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Royale With Cheese | ||
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Escrevi isto noutro sítio, mas como também se adequa aqui, vou fazer copy paste. Ora cá vai: 2009 não foi um ano particularmente fácil para mim. Armei-me em pessoa crescida, arranjei um trabalho das nove às seis e fiquei com menos tempo para fazer aquilo que realmente importa: ouvir mais discos, ver mais filmes e ler mais livros. Em contrapartida arranjei mais dinheiro para comprar ainda mais discos, mais filmes e mais livros, mas que me interessa isso se depois não tenho tempo para usufruir deles. Mas não se preocupem, já tratei de resolver a situação para 2010. Entretanto, eis o meu TOP 8 DOS MELHORES FILMES DE 2009. E porquê oito? Porque não vi mais nenhum que merecesse entrar nesta lista. Taking Woodstock ![]() Ang Lee, o David Bowie do cinema, volta a mudar de pele e a mascarar-se de norte-americano, tirando uma radiografia perfeita ao mítico festival de Woodstock, que marcou uma geração e uma era. Tudo isso está em Taking Woodstock, mais uma história de redescoberta pessoal, boa música e a melhor trip do cinema desde as experiências alucinogéncias dos anos 60. ..::..crítica opinativa aqui..::.. 7º Lugar Watchmen - Os Guardiões ![]() Alan Moore já se pode orgulhar de haver uma boa adaptação de uma graphic novel sua ao cinema. Quer dizer, V De Vingança já era bom, mas Watchmen - Os Guardiões é genial. Zack Snyder transpõe o livro para o grande ecrã quase quadradinho por quadradinho, criando a atmosfera perfeita de um neo-noir sobre super-heróis a envelheceram, quais Camus dos tempos modernos. Ah, e os créditos iniciais são de génio, resumindo duas décadas numa montagem musical ao som de he Times They Are A-Changin. ..::..crítica opinativa aqui..::.. 6º Lugar Doomsday - Juízo Final ![]() Eis um festival de cinema série-b como já não víamos desde... os anos 80, devidamente mascado, escarrado e espezinhado. Mad Max + Snake Plissken + Carpenter + cena-nerd medieval + nosso-senhor-da-destruição Malcolm McDowell = maior guilty pleasure de 2009. ..::..crítica opinativa aqui..::.. 5º Lugar O Lago Perfeito ![]() Quais é a coisa mais assustadora de todas? Não são fantasmas, não monstros, não são extraterrestres, não são serial killers... São os rednecks! (olá Fim-de-semana Alucinante) O Lago Perfeito actualiza este tempor ao século XXI, com novos níveis de depravação e com Kelly *suspiro* Reilly a terminar o filme toda arranhada, ferida, coberta de lixo, lama e raiva. ..::..crítica opinativa aqui..::.. 4º Lugar Up - Altamente ![]() Um velho e um garoto chato como o raio embarcam numa aventura por locais exóticos numa casa voadora suspensa por balões de hélio. Sinopse aborrecida? Aparentemente sim, mas até este cliché nas mãos da Pixar ganha asas. Mas não é melhor que o Wall-E como querem fazer crer por aí... ..::..crítica opinativa aqui..::.. 3º Lugar Deixa-me Entrar ![]() Ainda me lembro quando o vampirismo era uma coisa de homens e uma temática habitual dentro do terror. Agora tornou-se numa coisa juvenil, sem luxúria nem deboche. O que vale é veio este sueco saído não-sei-daonde (da Suécia, presumo) mostrar-nos que os novos caminhos do tema também são válidos, num filme de vampiros quase sem vampiros (lembram-se daquele filme de monstros em que quase não havia o monstro, O Tubarão?), sobre adolescentes excluídos da sociedade. Os vampiros são os novos outsiders. ..::..crítica opinativa aqui..::.. 2º Lugar Gran Torino ![]() Clint Eastwood é como o vinho do Porto, quanto mais velhor melhor. E continua a impôr respeito apesar dos seus 80 anos, quer a dizer palavrões e a soltar tiradas racistas, quer a empunhar armas como gente grande. Ninguém se mete com Clint Eastwood, que tem três décadas de cinema de acção concentradas no corpo (e no seu olhar impenetrável). ..::..crítica opinativa aqui..::.. 1º Lugar Sacanas Sem Lei ![]() Não é difícil adivinhar o topo desta lista em ano Tarantino. Um ano Tarantino é um ano em que Quentin Tarantino lança um filme, claro. E que filme foi Sacanas Sem Lei! Depois de o menos genial À Prova De Morte, eis um épico da segunda guerra, com ar de spaghetti-western, releitura da História, bons diálogos, uma long-shot genial, acção gráfica a rodos (koshner-porn), um secundário descoberto do nada directamente para o topo do mundo da representação (Christoph Waltz), um elogio ao cinema e um filme dentro do filme que é um mimo (cortesia Eli Roth). ..::..crítica opinativa aqui..::.. TOP 5: Nesta altura do campeonato já toda a gente fez as suas listas dos melhores do ano, mas como o Royale With Cheese sempre se destacou por não seguir estes compromissos rotineiros (e por uma enorme preguiça), acaba sempre por se atrasar. No entanto, melhorámos em relação ao ano passado: pelo menos já conseguimos começar a faze-las antes do fim do ano. Por isso, e visto que me recuso a fazer o melhor da década como toda a gente parece ter feito, eis o habitual TOP 5 DOS PIORES FILMES DE 2009: Inimigos Públicos ![]() Obviamente que vi coisas bem piores que Inimigos Públicos este ano. Mas filmes como Correio De Risco 3 são tão maus e, pior ainda, tão previsivelmente maus que nem vale a pena estar a perder tempo a colocá-los nesta lista. Pelo contrário, Inimigos Públicos merece muito a pena aparecer aqui. Porque, sem ser mau, é a desilusão do ano. E se pensar que o seu anterior Miami Vice também entrou nesta lista, começo a ficar preocupado com o Michael Mann, um dos mestres do thriller urbano contemporâneo. O cinema digital parece ter sido a sua perdição. E este biopic do assaltante de bancos John Dillinger parece sempre demasiado estilizado e a diluir-se no tempo. ..::..crítica opinativa aqui..::.. 4º Lugar Sinais Do Futuro ![]() Quando o Alex Proyas apareceu eu até gostava dele. E Cidade Misteriosa era um filmaralhão do caraças. No entanto, os filmes seguintes não lhe foram correndo bem, até que este Sinais Do Futuro parece surgir em desespero de causa. Assim, Proyas mistura o filme-tragédia com o filme de extretarrestres, em que estes são albinos de gabardine, até terminar tudo numa enorme trip new-age. E não há nada mais irritante que a new-age. Só a cientologia, claro. ..::..crítica opinativa aqui..::.. 3º Lugar Exterminador Implacável 4 - A Salvação ![]() Os dois primeiros Exterminadores Implacáveis são abismais, mas a ganância de Hollywood em querer sempre mais levaram-na a fazer uma terceira sequela sem graça. Não contentes com a desfeita, eis a opção de fazer um reboot ao franchising, começando tudo de novo, num quarto tomo que será o princípio de nova triologia. Confuso? Não tanto quanto o thriller cyberpunk de McG (que raio de nome é este?), que agora é todo ele futuro (esqueçam as viagens no tempo), numa estrutura linear bastante simples: cinco minutos de história, uma cena de acção; mais cinco minutos de história, mais uma cena de acção com um exterminador maior; outros cinco minutos de história, outra cena de acção com outro exterminador maior... E as máquinas ganharam o síndrome do vilão de James Bond: em vez de matarem os bons, preferem passar quinze minutos a gabarem-se do plano perfeito, dando tempo que chegue a cavalaria. Vão-se foder, já não me enganam mais. Só quando estrear a próxima sequela... ..::..crítica opinativa aqui..::.. 2º Lugar No Limite Do Amor ![]() Dylan Thomas anda por todo o filme, mas No Limite Do Amor pouco (nada?) tem de biopic. Também anda por lá Sienna Miller e, supresa, faz de si própria: bêbada, drogada e/ou puta, cada vez mais parecida com a Courtney Love. Depois há mais umas personagens, um quadrado amoroso e um filme bem pretensioso de John Maybury, que nunca se percebe onde quer chegar, que não se cansa de utilizar truques de câmara, que no geral não combinam entre si. É como vestir um casaco da alta costura italiana com uns calções do Coronal Tapioca: ambos podem ser muito giros isoladamente, mas juntos vão-lhe dar um ar ridículo. Quando vejo filmes como este, só consigo lembrar-me disto. Tudo demasiado pretensioso e sem fazer sentido na maior parte das vezes. Eu até acredito que, no fundo, está uma história enterrada, com um excelente ponto de vista, mas eu é que não tenho uma pá para escavar tanto. ..::..crítica opinativa aqui..::.. 1º Lugar Veneno Cura ![]() E, pelo terceiro ano consecutivo, eis um filme português novamente no topo da lista dos piores do ano. E depois não admira que se fale mal do cinema nacional (e este ano mal vi cinema português). Veneno Cura foi o regresso de Raquel Freire oito anos depois da xunguice-pop-romântica Rasganço, apenas para voltar a espalhar-se ao comprido. Numa sequência de fragmentos, o filme é tão irreal que só pode ser verdade: uma tipa mata acidentalmente o seu bebé e vai presa; o Mourinho do Direito vai defende-la, mas viola-a sempre que a vê(!), argumentando que a quer salvar(!!). Ao mesmo tempo, este advogado vai comendo a irmã gémea na piscina(!!!), que por acaso tem uma doença temrinal e é a imperatriz(!!!!) de um bar de alterne neo-barroco-xunga. E isto apenas na primeira meia-hora, porque não consegui ver o resto. ..::..crítica opinativa aqui..::.. Domingo, Dezembro 27, 2009 ÓRFÃ: Título: Orphan Realizador: Jaume Collet-Serra Ano: 2009 ![]() Antigamente era bem mais fácil distinguir os bons filmes de terror dos maus sem ter de os ver. Como era ainda um subgénero, digamos, "inferior", a coisa estava bem compartimentada e bastava-nos olhar para a capa do filme e/ou para o título para o avaliarmos correctamente entre "filme bom", "filme mau" ou "xungaria da grossa". Agora que o terror se tornou mainstream já não conseguimos fazer esta distinção e das duas uma: ou vemos tudo a que conseguimos deitar a unha ou então esperamos pela opinião de terceiros para ver o que vale a pena. Se não fosse assim teria acabado por ver a treta toda do Saw, devido às capas bem catitas dos filmes, e tinha deixado de fora o brutalíssimo O Lago Perfeito. E também, muito provavelmente, nunca teria tocado neste Órfã nem com um pau de cinco metros. É que, à primeira vista, tinha todo o ar de ser banhada, principalmente ao estrear poucos meses depois de O Orfanato, grande filme de terror sobre a mesma temática. Aqui, o argumento é semelhante, mas bem mais simplificado. (Vera Farmiga e Peter Sarsgaard são um casal que decidem adoptar uma terceira filha, depois de terem tido um aborto complicado. Para isso vão a um orfanato como quem vai às compras e escolhem uma menina russa um pouco esquisita e bastante madura para a sua idade (Isabelle Fuhrman). E se de início ela era toda falinhas mansas e afável, no fim revela-se uma peste manipuladora, malévola e cruel. Órfã é um parente afastado de O Orfanato, mas um primo muito próximo de O Bom Filho. E, tal como este, também há uns fantasmas complicados no armário do casal, que serve para esgalhar bem o argumento e alguma tortura psicologia. Órfã não se faz tanto de um terror gráfico ou de um suspense apurado (mas também o há, é certo), mas antes de um terror psicológico, à boa maneira de um A Semente Do Diabo. E a fotografia cuidada e as tensões criadas pelo cenário físico da casa dos protagonistas (excelente espécime de arquitectura, por sinal) remetem ainda para Shining. Claro que isto é tudo conversa de pseudo-intelectual do cinema, porque o verdadeiramente assustador de a Órfã é mesmo a órfã. Isabelle Fuhrman faz o Macaulay Culkin, de O Bom Filho, tremer de medo, e faz o Damien, de O Génio Do Mal, passar as noites em branco completamente aterrado. Sempre com vestidos antigos e negros, Isabelle Fuhrman é um bruxa em potência, com uma expressão de pedra e um olhar extremamente vazio, que nos deixa arrepios na espinha sempre que pensamos nela. Órfã é, portanto, um belo flick de terror psicológico, se bem que meter crianças a fazer coisas cruéis acaba por ser, de certa forma, uma muleta assustadora fácil. No entanto, o que estraga o filme é o final. Depois de um twist mais ou menos recambolesco (mas, hei, isto é um filme de terror, que estávamos à espera?), Órfã engana-nos com vinte minutos finais que parecem tirados de outro filme, onde de repente tudo se torna demasiado explícito, com tiroteios e duelos à faca, crianças de três anos a desviarem-se de balas, pessoal esfaqueado repetidamente que não morre e Vera Farmiga a rematar o filme, com um belo pontapé à Bruce Lee e uma one-liner digna de um badass-movie-série-b do Carpenter: I’m not your fucking mother. Olé, eis como estragar um filme simpático num McBacon. ![]() Sábado, Dezembro 26, 2009 ITALIAN SPIDERMAN: Título: Italian Spiderman Realizador: Dario Russo Ano: 2008 ![]() É uma das histórias de sucesso mais bonitas do cinema. Tudo começou em 1964, em Itália, quando o realizador Gianfranco Gatti começou a adaptar o épico de acção Italian Spiderman, baseado no livro Death Wears a Hat, com o mítico Franco Franchetti no principal papel. O filme demorou uns longos quatro anos a ser feito, consumindo todo o dinheiro da sua produtora, a Alrugo, que em 1968 estava completamente endividada. O produtor, Alfonso Alrugo, decide então apostar tudo: envia a única cópia existente de Italian Spiderman para os Estados Unidos, para tentar distribui-lo lá, mas o navio que a transportava nunca chega ao destino. No fundo do Atlântico fica perdido para sempre Italian Spiderman e o futuro da Alrugo. Para sempre? Não, porque em 2008, os descendentes de Alfonso Alrugo encontram numa expedição ao fundo do Atlântico os destroços do navio afundado, resgatando intactas as bobines de Italian Spiderman, que finalmente vê as luzes da ribalta. A introdução é mirabolante e é tão irreal que quase só podia ser verdade. Mas não é; nasceu antes da cabela de um grupo de amigos australianos, que fizeram a trailer deste filme imaginário para a escola, emulando o cinema exploitation italiano dos anos 60. A coisa estava tão bem feita (como pode ser comprovado pelo vídeo que remata esta prosa) que se tornou num fenómeno da internet, de tal modo que o ICA australiano deu mesmo dinheiro aos rapazes para fazer o filme. Assim, Italian Spiderman tornou-se uma realidade, sendo lançado em dez episódios, que conseguem viver independente entre si, apesar de haver uma história qualquer de um asteróide que cai na Terra e que tem um líquido que permite clonar os maus automaticamente. O truque para que estes episódios consigam viver isoladamente passa por um mecanismo muito simples: evitar qualquer lineariedade, tanto temporal como, especialmente, temporal. Em Italian Spiderman as personagens podem estar muito calmamente em casa, como logo a seguir no Havai num duelo de surf(!) ou noutro ponto qualquer do planeta, graças às projecções mal amanhadas na parede de trás. Mas afinal quem é o Italian Spiderman? Para começar, é a versão definitiva do Homem-Aranha, que consagra num só o herói da Marvel, estes super-heróis italianos, o Super-Homem indiano (mas sem cantoria) e a Batwoman mexicana, tudo em versão macho latino. É então um super-herói gordo e de bigode farto, misógino e extremamente machista, que mesmo assim leva as mulheres todas para a cama com uma simples lambidela nos lábios. É ainda viciado em machiatto, como qualquer bom italiano, e como poderes tem: a habilidade de se teleportar, de voar, super-força, super-velocidade, um bigode-boomerangue(!) e a habilidade de comunicar com aranhas e invocar pinguins(!). Como dá para perceber, em Italian Spiderman pouco ou nada faz sentido. No entanto, é notável o compromisso dos autores perante a causa, conseguindo fazer um autêntico filme de época, imitando todos os maneirismos e clichés do mau cinema da época. Tarantino não fez melhor em À Prova De Morte. Além disso, visualmente é um mimo, bastante colorido, trips psicadélicas e uma banda-sonora funk que não envergonha um Isaac Hayes. De tal forma, que uma editora italiana, a Soulful Torino, acabou mesmo por lançar o single em vinil. Italian Spiderman é um O Ninja Das Caldas em bom (porque não nos obriga a estar a ver uma piada de poucos minutos esticada a uma longa-metragem), uma pérola para todos aqueles que estão familiarizados com o cinema de série b, bons pedaços de humor e, claro, o maior herói de sempre. E se não gostar do McRoyal Deluxe é porque não percebe. Quanto ao filme pode ser visto por episódios no fantástico mundo do youtube. Quinta-feira, Dezembro 24, 2009 OS CAÇA-FANTASMAS: Título: Ghost Busters Realizador: Ivan Reitman Ano: 1984 ![]() O início de Os Caça-Fantasmas é digno dos melhores cânones do cinema de terror. Com um plano bastante racional e geométrico, à la Kubrick, a câmara avança num lento travelling atrás de uma bibliotecária, por entre as estantes cheias de livros, à medida que os livros vão voando atrás de si e saltando para o chão por ordem do espírito santo. A coisa desenrola-se com um suspense trágico e um je ne sais quoi de operático, que nos faz lembrar Dario Argento. No entanto, quando a tensão explode, ouvem-se sintetizadores manhosos e voamos para o centro de um vórtice que nos liga directamente aos maravilhosos anos 80, década de xungaria exacerbada onde tudo foi possível, uma vez que a noção de ridículo esteve dormente. Os Caça-Fantasmas é a prova de que um filme é o reflexo do seu realizador e da forma como é filmado. Ou seja, o mesmo argumento e a mesma história podem ser dirigidas de forma completamente distintas, consoante a forma como é colocada a câmara, feito os enquadramentos ou, simplesmente, utilizada a banda-sonora. Basta ver aqueles trailers falsos que circulam pelo fantástico mundo do youtube, sobre uma assustadora Mary Poppins (genial) ou um catita e familiar Shining. Quero dizer com isto que Os Caça-Fantasmas tem algumas das melhores cenas de filmes de fantasmas que o cinema já produziu, mas o facto de vir embrulhado em patetice feelgood fazem-no ser bastante subvalorizado. No entanto, é fácil perceber essa subvalorização, uma vez que Os Caça-Fantasmas sofre de vários estigmas: o tal de ter todos os clichés dos anos 80; e o facto de ter sido um êxito de bilheteira. Tudo motivos para o olharmos com desconfiança. Além disso, a versão original chegou cheia de ligeiros buracos no argumento (a maioria no relacionamento e desenvolvimento das suas personagens), que apenas as cenas cortadas na edição especial em DVD deixam perceber na totalidade. Contudo, mesmo sem a atmosfera correcta, Os Caça-Fantasmas não deixam de ser uma variação dos filmes de monstros, percursor do Godzilla e antecessor de Nome De Código: Cloverfield (mas com um simpático boneco de marshmallow em vez de uma criatura pré-histórica e/ou de outro mundo). Mas comecemos pelo início: Os Caça-Fantasmas é um misto de filme de fantasmas e filme de ficção-científica (daqueles dos anos 50, em que todos os pormenores técnicos eram explicados detalhadamente para gáudio dos geeks e nerds), escrito e intepretado por alguns dos nomes mais sonantes da comédia norte-americana nos anos 80 (Eddie Murphy foi convidado mas não aceitou, assim como John Candy, enquanto que John Belushi morreu entretanto). Escrito para ser um franchising em dois tomos (a terceira sequela está, contudo, prevista estrear em breve), Os Caça-Fantasmas começa por nos introduzir três cientistas do paranormal (genial Bill Murray, com aquele seu estilo passivo, mas sempre demasiado ácido para o seu próprio humor, mais Dan Aykroyd e Harold Ramis), que criam uma empresa de resolução de casos paranormais. Os três (mais Ernie Hudson, porque todo o herói colectivo tem que ter um membro preto) vão acabar por salvar o mundo do regresso do deus destruidor Gozer, evocado por uma Sigourney Weaver possuída e extremamente sexy. Apesar de ser a típica comédia dos anos 80, Os Caça-Fantasmas soube envelhecer bastante bem, sendo ainda hoje bastante actual. O truque é não ser demasiado ingénuo, como aquele seu primo afastado do qual falei aqui há dias: O Menino De Ouro. Quem não soube envelhecer tão bem foi Sigourney Weaver, que na sequela, apenas cinco anos depois, já parecia uma velha, longe do símbolo sexual em que se transforma aqui. Sinal positivo ainda aos efeitos-especiais, em mais uma grande demanda pré-CGI, que culmina com o ataque a Nova Iorque do tal boneco de marshmallow gigante, numa evocação das destruições deo Godzilla. Mas aqui não há ameças atómicas subliminares, apenas um McBacon que, por vezes, é incompreendido. Para o bem e para o mal. ![]() Domingo, Dezembro 20, 2009 TOP 5 Gosto de ler sobre cinema. E gosto de escrever sobre cinema. Mas não gosto de conversar sobre cinema. No entanto, acabo por o fazer mais do que desejava, especialmente porque há muita gente que, sabendo que eu gosto de cinema, se sentem na obrigação de o fazer. Ou porque é, simplesmente, um bom e eficaz desbloqueador de conversa. Nessas alturas, costumamos então falar dos últimos filmes que vimos, os filmes de determinado realizador ou as futuras estreias a chegar. Mas raramente revelamos os nossos guilty pleasures, aqueles filmes que gostamos secretamente e temos vergonha de dizer que gostamos. Por isso, há que aproveitar estas oportunidades que o destino nos oferece de podermos revelar, honestamente, os nossos guilty pleasures favoritos. Foi assim que comecei por responder ao amável convite que recebi do CinemaJB para participar na sua secção Jardins Proibidos de um Cinéfilo, onde podemos dizer sem vergonhas quais os nossos guilty pleasures preferidos. Assim, caso estejam interessados em saber quais os meus, podem clicar aqui para ver O TOP 5 DOS FILMES QUE TENHO VERGONHA DE DIZER QUE GOSTO.
Posted by: dermot @
11:49 PM Sábado, Dezembro 19, 2009 PORCOS & SELVAGENS: Tìtulo: Wild Hogs Realizador: Walt Becker Ano: 2007 ![]() Só existe uma razão no mundo capaz de justificar um filme com Tim Allen, Martin Lawrence, John Travolta e William H. Macy a fazerem de motoqueiros numa crise de meia-idade. E essa razão é capricho! Só assim se pode perceber como é possível alguém dar dinheiro para se realizar um filme de amigos como Porcos & Selvagens. E eu aposto que o caprichoso foi Tim Allen, que já pertence à mobília da Disney há tempo o suficiente para conseguir sacar uns trocos suficientes para que isto acontecesse (graças ao repetitivo Obras Em Casa). Allen, Martin Lawrence, John Travolta e William H. Macy estão então naquela idade em que já não estão novos para fazerem certas coisas, nem suficientemente velhos para não se importarem. Há quem chame a isso menopausa. Por isso, decidem fazer uma última e decisiva aventura: pegarem nas suas motas - os quatro têm uma gangue chamada Porcos Selvagens - e embarcarem numa road trip sem rei nem roque, voltando a sentirem-se livres pela última vez, antes de se encafuarem na sala de estar, depois de trabalharem o dia todo para alimentar os filhos na esperança que eles, daqui a uns anos, tenham piedade o suficiente para cuidarem de si quando já só tiverem forças para se babarem e borrar as calças. A premissa é gira porque rima com a realidade. Olhamos para a personagem de Tim Allen, por exemplo, e conseguimos ver o próprio Tim Allen. E com o John Travolta acontece o mesmo. Por isso, Porcos & Selvagens tem aquela aura especial que tinha As Confissões De Schmidt, por exemplo, em que um Jack Nicholson acabado de entrar na meia-idade fazia de um velho com uma crise de meia-idade. Assim, mesmo sabendo que Porcos & Selvagens tem o selo da Disney, até tinha algumas expectativas para o filme. Portanto, não estava preparado para o pior. Porcos & Selvagens é um desastre! Um Easy Rider wannabe mascarado de comédia familiar para os serões de domingo, com meia-dúzia de clássicos do hard-rock, um argumento preguiçoso em que os actores secundários limitam-se a transportar as suas personagens da televisão para o grande ecrã (John C. McGinley e o seu médico Perry Cox, de Médicos E Estagiários, e Tichina Arnold, como a mãe do Chris Rock em Todos Contra O Chris), e um humor redondo e politacamente (muito) correcto, que ainda por cima abusa do overacting do Martin Lawrence, que cada vez tem menos piada, num registo copiado de mil outros comediantes afro-americanos semelhantes. Também há que referir que a noção de humor do filme é ao nível de um conjunto de crianças de cinco anos. E com trissomia 21. Com um argumento chapa quatro, sem um pingo de imaginação ou qualquer novidade e que, ainda por cima, termina como um mau episódio do Esquadrao Classe A (quatro forasteiros a libertarem um lugarejo qualquer do jugo ameaçador de uma gangue malvada), Porcos & Selvagens tem a excitação de um longo bocejo. E, mesmo com o cérebro desligado (porque, se não o delsigar, ele entra em curto-circuito), conseguimos sentir o frete que John Travolta faz em todo o filme. E ainda nos sentimos constrangidos por ver Peter Fonda metido nos últimos minutos de uma inutilidade tão grande, a fazer de motard-guru numa piscadela de olho que transforma uma referência divertida num autêntico insulto. É verdade que Porcos & Selvagens não é cem por cento inútil. Serve sempre de mau exemplo, é verdade, mas ainda serve para ver também a sempre bela Marisa *suspiro* Tomei. E isto justifica a Hamburga De Choco. Isso e o genérico final, com um inesperado lapso de humor, em que Porcos & Selvagens cruza com o Querida Mudei A Casa. Por isso, se algum dia tiver o azar de se ver a mãos com um dvd do filme, faça fast forward directamente para os créditos do fim. ![]() O MENINO DE OURO: Título: The Golden Child Realizador: Michael Ritchie Ano: 1986 ![]() Em 1986, houve um maluco qualquer em Hollywood que curtiu à brava O Caça Polícias e As Aventuras De Jack Burton Nas Garras Do Mandarim. E, como normalmente os malucos são sempre gente cheia de papel, esse tipo decidiu fazer o seu próprio filme, que misturasse esses dois: arranjou um argumento com demónios, crianças profetas e cenários exóticos, chamou Eddie Murphy para ser o choosen one e convidou John Carpenter para realizar. Como isto lhe cheirou a esturro, Carpenter declinou o convite e um desconhecido Michael Ritchie foi convidado para dirigr O Menino De Ouro. Esta história é apenas baseada levemente em acontecimentos reais. As histórias messiânicas são habituais nestas aventuras fantásticas: há uma criança tibetana (J.L. Reate, uma eterna desconhecida que entra no panteão de child stars que desapareceram do mapa) que nasceu para trazer justiça ao mundo (um misto entre Dalai Lama e Jesus Cristo, mas convenientemente apelidade de menino de ouro) e há um demónio, Sardo Mumspa (assustador Charles Dance), que o rapta para o matar. E depois, claro, há o tal escolhido, que é um Eddie Murphy em estado de graça, um investigador de crianças desaparecidas, que vai salvar o dia ao mesmo tempo que seduz Kee Nang (Charlotte Lewis), o elemento feminino do filme. O Menino De Ouro é o típico filme dos anos 80: um filme de acção e aventuras, com uma banda-sonora cheia de sintetizadores manhosos, os actores asiáticos secundários do costume (de James Hong a Victor Wong, estão lá todos, só faltou mesmo o imortal Al Leong) e uma (super)simplificação ingénua e naife da história, que salta dos Estados Unidos para o Tibete com a mesma linearidade com que os tibetanos falam todos inglês(!) ou como o demónio tenta tramar o choose one: fazendo uma denúncia anónima na polícia(!!). O Menino De Ouro é a típica xungaria dos anos 80, que inclui o habitual catálogo de maus penteados e mau guarda-roupa, mas que tem uma inesperada crueldade. É que, ao fim ao cabo, estamos a falar de um demónio maléfico que, a mando do próprio Diabo, quer condenar a humanidade. Por isso, se bem que tente os métodos convencionais (com a tal denúncia à polícia, seu queixinhas!), Sardo Numspa tem um par de banhos de sangue nada habituais em filmes de acção para toda a família, se bem que, no balanço final, acabem por passar despercebidos no meio de tanta idiotice. Entretanto, o que acaba por sobressair positivamente são duas coisas. Primeiro, os efeitos-especiais, que apesar de datados são esforçados. Saturados de tanta masturbação CGI, é bom vermos bons momentos de efeitos-especiais artesanais, como uma mítica cena em que o menino de ouro transforma uma lata de Coca-Cola num dançarino de sapateado em stop-motion. E segundo, a boa forma de Eddie Murphy, sempre a disparar one-liners espirituosas e com um momento único, em que vai ao Tibete pedir um punhal encantado a um templo budista: I-I-I want the knife. Pleeeease. O Menino De Ouro é um daqueles filmes que só podia ter sido feito nos anos 80. Série-b da pesada e muito cinema xunga, mas com aquele encanto especial que não se consegue explicar e que fazem deste tipo de filmes serões bastante entretidos (o esforço de explicar isto é inútil, ou se conhece ou não - é chato, mas é mesmo assim). Por isso, se está por dentro do que é o verdadeiro cinema dos anos 80, então percebe o McBacon. Caso contrário, mais vale mudar de restaurante. ![]() Quarta-feira, Dezembro 16, 2009 JULIE E JULIA: Titulo: Julie & Julia Realizador: Nora Ephron Ano: 2009 ![]() As faculdades representativas e, consequentemente, a carreira de Meryl Streep estão em autêntico ponto de caramelo. Por isso, a actriz pode-se dar ao luxo de aceitar qualquer papel que irá sempre brilhar, com igual encanto e charme, seja num musical pateta sobre os Abba (Mamma Mia, claro), seja a encarnar a raínha da culinária norte-americana, Julia Child (Julie E Julia, obviamente). Para nós, povo habituado a comer bem, à cozinha e à arte da culinária, é normal não sabermos quem foi Julia Child. No entanto, para os americanos, foi uma personagem fundamental, visto que revolucionou toda uma cultura onde a culinária era apenas congelados e enlatados, ao introduzir a cozinha francesa na dieta do Tio Sam. Julia Child foi a Coco Chanel da comida dos Estados Unidos. Julie E Julia é então a história da vida de Child (sob a forma de Meryl Streep), da sua demanda de oito anos em publicar o best-seller Mastering the Art of French Cooking e da sua relação com as colegas escritoras/cozinheiras e com o marido, o cônsul Paul Child (Stanley Tucci). Quer dizer, metade de Julie E Julia. Porque a outra metade é outra história verdadeira, a de Julie Powell (Amy Adams), uma norte-americana dos tempos modernos que, ao enfrentar uma crise de meia-idade ao chegar aos trinta anos, criou um blogue onde se propôs a preparar todas as receitas do livro de Julia Child em apenas um ano. Como todos os fenómenos da net, o seu blogue tornou-se num sucesso inexplicável, tendo dado azo a um livro e a um filme. Este. As duas histórias são então contadas em paralelo e, apesar de nunca se cruzarem, acabam por ser o reflexo uma da outra. O mérito é do argumento certinho de Nora Ephron, que embrulha o filme numa embalagem de comédia romântica, estilo o qual domina (alguém mencionou Você Tem Uma Mensagem) e, por isso, sabe evitar os clichés do género. Além disso, apesar de ser uma comédia romântica para gajas (parece mesmo o cosmopolita Sexo E A Cidade, mas com metade passado na primeira metade do século XX e com comida em vez de compras), Julie E Julia acaba por entreter o público masculino por apostar na componente feelgood em detrimento da pieguice romântica e feminista. Por isso, se está à espera que Julie E Julia seja um biopic de época ou qualquer coisa do género, pode fazê-lo sentado. É apenas uma comédia ligeira, bem-disposta e descomprometida com o que quer que seja. É o típico filme de Natal e, como ponto de excepção, tem a apontar o facto de ser o primeiro filme de sempre baseado num blogue. Não supreende? É verdade, mas também não ofende ninguém. Fica com um McBacon e pronto. ![]()
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12:33 AM Terça-feira, Dezembro 15, 2009 BRUNO: Título: Brüno Realizador: Larry Charles Ano: 2009 ![]() Apesar de ser mais uma sequência de apanhados do que verdadeiramente um filme, eu sou daqueles que gosta muito de Borat. Pela sua audácia, pelo seu humor escatológico mas também pelo humor subtil e inteligente, pela sua coragem e pela sua atitude directa e irreverente. No entanto, é daquelas coisas que só resulta à primeira. É como o Jackassk - o primeiro é hilariante de tão parvo que é, mas o segundo já não tem tanta piada. E aquelas tentativas infindáveis de o imitar (alguém mencionou o, argh, Dirty Sanchez?) são execráveis. Por isso, quando Sacha Baron Cohen e o realizador Larry Charles iriam fazer um segundo Borat, mas agora com Brüno, o estilista gay do Da Ali G Show, as expectativas não eram grande coisa. E depois de ver Bruno confirmo: é como Borat, mas mais audaz, mais chocante, mais provocador, mais tudo! Mas, ao contrário do que estava à espera, continua a fazer-me rir que nem louco. O tipo de humor é semelhante ao de Borat, mas mais sexual e, consequentemente, mais provocador. Tudo devido à natureza de Brüno. Enquanto que o primeiro era um estrangeiro vindo de um país terceiro mundista, que gozava os americanos com os seus tabus xenófobos e a sua ignorância para com o resto do Mundo, esta nova personagem é um estilista gay (e bem gay!), que se imiscui na América conservadora, pouco liberal e mente fechada. Brüno é então o apresentador gay austríaco do "Funky time", o programa de moda com mais sucesso nos países de língua germânica, excepto na Alemanha. Contudo, acaba por ser despedido, o que o leva a elaborar um plano: ir para os Estados Unidos e tornar-se numa super-estrela e no austríaco mais conhecido de sempre a seguir a Hitler, numa curta hora e pouco de filme. Para isso, vai tentar uma série de truques: ir para a cama com o congressista (e heterossexual e conservador) Ron Paul, tentar vender um programa de televisão com muitas pilas à mostra, entrevistar pessoas famosas (como a Paula Abdul) sentados em cima de mexicanos, participar em orgias swinger ou, simplesmente, tentar chamar a atenção dos media ao adoptar uma crinaça africana. Sem papas na língua e com muita paneleirice. O método é só um: ir para cima das pessoas, sem avisar, como se aquilo fosse real. Os intervenientes caem naqueles apanhados e nós, espectadores, sentimo-nos desconfortáveis. E depois rimos! No entanto, tal como Borat, as melhores partes acabam por ser aquelas em que Sacha Baron Cohen nem precisa de se esforçar para nos assustarmos com a estupidez dos norte-americanos. Como, por exemplo, umas entrevistas a uns pais que tentam tudo para que os seus filhos tenham sucesso (incluindo lipoaspirações em crianças de três ou quatro anos), ou sessões com cristãos cuja profissão é converter gays em pessoas normais. No final, Bruno supreende com uma série de cameos de gente famosa - Bono, Slash, Elton John e Snoop Dog - a fazerem uma música de solidariedade, tipo We Are The World dos gays. Há quem considere essa decisão dos artistas muito infeliz. Eu considero-a o remate perfeito para um filme de humor sem qualquer limite. Sacha Baron Cohen consegue um bem composto McRoyal Deluxe com esta sua outra personagem, mas só esperemos é que não tente a brincadeira pela terceira vez. A ideia não se aguenta outra vez. ![]()
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12:38 PM Domingo, Dezembro 13, 2009 UP - ALTAMENTE: Título: Up Realizador: Pete Docter Ano: 2009 ![]() Ultimamente tenho ouvido tanta gente a dizer que Up – Altamente é o melhor filme de animação de sempre e que poderá ser, inclusive, a primeira obra de animação a ser nomeada para o Óscar de melhor filme desde Branca De Neve E Os Sete Anões, que me fez ficar desconfiado. Principalmente por duas razões: primeiro porque o ano passado estreou Wall-E, um dos melhores desenhos-animados da história da sétima arte – e não me parece que a Pixar, por mais genial que seja, conseguisse duas obras-primas em tão pouco tempo; e segundo porque a sinopse – um velho rabugento e um miúdo escuteiro que vão em aventura numa casa suspensa por milhares de balões de hélio – não me parecia susceptível de dar um grande filme. Mas como sou um céptico por natureza, daqueles que se rege pela máxima ver para crer (e como, normalmente, me costumo enganar), lá fui comprar o dvd para tirar a prova dos nove. De facto, a história não é propriamente original, mas a animação também nunca se fez de grandes ideias inovadoras. Aliás, a Disney construiu o império com apenas uma ideia, muito simples por sinal: animais que falam. O truque aqui é que a Pixar sabe escrever histórias inteligentes. E para a toda as idades; são filmes adultos, mas que agradam igualmente às crianças, comportando uma (ou várias) mensagem moralmente valiosa. A sinopse é então simples, mas não é tão bidimensional quanto parece à partida. O velho é rabugento, mas não apenas porque todos os velhos são rabugentos. É que a montagem musical inicial – um dos melhores pedaços de cinema de sempre, com uma palete de sentimentos abismal, que nos faz ir às lágrimas um par de vezes e sorrir estupidamente outras tantas – mostra-nos a história daquele senhor que se tornou amargo pela recente viuvez e por nunca ter cumprido o seu sonho (e da sua esposa) de embarcar em aventuras exploratórias como as do seu herói de infância, Charles Muntz. A aventura é então, simultaneamente, um escape do velho perante a ameaça do ocaso da vida e o derradeiro cumprir do seu objectivo de vida. Por arrasto, vem um miúdo escuteiro, que funciona como sidekick e comic-relief (é ainda acrescentada à história outros companheiros, dois animais que falam, ou não estivesse a Pixar agora junta à Disney), mas que faz Up – Altamente rimar com dois temas valiosos: a diferença de gerações e, sobretudo, os rituais de crescimento e envelhecimento. No fundo, é um filme sobre a vida e o passar do tempo, que tem a patine de um cinema de outros tempos (onde não falta a banda-sonora clássica em vez das theme-songs da banda da moda). Up – Altamente é extremamente adulto e sensível (facilmente confundível com depressivo, por vezes) e com uma palete de sentimentos bem aberta e diversificada. Faz-nos rir, mas não devido a gags ou piadas simples, antes devido ao realismo das situações. A animação também não é propriamente realista – nem podia, com uma história tão irrealista –, mas as expressões das personagens são do mais humano que há. Daqui em diante, os executivos deviam começar a pensar em contratar um boneco em desenho-animado do que gente como o Keanu Reeves, para evitar terem estátuas sem expressão facial a representar. Mas não nos podemos esquecer que Up – Altamente é um filme de animação e, como tal, um produto de entretenimento. E os seus autores, especialistas na matéria, sabem-no melhor que ninguém e, por isso, transformam-no às tantas num filme de aventuras, herdeiro das matinés domingueiras de (Sky Captain E O Mundo De Amanhã é um primo afastado), com sequências de tirar o fôlego, situações radicais e um confronto bélico com o tal Charles Muntz e um batalhão bélico de cães falantes. Apesar da diferença de estilos, Up – Altamente nunca perde o pé e consegue ser extremamente equilibrado. Não é melhor que Wall-E, que é mais filme, mas merece vários elogios de todas as partes. Principalmente, por conseguir ser um filme de animação tão adulto – uma tarefa complicada esta de nos fazer pensar na vida com desenhos-animados. Experimentem pensar na vossa vida a comer um McRoyal Deluxe, vai fazer-vos bem. ![]()
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11:46 PM Domingo, Dezembro 06, 2009 A LAGOA AZUL: Título: The Blue Lagoon Realizador: Randal Kleiser Ano: 1980 ![]() Quem nasceu antes da década de 90 teve dois filmes obrigatórios na sua infância: este A Lagoa Azul e A Guerra Do Fogo. Ambos são duas histórias intemporais, que abordam temas daqueles que é complicado aos pais ensinar aos filhos e que, por isso, preferem metê-los a ver um vídeo que possa esclarece-los sem grande trabalho, recorrendo a artifícios dramáticos que respeitam todos os valores familiares e cristãos, apesar de ter nudez e abordar sexo. É que é sexo, mas com respeitinho. Dos dois, A Lagoa Azul é o que tem mais cultura popular. Não obstante o modesto orçamento (apesar de ser um filme de época, só nos apercebemos disso porque o genérico inicial começa com duas ilustrações da Inglaterra vitoriana(!)), o filme tornou-se num sucesso gigantesco, catapultando duas teen-stars para a ribalta, que nunca mais fizeram nada de jeito, mas ficaram coladas para sempre a esses papéis: Brooke Shields, cujo casamento com Andre Agassi também deu que falar, e Christopher Atkins, que nunca mais fez nada na vida. A história é simples: numa viagem para São Francisco, um barco naufraga, deixando o cozinheiro-pirata (Leo McKern) sozinho numa ilha, com duas crianças (Brooke Shields e Cristopher Atkins). No entanto, o cozinheiro-pirata morre cedo, vitima do rum, deixando os petizes sem a figura paternal e obrigando-os a crescerem sozinhos, numa bonita história de sobrevivência, numa ilha paradisíaca. A estrutura é a de Robison Crusoé, pois claro, mas em cenário idílico e sem perigos, aventura ou acção. Porque aqui o que interessa são aqueles rituais de passagem e de crescimento. Os dois jovens crescem então de forma natural (e naturalista, uma vez que andam quase sempre desnudados) e ingénua (parecem a Nell, por vezes), criando as suas próprias explicações para fenómenos que não compreendem, como o aparecimento do período ou a chuva que cai do céu. Igualmente ingénuo e naife é o próprio filme, onde não há profundidade dramática e o irrealismo é atroz. Como alguém disse, o argumento, o desenvolvimento das personagens, a capacidade de sobrevivência na natureza ou os julgamentos interiores são os absolutos epítetos da ficção. A Lagoa Azul parece então uma história bíblica. E bem pode ser comparado, com algum esforço, a propaganda cristã, principalmente pelo temor e crença a Deus que as crianças desenvolvem desde pequeninos. Qual Adão e Eva, são dois humanos a crescerem educados pelos verdadeiros valores morais cristãos, terminando num final com tanto de feliz como de forçado. No entanto, tudo isto ganha inesperada agradabilidade e aguentamos a passagem do tempo com a mesma indiferença com que os jovens actores representam, ou seja, com a mesma emoção de uma laranja com dois furinhos - Brooke Shields foi, inclusive, a primeira actriz a ganhar um Razzie à conta deste filme. Não é por acaso que é considerado um dos cem maus filmes mais agradáveis de se ver pelo fundador dos Razzies. E depois, claro, há uma enorme eroticidade e sensualidade em todo o filme. Brooke Shields está sempre nua e apesar de ter uma dupla de corpo para as cenas em que mostra as mamas, faz-nos libertar mais feromonas do que um chimpanzé com o cio. Aliás, todo o filme é sobre isto: dois jovens que se vão descobrindo a si e aos seus corpos, até acabarem em cópula desenfreada diariamente, como dois coelhos. A ilha deserta é só para disfarçar. Concordo que é um dos piores Double Cheeseburgers mais apetitosos de se devorar. ![]() Quinta-feira, Dezembro 03, 2009 ESTADO DE GUERRA: Título: The Hurt Locker Realizador: Kathryn Bigelow Ano: 2008 ![]() Kathryn Bigelow parecia estar destinada a ficar conhecida por um destes dois rótulos: ou pela ex-mulher de James Cameron; ou pela realizadora do guilty pleasure Ruptura Explosiva. Até que, surpresa das surpresas, a cineasta norte-americana tira um coelho da cartola chamado Estado De Guerra e ganha tempo de antena, projecção e falatório como nunca tinha tido. E, de repente, já toda a gente tem dúvidas se Ruptura Explosiva é um bom mau filme ou se é uma obra incompreendida (adoro esta expressão). Estado De Guerra é um filme de guerra que vem salvar os filmes de guerra. Mas o filme de guerra estava em perigo? Não, antes pelo contrário, mas nos últimos tempos tem se tornado cada vez mais sensível e mais piegas. O cinema de guerra estava-se a transformar em metrossexual. E foi preciso vir uma mulher para fazer um filme de guerra à macho, cheio de testosterona, pêlo no peito, que cospe para o chão, vai caçar ao fim de semana e bate na esposa quando chega a casa. A citação que abre o filme é explícita: a guerra é uma droga. A desumanização provocada pela guerra sempre foi um território mais ou menos explorado, mas que tem ganho primazia nos últimos tempos, especialmente depois de o mundo voltar a atravessar uns conflitos complicados no Afeganistão e no Iraque. No entanto, Estado De Guerra lembra-nos que também há quem goste dela, ou não tivesse o ser humano um lado animal perverso e distorcido. Por isso, Estado Da Guerra apresenta-nos o sargento William James (Jeremy Renner), um destemido, insolente e insubordinado especialistas em desarmar bombas, que vem liderar uma equipa de explosivos a um mês de serem rendidos no Iraque. Como bom filme para homens que é, Estado De Guerra vai direito ao assunto: há situações complicadas, emboscadas e ataques furtivos, que o sargento James e a sua equipa enfrentam de frente, com sorriso nos lábios à medida que vão inalando o cheiro da pólvora. É impossível não nos lembrarmos dos saudosos anos 80, em que heróis de acção como o Rambo iam para o teatro de guerra abanar a bandeira americana e salvar o mundo enquanto contavam umas piadas. Isto apesar da estrutura algo episódica, filmado em digital e com câmara ao ombro em formato documentário, com aqueles zooms rápidos gratuitos que são deveras irritantes. Mas Kathryn Bigelow não se fica pelo cinema de guerra desmiolado e aborda também a desumanização, fazendo aquilo que Sam Mendes tentou fazer em Máquina Zero, só que aqui com menos sensibilidade. Estado De Guerra é como aquelas discussões entre homens, em que andam à pancada de início, mas que logo a seguir já estão a beber copos como se nada se tivesse passado. Por isso, dispensava-se a repentina sensibilização que o protagonista ganha no último terço do filme, que transforma Estado De Guerra em mais um filme sobre a desumanização da guerra nos últimos momentos. Só que um fraquinho mau filme sobre a desumanização da guerra. É muito melhor como filme de guerra straight to the point. E, no balanço entre ambos, fica-se pelo McChicken. ![]()
Posted by: dermot @
12:41 AM |
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