrevistas? Pois é, fiquei tão impressionado com a curta Papá Wrestling, que mostrei aqui no outro dia via youtube, que decidi entrevistar o realizador, Fernando Alle, e tentar descobrir quem é esse realizador que decide andar a dilacerar miudinhos num país de filmes sobre a relva a crescer. *Royale With Cheese - Primeiro de mais, a introdução: para quem não sabe, quem é o Fernando Alle? Fernando Alle - Eu tirei um curso profissional de vídeo na ETIC (Escola Técnica de Imagem e Comunicação), de 2004 a 2007, onde conheci o Pedro Florêncio e a Nuria Leon Bernardo e, mais tarde, o Luís Henriques. Juntos começámos a fazer vídeos amadores para o youtube, entre os quais Nazaré – A História de Um Assassino, uma mini-série realizada pelo Pedro e a Nuria e produzida pelo Luís, que retrata a vida de um suposto assassino, protagonizado por mim. No final de 2008 começámos a trabalhar no Papá Wrestling, o nosso projecto mais ambicioso e complicado até à data, que me levou a esta entrevista. RWC - Portugal é um país de cinema de autor, de filmes sobre a relva a crescer ou sobre a tinta das paredes a secar, de preferência a preto e branco e com diálogos teatrais. Que raio te passou pela cabeça para fazeres um filme gore? FA - O meu objectivo não foi fazer um filme gore, mas sim um filme que pudesse entreter e fazer rir. Mas existem mais pessoas para além de nós a querer fazer filmes deste género em Portugal. Na 3ª edição do Motelx, tive oportunidade de ver filmes como o FRUNC, de Paulo Prazeres, que é uma curta com um monstro – e diga-se, um bom monstro. O futuro do nosso cinema está nesse tipo de iniciativas. Convém referir também o Filipe Melo, uma grande referência para nós, que produziu o I’ll See You In My Dreams, co-realizou a mini-série Um Mundo Catita e vai agora lançar a banda-desenhada As Incríveis Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy, que sai dia 5 de Março. É um autor que aposta num género que respeito e do qual sou fã. E que época melhor senão esta, a época do digital, a época do youtube, para começar a pôr esse e outro tipo de géneros em prática? RWC - Papá Wrestling faz lembrar o Toxic Avenger. Posso chamar-te o Loyd Kaufman português? FA - Tanto o Lloyd Kaufman como o Peter Jackson são grandes referências para mim. Fico muito lisonjeado. No entanto, tenho muito que provar até chegar aos pés de qualquer um deles. RWC - O cinema em Portugal é subsidio-dependente e muitos autores queixam-se da falta de apoios. No entanto, Papá Wrestling e os teus projectos anteriores são produções independentes. Achas que Portugal precisa de uma Troma, por exemplo? FA - Acho que ainda não podemos sequer chamar os nossos filmes de produções independentes, visto que nem sequer pensamos concretamente nesses termos. A verdade é que, num futuro próximo, queremos seguir precisamente uma linha de produção como a da Troma. Queremos fazer filmes, curtas, séries, documentários com qualidade, versáteis e, sobretudo, inovadores dentro do nosso contexto nacional, tal como o Papá Wrestling o foi. Essencialmente coisas que o público goste de ver mas que, sobretudo, nos dêem gozo de fazer. Nessa perspectiva, Portugal precisa de muitas Tromas e não só, pois quanto mais quantidade maior qualidade e quantidade e qualidade é o que falta mesmo ao nosso cinema. RWC - Qual foi o último filme português que viste? FA - Amália. Não sei se conta por ter feito parte da equipa. Penso que é um filme que, apesar de ter falhas, é um passo em frente no cinema português a nível de ambição e execução. Gosto da iniciativa de se ter feito um biopic de grande escala em Portugal. Espero no futuro ver filmes sobre figuras como Aristides Sousa Mendes ou Humberto Delgado. Outro filme português que vi e me surpreendeu pela positiva foi O Mistério da Estrada de Sintra, de Jorge Paixão da Costa. Esse filme tem uma fotografia fantástica. RWC - Voltando a Papá Wrestling - O lutador de wrestling português Iceborg esteve para ser o protagonista do filme. Concordas comigo se disser que uma das lacunas do cinema nacional é faltar um biopic do Tarzan Taborda? FA - Apesar de ser um ícone português, penso que não seria tão interessante como um biopic sobre o Iceborg. Uso como exemplo do potencial cinematográfico do Iceborg a minha experiência pessoal e profissional com ele: O Papá Wrestling começou sob a alçada da ETIC, sob o programa "Labs", que visa a dar apoio financeiro e técnico a ex-alunos. Nós Começámos as rodagens do Papá Wrestling em Dezembro de 2008, com o Iceborg no papel principal, mas ele não compareceu no terceiro dia de filmagens, não atendendo sequer o telefone. O Luís e a Nuria foram a casa dele para perceber o que se passava, enquanto o resto da equipa e actores ficaram à espera que ele aparecesse. Após quatro horas a baterem-lhe à porta e terem as suas chamadas rejeitadas, a mãe do Iceborg, ao chegar a casa, convidou-os a entrar. Ao entrarem no seu quarto, ele encontrava-se bêbado, com a namorada na cama. Ao deparar-se com eles, disse que não punha os pés nas filmagens porque não lhe apetecia e não tinha assinado nenhum contrato e após o Luís e a Nuria lhe terem pedido que tivesse consideração pelas restantes pessoas que trabalharam no filme que estavam à sua espera, o monte de merda começou a gritar, dizendo-lhes para o deixarem em paz. Após essa situação na casa dele, eles telefonaram-me a contar que o Iceborgnão iria mais aparecer nas filmagens e que vinte pessoas estiveram à espera dele durante cinco horas para nada. Ao ficar a par da atitude pouco profissional do Iceborg, a ETIC recusou-se a continuar a apoiar o projecto, tendo nós ficado com apenas meio filme filmado e cerca de 600 euros investidos, que não foram reembolsados pela ETIC. Passados alguns meses, em vez de deixar o projecto morrer, resolvemos recomeçar do zero e conseguimos arranjar um novo actor para fazer o papel de Papá Wrestling, o Clemente Santos, que, ao contrário do Iceborg, demonstrou uma atitude impecável para connosco. Concluindo, se não fosse o Iceborg ter faltado às filmagens, provavelmente o filme nem tinha resultado tão bem, pois o Clemente Santos é sem dúvida o melhor Papá Wrestling possível. No entanto, se fosse a ti, não tirava o olho deste rapaz para uma possível biopic. RWC - És um maluquinho do wrestling ou só do gore? FA - Definitivamente, do cinema. RWC - O bullying é um dos temas abordados na curta. Era esta a intenção ou o mais importante é o arrancar miolos? FA - Abordar o bullying nunca foi a minha intenção. A minha intenção era simplesmente estourar miolos a crianças. RWC - Os efeitos-especiais de Papá Wrestling são particularmente bons, principalmente no dilacerar/estilhaçar de cabeças/membros. Como fizeram isso? FA - Quando escrevemos o filme, não fazíamos a mínima ideia como pôr em prática os golpes. Felizmente, a internet ensinou-nos a confeccionar mãos e cabeças de látex e barro e recheá-las de doce de amora e papel higiénico. O sangue, fizemos com groselha e tinta de guache vermelha. RWC - Vais explorar mais subgéneros do cinema de horror ou os teus projectos futuros apontam para outro lado? FA - Lista de ideias para projectos são coisas que não nos tem faltado. O problema agora é que não sabemos sequer por onde recomeçar assim que tivermos tempo. Por exemplo, há uns meses tivemos a ideia de desenvolver uma mini-festival de de filmes maus, isto é, de filmes mesmo maus, desprezíveis, tão abaixo de cão que acabam por se tornar maravilhosas comédias cinematográficas. A ideia seria mostrar às pessoas que, se pensam que o Plano 9 Do Vampiro Zombie é o pior filme de sempre, então estão completamente enganadas. Ainda assim, imagina o quão espectacular não seria termos uma retrospectiva do Ed Wood ou uma masterclass com o Tommy Wiseau ou Godfrey Ho, responsável pelo mítico Robo Vampire. Entre outras ideias, vamos continuar no campo das curtas-metragens, penso eu, pelo menos até a maioria de nós finalizar os respectivos cursos. Isto deve-se, claro, à falta de tempo para trabalharmos em conjunto fora dos períodos de férias. Num futuro mais longínquo já apostaríamos em longas, documentários ou mesmo séries de televisão. O meu próximo projecto irá certamente enveredar pelo gore, mas gostaria de vir a realizar filmes de outros géneros no futuro, tal como o Peter Jackson - a minha maior influência - que começou por fazer filmes gore e veio mais tarde a fazer o Amizade Sem Limites. RWC - Se o Tino Navarro te telefonasse amanhã e te dissesse que tinhas todo o dinheiro do mundo para fazer um filme, com qualquer actor nacional à tua escolha, que filme seria esse? FA -No meu caso, uma adaptação de Os Maias, com o Vítor Norte a fazer o papel de empregado numa festa. Mas a grande vantagem do nosso grupo é que tanto eu como a Nuria, o Pedro ou o Luís somos bastante concordantes em relação a uma série de coisas e bastante diferentes em relação a uma série de gostos pessoais e planos para projectos são coisa que não falta na nossa lista de ideias. Portanto, qualquer dinheiro do mundo (ou só mesmo metade dessa quantia), fosse do Tino Navarro ou doutro qualquer, seria muito bem-vindo para deixarmos de tentar conciliar os nossos projectos independentes em paralelo com outras actividades e começarmos a dar andamento a um movimento de produções bastante sérias. * a imagem que ilustra esta entrevista não é do Fernando Alle, o entrevistado, mas sim de Clemente Santos, ou seja, de Papá Wrestling Quinta-feira, Fevereiro 04, 2010 TUDO PODE DAR CERTO: Título: Whatever Works Realizador: Woody Allen Ano: 2009 ![]() O realizador e humorista Woody Allen e o escritor e igualmente humorista Larry David são pessoas muito parecidas. São ambos judeus, neuróticos, obsessivos-compulsivos e donos de um humor muito semelhante, inteligente, escorreito, cáustico e divertidamente pessimista. Os dois são tão parecidos que, se eu nunca os tivesse visto juntos, diria que eram ambos a mesma pessoa. Por isso, Larry David a fazer de protagonista no novo filme de Woody Allen parecia ser o casamento perfeito. E Allen, que na maioria dos filmes projecta o seu eu para o personagem principal, parecia ter encontrado o seu reflexo e o veículo ideal para exprimir aquelas suas frustrações, dilemas metafísicos e abominações da sociedade e dos seus cidadãos. E Larry David, especialista em criar personagens assim (George Constanza, de Seinfeld, é o paradigma dese arquétipo), também não tem dificuldades em o fazer. Tudo Pode Dar Certo é esse filme e vive em noventa por cento disso, de Larry David e dos diálogos. Diálogos debitados a cem à hora, com igual inteligência e espiritualidade, que normalmente descambam numa situação de um caos algo circense - em linguagem de cinema, é aquilo que se convencionou apelidar de felliniano. E o resto é a história de como Larry David conhece e acaba por se casar com uma adolescente redneck foragida de casa (Evan Rachel *suspiro* Wood), numa série de episódios mais ou menos disconexos, que serve para passar a mensagem de que os opostos se atraem e de que o amor não é racional. Não há propriamente um fio argumentativo ou uma história propriamente nova em Tudo Pode Dar Certo. A novidade é menos o happy ending mais feliz do que habitual num filme de Allen. Há (muitos) diálogos, todos eles (a maioria) bastante espertos, mas também é verdade que não há nenhuma cena memorável. Vemos Tudo Pode Dar Certo, rimos, entremo-nos, mas a verdade é que é uma espécie de Larry-David-show de hora e meia. O problema é que ele o costuma fazer bem melhor, sozinho, no Curb Your Enthusiasm ou quando escrevia o Seinfeld. Vale um McChicken, é certo, mas porque um Woody Allen ou um Larry David não merecem menos que isso. ![]() Quarta-feira, Fevereiro 03, 2010 UMA CURTA POR DIA NÃO SABE O BEM QUE LHE FAZIA: Pois é, andava eu por aí, descansadinho da vida, a pensar que ela me anda a correr bem e ninguém me avisava. Então não é que fazem a melhor curta-metragem portuguesa de sempre e, pura e simplesmente, andava a passar-me ao lado? Felizmente, um feliz acaso levou-me ao excelente e inesperado festival Shortcutz, onde tive a possibilidade de me maravilhar com Papá Wrestling, um demente e divertido festim de horror-gore elevado aquele expoente tal de loucura que só nos deixa espaço para rir (olá Peter Jackson). A história é simples, é quase uma anedota de tão esteriotipada, mas os efeitos-especiais, a percepção dos clichés e, claro, o wrestling, fazem desta simples curta de baixo orçamento um must see. |
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