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Royale With Cheese | ||
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Título: Inglourious Basterds Realizador: Quentin Tarantino Ano: 2009 ![]() Ainda não tinha visto Sacanas Sem Lei (nem sequer o trailer) e já o tinha adorado e posto no topo da minha lista de melhores do ano. E aposto que o mesmo aconteceu com 85 por cento da cinefilia internacional. Porque Quentin Tarantino é assim, um dos mais consensuais realizadores (o único?) dos últimos tempos (de sempre?), que agrada a todos: às massas, aos críticos, aos entendidos e ao não entendidos. Só os bota-de-elástico é que dizem que não gostam (alguns até gostam, mas não o revelam, para poderem manter a imagem de erudito intelectual); preferem as excitantes estórias a preto e branco sobre o crescimento da erva. No entanto, há que ter cuidado. No meio de tanto entusiasmo, podemos acabar por nos perdermos nas falácias das manobras publicitárias que aí andam (incluindo a polémica inglesa, em que II Guerra Mundial e o spelling, Sara Galvão dixit, continuam a ser tabu). É que Sacanas Sem Lei não é bem o épico da Segunda Guerra Mundial que andam para aí a vender. Tarantino já o explicou: mais do que um remake de Quel Maledetto Treno Blindato (que em inglês tem o mesmo nome), Sacanas Sem Lei é uma homenagem a um sub-género de acção: a dos homens em missão (e ao cinema europeu, não só por ter legendas, mas por ter legendas amarelas). Significa isto que temos então: um grupo de soldados aliados cruéis e rijos como a potassa, cujo único objectivo é matar nazis. Muitos. E retirar-lhes o escalpe. Ah, e deixar sempre um sobrevivente, para poder contar aos outros o que viu e testemunhar tamanha barbárie. Este grupo, carinhosamente tratado por Sacanas pelos nazis, é liderado por Aldo Raine, um Brad Pitt com sotaque hillbilly, que faz lembrar os cowboys de John Ford. E de repente, Sacanas Sem Lei rima com westerns (spaghettis, como Tarantino gosta e já havia referenciado em Kill Bill – e aqui, além da música de Morricone, até há a distensão do tempo à Leone). E o primeiro capítulo de Sacanas Sem Lei (sim, o filme é dividido em cinco capítulos, como Pulp Fiction, mas com linearidade temporal), aquele que o próprio Tarantino descreve como um do melhores momentos que já esreveu (e nós concordamos muito), termina com uma porta aberta, como A Desaparecida. Temos então um épico sobre a Segunda Guerra Mundial cozinhado a la Kill Bill (com uma pequena facção de filme-vingança. Significa isto que os ingredientes são: diálogos escorreitos e humor irreverente; violência estilizada; e reverência cinéfila. Reverência esta que não se limita a piscadelas de olho a outros filmes; estende-se aquela reverência nostálgica que absorve não só outros filmes, mas a sua própria essência e paixão. Sacanas Sem Lei tem aquilo a que chamo o factor Cinema Paraíso. Só que Tarantino utiliza-o da sua maneira (ou seja, de forma retorcida), e utiliza esse factor para rebentar com o próprio regime nazi. E à metralhada! E nem tem vergonha em falcatruar a História. Os críticos têm dito que é a vingança judia ou justiça poética, do cinema que destrói o Reich depois de o ter servido (Godard dixit). Eu digo apenas: Entretenimento. Puro! Brad Pitt disse publicamente que Valquíria era uma brincadeirinha de crianças ao pé de Sacanas Sem Lei. Foi a coisa mais acertada que se disse em Hollywood em muito tempo. Aqui há nazis estilhaçados com tacos de basebol, com suásticas recortadas a sangue-frio na testa, metralhados até estarem desfeitos em pedacinhos e esfaqueados vezes sem conta, tudo em formato gore-cool (Eli Roth, actor no filme e realizador de pornografia-gore, apelidou-o de kosher-porn). Depois há uma tentativa de assassinar Hitler, metade filme de assalto metade filme conspiração, em modo highlife, como um Ocean's Eleven - Façam As Vossas Apostas na Segunda Grande Guerra. E há toques arty, ecos spaghetti, banda-sonora surf e muitas outras coisas que se tornaram imagens de marca de Tarantino. Sacanas Sem Lei é um filme-de-missão-de-Segunda-Guerra-Mundial-de-vingança-com-factor-Cinema-Paraíso-e-claro-Royale-With-Cheese. E ainda tem um filme dentro do filme, realizado por Eli Roth, que emula Leni Riefenstahl por todos os lados e que devia ser lançado como curta-metragem. ![]()
Posted by: dermot @
11:43 PM TAKE - CINEMA MAGAZINE: ![]() Página Oficial Quarta-feira, Agosto 26, 2009 CINEMA PARAÍSO: Título: Nuovo Cinema Paradiso Realizador: Giuseppe Tornatore Ano: 1988 ![]() Existem filmes que demonstram uma cinefilia tão pura e honesta, que se tornam verdadeiros hinos à sétima arte e manifestos de gratidão de enorme nostalgia. Não falo, obviamente, dos pastiches do Tarantino, por exemplo, mas antes das homenagens como Os Sonhadores, de Bertolucci, ou mesmo de O Último Grande Herói, apesar do tom menos sério. Claro que destes todos, o exemplo máximo é Cinema Paraíso, ou não fosse a sua intenção inicial servir de requiem às salas de cinema tradicionais. O Cinema Paraíso do título é uma antiga sala de uma aldeia da Sicília, nos anos 50. Alfredo (Philippe Noiret no papel do avô que todos queríamos ter ou que queremos acreditar que tivemos) era o projeccionista e Totó (Salvatore Cascio, fantástico e expressivo miúdo) cresceu sob a sua alçada, despontando para a vida ao mesmo tempo que se apaixonava pelos filmes que passavam (e que o padre da aldeia censurava de toda e qualquer cena que tivesse pornografia - leia-se beijos). Cinema Paraíso, o filme, começa 50 anos depois, com o anúncio da morte de Alfredo, que vai fazer o Totó adulto (Jacques Perrin) rever e avaliar a sua vida em regime flashback. Começamos então na Itália conservadora e rural, onde a sala de cinema era um escape ao regime e uma ponte para novos mundos, onde a população - ricos, pobres, novos, velhos, sãos e malucos - se reunia todas as noites para, em conjunto, apupar os índios dos filmes de cowboys, apludirem as matinés de aventuras, ou chorarem juntos nos melodramas italianos. Cinema Paraíso é um filho do neorealismo italiano e podia ser um primo directo de Fellini, nomeadamente de Amarcord, com o retrato daquela aldeia siciliana e, consequentemente, de toda a Itália, com as suas personagens típicas e a identidade italiana bem vincada, que começam por ser arquétipos, mas que ganham espessura ao longo do filme até se tornarem verdadeiramente nossos amigos. É naquela sala de cinema, com os filmes em paralelo, que Totó dá o salto para a adolescência (Marco Leonardi), depois de um golpe trágico do destino. E nesta segunda parte, Cinema Paraíso emula-se a si próprio, projectando o próprio cinema na história do jovem Totó e do seu mentor Alfredo. Neste épico de duas horas (três na versão extendida), o filme dá ainda o passo seguinte até à passagem para a fase adulta de Totó, ao abandonar a aldeia natal para a grande cidade de Roma, onde se vai tornar num realizador de sucesso e cortar o cordão umbilical com o passado. Mais do que um épico familiar e um ritual de transição da fase adulta, Cinema Paraíso é ainda extremamente simbólico - a cabeça de leão por onde são projectados os filmes, peça essencial na história, corporiza toda a força daquelas imagens num só objecto -, fazendo um tributo sentido à sétima arte, que serve espelha e reflecte a vida de toda a aquela aldeia siciliana e, consequentemente, de Itália. Além disso, há ainda a banda-sonora do mestre Ennio Morricone e um sentimentalismo romântico, mas nada piegas, de Giuseppe Tornatore, que nos faz termos verdadeiramente saudades daqueles tempos sem nunca o termos vivido. Cinema Paraíso é uma carta de amor ao cinema. E aqui, neste imodesto antro cinematográfico, as cartas de amor são servidas como guardanapos de Royales With Cheese. ![]() Domingo, Agosto 23, 2009 AIR GUITAR NATION: Título: Air Guitar Nation Realizador: Alexandra Lipsitz Ano: 2006 ![]() Actualmente, se o seu sonho é ser uma estrela do rock e tocar para milhares de pessoas que o veneram, mas não tem o mínimo jeito para tocar guitarra, então a solução é muito simples: comprar o Guitar Hero. No entanto, antes de terem inventado o jogo, só havia uma forma de cumprir este sonho: tornar-se num exímio executante de air guitar. Para quem não sabe, a air guitar (como o próprio nome indica) é a técnica de tocar uma guitarra elétrica feita de ar (ou seja, algo que não existe). Para alguns é um desporto, para outros uma forma de arte - a última manifestação artísitca pura, uma vez que não pode ser imitada e comercializada, porque é invisível - e, para a grande maioria, é apenas uma grande parvoíce. No entanto, é uma parvoíce levada a sério por muito boa gente, que se reúnem anualmente na Finlândia para o grande Campeonato do Mundo de Air Guitar. Por isso, se pensava que The King Of Kong era o documentário sobre a competição mais estúpida de todas (campeonatos mundiais de jogos de computador do tempo da cartucha), apresento-vos Air Guitar Nation. Mesmo assim, o que mais surpreende nisto é que, até 2003, não havia nenhum representante norte-americano nesta competição. E os americanos, povo mais básico que podemos encontrar à face da Terra, são gente que nós conseguimos visualizar na perfeição a fazerem estas coisas. Talvez tenha sido esse o raciocínio da realizadora Alexandra Lipsitz, que, em 2003, acompanhou a primeira participação dos Estados Unidos no campeonato mundial de air guitar. E logo com dois participantes: o campeoníssimo C-Diddy (que o maravilhoso mundo do youtube permite disponibilizar logo abaixo desta prosa) e Björn Türoque. O mundo do air guitar é como o Big Brother, um mundo de sucesso de plástico, volátil e datado. No entanto, durante os 15 minutos de fama, os seus intérpretes estão no topo do Mundo. E Air Guitar Nation capta esse espírito na perfeição, cem por cento entretenimento, cem por cento descartável cinco minutos depois de o vermos. É uma espécie de documentário pop, que se limita ao essencial a que se propõe mostrar, estando nos sítios certos nos momentos certos e entrevistando os intervenientes para quem não pôde estar presente no Campeonato do Mundo de Air Guitar de 2003. Pode achar que o air guitar é uma birutice e não suportar ver mais do que cinco segundos daquela gente a abanar os braços freneticamente, mas garanto-lhe que, se der uma chance a Air Guitar Nation, vai terminar o filme a torcer por um dos competidores, gritando a cada actuação e apupando os seus concorrentes. E a banda-sonora é um must, cheia de guitarradas, riffs e malhas do cacete. Imaginem este Le Big Mac ao som do Ace of spades, Hate do say I told you so, God gave rock and roll to you II ou Won't get fooled again. Mesmo assim, se continuarem a se sentirem culpados, lembrem-se: há sempre coisas ainda mais parvas, como quem consegue vender air guitars no Ebay. Sexta-feira, Agosto 21, 2009 DEATH RACE 2000: Título: Death Race 2000 Realizador: Paul Bartel Ano: 1975 ![]() Quanto David Carradine morreu aqui há uns tempos atrás, alegadamente depois de um trque de auto-satisfação que não correu lá muito bem, as referências nos meios de comunicação sucederam-se. Na maior parte das vezes, falou-se em demasia de Kill Bill; aqui, neste imodesto tasco cinematográfico, falou-se muito (e devidamente) de McQuade, O Lobo Solitário; e em praticamente lado nenhum se falou de Death Race 2000. Pois bem, chegou a altura de compensar essa injustiça. 1975: Carradine começara a série televisiva de referência, Kung Fu; Sylvester Stallone ainda não tinha feito Rocky; e Roger Corman estava já prestes a ser coroado rei da série b. Nos Estados Unidos, vivia-se uma década muito específica: a era dourada de Hollywood tinha acabado e os movie brats revolucionavam o cinema, desbravando caminho e quebrando tabus; a contracultura tinha também queimado os últimos cartuchos, incapaz de salvar o Mundo, e acontecimentos como a guerra do Vietname, deixavam os jovens numa era de desânimo. Tudo isto foram factos que se conjugaram e deram origem a um dos filmes mais difíceis de rotular de sempre: Death Race 2000. Uma visão mais optimista pode descrevê-lo como um dos raros exemplos do futurismo no cinema (o futurismo de Marinetti e não o da ficção-científica), uma apologia à violência, ao progresso, à máquina e à guerra, para ser colocado lado a lado com Laranja Mecânica. No entanto, Death Race 2000 é demasiado vago e ingénuo para tal análise. Death Race 2000 é antes uma desmiolada e patetice xunga, típica dos exageros do cinema de série b. Num futuro hipotético, mais uma vez com a longínqua fronteira do ano 2000 em vista, eis outra distopia em que os Estados Unidos se bamboleiam perante o resto do Mundo como uma potência isolada mas honrada do seu poderio económico. O Presidente, figura big brotheriana desta sociedade, é o anfitrião e promotor da corrida transcontinental, uma violenta competição automóvel em que seis pilotos super-esteriotipados (de repente parece que estamos a ver as gangues de Os Selvagens Da Noite) vão tentar ultrapassar o continente americano, atropelando o máximo de pessoas para ganharem pontos extras. E lembrem-se, velhinhos e grávidas dão pontos extras! Como em todas as distopias, esta insanidade funciona como uma sátira à sociedade americana e aos seus costumes, antecipando em décadas os reality shows (e o Carmageddon). O tom satírico de Death Race 2000 faz lembrar a acidez de um Verhooven em Soldados Do Universo, mas mais slapstick e tongue in cheek, de forma a que os atropelamentos gratuitos e sensacionalistas (com muitos jactos de sangue e gore explícito, claro) não sejam tão chocantes. Mesmo assim, o mais chocante de Death Race 2000 são as más representações (Stallone começava aqui a sua especialização em gritar muito, com a boca de lado, até se tornar imperceptível o que diz), os adereços de cartão ou aquele que podia ser o momento mítico do filme, o duelo mano a mano entre Sly e Carradine, em que ambos parecem custar mexer o cu e dão murros no ar a uma velocidade caricata. Típico tão mau que se torna bom, Death Race 2000 tem, felizmente, apenas uma hora e um quarto de duração, tempo suficiente para ser um dos mais patetas e felizes filmes xungas de sempre. Pérola de culto e McBacon mui honrado. ![]() Terça-feira, Agosto 18, 2009 INIMIGOS PÚBLICOS: Título: Public Enemies Realizador: Michael Mann Ano: 2009 ![]() Confesso que nunca me tinha acontecido coisa semelhante - sair da sala de cinema e não conseguir perceber o que achei verdadeiramente de um filme. Aconteceu-me com Inimigos Públicos. E ainda hoje, 48 horas depois, não consigo decidir se gostei, se não gostei, ou se achei assim assim. No entanto, tenho algumas luzes e acho que consigo elaborar um raciocínio mais ou menos coerente para vos apresentar. Começos pelo mais fácil: a sinopse. É factual, logo racional, e assim dá para escrever mais um parágrafo sem grandes preocupações. Ora bem, Inimigos Públicos é a história de John Dillinger (Johnny Depp), famoso ladrão de bancos norte-americano e, mais importante que isso, figura da cultura popular contemporânea. Tudo porque Dillinger sempre foi visto como uma espécie de Robin Hood dos tempos modernos, que apenas roubava os bancos, tomados pelo público como grandes responsáveis pela Grande Depressão em que se vivia. Era como se Wellington Nazaré fosse português e tivesse tido sucesso no BES. Não é por acaso que Dillinger era o ídolo principal de Bonnie e Clyde, por exemplo. Michael Mann decidiu dar imagens a esta "lenda" e voltou a um ambiente que lhe é familiar e que traz expectativas: o do submundo do crime. Para isso, colocou Christian Bale no encalce de Johnny Depp, como o implacável inspector do FBI, Melvin Purvis. Quem melhor para apanhar um fora-da-lei como Dillinger que o próprio Batman? É claro que o resultado só podia dar um jogo do gato e do rato, digno do mais clássico filme de gangsters, ou não terminasse Inimigos Públicos com as imagens de Manhattan Melodrama (se bem que aqui o filme serve, simultaneamente, como elegia). Mesmo assim, fica sempre a sensação de que falta algo nesta rivalidade, algo que não sei bem o que é, mas sei que não falta na relação entre Dillinger e a sua amada, Billie Frechette (Marion Cotillard). Além diss, Mann continua fiél ao digital de alta definição, o que faz de Inimigos Públicos algo estranho (não necessariamente mau) à vista. No Ipsilon, Vasco Câmara teve um excelente momento de felicidade ao descreve-lo como um filme de estúdio americano e espécie de nouvelle vague. Significa isso que Inimigos Públicos, devido ao digital, tanto parece um produto televisivo, como logo a seguir o movimento de câmara ou o ruído na imagem dão-lhe uma composição estilizada pouco vista (principalmente as cenas à noite de exteriores, que já tinham dado excelente réplica no anterior Miami Vice). Basicamente, Mann faz aquilo que David Lynch queria fazer em INLAND EMPIRE, mas em bom, o que o tornam numa espécie de esteta do novo cinema. Claro que também tem momentos maus, que não funcionam (as cenas à noite, cheias de ruído, são uma treta quando comparadas logo a seguir com uma toda polida e reluzente), mas nós compreendemos a situação. Esta composição estilizada funciona também muito bem nos tiroteios (e aqui houve uma evolução brutal desde Miami Vice, onde eram apenas fogachos), se bem que nada bate o de Heat - Cidade Sob Pressão. E neste campo estamos falados, não há discussão possível. Inimigos Público é feito então daquela matéria de que são feitos os mitos. No entanto, ao contrário de um Jesse James, por exemplo, em que Andrew Dominik esculpia o mito num enorme bloco de calcário com um cinzel de poesia, Mann dilui-o no tempo, com uma personagem cool e estilizada, uma espécie de samurai errante de Melville ou um espécime em vias de extinção (e aqui temos que nos lembrar de O Último Dos Moicanos). Claro que isto sou só eu a teorizar, como um entendido na matéria, porque na prática não se vê quase nada disto no filme. Leio um pouco pela internet sobre Inimigos Públicos e não me ajuda a chegar a uma conclusão. Há quem o idolatre e há quem o odeie com igual força e igual razão. Há gente respeitável a dar-lhe cinco estrelas e outros a ficarem-se por veredictos menos entusiasmantes. Eu confesso que, nesta indecisão, estou mais inclinado para estes últimos. Mas não vou conseguir descansar a consciência sem ir a um cinema pela segunda vez, nem que seja para conseguir apontar o dedo a algo. Até lá, vou-me ficar pelo Double Cheeseburger, mas lembrem-se que esta é uma decisão provisória. ![]() UMA CURTA POR DIA NÃO SABE O BEM QUE LHE FAZIA: Os filmes de terror estão cheios de clichet que adoramos. No entanto, o meu favorito é aquele que faz os assassinos dos slashers moverem-se a passo de caracol enquanto perseguem as suas vítimas e mesmo assim conseguem apanhá-las. Os assassinos dos slashers são tão cools que nem precisam de correr! Vão a andar que é para não suarem muito, não vá terem um encontro fortuito com uma tipa gira no elevador para casa à noite e estarem a cheirar a cavalo. A curta que vos trago hoje, uma verdadeira papa-festivais de terror, tem o bonito título de The Horribly Slow Murderer With The Extremely Inefficient Weapon e parodia este clichet de forma absurda, esticando-o ao máximo até aos limites. Como o próprio título indica, esta curta realizada por Richard Gale é sobre um tipo que é perseguido pelo assassino mais lento de todos e com a arma mais ineficaz de sempre - uma colher. E mesmo assim consegue ser aterrador - e igualmente hilariante -, ao jogar magistralmente com os truques do cinema de terror, o suspense e os seus maneirismos. The Horribly Slow Murderer With The Extremely Inefficient Weapon é como ver a relva a crescer ou a tinta a secar. Mas a rir. Domingo, Agosto 16, 2009 COM OUTRA? NEM MORTA! Título: Over Her Dead Body Realizador: Jeff Lowell Ano: 2008 ![]() Ao entrarmos na silly season, é normal que filmes como este - comédias pateta com títulos em português ainda mais pateta -, comecem a proliferar como cogumelos. Por isso, compete a nós, espectadores, saber consumi-los com moderação, para evitar o risco de intoxicação. Com Outra? Nem Morta! é um desses exemplos, cujo aspecto não engana nem os mais distraídos: o tal título ... pouco convencional, chamemos-lhe assim; Jason Biggs, o tipo do American Pie - A Primeira Vez no elenco (e Paul Rudd, que também não faz mais nada); uma tipa bem gira para chamar a atenção do público masculino (no caso, Eva *suspiro* Langoria); e a sinopse com uma das mil variações possíveis da comédia romântica. Aqui, o par perfeito é composto por Kate (Eva Longoria) e Henry (Paul Rudd), dois noivos apaixonadíssimos. No entanto, no dia do casamento, a parte feminina do casal morre. Mais coisa menos coisa e Henry, que parecia ter esgotado todo o seu interesse pelas mulheres com o falecimento da noiva, apaixona-se por uma vidente/caterer, Ashley (Lake Bell). E qual vai ser o entrave a esta nova relação? O fantasma de Kate, que volta do além para assombrar a sua nova rival e impedir aquele amor, até ao final feliz do costume, ao som de violinos (aqui é mais ao som de I Can See Clearly Now, versão Eagle argh Cherry) e com muita gente emparelhada. Como qualquer comédia romântica que se preze, Com Outra? Nem Morta! não utiliza humor de casa de banho porque pretende agradar às senhoras na sala, mas também não abusa da lamechiche romântica, porque não pretende afugentar o público masculino. Jeff Lowell até consegue conciliar ambos com bastante ponderação, evitando os gags de humor físico que, neste tipo de filmes, são usados amiúde sempre que há uma dificuldade em fazer uma parte com piada, o que mostra a sua competência. Mas mais importante de Com Outra? Nem Morta! é mesmo o confronto entre Eva Langoria e Lake Bell, até porque é a primeira que vende o filme. E, apesar de não haver momentos verdadeiramente marcantes, existe uma certa química que apimenta um pouco aquela rivalidade. Em contrapartida, o menos importante é Jason Biggs, que ninguém percebe o que está lá a fazer. A sua personagem é tão cruelmente tratada que até faz pena: apesar de ser um secundário, o seu boneco é bem mais interessante que a do principal Paul Rudd. Comédia romântica de Verão para se ver com a namorada ao lado em noites de calor ou em tardes de domingo de ressaca, na TVI, acompanhado por um Double Cheeseburger e o cérebro desligado. ![]()
Posted by: dermot @
10:32 AM Quinta-feira, Agosto 13, 2009 SINAIS DO FUTURO: Título: Knowing Realizador: Alex Proyas Ano: 2009 ![]() Sinais Do Futuro era um filme decisivo para o mexicano Alex Proyas. Não para a sua carreira, mas para a sua credibilidade aqui neste imodesto antro cinematográfico (que muitas vezes é mais importante que as próprias carreiras). É que, depois de um interessante O Corvo e um genial Cidade Misteriosa (vénias), Alex Proyas tinha assinado um muito fraquinho Eu, Robot, que me deixou desconfiado e sem saber o que pensar ao certo da sua arte de realizador. Terá sido Cidade Misteriosa um tiro de sorte ou foi antes Eu, Robot um acidente de percurso? Sinais Do Futuro serviu para dissipar essas dúvidas. Depois de desafiar deontologicamente as leis da robótica de Asimov, em Eu, Robot, Proyas voltou ao universo fantástico, com uma premissa que poderia ter sido magicada pela cabeça do também genial, mas ultimamente em má forma, M. Night Shyamalan: uma menina solitária e que ouve vozes preenche uma folha a3 com números aleatórios, que mais não são que a previsão de todas as tragédias do Mundo que estão para acontecer. Claro que essa premonição vai parar, 50 anos depois, às mãos de quem está menos disposto a aceitar esse fecto: John Koestler (Nicolas Cage), um cientista afectado pela morte da mulher, incapaz de acreditar no que quer que não seja racional, e com um trauma que não o deixa representar em condições. Eis Nicolas Cage com uma folha de papel que prevê todas as tragédias do Mundo, incluindo o armagedão final. O que é que isso dá? Claro, um filme-tragédia. No entanto, os responsáveis pelo filme devem-se ter sentado à mesa e chegado à conclusão de que aviões a despenharem-se e metropolitanos descarrilados, tudo em CGI e em únicos long-shots, não era suficiente. E assim, acrescentaram-lhe extraterrestres, mascarados de mito de Noé, para recolherem uns escolhidos no fim dos tempos, ou não tivesse a personagem de Cage um passado religioso mal resolvido e uma estranha obsessão à Fox Mulder, de quem precisa de acreditar. Aliás, há muito de Ficheiros Secretos e dos seus medos contemporâneos em Sinais Do Futuro... No meio desta mistura de filme-tragédia com filme de extraterrestres começam então a surgir buracos a mais, que fazem um queijo suíço parecer um couraçado de ataque. Para que é que os números têem que prever todas as tragédias do Mundo e não só o dia do armagedão final? Porque é que os extraterrestres se mascaram de albinos de gabardine? Porque é que os extraterrestres dão um seixo rolado preto às pessoas escolhidas? E, acima de tudo, porque é que termina tudo numa enorme treta de redenção new-age?! Não há nada mais irritante que a new-age. Só a cientologia, claro. Sinais Do Futuro é uma longa curva descendente e uma lição de como se estragar uma boa ideia, anexando-lhe toneladas de outras ideias cada vez piores. De aplaudir neste Double Cheeseburger só mesmo a coragem de fazer um filme com um tom tão apocalíptico. Veredicto final para Alex Proyas: fraude! ![]() COCO AVANT CHANEL: Título: Coco Avant Chanel Realizador: Anne Fontaine Ano: 2009 ![]() A estilista Coco Chanel, considerada uma das cem personalidades mais influentes do século XX pela respeitada revista Time, foi uma pioneira da moda. Primeiro, porque criou aquilo a que hoje entendemos como o universo da moda, com o seu star system, as top models e as passagens de modelos; e depois porque revolucionou toda uma forma de vestir, libertando as mulheres do protocolo dos espartilhos, dos corpetes e dos vestidos armados e introduzindo-as à alta costura moderna. Marlene Dietrich pode ter sido a primeira mulher a usar calças, mas foi Coco Chanel quem tornou isso normal. Visto que a moda é um fenómeno relativamente recente, Coco Avant Chanel é o primeiro grande biopic sobre esse universo. Daqui a uns anos, quando começarmos a ver filmes sobre a vida da Claudia Schiffer, da Elle MacPherson ou da Cindy Crawford, só podemos pensar em duas coisas: a primeira é que estamos a ficar velhos; e a segunda é que Hollywood enloqueceu de vez. Quanto a Coco Avant Chanel, como o próprio título indica, é um filme não tanto sobre a pioneira estilista, mas antes sobre a mulher por detrás da estilista. Gabrielle Bonheur "Coco" Chanel (maravilhosamente encarnada por Audrey Tautou) foi então a típica working class hero, a mais nova de duas órfãs, que começou a sua vida a cantar nos cabarets franceses de reputação duvidosa e subiu a pulso até a alta roda parisiense, partilhando a cama com muitos homens de bom nome. O seu temperamento independente e empreendedor fazem dela um exemplo feminista e uma bandeira da emancipação da mulher. A sua vida dava um filme. Ou vários. Para além da sua ascensão do berço de lata até ao de ouro ou da sua carreira fulcral na moda, a vida de Coco Chanel está recheada de factos e rumores: libertinagem, lesbianismo, um romance com igor Stravinski e alegadas ligações a nazis. No entanto, em Coco Avant Chanel, o enfoque principal é apenas dado à estrutura tipológica que o cinema tanto gosta (em Hollywood chamam-lhes underdogs) e ao triângulo amoroso entre Coco e Étienne Balsan (Benoît Poelvoorde) e Boy (Alessandro Nivola). Porque se há coisas que o cinema francês gosta, é de triângulos amorosos. E de deboche. Andamos então ali por entre os dilemas amorosos de um complicado triângulo amoroso em pleno início do século XX, quando de repente Coco Chanel desata a criar roupas. As motivações acabam sempre por ser um borrão indistinto no meio do protocolo da crónica de costumes que o realismo do cinema de Anne Fontaine exibe, mas o problema identifica-se bem: Coco Avant Chanel esforça-se demasiado. Esforça-se demasiado em dar pistas ao espectador, acabando por revelar em demasia e não sugerir nada; e esforça-se demasiado em não ser acusado de implícito, acabando por não explicitar verdadeiramente nada. Parece complicado, mas não é. É apenas alguma falta de sensibilidade narrativa. Para um filme que não é um biopic convencional, o filme necessitava de mais arrojo. Visto que Anne Fontaine preferiu contar a história da mulher e não da lenda, falta-lhe uns pozinhos de anarquia ou rockstar de que Coco Chanel tinha bastante - um toque à Maria Antonieta. Mas pessoalmente interessava-me muito mais a faceta pioneira da Coco Chanel estilista e de toda a convulsão social que ela provocou. E, pelos últimos dez minutos de Coco Avant Chanel, penso que à realizadora isso também lhe interessava, visto que estes parecem pertencer a outro filme. Se não fosse Audrey Tautou, acho que este McChicken poderia ter um final bem pior. ![]()
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12:07 AM Terça-feira, Agosto 11, 2009 GÉNOVA: Título: Genova Realizador: Michael Winterbottom Ano: 2008 ![]() Depois de ter visto o desastre que foi 9 Canções, procurei apagar imediatamente da minha mente tudo o que tivesse a ver com Michael Winterbottom (exceptuando, claro, 24 Hour Party People; felizmente, a minha memória selectiva funciona bem). No entanto, como sou um tipo optimista por natureza, decidi reconsiderar a minha posição e dar uma oportunidade a Génova, o seu último trabalho, indo à partida sem qualquer ideia pré-concebida (garanto-vos). Génova inicia-se numa inocente viagem automóvel de uma mãe (Hope Davis) e as suas duas filhas (Perla Haney-Jardine e Willa Holland). A coisa assume um carácter familiar, mas a ingenuidade da mais nova provoca um acidente, que se revela mortal para a progenitora e traumatizante para as petizes. Em menos de cinco minutos ficamos agarrados a Génova: e agora?, interrogamo-nos. Como vai ser a vida daquela família (falta acrescentar o pai, Colin Firth, à equação) e, mais importante de tudo, conseguirão perdoar a filha mais nova? E será que ela própria conseguirá perdoar-se? Claro que tudo isto são perguntas que o vento vai levar sem resposta, porque Michael Winterbottom vai por outro caminho. E esse caminho vai dar a Génova, provavelmente porque a cidade italiana financiou o filme. Winterbottom desloca então aquelé núcleo familiar fragmentado para Itália, para recomeçarem as suas vidas e ultrapassarem a tragédia. E, também para fazer render o seu peixe, aproveita para fazer uma apresentação à cidade. No entanto, a sua faceta de guia turístico é mais próxima da de Manoel de Oliveira do que da de Woody Allen. Em Génova, aquela família vai tentar ultrapassar o trauma e reconciliar-se consigo própria, ao mesmo tempo que visita a cidade. É uma mistura estranha, mas não nos esqueçamos que este é o mesmo filme em que a filha mais nova vê fantasmas, a mais velha vai para a cama com todos os rapazes que conhece (e todos eles falam inglês... deve ser uma coisa de Génova, porque no resto daquele maldito país nunca encontrei ninguém que soubesse dizer duas frases seguidas em inglês) e o pai... bem, o pai anda por lá, a dar aulas na universidade de uma cadeira que ninguém percebe qual é, mas que numa aula está a falar do euro e das vantagens da moeda única e na seguinte está a analisar um soneto. Winterbottom parece sempre indeciso no filme no que quer fazer, entre o eurotrip e a história fantasmática, com uma pitada do Polanski inicial. Tudo isto é filmado com uma câmara digital ao ombro, num registo próximo do cinema verdade que ganha proporções presunçosas quando nada acontece. Nós sentamo-nos, sentimos um crescendo, mas depois... depois nada. Nós bem que puxamos pelas personagens e queremos que surja alguma coisa, que despolete uma reacção naquela gente, mas as suas vidas são tão aborrecidas que começamos a desmotivar. E quando a miúda mais nova foge, nós até rezamos aos anjinhos para que ela tenha um acidente ou que parta pelo menos uma perna, porque já não aguentamos tanto aborrecimento. Infelizmente, mais uma vez, corre tudo bem e... nada se passa. Além disso, Michael Winterbottom esqueceu-se de filmar o final de Génova, que não tem fim. Ou então, o seu entendimento de redenção e reagrupamento familiar é bem distinto do meu. Não, não é mau feitio nem nada contra Winterbottom; Génova é mesmo um Cheeseburger. ![]() Sábado, Agosto 01, 2009 FUGA PARA A VITÓRIA: ![]() Por muitas vezes que tenhamos visto o filme, ainda festejamos o golo de pontapé de bicicleta de Pelé e deliramos com a defesa de Stallone naquele penálti no último minuto. Isso mesmo, adivinhou, é o "Fuga para a Vitória", exibido nas primeiras salas de cinema dos EUA no dia 30 de Julho de 1981. por Rui Tovar, no i Este é um daqueles filmes que, apesar de não ser propriamente genial, tem um brilho e um carisma muito próprio, que nos fazem recordá-lo com especial carinho. É como diz o texto do i, por mais vezes que o vejamos, iremos sempre vibrar com o golo do Pelé no final do jogo. O trash falou deste fenómeno aqui, com outro filme do género. Fez anos esta semana que o filme estreou nas salas de cinema e o i fez eco disso. Principalmente, porque a história é baseada em factos reais, o que eu não fazia a mínima ideia. E bem mais interessantes que o próprio filme, o que só prova o ditado: reality is stranger than fiction. Podem ler o artigo completo aqui. E caso queiram recordar o filme, a minha opinião aqui.
Posted by: dermot @
12:46 PM |
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