|
Royale With Cheese | ||
|
|
Título: Mystery Train Realizador: Jim Jarmusch Ano: 1989 ![]() Jim Jarmusch é, claramente, um tipo do rock. É um tipo do rock pela forma como se exprime artisticamente, mantendo-se fiel aos seus pontos de vista sem se comprometer perante terceiros, e é um tipo do rock pela forma como o seu cinema está relacionado com a música. E nem sequer falo do seu quase-documentário do Neil Young (olá Year Of The Horse) ou do exercício de estilo cheio de gente do rock famosa (olá Café E Cigarros), falo antes da forma como vasculha a música de Mulatu Astatke, em Flores Partidas, ou colabora com RZA, em Ghost Dog - O Método Do Samurai. Resumidamente, aqui explicam muito melhor o que quero dizer (apesar de sucinto e de todo o esplendor do brasileirês). O Comboio Mistério é o memorial de Jarmusch ao rock'n'roll e o melhor filme do Elvis Presley sem ser sobre Elvis Presley. Ele está lá, como âncora e como elo condutor (seja o seu fantasma, as suas músicas ou, simplesmente, o seu espírito omnipresente em Memphis) de um filme dividido em três histórias, todas passadas no mesmo período de tempo e na mesma cidade, que apesar de nunca se cruzarem, têm um ponto em comum: uma espelunca de hotel, propriedade de (vénia, vénia, vénia) Screamin' Jay Hawkins. Temos então um casal de rockabillies japoneses em interail pelos pontos famosos da história do rock'n'roll, uma italiana a fazer uma escala forçada na cidade e Joe Strummer (vénia) e Steve Buscemi com uma piela, um desgosto amoroso e uma arma carregada. O hotel como ponto comum do filme-mosaico remete, automaticamente, para Quatro Quartos, mas as semelhanças com esse filme são muito mais profundas, principalmente na forma de contar as histórias. Apesar de uma tendência para o drama realista (Jarmusch é o realizador americano mais europeu de sempre), O Comboio Mistério brinca com os estilos cinematográficos, pondo japoneses com profundidade amorosa e inclinação romântica, enquanto são os italianos que vêem fantasmas. Esta espécie de mistura de estilos pouco convencional transforma-se levemente numa comédia, mas onde rimos daquilo que é a estupidez humana. Depois há a outra personagem, que no fundo é a protagonista de O Comboio Mistério: falo da própria cidade de Memphis. Jarmusch mergulha o filme numa cidade-fantasma, que mais não é que uma sombra daquilo que foi nos anos 50, vivendo dos ecos do passado e sobrevivendo das memórias carcomidas pelo tempo. O Comboio Mistério está para Memphis assim como Uma Canção De Amor está para Nova Orleães. E depois, Jarmusch consegue assimilar toda o espírito da cidade. Há quem defenda que para conhecer realmente uma cidade temos que viver lá durante uns tempos e não só visita-la. E é isso que Jarmusch faz em Memphis. Em O Comboio Mistéiro, Jarmusch não filma a cidade, deixa-a antes ser filmada. Não são os planos que enquadram as personagens, são estas que caminhas pela câmara, em simples planos fixos ou lentos travellings reveladores, não há cá espaço para os grandes planos. E fica feito o requiem a Memphis. Além disso, há ainda a banda-sonora, o cameo de Rufus Thomas (vénia), a voz-off de Tom Waits (vénias), as referências a Carl Perkins e as últimas filmagens do edifício da Stax antes de ser demolido. É impossível ver O Comboio Mistério e não ficar com uma estranha vontade romântica de visitar Memphis. Como uma coisa tão simples, pode significar um McRoyal Deluxe tão grande. ![]() Sábado, Novembro 28, 2009 INFILTRADO: Título: Inside Man Realizador: Spike Lee Ano: 2006 ![]() Só há um único realizador no mundo que eu consigo dizer que não gosto. Não, não é o Manoel de Oliveira, é o Spike Lee. É certo que apenas vi um par de filmes dele, mas o meu corpo reage tão fortemente às más vibrações que os seus dvds libertam que eu mal os consigo arrumar na prateleira. Dos poucos que vi não lhes identifico nada demais além de um irritante hábito de tudo rimar com segregação racial e com a posição discriminatória dos afro-americanos nas terras do Tio Sam. Spike Lee é tão aborrecido quanto um judeu que só faça filmes sobre o Holocausto. Em Infiltrado as coisas não são diferentes. Apesar de ser um filme sobre um assalto ao banco, o leitmotiv escondido é - surpresa - a discriminação racial. Tudo porque Christopher Plummer, desta vez, fez negócios com os nazis há 60 anos atrás, recusando tudo o que aprendemos com o seu capitão Von Trapp, em Música No Coração. Mas não é só isso: há um polícia preto (Denzel Washington) suspeito de ter palmado o dinheiro que falta de uma rusga; há um refém arábe que é confundido com um terrorista; há um polícia branco chateado com os marginais porque um preto e um latino lhe deram um tiro... Enfim, no mundo de Spike Lee, tudo serve para falar de racismo e de ser bonzinho para com o próximo. E, em Infiltrado, chega ao cúmulo de mandar fazer um jogo de computador de propósito para alertar para os efeitos nefastos sobre os miúdos dos videojogos e do gangsta-rap, numa cena que parece um institucional encomendado pelo Estado. Por entre esta capa de moralismo paternal, esconde-se então um grande heist movie. Clive Owen é Dalton Russell, uum tipo bastante cool, que planeia o assalto perfeito a um banco: quatro assaltantes vestidos com máscaras e fatos-macaco, vestem os reféns da mesma forma e misturam-se com eles à saída. Para tentar pôr cobro a esta falcatrua está o tal polícia-negociador interpretado por Denzel Washington e a participação secundária do sargento Willem Dafoe. E, como não poderia deixar de ser, há um sub-enredo que nos mostra que afinal aquele assalto a um banco não é bem um assalto a um banco. Lembram-se de Die Hard - A Vingança? O princípio é o mesmo, mas com a Jodie Foster ao barulho. Como realizador de acção, Spike Lee é um mimo, utilizando as ferramentas certas: um protagonista que tem o seu qb de anti-herói (Denzel Washington é todo super smooth, mas por baixo da capa esconde um bad-muthafucka), cujo pouco ortodoxismo pela aceitação das forças da lei fazem lembrar Serpico; um plano quase perfeito e que, sem tentar a surpresa do twist final, consegue fazer uma gracinha; e uma estilização de todo o filme que o aproximam dos thrillers urbanos de Michael Mann, por exemplo. O problema é que tem toda aquela necessidade de ser moralmente correcto. E isso leva-o a sofrer do mesmo síndrome que sofre Resgate: um filme bom, mas que não resiste ao final feliz, arrastando-se por mais meia-hora de sofrimento desnecessário, que só servem para o estragar. É que Infiltrado vive de toda a sua ideia do assalto e o facto de ele correr bem é o que dá piada ao filme; e a tentação de Spike Lee em contar os pormenores e pôr tudo a pratos limpos estendem-no para lá do razoável. Mas uma coisa é certa: fossem todos os filmes de Spike Lee como este McBacon e eu até considerava repensar a minha opinião sobre ele. ![]() Quinta-feira, Novembro 26, 2009 O DELATOR! Título: The Informant! Realizador: Steven Soderbergh Ano: 2009 ![]() Steven Soderbergh devia ser mais falado, mais ovacionado, mais estudado, mais tudo. Um realizador que consegue fazer tanta coisa, sempre de forma tão vivida e experimentando técnicas novas merece tudo de bom. Infelizmente, falta-lhe um grande filme na sua filmografia. Nestas coisas da genialidade não basta ser sempre muito bom, há quer ser, pelo menos uma vez, mesmo muito bom. É uma introdução esquisita, eu sei, mas às vezes parece que nos esquecemos de um realizador que nos consegue dar com igual interesse e atenção um remake de um heist movie do frat pack, uma interpretação de um filme do Tarkovsky ou uma incursão experimental pelo HD. O Delator! é uma história baseada em factos verídicos sobre um (aparente) pacato norte-americano dos subúrbios (um Matt Damon transfigurado, de bigode e gordalhucho) que trabalha numa grande empresa de milho. Tudo parece muito inofensivo, mas o que pouca gente sabe é que o milho faz girar muita coisa no mundo. E, por isso, está propenso à corrupção, à intriga e aos grandes esquemas internacionais. Mergulhamos então no thriller corporativista internacional (e cosmopolita). Nada que nunca tivessemos visto em filmes como A Firma ou Sol Nascente, não é? Não, não é! Porque Soderbergh filma-o como se fosse um melodrama retirado das entranhas dos Estados Unidos. A história até se pode passar nos anos 90, mas tudo é colorido e saturado, como os seriados dos anos 50. E cada personagem tem a sua própria theme song, alegre e feliz. É como se Douglas Sirk adaptasse um romance do Michael Crichton. Mas o grande dínamo de O Delator! é o próprio Matt Damon, especialmente porque é uma personagem única. Sem querer desvendar muito, podemos referir que é um aldrabão compulsivo. Mas não como o expansivo Leonardo DiCaprio, de Apanha-me Se Puderes, é mais uma mistura do Edward Norton, de A Raíz Do Medo, e o Jim Carrey, de O Mentiroso Compulsivo. E como o exterior não corresponde ao interior, a ideia que lhe tiramos ao início é completamente distinta da que o decorrer da história vai revelando. Mas O Delator! não é apenas um filme de um actor. Por exemplo, a forma como Steven Soderbergh desenrola o fio da meada vai funcionando como pequenos twists, que nos deixam sempre uma surpresa ao virar da esquina. Além disso, o filme permite-nos mergulhar na cabeça do próprio Damon, que faz de narrador para alguns pensamentos pontuais, entre a trivialidade e a espiritualidade de um Woody Allen e um Quentin Tarantino. No entanto, à medida que nos vamos dando conta da complexidade da intriga, apercebemo-nos que aqueles pensamentos à Confúcio não são inocentes e todos eles dão uma importante e simbólica pista para o que vamos ver a seguir. O Delator! podia ser o novo O Informador, mas Soderbergh inunda este thriller urbano de humor e pequenos tiques do cinema cool de espionagem dos anos 60 (onde nem sequer falta o cartaz à Saul Bass), aproveitando-se à grande do tour de force de Matt Damon. No final, passam-se quase três horas da mais aborrecida intriga internacional, com japoneses, europeus e americanos a combinarem o preço do trigo, mas nós nem damos por isso. Ficamos com a barriga cheia e o McRoyal Deluxe arruina-nos a dieta. Se o caso Freeport fosse contado assim nos Telejornais aposto que ainda ninguém estava farto de ouvir falar do Sócrates, do Charles Smith, do segredo de justiça ou das escutas. ![]()
Posted by: dermot @
10:57 AM Quarta-feira, Novembro 25, 2009 Título: This Is It Realizador: Kenny Ortega Ano: 2009 ![]() Quando o Michael Jackson morreu aqui há uns meses, de forma (mais ou menos) inesperada, criou-se uma onda mediática só comparada, nas últimas décadas, com a da princesa Diana. Claro que toda a gente começou logo a rentabilizar o facto, seja o pai Jackson a explorar os netos, sejam os chineses a venderem merchandising falso nas suas lojas. O que interessa é encher o bolsos. E, por isso, quase que consigo ver os responsáveis da Sony a escravizarem uma equipa de técnicos no estúdio deles e a só os deixarem sair depois de montarem em tempo recorde o documentário This Is It, para aproveitarem o balanço antes que se esgote. This Is It reconstitui os ensaios da derradeira digressão que Jackson andava a planear - seriam 50 concertos em Londres, já todos eles esgotados há bastante tempo e que marcariam o regresso do rei da pop aos palcos uma década depois. E seria a sua derradeira apresentação ao vivo. Tudo isto é descrito numa mensagem inicial, que passa em scroll up e em que só falta começar por a long time ago in a galaxy far, far away. A mim não me espanta que as pessoas tenham ocorrido em massa para ver This Is It. Desde que toda a gente foi ver A Paixão De Cristo e o Titanic mesmo sabendo que ele ia ser pregado a dois pedaços de pau e que o barco ia afundar, que eu já não me admiro de as pessoas não se importem de irem ver filmes em que sabem como acaba. Por isso, caso tenha vivido num buraco nos últimos tempos aqui vai um spoiler: Michael Jackson morre no fim. E até lá, o que acontece? Não muito, apenas (muita) cantoria e dançaria. Se estava à espera de ver um documentário sobre o que seria a última digressão de Michael Jackson, uma espécie de por trás dos bastidores, então pode tirar o cavalinho da chuva. This Is It limita-se a ser uma espécie de filme-concerto do check sound, com uma sequência intervalada de todos os grandes êxitos do rei da pop: dos clássicos dos Jackson 5 (I Want You Back e Stop! The Love You Save) aos clássicos a solo (Bily Jean ou Thriller), passando pelo injustamente subvalorizado The Way You Make Me Feel ou pelo (super)irritante Earth Song. Com This Is It ficamos com uma ideia do que teria sido aquela digressão, é certo. E podia ter sigo algo gigantesco: há pirotecnia e elevadores, arraiais de dançarinos e dançarinas, solos à guitar-hero, filmes épicos nos ecrãs gigantes e coreografias megalómanas. Mas... e o resto? Há umas espécies de entrevistas aos restantes intervenientes, mas que parecem as introduções dos Ídolos, em que eles apresentam-se e dizem frases de conveniência e há umas entrevistas de início aos dançarinos que têm fake escrito por todo o lado. E quanto aos bastidores e aos ensaios? Meia dúzia de relampejos, que pouco ou nada dizem. A excepção é com The Way You Make Me Feel, que é claramente a melhor parte do filme, em que vemos Jackson a discutir a música com a banda, a dar dicas e ouvir sugestões. Com This Is It sentamo-nos e limitamo-nos a ver hora e meia de muita música (e muita dela boa, é um facto), de um entertainer de excepção. De cinema tem muito pouco, mas como objecto para os admiradores deve valer bastante. È por isso que só vai estar nos cinemas durante quinze dias. Porque senão abria-se um precedente e tudo o que é dvd musical tinha que começar a passar nas salas de cinema. Evidentemente, This Is It não é um filme convencional, logo não recebe uma cotação convencional: se for um fã acérrimo de Jackson, um big thumbs up; caso seja um apreciador ferrenho de cinema, então um thumbs down. PS - não sei se aconteceu a vocês, mas na sala de cinema onde fui aconteceu-me algo nunca visto. Quando acabou o filme, as senhoras da bilhetera puseram-se à frente da porta e não deixaram a malta sair até que víssemos a cena escondida final. E por pouco que não furei os olhos com um pau! Por isso, deixo o alerta: se vos obrigarem a ficar até ao fim, não fiquem e corram como o vento. Se isso não for mesmo possível, então tapem os olhos e fiquem quietinhos no lugar. Caso contrário, terão que ver um clip que parece uma publicidade ridícula a Bollywood com mau CGI. ![]() Terça-feira, Novembro 24, 2009 WATCHMEN - OS GUARDIÕES: Título: Watchmen Realizador: Zack Snyder Ano: 2009 ![]() Alan Moore já foi várias vezes mencionados aqui neste tasco cinéfilo, a quem eu costumo chamar de Maradona da banda-desenhada. Apesar de ser um tipo estranho como o raio que o parta, Moore revolucionou o mundo da BD, tornando-o mais adulto e transformando os super-heróis sem ser humanos, com profundidade metafísica. As suas graphic novels (designação que forçosamente surgiu para apelidar esses verdadeiros romances aos quadradinhos) têm sido adaptadas ao cinema que nem castanhas quentes no Outuno, mas o seu ex-libris, Watchmen, esteve anos e anos num impasse, passando de mão em mão e trocando de argumento vezes sem conta. Até que Terry Gilliam, habituado a demandas intermináveis destas, rematou: o livro era impossível de adaptar em filme, apenas em mini-série televisiva, tal era a sua complexidade. Até que surgiu em cena o jovem Zack Snyder, que, depois de ter adaptado com (grande) sucesso a graphic novel de Frank Miller, 300, acolheu o deafio de filmar Watchmen - Os Guardiões. Snyder é um geek como J.J. Abrams, que sabe conciliar o entretenimento e a máquina de pipocas de Hollywood com os universos muito específicos da banda-desenhada, dos videojogos e da ficção-científica. Basicamente, consegue agradar ao grande público e às minorias mais exigentes. E, para fazer Watchmen - Os Guardiões, seguiu o mesmo truque de 300 - aproveitar os storyboards e manter-se o mais fiél possível ao livro. Devia ser tão fácil adaptar banda-desenhada ao cinema. Tudo está já condensado em quadradinhos - o ritmo, as personagens, os diálogos... Devia ser só fazer uma espécie de exercício de bricolage. E Snyder prova que isso é fácil. Basta ver a cena de abertura de Watchmen - Os Guardiões, que abre a cem à hora, com um duelo mano a mano entre dois super-heróis, o Comediante (genial Jeffrey Dean Morgan, a fazer lembrar Robert Downey Jr.) e um mascarado incógnito, tirado a papel químico do livro, com umas câmaras-lentas muito cool e o Nat King Cole a cantar o Unforgettable por cima. De facto, cena inesquecível. E o espectador fica ganho para o resto do filme, que é longo. De facto, apesar de ser um filme de super-heróis, Watchmen - Os Guardiões não é um filme fácil. Há porrada de meia-noite, tipos que voam, gajos alterados radiactivamente e miúdas giras em fatos apertados de licra, mas há uma forte componente existencial. No fundo, parece um noir: um narrador atormentado, Rorschach (Jackie Earle Haley), que vai unindo as pontas, várias personagens moralmente dúbias (apesar de serem super-heróis) e um mundo em ocaso como pano de fundo, simbolizando uma época de transição, reflexo daquelas personagens e reflexo do que Watchmen fez pelo mundo da BD. Tal como V De Vingança, Watchmen - Os Guardiões passa-se numa realidade do "e se?". E se não tivesse havido caso Watergate e Nixon continuasse à frente dos destinos dos Estados Unidos? E se União Soviética continuasse unida? E se, e se? Estamos então nos anos 80, a Guerra Fria está no auge, a terceira guerra mundial está à porta e a ameaça atómica é bem real. O mundo está em colapso, assim como um grupo de antigos vigilantes, uma segunda geração de super-heróis que defenderam a pátria no Vietname, mas que agora foram proibidos por Nixon. São então homens num limbo existencial, enquanto vêem as suas vidas desfragmentarem-se, ao mesmo tempo que o mundo se desfragmenta ao seu redor. É uma época de mudança. E não é por acaso que o genérico (genial, demasiado genial para não o dizer) se faz ao som de The Times They Are A-Changin', de Bob Dylan, numa montagem que faz o resumo de duas décadas daquela realidade alternativa: desde os anos 50 e o surgir dos primeiros super-heróis (com toda a imagética das pulps daquela altura) até ao apogeu e queda da nova geração de super-heróis, em plena década de 80. E há heróis para todos os gostos: dos que voam, dos que dizem piadas, dos que são quase imortais, dos que têm engenhocas que nunca mais acabam. Mas todos eles têm um dilema moral e é preciso uma catarse final para que eles descansem, o mundo se liberte e o filme termine. Watchmen - Os Guardiões é assim esse ritual de transição, numa realidade alternativa mas que podia ser real e ecoa a actualidade por todos os lados. É sobre tipos que voam e têm força sobre-humana, mas são mais parecidos connosco do que os filmes do Pedro Costa. E apanha-nos desprevenidos, por entre uma paleta de condimentos que não estavamos à espera, misturando o suspense, a acção e a intriga misteriosa de um filme de acção com o drama, a introspecção colectiva e a racionalidade do chamado cinema sério. Alan Moore tem renegado todos os filmes que têm sido feitos a partir de obras suas (na maior parte dos casos com razão), mas aposto que se visse Watchmen - Os Guardiões ia achar que, sim senhor, finalmente alguém quase lhe tinha feito justiça. E agora, caso ainda não tenha lido o livro, espero que este texto e o Royale With Cheese final o façam ir comprar. ![]() Segunda-feira, Novembro 23, 2009 TAKE - CINEMA MAGAZINE: ![]() Página Oficial
Posted by: dermot @
10:31 AM Quinta-feira, Novembro 19, 2009 2012: Título: 2012 Realizador: Roland Emmerich Ano: 2009 ![]() Há dias passei os olhos pela lista de filmes estreados em Portugal durante este ano e fiquei chocado com a quantidade ínfima dos que vi, comparativamente com os anos anteriores. É a maldita vida profissional... quem me mandou crescer? Por isso, fico espantado comigo mesmo quando, tendo em conta essa falta de tempo, consigo arranjar um tempinho para ir ao cinema e escolho ir ver bobagens como o 2012. Quanto a vocês não sei, mas eu pensava que os filmes-catástrofe já estavam mortos e enterrados. Roland Emmerich criou-os em Dia Da Independência, matou-os em Godzilla e enterrou-os em O Dia Depois De Amanhã. É o verdadeiro homem da festa, que lança os foguetes e apanha as canas. Por isso, se há alguém que tinha legitimidade para ressuscitar o género era ele. O pretexto desta vez foi o calendário maia, que alguns defendem profetizar o fim do mundo em 2012, depois de um alinhamento cósmico qualquer. No entanto, vê-se que já nem Emmerich tem paciência para isto. Em 2012 não há espaço para as mensagens paternalistas a alertar para o aquecimento global ou as tretas patrióticas pró-americanas (se bem que, hoje em dia, é inevitável pelo menos uma evocação ao 11 de Setembro – aqui com os americanos, liderados pelo seu presidente, a ficarem cobertos de uma nuvem de cinza, qual poeira do World Trade Center). Em 2012 há a destruição do mundo. Ponto. Grande e gigantesca, com muita masturbação digital, que é para isso que as pessoas vão agora aos cinemas. Emmerich recicla a fórmula que já tinha usado nos filmes anteriores: uma família fragmentada entre pai, mãe, os filhos e o marido novo da mãe; um cientista bom coração que descobre antecipadamente que o mundo vai acabar; o seu superior, mas com mau feitio; o presidente dos Estados Unidos; e uns representantes das minorias étnicas. Todos relacionados entre si pelas razões menos plausíveis possíveis, a fugirem da catástrofe final até ao fim apaziguador, prontos para um recomeçar de novo. Exacto, é como uma sequela do Dia Da Independência. Só que desta vez o protagonista é branco e o cientista preto. E, adivinhem: o presidente dos Estados Unidos também é preto. Que surpresa, um presidente americano preto, onde é que já vi isto? A novidade é não ser o Morgan Freeman. Mas Freeman já foi promovido a Deus. Por isso, convocou-se Danny Glover, que quanto mais velho mais sem chama fica. Quanto ao protagonista, John Cusack, tem um problema: é um daqueles actores que toda a gente conhece, já vimos centenas de filmes com ele, mas quando tentamos pensar qual o seu melhor trabalho não conseguimos, porque não tem nada digno de realce. E não, o Alta Fidelidade só se destaca num público muito específico de geeks e nerds da música e da cultura popular. Não sou daqueles pseudo-intelectuais que vai ver um filme destes e depois vem de lá indignado porque nem sequer houve uma abordagem metafísica dos receios do protagonista perante a morte, tendo em conta os recalcamentos da sua infância oprimida pela mãe autoritária. Quando vou ver um filme do Emmerich sei o que me espera. Também não estou a criticar aquelas gaffes geográficas ou o facto de haver sempre rede de telemóvel em pleno holocausto, porque sei que tudo vale neste tipo de entretenimento brainless. Além disso, há que confessar que a primeira meia-hora é extremamente agradável: as personagens desenvolem-se escorreitamente, o mundo começa a desaparecer e os actores a fugir, por entre destruição maciça e efeitos especiais megalómanos. No entanto, o que é demais cansa. E cansa tanta fugida, de limusina, caravana, avião, avioneta, antonov, a pé, a correr... E cansa tanto prédio a cair, tanta continente a afundar, tanto maremoto, tanto tremor de terra... E cansa que, de dez em dez minutos, as personages párem para chorar enquanto outra personagem secundária escapa por um triz à morte. E tudo isto, que eu contava em quinze minutos, demora quase três horas a acontecer. E no fim morrem as personagens moralmente más e os bons sobrevivem todos (e fazem as pazes ou acasalam). Há ainda aquela divertida questão em que, num filme em que a raça humana é praticamente aniquilada, uma das cenas mais dramáticas é quando um cão - nem chega a ser um cão, é um chiuahua - tem que atravessar um cabo de aço para chegar até à dona. Também é divertido as caricaturas do Schwarzenneger ou da raínha de Inglaterra, assim como as referências forçadas a tragédias que facilmente identificamos, como a morte da princesa Diana. Tudo fait-divers num filme inóquo de tanta fantochada e abuso de clichets. Lá vão três horas da minha vida e cinco euros que nunca vou recuperar e que davam para comprar um Double Cheeseburger e ter jantar condigno. ![]() Quarta-feira, Novembro 18, 2009 CHÉRI: Título: Chéri Realizador: Stephen Frears Ano: 2009 ![]() Desde que iniciei este imodesto tasco cinéfilo que sempre quis fazer uma lista com as melhores prostitutas do cinema, algo que, em cinco anos, nunca tive pachorra para fazer, tantos os filmes por onde escolher. Por isso, enquanto continuo por concretizar este objectivo, vou escrever sobre a mais recente prostituta cinematográfica de realce. Falo de Michelle Pfeiffer e do seu novo filme, Chéri. São muitas as actrizes conceituadas que já fizeram de pegas no cinema, de Marlene Dietrich a Elizabeth Taylor. Se estivesse aqui o Freud, dizia já que esse é o inconsciente da mulher ao trazer ao de cima o seu desejo secreto e recalcado de serem pegas pelo menos uma vez na vida. Pode-se concordar ou não com isso, mas o que não se consegue é ficar indiferente perante o regresso (a sério) de Michelle Pfeiffer (que continua em grande forma física, realce-se) so grande ecrã. Mesmo que ainda um pouco distante do melhor que já a vimos fazer. Michelle Pfeiffer é assim Lea de Lonval, uma das belas prostitutas da alta-roda francesa da belle époque, uma cortesã especialista em desposar homens ricos durante o tempo suficiente para lhes sugar o máximo de dinheiro possível e depois saltar para outro amante. O jogo só tem uma regra: não se apaixonar nunca – deixar os sentimentos de fora é fundamental. Pfeiffer vai então “tomar conta” do filho rico e bem parecido de outra colega de profissão: Chéri (Rupert Friend). Ambos são solitários, cada um à sua maneira e, em conjunto, vão-se complementar como as duas faces da mesma moeda. No entanto, como não estão habituados a ter aquela coisa que as pessoas normais chamam de sentimentos, os dois vão enveredar numa espécie de jogo cruel e trágico de ciúmes, que faz a guerra dos sexos de A Guerra Das Rosas parecer uma brincadeirinha de adolescentes com as hormonas aos saltos. Stephen Frears gosta destes filmes de época e, desta vez, joga-se à cosmopolita e barroca França do século XIX com o mesmo protocolo de outros seus filmes anteriores (A Rainha, por exemplo). No entanto, a banda-sonora e o seu tom pouco sério no papel de narrador dá-lhe uma aura descomprometida. Enquanto Sofia Coppola fez de Maria Antonieta uma tragédia punk, Stephen Frears faz de Chéri uma tragédia algures entre Eduardo Mãos-de-tesoura e o kitsch de 8 Mulheres. Para além da batalha psicológica entre os protagonistas, em Chéri interessa também muito a abordagem pouco convencional de um universo que estamos habituados a ver de outro prisma no cinema. Nos filmes sobre prostituição, o costume são as pegas conseguirem ultrapassar essa condição e estabelecerem-se na vida como princesas (uma variação da história da Gata Borralheira, vide Pretty Woman - Um Sonho De Mulher), em vez de pegas convictas e com um papel social bem vincado. Infelizmente, Frears não resiste a alguns tiques de romance televisivo. E nem falo da presença do narrador (a eterna discussão se o narrador é ou não desnecessário), mas antes de um flashback aqui ou um gesto de cabeça mais revelador a rematar uma cena acolá. Menção fugaz ainda à aparição da saudosa Anita Pallenberg, a modelo e actriz wannabe que se tornou conhecida nos loucos anos 60 por ter andado com três Rolling Stones (You Got The Silver, Wild Horses e, alegadamente, Angie foram temas escritos sobre si). Menção já não tanto fugaz é ao menu McBacon, refeição que serve para qualificar esta crítica opinativa em relação a Chéri. ![]() Sábado, Novembro 14, 2009 VESTIDA PARA MATAR: Título: Dressed To Kill Realizador: Brian De Palma Ano: 1980 ![]() Uma das especialidades de Brian De Palma, realizador mui respeitado aqui no tasco, é o filme de gangsters. No entanto, se há coisa que o norte-americano sempre gostou foi de nunca ficar confinado a um estilo. Por isso, não é de espantar que, na década de 80, tenha experimentado o thriller-erótico por duas vezes (primeiro este Vestida Para Matar e depois Testemunha De Um Crime). Até porque é um estilo que lhe permite usar as duas ferramentas onde é exímio: o (neo)noir e o suspense. A abertura de Vestida Para Matar é um mimo. Após passar o genérico, um travelling em câmara-lenta (para além de mestre do suspense, De Palma é também o rei dos travellings) leva-nos de um quarto para uma casa de banho, com uma luz recortada e uma espécie de névoa na lente, a evocar de alguma forma o patine da época dourada de Hollywood. Nela está um homem a barbear-se e a escultural Angie Dickinson (em grande forma física, diga-se) em pleno banho. O travelling continua e entra no poliban com Angie, que enquanto observa o marido, vai-se acariciando até acabar em alta masturbação, à medida que a banda-sonora de Pino Donaggio ganha volume, com uns gemidos dissimulados entre os violinos. A cena é fantástica e dá-nos logo a perceber ao que vamos: Angie Dickinson está carente e a atitude passiva do seu marido enquanto fazem amor não ajuda. Por isso, como o psicólogo (Michael Caine) não a ajuda, Angie está desesperada por contacto humano. Por isso, mal um tipo num museu lhe dá um olhar mais insinuador, a sua líbido dispara a mil (em mais uma cena brutalmente bem filmada, em sete minutos de ausência de diálogo, apenas com olhares, movimentos de câmara e, lá está, travellings), acabando por ser comida à bruta num taxi e, logo a seguir, no apartamento desse desconhecido. A coisa corre nestes moldes até que Brian De Palma arma-se em Alfred Hitchcock e mata a protagonista a meio do filme. Afinal, a estrela aqui é Michael Caine, um psicólogo a quem um paciente transexual pretende tramar: rouba-lhe a navalha da barba e decide matar as suas pacientes até que ele dê autorização para a sua mudança de sexo. Nisto entra em cena mais uma candidata a vítima, a prostituta Nancy Allen, o filho metade geek metade MacGyver de Angie Dickinson, Keith Gordon (assustadoramente parecido ao puto que faz de Harry Potter), e um polícia fanfarrão, arrogante e com a mania que é engraçado, um muito novinho Dennis Franz. A sinopse não é famosa: um misterioso transexual que mata senhoras até ao twist final tremendamente previsível e uma tipa que o tenta apanhar com a ajuda de um miúdo. Já vi episódios de Uma Aventura mais imaginativos. No entanto, a genialidade de Vestida Para Matar está em Brian De Palma, que mostra como um realizador pode fazer um filme, para o bem e para o mal, seja na forma como filma, como manipula o suspense, ou como não tem medo de experimentar, utilizando aqui aquela sua imagem de marca que são os split-screens, que servem tanto para flashbacks como para a história decorrer simultaneamente em dois sítios diferentes. No fim, existe ainda um momento wikipédia, em que os intervenientes explicam o que é ser transexual, que dá ao filme uma aura camp, o que pode ser facilmente confundida com mau filme (talvez isso tenha valido a Vestida Para Matar uma nomeação aos Razzies), algo que me leva a pensar que Brian De Palma tem assuntos mal resolvidos com a sua sexualidade. E existe ainda um travelling a acompanhar uma enfermeira boazona que, se não foi ali que Tarantino foi beber para a cena semelhante de Darryl Hannah no Kill Bill 2, então é uma grande coincidência. Vestida Para Matar é um verdadeiro filme de culto, daqueles que se amam ou odeiam com igual facilidade, na ordem do Le Big Mac. ![]() DIAS DE FUTEBOL: Título: Días De Fútbol Realizador: David Serrano Ano: 2003 ![]() O futebol é um tema complicado no cinema. Apesar de continuar a ser explorado, de forma mais ou menos regular, as tentativas continuam a sair quase todas furadas, excepcionando alguns honrados esforços. No entanto, este ano até nem nos podemos queixar, com dois filmes de futebol que parecem bem interessantes (alguém mencionou Maldito United ou Matem O Árbitro?). Mas como ainda não vi nenhum dos dois, decidi pegar em Dias De Futebol, que estava aqui na pilha de dvds na minha secretária. E se, por um lado, me lembrava de ler alguma coisa vagamente positiva sobre ele quando estreou, por outro, o facto de ter vindo como oferta num jornal desportivo não me dava muitas expectativas. Dias De Futebol é uma comédia ligeira e descomprometida, na tradição do cinema espanhol de humor, com muita identidade e paixão na guelra. Dias De Futebol é um filme sobre a vida de sete amigos, todos eles espertalhões e fura-vidas às suas maneiras e todos eles a braços com uma disfuncionalidade qualquer, desde o tipo que está há dez anos para acabar o curso de Direito e que se masturba a telefonar para as linhas de informação dos bancos, até ao tipo com problemas de comunicação com a esposa, grávida e ávida por voltar a ter sexo (e uma relação a sério). De entre este grupo destacam-se os dois líderes do filme: Antonio (Ernesto Alterio), um rufia com problemas em controlar o seu mau feitio, que sai da prisão com umas teorias manhosas de psicologia; e Jorge (Alberto San Juan), um executivo com vida de cão e um desgosto de amor. É Antonio o dínamo do filme, apesar de Dias De Futebol viver de uma forte personagem colectiva, e é ele que faz as pontes entre todas as pontas desse grupo. E é ele que decide ajudar os seus amigos com uma sessão muito própria de psicanálise, que envolve a participação num torneio de futebol de sete. E esses jogos vão ser o reflexo da evolução psicológica daquela gente, em que começam por ser goleados nos primeiros jogos e, no fim, apesar de continuarem a perder, já vão arranjando forças para subornar os árbitros e contornarem o sistema, ou não fossem todos eles espertalhões (dignos de qualquer Filme Da Treta). Esta é a parte divertida do filme, com diálogos escorreitos, que fazem lembrar os chick flicks para gajos de Judd Apatow e o caos de Woody Allen, e com uma vertente screwball cheia de piadas sexuais (ou não fosse este um filme para gajos, com futebol e tipas giras), com alguns gags a lembrar Doidos Por Mary. A outra parte do filme é a de Jorge, que traz a mensagem moral e o tom mais sério a Dias De Futebol, com o seu dilema amoroso e outras questões metafísicas. O balanço é razoavelmente equilibrado, apesar de algumas coisas não coserem bem entre si - como, por exemplo, aquela necessidade do realizador dar uma componente romântica a Antonio, com uma relação amorosa que cai do céu por não ter unhas. No entanto, por entre meia dúzia de cenas bem conseguidas, um argumento esforçado e um par de inspiradas situações, Dias De Futebol não ofende ninguém. E quanto ao seu valor nutricional, estamos a falar de algo na ordem do menu McChicken. ![]() Terça-feira, Novembro 10, 2009 ASSASSINOS NATOS: Título: Natural Born Killers Realizador: Oliver Stone Ano: 1994 ![]() Assassinos Natos é um daqueles filmes cuja primeira visualização é uma experiência sem igual. Assistir pela primeira vez a Assassinos Natos é como assitir pela primeira vez a uma filme do Godard, onde, de repente, novos caminhos são de novo abertos e todas as convensões cinematográficas tomadas até então como certas e garantidas são estilhaçadas e caem por terra. A partir daí o filme até pode não ser grande coisa e as restantes visualizações podem ser sempre a descer, mas pelo menos o primeiro impacto é ímpar e irrepetitível. Para começar, um pouco de história: depois de Amor À Queima-roupa, Quentin Tarantino escreveu o argumento deste Assassinos Natos. Contudo, depois de ver o que Oliver Stone lhe fez, Tarantino renegou completamente a criação. Aliás, a melhor descrição do filme é sua: é como a Disneylândia nos ácidos! Quanto a Stone, começou por tentar fazer um filme de acção daqueles de que Arnold Schwarzenegger se orgulhasse de ter feito, mas não resistiu à tentação de se imiscuir na identidade norte-americana mais uma vez. A base de Assassinos Natos é uma fábula romântica sobre a mais pura história amorosa de um casal de psicopatas homicidas, Mickey (Woody Harrelson) e Mallory (Juliette Lewis), de regresso à forma mais primitiva de ser e sentir do ser humano, em completa errância pela route 66(6). Com contornos surreais e devidamente malignos (olá David Lynch perturbador, de Veludo Azul), Assassinos Natos é um banho de sangue em road movie que emula, primeiro, Os Noivos Sagrentos (aliás, em ambos as personagens são baseadas nos serial killers Charles Starkweather e Caril Fugate), e depois Coração Selvagem (olá novamente David Lynch). No entanto, aquilo que pode ser facilmente confundido com uma apologia à violência, é muito mais um Dr. Estranho Amor do que um Laranja Mecânica. Ou seja, uma farsa subversiva, neste caso ao poder dos media, à massificação da informação e ao estrelato fugaz da televisão. Tudo isto, dito assim, até parece ser um filme normal. O pior é depois, em que Assassinos Natos é verdadeiramente retalhado. Começa logo por ser filmado com planos que nunca estão quietos e com enquadramentos igualmente esgrouviados. Depois, Stone edita a mesma cena duas vezes e cola-as uma por cima da outra, muda as cores, mete a preto e branco, satura os verdes ou usa filtros manhosos. Além disso, usa constantemente projecções nas fachadas dos prédios, nas janelas e nas paredes, que surgem como um símbolo poderosíssimo à omnipresença da televisão, objecto comum em qualquer distopia que se preze. Tudo isto misturado com imagens de filmes antigos, frames de sonhos surreais à la Jodorowsky, cenas de sexo animal da BBC ou anúncios à Coca-cola. Evidentemente, isto produz o tal efeito de Disneylândia nos ácidos. Por um lado faz lembrar um pouco a demência das drogas de Delírio Em Las Vegas - é sempre curioso ver Robert Downey Jr. em filmes que fazem apologia às drogas -, mas com uma história coerente, uma vez que é orquestrada por trás a tal farsa ao poder dos media. Claro que a parte mais interessante é o descontrolo homicida do casal Mickey e Mallory, potenciado pelos truques de Oliver Stone (que podem levar ao enjoo se não se habituar a eles), numa espécie de Bonnie e Clyde da geração fast food, com Woody Harrelson a descolar-se automaticamente do seu papel em Cheers, Aquele Bar, e com Juliette Lewis a fazer o que sabe fazer melhor: gaja-trash, qual Iggy Pop de saias. Concluindo: o primeiro impacto de Assassinos Natos é avassalador e vale um Royale With Cheese de caras. Depois, das duas uma: ou aquela espécie de cinema em movimento o seduz e continua a venerar o filme ou habitua-se e começa a ficar cansado de tanto artifício desnecessário, perdendo a cada visualização o interesse pelo filme. Depois, há uma última opção: analisar Assassinos Natos sem o fogo-de-artífico. E aí, não é nada de especial, apenas um McChicken (nos dias mais simpáticos). ![]()
Posted by: dermot @
11:10 PM |
![]()
COTAÇÃO:
ARE YOU TALKING TO ME:
CRÍTICAS:
ENTREVISTAS:
TOPES:
BAÚ DO TRASH:
ROYALE WITH CHEESE APRESENTA:
FILMES A VER ANTES DE MORRER:
UMA CURTA POR DIA NÃO SABE O BEM QUE LHE FAZIA:
AS MELHORES PIORES CENAS DE SEMPRE:
CLUBE DE CINEMA DE SETÚBAL:
FESTIVAIS:
BLOCKBUSTERS: |