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Royale With Cheese | ||
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Título: Sapatos Pretos Realizador: João Canijo Ano: 1998 ![]() Nestes tempos de desconfiança que por aí andam, João Canijo continua a ser um dos poucos (o único?) realizadores portugueses que não me deixam ficar mal. Por isso, de forma a entender como é que Noite Escura é um dos melhores (o melhor?) filmes nacionais da última década (e meia?), há que recuar ao início das coisas. Sapatos Pretos aborda dois dos temas recorrentes na obra de Canijo: a predilecção por histórias femininas, com mulheres muito fortes no cerne dos seus filmes; e o retrato do Portugal profundo, onde é mais fácil sentir o gosto da portugalidade. No entanto, o Portugal profundo de João Canijo não é o mesmo do de Miguel Gomes, por exemplo (estou a falar de Aquele Querido Mês De Agosto, claro), o da ruralidade, do galo de Barcelos e das sopas de cavalo cansado; é antes o do português espertalhão, aldrabão, pintas e que bate na mulher quando chega a casa com a piela. É o Portugal profundo brega! Bem-vindos então a Sines, onde conhecemos Dalila (Ana Bustorf) e Marcolino (Vítor Norte), casal português a vender ouro numa feira. Ela necessita de ir a Lisboa, porque tem uma consulta e, devido a algo que eu não digo que é cancro da mama para que não me acusem de estar a escrever spoilers, regressa de lá em modo quenga, com o cabelo descolorado e sempre com vestidos mais curtos do que o bom-senso recomenda. Claro que Ana Bustorf foi um erro de casting, porque escolhe-la para femme fatale faz tanto sentido quanto pôr o Stephen Hawkins a jogar no Benfica. Além disso, confunde sensualidade com soporíferos. Dalila vai então emancipar-se, arranjar um amante (João Reis) e transformar a última parte de Sapatos Negros em um plano para assassinar o seu marido, que, inesperadamente, se revela um corno manso. No entanto, mais do que um thriller passional ao jeito de As Diabólicas ou de um Hitchcock qualquer, Sapatos Pretos é todo ele sentimento (tantos que, no final, corremos o risco de não os entender), drama de faca e alguidar com sangue na guelra e mulheres cheias de paixão, como que importadas de um melodrama de Almodóvar. Infelizmente, paralelo a este prato principal, falta um acompanhamento em condições: diálogos que não estejam ao nível das tiradas que se tornaram míticas no cinema nacional (alguém mencionou vai à merda, vai tu?), ou uma construção de personagens mais decidida do que apenas preencher os contornos a risco grosso. Para a posterioridade ficam duas cenas: quando o casal vai a um bailarico daqueles que terminam sempre com um bêbado a dançar sozinho no meio da pista de dança e João Canijo experimenta, pela primeira vez, a técnica de diálogos cruzados que depois aprimora em Noite Escura; e quando Marcolino, cansado de ser corno, explode numa violação doméstica com requintes de crueldade sobre a sua esposa. E, claro, a pérola escondida que é um excerto da televisão de um programa do jet sete qualquer, em que ouvimos a Lili Caneças queixar-se por não ter namorado e a dizer que, como prenda de aniversário, quer a paz no mundo. Priceless: só isto vale o Double Cheeseburger. ![]() Segunda-feira, Setembro 28, 2009 SORO MALÉFICO: Título: Re-Animator Realizador: Stuart Gordon Ano: 1985 ![]() Se falarmos em literatura de terror, para mim o maior é o H. P. Lovecraft. Qual Edgar Alan Poe, qual Stephen King, qual quê! Desde que a Solveig Nordlund me introduziu ao seu universo, em Aparelho Voador A Baixa Altitude, que fiquei fã. Fã do seu estilo, das suas histórias violentas e de como conseguiu ser percursor de tanta coisa que hoje tomamos por garantidas dentro do género. Uma dessas coisas foi os zombies. Não é que tenham sido inventados por H. P. Lovecraft, mas a forma como subverte o conceito de morto-vivo no clássico Re-animator é sublime. Quanto a Stuart Gordon, teve os tomates suficientes para o levar para o cinema e o adaptar aos dias de hoje, naquela que é a melhor interpretação de Lovecraft no grande ecrã, ao conseguir ser coerente introduzindo tudo aquilo que o bom cinema precisa para ser eficaz: uma personagem feminina, para que o herói possa cair em amores; e um nemésis, para dar vida ao móbil do filme. Vamos então por partes: Dan Cain (Bruce Abbott) é o estudante de medicina mais promissor da universidade de Miskatonic, que, para além de andar a dar umas pinocadas na filha do reitor, tem uma certa dificuldade em aceitar a morte. Tudo corre bem dentro dos possíveis, até que Cain arranja um roomate: o recém-chegado aluno prodígio, Herbert West (Jeffrey Combs, uma espécie de versão evil de Michael J. Fox), a braços com uma demanda impensável: criar um soro capaz de restaurar os sinais vitais de uma pessoa morta. Ou por outras palavras, ressuscitar os mortos! Soro Maléfico comporta toda esta questão metafísica, começando desde logo pela pergunta mais óbvia: haverá vida depois da morte? (lembram-se de Linha Mortal?) Depois coloca os seus personagens a fazerem de Deus, num jogo cruel em que se vêem (mais ou menos) obrigados a disporem das vidas humanas dos seus. Claro que isto é a mensagem (mais ou menos) subliminar do filme, porque afinal Soro Maléfico é uma das obras-primas do gore! Stuart Gordon começa por ser exímio no balanço que faz, entre suspense, terror psicológico e terror gráfico. No entanto, à medida que o filme vai avançando, Gordon parece ir-se empolgando, criando cada vez mais e mais demência e perdendo o tino aos litros de sangue usados, às máscaras de borracha e aos manequins falsos, terminando tudo com um surreal filme de monstros série-b encharcado em sangue, intestinos, crânios rebentados e… mamas! Soro Maléfico é um portento de cinema de segunda categoria, mas um bom cinema de segunda categoria. E pode-se orgulhar de olhar de cima para baixo para Morte Cerebral! Não são muitos os filmes gore capaz de o fazer. Apenas aqueles que se equiparam a Le Big Macs para cima. ![]()
Posted by: dermot @
12:20 PM Domingo, Setembro 20, 2009 SEIS GLORIOSOS PATIFES: Título: Quel Maledetto Treno Blindato Realizador: Enzo G. Castellari Ano: 1978 ![]() Enquanto Quentino Tarantino andou a filmar Sacanas Sem Lei, não havia texto sobre o filme que não falasse deste Seis Gloriosos Patifes. È que ambos tinham o mesmo nome em inglês e, por isso, tudo indicava ser um remake. Não sei se alguma vez o próprio Tarantino mencionou essa palavra, mas quando estreou Sacanas Sem Lei foi a desilusão geral: não havia nada de parecido entre os dois filmes, exceptuando o título e a Segunda Guerra Mundial. Seis Gloriosos Patifes é um filme xunga de série-b, um produto típico dos anos 70 italianos (violência gráfica rules!) e um war-xploitation que, como a tradução portuguesa indica, é mais um dos mil e um clones do Os Doze Indomáveis Patifes: um filme-missão em que um grupo de soldados americanos vai ter que estoirar um comboio nazi. Aliás, a própria tagline do filme não podia ser mais expressiva: whatever the Dirty Dozen did they do it dirtier! Mesmo assim, esta missão é apenas a última meia-hora do filme. O início é um survivor, em que cinco soldados americanos presos pelos Aliados, em França, por mau comportamento, formam o herói colectivo, bem esteriotipado como convém: há o líder, o tenente Robert Yeager (Bo Svenson), um insubordinado todo másculo da Força Áerea que gosta de roubar aviões para dar pequenas escapadelas para ir visitar a namorada a Londres; há o maluco, o cabeludo Tony (Peter Hooten), com uma grave tendência cleptomaníaca; há o engraçadinho, Nick (Michael Pergolani), que também tem um problema com o jogo; há o mariquinhas, Berle (Jackie Basehart), que tem medo da guerra e só quer desertar; e há o preto, o badass Canfield (Fred Williamson, que os mais atentos irão reconhecer de filmes de qualidade duvidosa), ideal para piadas racistas. O sexto do grupo é um alemão arrependido, mas que nem chegamos a decorar o seu nome porque morre logo a seguir. O filme é um festim de tiros e explosões, numa sucessão de episódios mais ou menos sem nexo e sem grande sentido. Percursor dos Rambos, dos Steven Seagals e dos outros action movies prolíferos nos anos 80, Seis Gloriosos Patifes é daqueles filmes em que nunca acabam as balas aos bons, os maus falham os tiros todos e os bons disparam as metralhadoras da mesma forma que sacodem a pila depois de mijar. E sempre que são atingidos, os nazis parecem atletas de ginástica acrobática, cada um mais exímio a saltar e a exprimir a sua dor na hora da morte. Não há muito a analisar em Seis Gloriosos Patifes e, se não fosse Quentin Tarantino, o filme não iria receber tanta atenção, excepto dos maluquinhos dos filmes de guerra, que papam tudo do género. Vê-se bem, dá-se ainda umas gargalhadas valentes e tem uma cena com uma mão cheia de gajas nuas, o que são motivos suficientes para um McChicken. ![]() Terça-feira, Setembro 15, 2009 RIP: 1952-2009 Não podemos dizer que a morte de Patrick Swayze nos tenha apanhado de surpresa, mas não deixa de ser sempre uma treta pensar que se foi mais um dos nossos ídolos da juventude. Como habitual, o Royale With Cheese decide fazer uma homenagem em formato top 5, mas que neste caso serve dois objectivos: o de dar a conhecer OS 5 MELHORES FILMES DE PATRICK SWAYZE e, claro, mostrar às pessoas que ele faz mais coisas além do Dança Comigo e do Ghost - O Espírito Do Amor. Dança Comigo (1987) ex-aequo Ghost - O Espírito Do Amor (1990) ![]() Despachemos logo estes dois, que são aqueles que toda a gente conhece. Foram estes filmes que catapultaram Patrick Swayze para o panteão da fama e para a categoria de príncipe encantado da maioria das mulheres (o homem mais sexy vivo, em 1991, segundo a revista People). No primeiro, é um tipo sensível e um bailarino impecável; no segundo, é um fantasma que mostra à sua mulher que o amor não tem barreiras. Toda a gente os acha uns filmes lamechas, mas ninguém é capaz de dizer que nunca os viu. E que nunca se emocionou com eles. E que não conhece aquela cena em que Patrick Swayze come a Demi Moore enquanto fazem potes de barro, ao som do Unchained Melody. 4º Lugar Donnie Darko (2001) ![]() Confesso que não sou grande fã do Donnie Darko. Aliás, até tenho a teoria que o filme foi um acidente que correu bem: se virmos o director's cut, ficamos chocados com o filme que Richard Kelly nos queria apresentar. No entanto, há que aplaudir o realizador por se ter lembrado de Patrick Swayze, que andava já num ocaso da carreira, para fazer de celebridade da televisão com os seus discursos motivadores. Swayze está para Donnie Darko como Tom Cruise está para Magnolia. 3º Lugar Os Marginais ![]() Os Marginais, de S. E. Hinton, é um dos livros da minha vida. Na adolescência, enquanto os meus amigos andavam a ler A Lua De Joana, eu descobri esta pequena pérola de jovens adolescentes problemáticos nos Estados Unidos. Anos depois, descobri que havia um filme e, mais fixe do que ser realizado pelo Francis Ford Coppola (que eu na altura nem fazia ideia quem era), era ter uma mão cheia de actores de filmes que eu gostava, mas muito novinhos: havia o Tom Cruise bem gaiato, o puto do Karate Kid ainda mais puto, o Matt Dillon, o irmão do Charlie Sheen e, claro, o Patrick Swayze, como o irmão mais velho do Ponyboy e do Sodapop. 2º Lugar Profissão: Duro ![]() Não me lixem: como é que é possível não gostar de Profissão: Duro? Era eu um jovem novo e ingénuo, habituado à força bruta do Stallone, do Schwarzenegger e do Bruce Lee, quando de repente me aparece o Patrick Swayze, todo ele estilo e falinhas mansas, a limpar toda a gente à porrada, a levar pontos sem anestesia e, brutal!, a arrancar as goelas de gajos com as próprias mãos. Além disso, o filme tem strip-teases ao som do Mannish Boy e monster trucks a fazerem estragos em stands de automóveis. Só pérolas num filme bem macho e cheio de testosterona (gajas nuas, porrada de meia-noite e carros)! 1º Lugar Ruptura Explosiva ![]() Já aqui o disse e volto a repetir: Ruptura Explosiva é o meu bom mau filme favorito! Apesar de ser um dos outros marcos da minha adolescência, que chegou na altura exacta em que eu pensava que ser surfista é que era a coisa mais cool do mundo, ainda consigo ver o filme hoje em dia e ficar fascinado com aquele thirller série-b com um pozinho muito especial. Não sei se são os Ex-Presidentes, a gangue de assaltantes de bancos mais louca de sempre, se é aquela perseguição a pé cheia de adrenalina (até me provarem o contrário, será sempre a melhor perseguição a pé do cinema), mas Ruptura Explosiva é extretenimento very enjoyable. E Patrick Swayze, que faz de guru do surf, morre a surfar uma onda gigante. How cool is that? edit: apercebi-me agora que já tinha feito uma lista semelhante quando lhe foi diagnosticado o câncro. Fica aqui também, porque tem algumas variações.
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10:56 AM Segunda-feira, Setembro 14, 2009 LONGE DA TERRA QUEIMADA: Título: The Burning Plain Realizador: Guillermo Arriaga Ano: 2008 ![]() A dupla Alejandro Inarritu e Guillermo Arriaga (realizador e argumentista, respectivamente) deram-nos alguns dos filmes mais bem escritos deste início de século cinematográfico, com um cinema de autor bem vincado (alguém mencionou Amor Cão ou 21 Gramas?). No entanto, quando ambos anunciaram o divórcio, ficámos sem saber o que pensar: estariamos perante o estilhaçar artístico de dois nomes que funcionam muito melhor juntos do que isolados, como aconteceu com Michel Gondry e Charlie Kaufman ou, pelo contrário, sairiamos nós beneficiados porque em vez de ficarmos com um filme bom, passaríamos a ter dois filmes bons de cada vez? Longe Da Terra Queimada é apenas a primeira experiência de Arriaga na cadeira da realização, mas se forem todos como este então podemos concluir que a segunda possibilidade é a correcta. O seu cinema é um irmão gémeo do deAlejandro Inarritu, filme de personagens, todas elas problemáticas, com uma fotografia cuidada, um ritmo pausado e normalmente ambientado na fronteira entre o México e os Estados Unidos (com todo o significado simbólico que uma fronteira pode conter). No meio disto tudo, só uma questão me assalta: será que Arriaga não se farta de escrever histórias de forma não-linear? Desconfio que, se continuar a teimar em filmes-mosaico, Guillermo Arriaga vai acabar por ficar preso num truque estilístico que pode perder a graça, manietando as suas histórias a uma obrigatoriedade narrativa sem justificação. No entanto, em Longe Da Terra Queimada essa opção ainda se justifica. E com uma novidade: em vez da simples história-mosaico, com histórias paralelas que confluem num acontecimento comum, Longe Da Terra Queimada avança e recua no tempo, em analepses e prolepses sem aviso, que se podem tornar confusas para o espectador, mas cuja simplicidade argumentativa de Arriaga torna cómodo. Longe Da Terra Queimada começa então com o momento fulcral de toda a trama: com Joaquim de Almeida a comer a Kim Basinger. É verdade, já tínhamos ficado orgulhosos quando ele bateu no Harrison Ford (vide Perigo Imediato), mas agora sentimo-nos uns pais babados. A comer uma estrela de Hollywood como a Kim Basinger? Assim é que é! Bem, dizia eu que Longe Da Terra Queimada começa com Joaquim de Almeida na cama com Kim Basinger quando a barraca onde estão explode. A partir daqui, a história anda às arrecuas e avança de quando em vez: ficamos a conhecer o passado dos dois e percebemos que ambos são amantes. Conhecemos os filhos dos dois e que, após a morte deles, vão embarcar numa espécie de romance tipo Romeu e Julieta. E conhecemos Charlize Theron, que anda a compensar um passado traumatizante com muito sexo com estranhos (e que também vai ter algo a ver com estas famílias). Como dá para perceber, Longe Da Terra Queimada é um filme sobre amores disfuncionais, personagens fragmentadas por tipos de amor não convencionais ou socialmente errados, mas que nem por isso deixam de ser vividos de forma intensa e honesta. No entanto, as suas personagens têm que sofrer as consequências! Longe da Terra Queimada é, sobretudo, um filme sensorial, em que não se limita a ver e ouvir, mas também a sentir. E as suas personagens fazem-no também, exigindo experienciarem as suas próprias acções, não se limitando a que os espectadores o façam por elas. Nota-se que falta a Guillermo Arriaga alguma consistência formal para dar corpo ao seu conteúdo. Falta-lhe a mão firme de um realizadorl, seja ele Alejandro Inarritu ou Tommy Lee Jones (Os Três Enterros De Um Homem, anyone?). No entanto, Longe Da Terra Queimada não deixa de ser um filme poderoso e um McRoyal Deluxe. Vamos lá ver agora como é que se safa o Inarritu sozinho. ![]()
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10:12 AM Domingo, Setembro 13, 2009 VICE: Título: Vice Realizador: Raul Inglis Ano: 2008 ![]() Afinal, ao contrário do que estava programado, o Festroia encerrou com Vice em vez de Last Hour. Ao que consta, problemas alheios à organização e à Zon impediram o filme de pré-estrear no festival, mas o empenho pessoal de Madsen fizeram-no trazer outro filme. A directora do Festroia, Fernanda Silva, louvou essa dedicação do actor, mas sejamos sinceros: Michael Madsen também não deve estar habituado a ser homenageado muitas vezes desta maneira e, pelo sim pelo não, mais vale cooperar, não vá não haver uma segunda chance. É que Madsen, por muito que gostemos dele, não é um actor propriamente genial. Tem estilo e cara de mau, o que fazem-no fazer sempre o mesmo papel. Além disso, em cada dez filmes, apenas um deles é bom. Por isso, o que podemos esperar de um filme, realizado por um desconhecido, que tem como protagonistas dois monstros da série b, Michael Madsen e Daryl Hannah? Não muito, é certo. Não vem daqui nada de mal ao mundo, mas... Vice até tem ambição de ser mais do que um simples thriller policial de género. O filme tem o motor e o chassis de um neo-noir, cheio de heróis atormentados pelos seus próprios fantasmas do passado e ambientado numa fotografia depressiva, mergulhada em sombras e com destaque pela vida nocturna (de preferência, em bares de reputação duvidosa e sítios menos aconselháveis). Max Walker (Michael Madsen) é um polícia durão, que ainda não conseguiu ultrapassar a morte da mulher: bebe que se farta, vai às putas libertar a tensão acumulada e está sempre de mau humor. Esta personagem principal de Madsen remete, automaticamente, para o Harvey Keitel, de Polícia Sem Lei: há diálogos existencialistas com Deus (que se tornam mais ocasionais à medida que o filme avança), uma catarse final em pleno altar de uma igreja e um polícia com atitudes pouco éticas, que encobre os seus erros forjando provas. Abel Ferrara e a sua habitual humanização do pecador não são uma referência estranha a este Vice. O problema é que, apesar das boas intenções, nada disto funciona sem um argumento. E Vice não tem um. Apenas um acumular de clichets dos thrillers policiais de informação e contra-informação, que tenta ser um LA Confidencial dos pobres com um twist final mais do que batido (e que se arrasta até à exaustão), em que os pretos são sempre os maus (o Ku Klux Klan há de adorar isto). A culpa é de Daryl Hannah, que personifica tudo o que é vícios de um cinema de série b (sem culpas no cartório, claro, ela apenas faz o que lhe mandam). Madsen ainda nos atira com um par de cenas intensas, mas também não é, propriamente, um actor para tour de forces. Em dez filmes de Michael Madsen, um vale a pena. Os outros são apenas trabalho para colocar comida na mesa. Este dá para pagar um Cheeseburger ao jantar. ![]()
Posted by: dermot @
11:52 AM Sábado, Setembro 12, 2009 VENENO CURA: Título: Veneno Cura Realizador: Raquel Freire Ano: 2007 ![]() Quando Raquel Freire lançou Rasganço, em 2001, a crítica e a malta de Coimbra (especialmente) não lhe perdoaram tamanha xunguice-pop-romântica sobre a tradição académica coimbrense. Por isso, confesso que não estava já à espera de a ver com um novo filme, após sete anos sem fazer nada. Devido a esta conjuntura, acabei por ir com curiosidade ver Veneno Cura. Este começa com uma senhora (Sofia Marques) que, ao dar banho à sua filha bebé, tem um acidente muito estúpido e a menina morre dentro de um balde de água a ferver. Depois de se tentar suicidar, é encarcerada numa cela, sem nada que possa utilizar para se matar, à espera de julgamento. E a partir daqui, nada mais faz sentido. Pouco depois há um advogado (Miguel Moreira) nomeado pelo Estado para a defender, que por acaso até é o Mourinho do Direito em Portugal, e que a viola(!) sempre que a vai visitar à cela ou a outro sítio qualquer, sob o pretexto de a querer salvar(!!). Esse mesmo advogado parece ser uma personagem diferente ao mesmo tempo que vai comendo a irmã gémea na piscina(!!!). Esta (Sandra Rosado) tem uma doença terminal e, antes de se suicidar na banheira, vemo-la por um bar de strip, onde é a imperatriz do sítio(!!!!), que parece o Tebas, de Rodrigo Areias, num misto de neo-realismo-barroco-xunga e mau cinema. Também nesse bar de strip há outros irmãos, um ex obcecado e outras personagens difusas. Tudo isto é apresentado em modo sequencial que eu ia apelidar de telenovela, mas emendo: é mais em formato anúncio de televisão. Raquel Freire teve o momento mais feliz da sua realização ao apelidar aqueles segmentos cinematográficos de fragmentos. O resto é mais verborreia mental e que ajuda a rotular o cinema português com aquelas ideias que a maioria das pessoas tem dele: as personagens femininas andam sempre com as mamas à mostra, cena sim cena não há sexo e os diálogos são demasiado poéticos, como aquele em que uma tipa abre as pernas e ordena ao namorado(?) que lamba. Quando já estava quase a ficar com um nó no cérebro, olhei para o relógio para ver quanto tempo faltava para o fim e espantei-me, porque apenas tinham passado vinte e poucos minutos! Que se lixe isto, ando demasiado cansado para aturar coisas destas!! Ou então sou eu que não sou suficientemente inteligente para o perceber... Tomem lá Pão Com Manteiga. ![]() CONTRATO: Título: Contrato Realizador: Nicolau Breyner Ano: 2009 ![]() Nicolau Breyner está tão habituado a entrar em todos os filmes portugueses que, quando também realizou um, acabou por se convidar a si próprio para participar. Contrato é o título desse trabalho que marcou a estreia de Nicolau Breyner na realização, depois de décadas a ser um dos melhores actores nacionais e algum par de experiências na televisão, com novelas, sitcoms e casos da vida. Nicolau Breyner teve então uma bela ideia: trazer para o cinema, a baixo custo e recorrendo à democratização do vídeo digital, o universo dos policiais noirs de Dennis McShade, vulgo Dinis Machado. Para quem não sabe, anets de escrever (o genial) O que diz Molero, Dinis Machado escreveu três policiais acerca de um hitman, Peter Maynard, para arranjar uns trocos para pôr comida na sua mesa e na do seu amigo editor. É o material perfeito para um filme português de acção, em vez das tentativas forçadas de Leonel Vieira em reciclar matéria-prima hollywoodesca. O problema de Nicolau Breyner é que as aventuras de Peter Maynard não são meras aventuras de polícias e ladrões, que a colecção Vampiro editava ao ritmo de um por mês e a censura do Estado Novo deixava passar, primeiro por ser um género menor e segundo por não ter mãos a medir para tal cadência de publicações. Peter Maynard, apesar de americano, reflecte muito Dinis Machado, especialmente nas entre-linhas - um assassino especial que tem uma úlcera e que cita literatura maior em longos monólogos existencialistas. Maynard é um duro, mas com poesia nas veias. Em Contrato, Maynard chama-se Peter McShade (Pedro Lima) em homenagem ao pseudónimo de Dinis Machado e nada tem a ver com a perosnagem onde se baseia. Falta-lhe o carisma, a personalidade, o ego que o fazia ser mais do que uma simples personagem bidimensional. No filme, há forma, mas não há conteúdo. Por exemplo, há uma referência à tal úlcera no estômago, mas mais como curiosidade do que como elemento de amargura na construção do seu carácter; Nicolau Breyner prefere dar-lhe antes uns flashbacks traumatizantes na guerra do Iraque(!). Em Contrato, em vez de Humphrey Bogart ou James Cagney de que estávamos à espera, temos mais a sensibilidade de um elefante numa loja de porcelanas do inexpressivo Jason Statham. Contrato até tem piada ao início, com Pedro Lima a matar o irritante Pedro Granger, mas mais do que uma aventura noir, temos antes uma aventura naif. No entanto, ao contrário deste tipo de arte, em que, por vezes, a forma desajeitada como se relacionam determinadas qualidades resulta numa beleza desequilibrada, Contrato não tem nada de belo. É apenas risível. Pelo meio ainda há Cláudia Vieira, na tentativa de preencher o espaço destinado à femme fatale, mas que só está lá para mostrar mamas sob qualquer pretexto. Já vi filmes porno em que as cenas de sexo surgem com mais naturalidade (se bem que Cláudia Vieira tem umas mamas mais bonitas que muitas dessas actrizes). Antes de terminar, queria ainda referir o fim, que me lembrou a cena final de O Silêncio Dos Culpados, em que, depois de encenarem uma farsa na boa tradição do whodunnit, as personagens começam todas, uma a uma, a tirarem máscaras e a revelarem-se outra pessoa. Aqui acontece o mesmo: depois de o filme chegar ao fim sem nos apercebermos que houve uma história para seguir, surgem personagens que nós já não nos lembravamos que existiam, com perucas e máscaras emulando outras personagens que nós também já nos tínhamos esquecido que existiam. É pena Contrato nem chegar a ser um bom mau filme. Serve para um Happy Meal, em que os pontos extra são para a pele à mostra de Cláudia Vieira. ![]() Segunda-feira, Setembro 07, 2009 O DEDO DE DEUS: Título: Etsba Elohim Realizador: Yigal Bursztyn Ano: 2008 ![]() Para quem acha que Israel é só calhauzada, atentados suicidas e colunatos judeus, o Festroia costuma dar uma outra imagem do país, mais simpática e pacífica. Falei disso em 2006, quando Que Lugar Maravilhoso venceu o prémio máximo do certame, com um filme nestes moldes. Agora, três anos depois, é a vez de O Dedo De Deus seguir a tradição: um filme israelita sem mencionar qualquer conflito armado com os palestinianos. A sinopse é bem simples: Shabtai (Alon Abutbul) é um sucateiro com mau feitio, que cruza a cidade num triciclo a motor a cair de velho com o seu companheiro inseparável, o primo não-oficial e com um ligeiro atraso, Herzel (Moshe Ivgy). Os dois estão apaixonados, o primeiro pela famosa modelo-fabricante-decosméticos-cantora, Lili Dekel (Dorit Bar-Or), e o segundo pela filha de Shabtai. Claro que nada disto engana, é como o algodão. Temos um buddy-movie sobre a amizade e o companheirismo, em formato comédia ligeira, um toque feelgood e pozinhos de comédia-romântica, sem grandes ambições ou cartas na manga. Curiosamente, O Dedo De Deus até funciona bem, principalmente pelas personagens fortes, que nos fazem interessar por elas e seguir as suas vidas e peripécias. Não é tão luminoso quanto Que Lugar Maravilhoso, mas o McBacon de O Dedo De Deus não é desprimor nenhum. Pelo menos, enquanto houver israelitas a fazer filmes, são menos uns a mandar calhaus e morteiros para o outro lado. ![]()
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11:40 PM FRUTO PROIBIDO: Título: Kielletty Hedelmä Realizador: Dome Karukoski Ano: 2009 ![]() O laestadianismo é uma daquelas religiões que me assusta. Para quem não conhece, estes doentes são conservadores que seguem literalmente as palavras da Bíblia, ou seja, não dançam rock, nada de sexo antes do casamento, não competem entre si e preservativos é para esquecer. Por isso, reproduzem-se que nem coelhos, especialmente no norte da Europa. Eu, pessoalmente, consigo aceitar muito melhor os fiéis do Maradona ou mesmo os do Montro do Esparguete Voador do que estes fanáticos. Pelo que disse na apresentação do filme, o realizador Dome Karukoski tem uma opinião muito semelhante à minha. Por isso, não percebo como é que ele arranjou uma namorada laestadiana. Também não interessa muito, interessa sim dizer que essa relação de quatro meses serviu de influência para criar Raakel (Marjut Maristo) e Maria (Amanda Pilke), duas adolescentes na idade de descobrirem o mundo, mas terrivelmente manietadas pelos grilhões de uma religião castradora. Maria decide então abandonar a comunidade e ir experimentar, na primeira pessoa, os prazeres da vida. E os anciões da vila enviam Raakel no seu encalço para ajudar esta a não se perder pelas tentações do Diabo. Claro que juntas vão descobrir os prazeres da vida, cada uma por si, desde as coisas mais simples, como o alcool ou o sexo, até à grande revelação de todas: o cinema. E que grande cena, quando Raakel vai ao cinema pela primeira vez, sendo completamente esmagada pelo poder da sétima arte, numa cena que lembra vagamente a Anna Karina a ver A Paixão De Joana D'Arc, em Viver A Sua Vida. No entanto, mais do que a jovem de Godard à procura das experiências da vida, as jovens de Fruto Proibido evocam as dos dramas adolescentes de Larry Clark ou as de Treze - Inocência Perdida. É que apesar das potencialidades do argumento, Dome Karukoski anda sempre à volta de si próprio, com rodriguinhos e uma tenativa falhada de jogar com os pormenores, que apenas resultam em planos subjectivos com uma pontinha de presunção. Infelizmente, o filme dura ainda mais do que devia, depois de uma noite final de depravação, que deve ter para aí umas 20 horas, porque dá para as jovens experimentarem tudo: bebida, prostituição, sexo e acidentes de carro. Só faltou mesmo as drogas, para poder chamar Dome Karukoski de Larry Clark finlandês. E um Cheeseburger. ![]()
Posted by: dermot @
10:56 PM Domingo, Setembro 06, 2009 COMBOIOS RIGOROSAMENTE VIGIADOS: Título: Ostre Sledované Vlaky Realizador: Jirí Menzel Ano: 1966 ![]() Escrevia eu no texto anterior que o Festroia homenageava a República Checa e que nem Milos Forman estava presente, nem sequer um filme tinha na programação. Diz a sabedoria popular que pela boca morre o peixe e a sabedoria popular não se costuma enganar. Realmente, mais valia estar calado. Quem precisa do Milos Forman, quando temos o Jirí Menzel, um dos mais aclamados realizadores checos. E a edição deste ano do Festroia incluiu Comboios Rigorosamente Vigiados, a sua obra-prima. É tão bom poder ver clássicos em ecrã grande. Principalmente quando nunca os tenhamos visto (aconteceu-me há dois anos atrás, com Crepúsculo Dos Deuses). Para quem não sabe, Comboios Rigorosamente Vigiados venceu o Oscar para melhor filme estrangeiro, em 1966, sendo desde então aclamado por tudo o que é publicação especializada como o melhor filme checo de sempre. Além disso, ganhou sempre mais destaque fora de portas do que no seu país natal - realizado em pleno regime comunista, a ex-Checoslováquia nunca foi muito na cantiga daquela crítica subliminar à Segunda Guerra Mundial. Comboios Rigorosamente Vigiados é então a história de Milos (Václav Neckár), um jovem que, seguindo a tradição da sua família, vai trabalhar para a estação de comboios local como controlador de tráfego. Como pano de fundo, a Segunda Guerra Mundial e uma Checoslováquia ocupada pelos nazis. Sempre com o seu chapéu e ar desengonçado, Milos é o pêndulo e, simultaneamente, observador daquele microcosmos em tom de farsa, uma autêntica personagem de Wes Andersons ou, talvez pelo uniforme, lembrando Tim bellhop Roth em Quatro Quartos. Mais do que um observador privilegiado, Milos é o crítico de costumes, na onda de um Buñuel, mas subversivo, mais light e com piscadela de olho à comédia mais arrojada. E por entre as linhas, lemos muitas críticas ao regime comunista, que rimam com a Segunda Guerra Mundial, e, especialmente, com sexo. Sim, leram bem, sexo! Todo Comboios Rigorosamente Vigiados é altamente sugestivo, cheio de metáforas e símbolos sexuais, antecipando em décadas a comédia screwball juvenil dos derivados de American Pie - A Primeira Vez, com expoente máximo no Milos incapaz de satisfazer a namorada e à procura de uma mulher mais velha que lhe tire os três. E o que é que eu penso disto? Reconheço-lhe uma atitude muito à frente da sua época, um formalismo que tenta romper com as regras estabelecidas e que parece querer gritar nouvelle vague por todos os lados e uma influência à comédia de Woody Allen a Wes Anderson. No entanto, não posso deixar de me lembrar da palavra sobrevalorizado. Primeiro porque, tendo sido feito em pleno regime comunista, acabou por receber um hype do mundo ocidental (isto sou eu a presumir); e depois porque não envelheceu nada bem. Encontro-lhe (muitos) pontos de interesse, mas demasiado disconexos, incapaz de traduzir-se num todo interessante. Por isso, não arrisco mais do que o Double Cheeseburger. Se calhar o problema sou, digam-me. ![]() A TEMPESTADE NO MEU CORAÇÃO: Título: Jernanger Realizador: Pål Jackman Ano: 2009 ![]() Mais um filme norueguês, mas desta vez na Secção Oficial. Durante a sua apresentação, o realizador Pål Jackman descreveu-o como um típico filme nórdico: Sou levado a desconcordar: apesar de alguma frieza de mise-en-scene e a inquietação pela vida e pela morte que quase se tornaram numa assinatura de Ingmar Bergman, A Tempestade No Meu Coração é um trabalho bem mais luminoso. Tão luminoso que até se localiza, geograficamente, no sul da Noruega, longe da neve e do frio de rachar. É aqui que conhecemos Eivind (Ailo Gaup), um velho rabugento e com alguma verborreira, que em tempos fora um rapagão bem parecido e um espírito livre. Tão espírito livre que, há 30 anos atrás, deixou a sua namorada à espera num porto, sem nunca ter coragem de voltar e assentar. E agora, já no Outono da vida, vive amargurado no seu grande barco, transformado em bar, onde vive durante a noite, alimentado a vodka e a cigarros, alvejando todas as manhãs o sol com a sua caçadeira. Há duas coisas que mantém Eivind vivo: o seu barco, extensão não só da sua virilidade, mas especialmente da sua juventude feliz; e o sonho de regressar ao norte, aos braços da sua amada, Beatrice (Mary Sarre). E quando o marido desta morre, uma última janela de oportunidade se abre. O problema é que, tal como o barco, Eivind está velho e doento. Por isso, este poderá ser o seu último esforço... Por entre esta questão metafísica de cumprir o seu último esforço, A Tempestade No Meu Coração vai dar um espelho a Eivind, onde ele se pode rever: Kris (Pål Sverre Valheim Hagen) é um jovem atormentado por não estar a viver a vida que queria e na dúvida se há de assumir a paternidade do seu futuro filho ou não, que vai encontrar no barco e na aventura de Eivind a sua própria aventura. A Tempestade No Meu Coração poderia ser então um filme de mestre e discípulo, mas é muito mais ambicioso que isso. No meio dessa inquietação existencialista, mas de contornos românticos (basta atentar ao título do filme), A Tempestade No Meu Coração rima ainda com Titanic, com Lagoa Azul e com road movie (mas no mar) e com tudo o que isto implica - a viagem, interior e exterior, a busca por algo, onde o que interessa não é onde se vai, mas sim ir. A Tempestade No Meu Coração tem ainda a coragem de não querer ser politicamente correcto ou polidinho (e aqui é tipicamente nórdico), com tomates para apostar na tragédia. Não tem o efeito tearjerker que o realizador certamente desejaria, mas nem por isso deixa de merecer o McBacon. ![]()
Posted by: dermot @
11:43 AM Sábado, Setembro 05, 2009 CASA DE LOUCOS: Título: De Gales Hus Realizador: Eva Isaksen Ano: 2008 ![]() Sou um infeliz! Este ano, por já ser uma pessoa crescida, perdi o Motelx, vou falhar o Douro Film Harvest e não vou poder acompanhar, como habitualmente, o Festroia. Não é que não vá vez nenhuma ao Festroia; o acompanhamento aqui no blogue é que vai ser mais errático, diferente do que tem sido no último par de anos. E por que é que vos estou a contar isto? Para que tenham todos muita comiseração por mim. O primeiro filme que apanhei este ano no festival foi o norueguês Casa De Loucos, trabalho que abre com um prólogo ambíguo, misto mal-filmado-mas-com-o-estilo-charmoso-do-giallo sobre uma tipa, Aina (Ingrid Bolsø Berdal), que se tenta suicidar atirando-se contra uma montra. Algo está mal naquela cabecinha e, por entre farrapos de cinema fantasmático e visões desfocadas,Aina vai acordar no hospital. Um hospital cheio de malucos. Sim, porque Aina não está internada num hospital qualquer, está internada num hospício. E a revelação traz consigo o genérico do filme e o final da melhor abertura do Festroia deste ano. A partir daqui, Casa De Loucos perde os sinais de cinema metafísico e ganha lucidez. Aina está num manicómio, rodeada de malucos e não se identifica: considera-se sã, apenas não quer mais viver. Neste mini-Voando Sobre Um Ninho De Cucos (curioso, este ano o Festroia homenageia a República Checa e é o Douro Film Harvest que recebe a visita de Milos Forman), nada é novo: até ao final, vamos descobrir que, afinal, aqueles malucos não são assim tão malucos quanto isso e o mundo lá fora é que é bem mais maluco que eles. E Aina, integrando-se naquele grupo, vai acabar por ficar curada, ajudando os restantes a consseguirem endireitar também as suas vidas. O problema de Casa De Loucos não é a falta de originalidade, é antes o acumular de clichês e más opções formais. É, por exemplo, a teimosia em criar pontes com o espectador, como se a realizadora tivesse medo que nós perdêssemos o tino no meio de tanto desaparafusado, com a insistência de nos pôr a ouvir a voz interior da protagonista, num misto de narrador e de Olha Quem Fala. É também o facto de o argumento ir inxertando fragmentos de tragico-comédia que depois não têm um acompanhamento condizente no desenvolvimento e na reacção das personagens. Nada disto é propriamente grave e a tentativa até era suficientemente agradável. O problema é que, mais ou menos a meio, Aina elabora um plano perfeito para se suicidar sem que os monitores do hospital dêem por isso: decide morrer à fome, fingindo que come, mas deitando a comida fora. E como o meu corpo reage com violência a todas as más ideias que transmitam más vibrações, então Casa De Loucos caiu na insignificância do Cheeseburger. |
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