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Royale With Cheese | ||
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ALBERT, O GORDO:
Título: Fat Albert Realizador: Joel Zwick Ano: 2004 ![]() Às vezes assusto-me comigo próprio. Depois de uma semana e tal sem tempo para me coçar, dou por mim com um tepinho livre para relaxar. Evidentemente, decidi ir ver um filme. E não é que, do molho de dvds comprados recentemente que estão aqui a apanhar pó em cima da secretária (Voando Sobre Um Ninho De Cucos, Vestida Para Matar ou Assassinos Natos, só para citar os primeiros da pilha), escolho uma coisa chamada Albert, O Gordo, que deve ter aqui vindo parar em alguma compra por atacado. Mas isto faz algum sentido? Obviamente que também não me pus a ver o filme, assim se mais nem menos. Preparei-me para o que podia dali vir e fui buscar um pau para furar os olhos, se necessário. Homem prevenido vale por dois. É que, ao olhar para a contracapa da caixa do filme, percebi que a minha noite tinha tudo para correr mal. Albert, O Gordo é a adaptação cinematográfica de uns desenhos-animados criados por Billy Cosby, em que a gangue benfeitora de Fat Albert - um tipo gordo que ajuda toda a gente que tem problemas - atravessa a televisão para o mundo real para ajudar a Dania Ramirez, a Callisto dos X-men 3 - O Confronto Final, e a sua irmã (Kyla Pratt). Urge aqui fazer uma pausa para falar de Billy Cosby. Se ainda se lembram do Cosby Show, que dava nos primórdios da SIC (ou seria da TVI?), ou se costumam ver as paródias regulares que o Family Guy lhe faz, podem saltar a leitura deste parágrafo. Caso contrário, deixem-me explicar-lhes que o Billy Cosby é o representante para toda a famíliada comédia afro-americana. Um Richard Pryor que não diz asneiras e que as troca por caretas, muitas caretas, todas elas dignas de uns Malucos Do Riso. Comparando com a realidade portuguesa, se o Richard Pryor é o Fernando Rocha (pelas asneiras que diz, não pela capacidade humorística), então Billy Cosby é o Badaró. Não podemos então esperar mais de Albert, O Gordo do que um filme juvenil. O problema é que, se vem da cabeça do Blly Cosby, é porque é mais infantil do que juvenil. Todas as oportunidades são boas para dizer não às drogas e louvar os princípios da amizade e do companheirismo. O problema é que o filme parte do pressuposto que todas as crianças, para além de ingénuas, são burras, e vê-se tentado a explicar todas as suas próprias piadas, que já são orientadas para putos com 5 anos - mais explícito que isso era impossível! Além disso, tenho um problema com o Fat Albert. Que personagem mais irritante! Arrogante e com a mania que sabe mais que os outros, sempre a dizer "vou-te ajudar e não saio daqui até te ajudar". Mas quem raio é aquele puto gordo para vir dar-me ajuda? Se queres mesmo ajudar, não estavas sempre a repetir a mais irritante catchfrase de sempre - hey, hey, hey - que: a) não tem piada b) é irritante c) não tem piada e) é irritante. Para filme juvenil, Albert, O Gordo até tem o ritmo certo, é colorido e ruidoso. No entanto, para um filme de pretos para pretos, que devia ser o Blues Brothers - O Dueto Da Corda do hip-hop, ter só a música do genérico repetida até à exaustão em ligeiras variações é uma desilusão. Mas estamos a falar de um filme do Cosby Show, estar à espera de mais é ser demasiado optimista. Um Happy Meal não é nada mau, digo-vos já. ![]()
Posted by: dermot @
11:34 AM Quinta-feira, Outubro 22, 2009 TOP 5: Há uns dias atrás, estava eu a discutir bandas-sonoras com a Jubylee na página do Royale With Cheese no Facebook (que, afinal, sempre serve para alguma coisa), quando disse que o Ennio Morricone era o Pelé das bandas-sonoras. Não é novidade eu dizer isso e, aliás, aposto que a maioria das pessoas concorda comigo: é senso comum concordar com a qualidade do maestro italiano na feitura de bandas-sonoras. No entanto, nós dizemos isto quase da boca para fora, uma vez que o homem tem mais de 500 filmes e nós não conhecemos nem metade (metade? nem um terço sequer). Pois bem, o Royale With Cheese decidiu dar uma ajudinha com o seu TOP 5 DAS MÚSICAS DE ENNIO MORRICONE (o que é manifestamente pouco, mas não estou com paciência nem tempo para elaborar uma lista mais longa): Main Theme, de Veio Do Outro Mundo (1982) ![]() Sim, eu confesso. Esta não é um dos melhores temas do maestro (custou-me tanto deixar de fora o Man With Harmonica), mas resolvi pô-la aqui, no último lugar desta lista, para ilustrar uma das faceta de Morricone: a versatilidade. O homem não se limita a fazer músicas; olha para o filme, entende-o e entende o próprio realizador. Em Veio Do Outro Mundo, Morricone não só fez aquilo que se esperava de um thriller de ficção-científica com monstros, como absorveu a própria identidade do realizador. De tal forma, que se não soubessemos, pensávamos que esta banda-sonora também tinha sido assinada pelo Carpenter. 4º Lugar Love Theme, em Cinema Paraíso (1988) ![]() Este é um dos temas mais famosos de Ennio Morricone e aparece em tudo o que é colectânea dos melhores hits do senhor e é alvo de cover por parte de tudo o que são músicos eruditos wannabe. É uma grande música, é certo, mas é sobrevalorizada pelo próprio filme em si. É que, ouvir isto, é como estar literalmente a ver Cinema Paraíso e todo aquela nostalgia invade-nos e deixa-nos amaricadamente comovidos. É a única música orquestral da lista e isso quer dizer muito. 3º Lugar Matto, Caldo, Soldi, Morto... Girototondo, em Vergogna Schifosi (1969) O filme é uma beca obscuro, mas dizem os entendidos na obra do senhor que é um dos seus melhores trabalhos. Não sei se é assim, mas que gosto dele à brava, gosto. Este é o tema principal, que depois tem ainda mais um par de variações, mas no essencial é uma espécie de música ambiente, que mistura o tropicalismo de uns Mutantes, por exemplo, com os Oompa Loompas da fábrica do Willy Wonka. Meio psicadélico, meio onírico, é uma música que serve para viajar, serve de música ambiente e até de música de elevador, sempre com igual eficácia. E tem uma das imagens de marca de Morricone: uma voz feminina meio sussurrada. 2º Lugar L'estasi Dell'oro, em O Bom, O Mau E O Vilão (1966) É um dos casamentos mais felizes da história do cinema. E não estou a falar do casamento de Ennio Morricone com Sergio Leone em geral, mas sim desta cena em particular: o duelo decisivo que é o clímax de toda a triologia dos dólares do homem sem nome. A cena é extremamente bem filmada, com Leone a cristalizar aquela sua forma fantástica de moldar o tempo, abrandando o passar dos minutos de forma a aumentar a tensão e o suspense até à catarse final; e Morricone compõe uma música genial, sempre em crescendo, emulando os uivos dos coiotes do deserto com outra marca da música do maestro: a melodia assobiada. Ambas são fantásticas e misturadas fazem uma mistura explosiva! 1º Lugar Magic & Ecstasy, em O Exorcista 2 - O Herége (1977) E eis que, chegados ao topo da lista, fica provado o quão eclético é o maestro. Ennio Morricone adapta-se a tudo, sejam western spaghetti, giallos, dramas, épicos familiares de quatro horas ou mesmo sequelas manhosas de filmes de terror que tentam descaradamente capitalizar (leia-se espremer) o sucesso do filme original. Falo, obviamente, dao segundo Exorcista, uma xungaria non-sense, com um padre a pôr a Linda Blair a fazer regressão hipnótica ligada ao cérebro de outra pessoa. E descobrirmos que o demónio que a possui no filme anterior se chamava... Pazuzu(!). Enfim, a única coisa que se safa nesta coisa a que se atreveram de chamar filme foi esta theme-song brutalíssima, uma malha de surf-rock possuída por ecos de doom-metal e pelo fantasma do Alice Cooper. Psycho-surf que faz parte habitual da playlist da grande dupla de djs, Travelling Circus. Para ouvir as músicas, clicar em cima das imagens Conclusão: Ennio Morricone é como o Tarantino na forma como utiliza a música nos filmes: utilizando a faixa sonora não só para dar profundidade estética à cena, mas para fazer parte integrante da própria, dialogando inclusive com os actores. É por isso que temos associadas todas as cenas marcantes dos filmes do Tarantino a uma música: o Michael Madsen a cortar uma orelha a Stuck In The Middle With You, a Uma Thurman e o John Travolta a dançarem o twist a You Never Can Tell ou a Darryl Hannah a ir espetar uma injecção mortal a Uma Thurman muito calmamente a Twisted Nerve. Assim como também não conseguimos ouvir uma música do Morricone sem criarmos, automaticamente, uma imagem mental da cena do filme em causa. Admito que possam não ser casos únicos no cinema, mas agora não me recordo de mais nenhum. No entanto, a diferença entre ambos está em que, enquanto Tarantino utiliza músicas de outros, Morricone cria os seus próprios temas. Terça-feira, Outubro 20, 2009 FINAL CUT - A ÚLTIMA MEMÓRIA: Título: The Final Cut Realizador: Omar Naim Ano; 2004 ![]() Robin Williams é, injustamente, um actor esquecido, que acaba por ficar refém das comédias que maioritariamente faz. E a culpa nem é só do facto desse ser um género normalmente subvalorizado; é também sua, porque, na maior parte das vezes, salta de erro de casting em erro de casting, em preguiçosos papéis em que só tem que fazer aquilo que faz melhor: imitações e contar piadas, com o seu ar de pai de família bem disposto. Depois, de tempos a tempos, joga-se a um filme mais ou menos sério e dá-nos excelentes prestações. Filmes como Bom-dia Vietname, Despertares ou O Clube Dos Poetas Mortos (vénia) são prova disso. No entanto, foi Final Cut - A Última Memória que chegou com o rótulo de que este é que vai ser o filme (repararam no itálico do artigo definido?). Um filme sério, um realizador debutante de um país exótico e um elenco mais ou menos valioso, com Mira Sorvino e Jim Caviezel. Final Cut - A Última Memória é um filme espartalhão, que tenta parecer mais profundo e pseudo-qualquer-coisa do que realmente é. E aqui faz lembrar Efeito Borboleta, só que em vez de começar com uma citação conhecida que depois não interessa nada para a história, começa com as leis do código dos editores, que faz lembrar as leis da robótica de Isaac Asimov (e, por consequência, a adaptação infeliz de Eu, Robô). Os editores são então os tipos responsáveis por fazerem os filmes para os rememoriais, cerimónias fúnebres em que passam um vídeo do falecido com as suas melhores memórias, retiradas de um chip implantado no seu cérebro à nascença. A premissa é muito boa e é daquelas que vale um filme. Tem o seu quê de Philip K. Dick e comporta as tais questões morais e existenciais de que a ficção-científica tanto gosta de debater, através das suas metáforas e analogias espaciais. Por isso, em Final Cut - A Última Memória existe um sub-enredo que tenta explorar esta questão, personificado por um Jim Caviezel com uma barba postiça que parece um bicho atropelado espalmado na cara. E, pelo facto de existir uma teoria da conspiração em modo thriller futurista, a coisa recorda (injustamente) 12 Macacos. Omar Naim tenta criar um universo muito próprio, ou não estivessemos a falar de um futuro hipotético, e volta a ser demasiado espartalhão. Por exemplo, porque raio é que os dados retirados do chip são apresentados em placas transparentes de acrílico e convertidos em discos brilhantes e com ranhuras? Que mal têm os cds?? Tudo isto são pormenores, mas quando chegamos ao fim do filme e isto continua a aborrecer-nos, é porque algo correu mal em Final Cut - A Última Memória. O filme tenta criar assim uma atmosfera asséptica e hermética, com um Robin Williams em modo contido, mas isso transborda para o próprio filme, que se move em modo maquinal, sem chama e sem alma. No meio de tanto movimento de câmara mais do que previsível e uma relação entre personagens do mais aborrecido que há, não conseguimos deixar de pensar porque raio insistiram naquela barba falsa do Caviezel. E, depois, no meio, sharam... nova espertalhice: o grande momento-charneira do filme acontece quando Robin Williams reconhece uma pessoa, uns quarenta anos depois, pelo facto de ela... limpar os óculos à camisa(!). Sim, porque ninguém limpa os óculos à camisa(!!). Especialmente as pessoas que usam óculos(!!!). Final Cut - A Última Memória faz então eco da questão metafísica da privacidade e do big brother, mas de uma forma demasiado forçada. E, além disso, a história parece sempre ir em contraciclo, terminando num twist que é um autêntico anti-climax. Tão desinteressante, que não paramos de nos lembrar da barba falsa de Jim Caviezel. Será que o dinheiro gasto num Chesseburger não dá para comprar uma barba melhorzinha? ![]()
Posted by: dermot @
12:14 PM Quinta-feira, Outubro 15, 2009 TAKING WOODSTOCK: Título: Taking Woodstock Realizador: Ang Lee Ano: 2009 ![]() Ang Lee é o David Bowie do cinema. È que não é apenas um realizador versátil, capaz de mudar de género ou estilo a cada filme; é um verdadeiro realizador camaleão, que muda de pele de trabalho para trabalho, que por sua vez são cada vez mais improváveis e que, no fim, consegue safar-se em todos com igual destreza. Duvido que alguém conseguisse fazer tão bem um filme de wi-fu, um de super-heróis, um sobre cowboys gays e um sobre Woodstock. Depois de ter revisitado uma das impressões digitais do cinema norte-americano, em O Segredo De Brokeback Mountain, Ang Lee voltou a mergulhar na América profunda para fazer um filme sobre o mítico festival de Woodstock, que, em 1969, marcou uma década de paz e amor, contra-cultura, hippies, rock'n'roll e drogas. E mais uma vez, fá-lo como se fosse um americano de gema, absorvendo a sua identidade como se fosse um Douglas Sirk hippie. O filme até faz sentido, uma vez que celebrámos recentemente 30 anos de festival, mas Taking Woodstock não é nem um documentário, nem uma reconstituição. Então o que é? È uma espécie de fábula, sobre Jake Teichberg (Henry Goodman), um adolescente que, ao tentar salvar da bancarrota o resort caquético da sua família, contacta Michael Lang (Jonathan Groff), o mentor de Woodstock, para que ele instale o festival no quintal da sua casa. Depois, o resto é história: o festival recebe, durante três dias, o número astronómico de 500 mil espectadores, a organização vê-se obrigada a abrir as portas a tanta gente, os autócnes de Bethel rendem-se às evidências e acolhem aqueles jovens todos e, de repente, a história do rock'n'roll e de toda uma geração fica irremediavelmente marcada. Mais do que um filme sobre Woodstock (que está lá, omnipresente, mas nunca o vemos, é sempre um som de fundo ou um mar de gente que nos impede de alcançar o palco), Taking Woodstock é uma fábula familiar, sobre um jovem, a sua família disfuncional (fantástica Imelda Staunton, em modo velha rabugenta) e os seus problemas tabus (homossexualidade ao de cima), numa espécie de Quase Famosos, mas sem a componente on the road. No entanto, onde Taking Woodstock é verdadeiramente feliz, é ao captar o espírito do festival, da geração hippi e da contracultura. E no meio disto, tem a mais realista cena de tripar com ácido que o cinema já viu! Filme mais de bonecos do que de personagens (Michael Lang, por exemplo, que nós conhecemos bem, é uma caricatura), Taking Woodstock é divertido porque tem bonecos bastante engraçados. No final, há ainda tempo para o feelgood movie e nós recordamos Uma Família À Beira De Um Ataque De Nervos, na forma como aquela família se reencontra consigo mesma. O filme entretém, faz-nos rir, comove-nos e transporta-nos para o interior de Woodstock, algo que, às vezes, até é mais difícil acontecer com o documentário de quatro horas e planos truncados. Vale, na boa, um Le Big Mac. ![]() Quarta-feira, Outubro 14, 2009 TAKE - CINEMA MAGAZINE: ![]() Página Oficial Sábado, Outubro 10, 2009 A SANGUE FRIO: Título: In Cold Blood Realizador: Richard Brooks Ano: 1967 ![]() Quando aí há um par de anos Truman Capote voltou a estar na ordem do dia, com dois biopics num ano, Oscares à mistura e muitas reedições especiais de A Sangue Frio, só me espantou que ninguém se tivesse lembrado a fazer nova adaptação cinemtográfica desse livro. Claro que não vale a pena dissertar muito sobre o livro; o que dizer quando já foi tudo dito? Apenas que é um romance não-ficcional que narra um homicídio quádruplo no Kansas, é uma obra-prima e inaugurou o género do jornalismo literário. A Sangue Frio inicia-se com uma frieza exemplar: durante uma viagem noctura de autocarro, é-nos apresentado um homem mergulhado nas sombras, a tocar viola. De repente, a luz de um fósforo ilumina apenas o suficiente para introduzir o olhar de Perry Smith (Robert Blake). Este ex-presidiário vai-se encontrar com o falinhas mansas e cheio de estilo Dick Hickcock (Scott Wilson) e ambos vão fazer mil quilómetros para um trabalhinho fácil: assaltar uma quinta perdida de um rancheiro rico, numa aldeia no meio de nenhures. No entanto, a informação que tinham recolhido era errada: Herbert Clutter podia ser rico, mas tinha o dinheiro todo no banco. E, assim, aquela foi uma viagem em vão, que acabou com quatro mortes a sangue frio apenas e só para não deixarem testemunhas. O que se seguiu foi uma caça ao homem e Truman Capote a travar confiança com os assassinos para escrever um grande livro. Como seria de esperar, A Sangue Frio respira por entre o fumo e as sombras do film noir, lebrando sempre que, ao contrário daquelas imagens, a vida (e, neste caso, a justiça também) não é apenas a preto e branco. No entanto, ao contrário dos policiais semelhantes, A Sangue Frio tem muito mais parecenças com o noir impressionista que é A Sombra Do Caçador. E a Scott Wilson só lhe só lhe falta um bocadinho assim para ser um Robert Mitchum. O realizador Richard Brooks dedicou-se ao filme com grande empenho e perfeição e A Sangue Frio vive desses pormenores. E não falo do facto de ter sido filmado na própria casa da família Clutter, nos exactos sítios onde foram cometidos os crimes: falo na atenção que Brooks dá aos detalhes, fazendo lembrar Hirokazu Koreeda (que tem um filme novo estreado entre a gente), que em Ninguém Sabe, por exemplo, ia-nos dando estímulos sensoriais através de planos rápidos de manchas no chão ou de um napron desarrumado. Aqui, o exemplo mais flagrante será porventura o grande-plano de Blake, que prestes a ser enforcado, dedica-se a um monólogo com o reflexo da chuva na janela na sua cara, quais lágrimas imaginárias. No entanto, o grande truque de A Sangue Frio é a edição. Todas as cenas dialogam entre si, demonstrando uma planificação sem espinhas e um filme pensado ao pormenor. A única vez que vi algo assim foi em A Vítima Do Medo. Além disso, o filme vai contra todas as convenções do que é a estrutura de um thriller policial. Faz-me lembrar o caso do clássico Dr. Jekyll e Mr. Hyde, uma história de monstros e suspense, em que, ao contrário das outras histórias do mesmo estilo, sabemos quem é o monstro/assassino e, mesmo assim, não deixamos de nos assustar e sentir subjugados. Aqui acontece o mesmo: sabemos quem são os assassinos e, apesar de só vermos o crime no final em modo flashback, passamos o filme a acompanhar as diligências da polícia para capturar os bandidos. A diferença é que, enquanto estamos habituados a ir recolhendo as informações ao mesmo tempo que os detectives, aqui já sabemos tudo e limitamo-nos a ser apenas observadores de todo o processo. Por fim, palavra de apreço aos dois actores. Perto do final, ouve-se o narrador (que, supostamente, é uma referência ao próprio Capote e que aparece apenas nos últimos quinze minutos, o que dá ar de solução de recurso algo preguiçosa) a dizer que os dois criminosos apenas cometeram aquele crime porque as suas personalidades se complementaram, criando uma terceira personagem. É o mesmo que se passou no filme: Robert Blake e Scott Wilson são as duas faces da mesma moeda e têm um trabalho abismal, o primeiro como assassino perturbado e sensível e o segundo como trafulha consciente e desembaraçado. A Sangue Frio foi uma obra-prima que inovou a literatura, mas A Sangue Frio conseguiu adapta-lo sem desprimor, porque não se limitou a adaptar a história; adaptou também todas as suas características inovadoras: a estrutura não convencional, o drama não-ficcionado e a mesma minúcia aos detalhes da escrita de Capote. A Sangue Frio é um filme que não só envelheceu bem, como cristalizou tudo o que de melhor teve o cinema daquela era. Vale um McRoyal Deluxe, no mínimo. Quinta-feira, Outubro 08, 2009 ABRAÇOS DESFEITOS: Título: Los Abrazos Rotos Realizador: Pedro Almodóvar Ano: 2009 ![]() A temática da duplicidade sempre me fascinou e o cinema tem-nos oferecido excelentes exemplares: O Homem Duplo não conseguiu espremer toda a genialidade do livro original, mas Polanski, por exemplo, fê-lo muito bem no início da sua carreira (vénia encarpada a O Inquilino). E eu nunca me canso de referir este fantástico texto do Flávio. Corriam os primeiros minutos de Abraços Desfeitos e eu comecei a salivar. Afinal de contas, parecia que ia ter o tema da duplicidade by Pedro Almodóvar. Um homem (Lluís Homar) apresentava-se: o realizador Mateo Blanco que criou o pseudónimo Harry Caine para dar vida a um aventureiro escritor cego. E, ao longo dos anos, acabou encarcerado no segundo, matando o primeiro - um homem preso no corpo de outro. No entanto, como devem ter reparado, no início deste parágrafo eu escrevi "parecia que". E não foi por acaso. É que Abraços Desfeitos não é bem sobre este homem-duplo. Quer dizer, é, mas também é sobre milhentas outras coisas. Abraços Desfeitos é, generalizando, um filme de dicotomias, sendo as mais fortes essa, a desse homem que é o seu pseudónimo e vice-versa (e que traz sempre ambiguidade no bico); e a do filme que este realiza com Lena (Penélope Cruz), num filme dentro do filme (e que evoca Mulheres À Beira De Um Ataque De Nervos), que nunca está acabado e que é rematado com a frase que encerra o filme, que tem tanto de cliché como de presunçoso - devemos terminar sempre um filme, nem que seja às cegas. O filme dá a ideia que Pedro Almodóvar não sabia muito bem o que fazer e que foi escrevendo o argumento à medida que ia tendo várias ideias. Começa com essa temática da duplicidade, a meio transforma-se num neo-noir (que são os melhores momentos do filme), evoca as marcas de autor do realizador (personagens femininas, melodrama e paixão exacerbada, homossexualidade reprimida e tragédia passional) e até tem um cunho pessoal, que faz lembrar o bloqueio criativo de Fellini em 8 1/2, aqui sob a personagem de um realizador que fica cego (que, como um dos críticos da nossa praça gosta de dizer, é uma pescadinha de rabo na boca; até em Hollywood Ending o vimos). Filme um pouco estranho, apesar de não ser confuso é um pouco salganhada. Segundo dizem os entendidos, Almodóvar amadureceu nos últimso filmes e tornou-se num realizador sério, mas eu acho-lhe muito mais piada quando era o tipo descontraído de Ata-me, por exemplo. Talvez por isso, a parte mais gira de Abraços Desfeitos é o tal filme que ele filma dentro do filme, com todos os sinais desse tempo (como eu disse, evoca Mulheres À Beira De Um Ataque De Nervos) e que serve para o realizador continuar a transformar Penélope Cruz em diva: depois de Sophia Loren em Voltar, aqui Penélope transforma-se em Audrey Hepburn. Chamem-lhe o que quiser: um Almodóvar ligeiro ou um Almodóvar menor. Eu, como de costume, trato-o por menus de hamburgas. Neste caso, um Double Cheeseburger. ![]()
Posted by: dermot @
10:31 AM
Fiz uma loucura. Aderi este imodesto tasco cinematográfico às redes sociais. Sim, é verdade: o Royale With Cheese também já está no facebook. Quarta-feira, Outubro 07, 2009 OS OLHOS SEM ROSTO: Título: Les Yeux Sans Visage Realizador: George Franciús Ano: 1969 ![]() Sempre me interroguei porque é que o Billy Idol, representante insuspeito do mau gosto dos anos 80, percursor do flagelo que é o punk-pop e guilty pleasure assumido, tinha uma balada com uma parte em francês. A música chama-se Eyes Without a Face e, sempre que chega ao refrão, um coro feminino entoa les yeaux sans visage. Isto sempre me intrigou, até que o próprio Billy Idol o explicou naquele belo momento musical que foi o seu Storytellers: certo dia, ao apanhar uma sessão nocturna de cinema num qualquer canal de televisão refundido, ficou tão fascinado com a história de uma rapariga sem rosto, que teve que escrever uma canção sobre ela. O filme é Os Olhos Sem Rosto, clássico do cinema fantástico francês (António Pascoalinho, outro nome insuspeito, mas desta vez do cinema fantástico de bom gosto, classifica-o em vigésimo nono da sua lista dos melhores de sempre do género), que conta a história de um médico (Pierre Brasseur) que não consegue livrar-se do sentimento de culpa por ter provocado um acidente de viação que desfigurou a sua filha (Edith Scob). Uma vez que também tem uma faceta de cientista louco, o doutor Génessier inventa uma forma inovadora de fazer transplantes de rosto e a obsessão leva-o a raptar e matar jovens semelhantes à sua filha para lhes roubar a cara até conseguir ter êxito na sua demanda. Os Olhos Sem Rosto move-se em terrenos hitchcockianos, na forma como joga com o suspense, mas a maneira como George Franciús molda o tempo emula o francês Jean-Pierre Melville. Os Olhos Sem Rosto é aidna um filme sobre a obsessão e, por isso, desenrola-se a um ritmo de uma paciência de elefante, com todos os seus movimentos calculados com uma frieza atroz, que se torna psicologicamente cansativo e opressivo. Aliado a isto, está uma atmosfera meio romântica meio impressionista, que cria alguns quadros de uma beleza mórbida, evocando a poesia fascinantemente perturbadora do expressionismo (talvez por isto o filme tenha recebido, nos Estados Unidos, a idiota tradução de The Horror Chamber Of Dr. Faustus). Neste campo, o contributo de Edith Scob é decisivo. Ela é a melhor actriz de sempre com uma máscara (nunca vemos o seu rosto verdadeiro, ao contrário de outros filmes do género, que caem na tentação de revelar as deformações dos seus protagonistas – olá Vanilla Sky) e a sua voz afectada conferem-lhe uma existência perturbada, de quem está para fazer uma estupidez não tarda. Os Olhos Sem Rosto é um filme que teve ainda o condão de saber envelhecer muito bem, não sendo, por isso, um simples filme de culto para meia dúzia de maluquinhos dos filmes antigos que só eles é que conhecem. É antes um grande trabalho que, ainda por cima, influenciou a criação de uma grande canção. Por isso, encomendamos um McBacon para encerrar esta questão. ![]() Segunda-feira, Outubro 05, 2009 JULGAMENTO: Título: Julgamento Realizador: Leonel Vieira Ano: 2007 ![]() Confesso que até simpatizo com o Leonel Vieira. Aliás, eu também simpatizo com o Tony Scott (é como um acidente de viação, por mais que não queiramos não conseguimos abrandar para ver ao passar por um) e o Leonel Vieira é o Tony Scorr português. E, naquela tentativa constante em que o cinema português anseia por ser um cinema feito como se faz lá fora (e em lá fora, leia-se a Hollywood dos blockbusters), Leonel Vieira é o que se safa melhor, conseguindo manter os pés na terra, longe das insanidades do Alexandre Valente, por exemplo. Julgamento tem uma premissa fantástica, daquelas que quase valem o filme por si só: três antigos combatentes anti-fascistas (Júlio César, José Eduardo e Henrique Viana, este último no seu derradeiro papel) descobrem o inspector da Pide (excelente Carlos Santos) que os prendeu e torturou trinta e tal anos antes. Mais coisa menos coisa e os três decidem vingar-se da morte do companheiro Marcelino (Joaquim Nicolau), que não sobreviveu a essas torturas. No fundo, é o cinema português a aproveitar a nossa riquíssima história, que tão mal explorada é. Como eu costumo dizer, se um dia Hollywood descobre um livro sobre a história de Portugal, nunca mais os americanos saem de cá. E, especialmente, o Ultramar - o nosso Vietname - continua a ser um território por explorar, salvo raras excepções, como o apatetado Monsanto (porque ninguém me disse que isto ia ficar para sempre?) ou o algo injustamento esquecido Preto E Branco. Não mencionei Os Imortais, porque vou referir-me a ele agora: é a ele que Julgamento mais se assemelha, com um conjunto de velhotes atormentados por fantasmas passados. Se bem que aqui, com actores piores. São esses fantasmas que fazem a ponte entre o passado e o presente, que são o ponto essencial de Julgamento. Porque preenchem os buracos vazios, porque dão profundidade às personagens e porque servem para que o filme não seja apenas um filme de vingança. O que poderia ser, porque potencial não falta (até há um aurinha ténue a Peckinpah): três homens encarceram um outro, sem saberem muito bem no que aquilo vai dar, lutando contra o passado reprimido e ideais que sempre defenderam e que agora estão colocados em causa por desejos animalescos de vingança. Julgamento é como uma panela de pressão, que cresce até níveis insuportáveis e, claro, ao inevitável final previsível. Leonel Vieira sabe filmar essa tensão e se calhar nem necessitava do resto. É que o resto são as relações familiares de cada um dos protagonistas e, aqui, Leonel Vieira não tem sensibilidade suficiente. Ora vejamos: Júlio César anda a comer Alexandra Lencastre, a filha do tal colega morto pela Pide trinta anos antes, e ambos discutem por tudo e por nada (drama queen alert); José Eduardo tem problemas em fazer bebés, mas só percebemos que ele anda a ignorar a esposa; e Henrique Viana anda a safar-se com um avião chamada Raquel Henriques, que só está lá para que alguém mostre as mamas no filme. A ideia seria mostrar como aqueles fantasmas do passado necessitavam de ser resolvidos para que houvesse uma vida familiar pacífica, mas é sempre daquelas coisas que funciona melhor na sinopse do que no filme. Mesmo assim, Julgamento não é nada de se deitar fora. Tem uma excelente fotografia, entre o urbano lisboeta e o rural alentejano mais deserto, mesmo apesar de Leonel Veira não se conter com os seus maneirismos a la Tony Scott - de cinco em cinco minutos, lá há um plano na diagonal sem qualquer motivo aparente, tem muitas caras conhecidas em aparições fugazes (Marta Leite de Castro é tão credível a chorar quanto a Amy Winehouse a mostrar que não se mete na droga) e tem uns flashbacks pré-25 de Abril bem catitas. Vale um McBacon, mas tendo em conta a inflação do mercado nacional, claro. ![]()
Posted by: dermot @
11:26 AM Sexta-feira, Outubro 02, 2009 AS NOITES LOUCAS DO DR. JERRYLL: Título: The Nutty Professor Realizador: Jerry Lewis Ano: 1962 ![]() Há uns tempos, em conversa com o meu amigo José Soares (só para dizer que sou amigo do editor de uma revista importante), falávamos do quão esquecido é Jerry Lewis. Quer queiramos quer não, Jerry Lewis é um dos grandes nomes da comédia; teve foi o azar das pessoas se fartarem de ver sempre as suas palhaçadas. No fundo, aconteceu-lhe aquilo que tem vindo a acontecer ao Jim Carrey: o primeiro impacto foi devastador, mas depois o aproveitamento da fama e do sucesso não foi o melhor, optando por fabricar vezes sem conta as mesmas caretas e as mesmas acrobacias patetas, em filmes imbecis para público pouco exigente over ando over again. E, enquanto na Europa ainda há umas quantas pessoas com boa memória que o recorda, nos Estados Unidos Jerry Lewis caiu no esquecimento, deonde nem o Oscar de carreira do ano passado o conseguiu tirar. Assim, como este imodesto antro cinematográfico não gosta de esperar que as pessoas morram para se tornarem em nomes de cultos, nada como falar de um dos seus filmes. As Noites Loucas Do Dr. Jerryll (amo a tradução) pode não ser o melhor ou mais famoso, mas será, certamente, um dos mais conhecidos, uma vez que valeu um recente remake com relativo sucesso do Eddie Murphy, outro comediante que, se não se mete a pau, qualquer dia já ninguém se lembra do seu génio – O Professor Chanfrado. É um truque fácil de se fazer neste tipo de comédias slapstick: agarra-se numa história famosa e parodia-se. É o que se chama matar dois coelhos com uma cajadada: ganha-se uma história de humor, mas no fundo mantém-se subjacente a mensagem moral do conteúdo original. Neste caso, Jerry Lewis foi buscar o conhecido caso do Dr. Jeckyll e do Mr. Hyde e adaptou-o ao seu professor Kemp, cientista desajeitado e trapalhão, metade Pateta, metade Charlie Chaplin, com cabelo à escovinha e dentuças de fora, um look que Jim Carrey aproveitou para Doidos À Solta. Numa universidade cheia de cor e música (há uma theme song interpretada pelo próprio Jerry Lewis, como era da praxe nestes casos), As Noites Loucas Do Dr. Jerryll é o típico filme de adolescentes, todos sorrisos e bem-parecidos, ideais para animarem um povo em grande depressão nas matinés de domingo. É neste cenário, por entre sketches de humor anárquico a la Looney Tunes e gags de humor físico (se é que podemos chamar também humor físico às caretas e à voz esquisita de Lewis), que o professor Kemp vai inventar uma poção que o transforma num galã cheio de estilo, ágil de língua e hábil ao piano, ideal para se insurgir contra aqueles que o maltratam no dia-a-dia, para se tornar popular e, claro, para conquistar a rapariga dos seus sonhos, a sua aluna Stella. O Mr. Hyde do professor Kemp é então Buddy Love (excelente trocadilho), oportunidade de ouro para Jerry Lewis brilhar numa mistura de todo o Fat Pack com a beatlemania que estava para chegar. No entanto, a sua faceta mais interessante é a de arrogante imodesto e insubordinado, ideal para o registo da comédia afro-americana sem papas na língua que iria surgir décadas depois (é por isso que Eddie Murphy teve tanto sucesso em O Professor Chanfrado). É esta faceta que vai levar Stella a preferir o Jerry Lewis original, introvertido e trapalhão, mas sincero, honesto e bom coração. E no meio de tanta ingenuidade, nem nos apercebemos quão esquisito é o professor acabar o filme a comer uma aluna à descarada e toda a gente achar bem. Curiosamente, As Noites Loucas Do Dr. Jerryll é um filme menos conseguido que O Professor Chanfrado a nível de argumento. E isto para não falar da família do professor Kemp, em que a de Eddie Murphy é mil vezes mais hilariante. No entanto, se for para colocar os dois em comparação, num despique por um menu de hamburgas, o resultado seria semelhante para os dois: um McChicken. ![]() |
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