Andava eu ligeiramente afastado das minhas lides bloguísticas (por falta de tempo, não por falta de vontade), quando recebi um alerta para um filme que devia ver urgentemente. Chamava-se In Search Of A Midnight Kiss e, segundo essa pessoa, era o novo As Canções De Amor. Palavras mágicas para eu ir a correr, arranjar este filme independente note-americano, vencedor de vários prémios da especialidade, inclusive um dos maiores deles: o Prémio John Cassavetes.
No entanto, após o ver, devo dizer que In Search Of A Midnight Kiss não tem nada de As Canções De Amor. É antes o novo Antes Do Amanhecer/Antes Do Anoitecer, um feelgood movie sobre o encontro de um dia entre um casal de desconhecidos. O contexto: ele (Scoot McNairy) é o rei dos deprimidos, há três anos sem dar uma queca; ela (Sara Simmonds) é a raínha das neuróticas, uma semana depois de terminar uma relação intensa. Os dois vão encontrar-se após um anúncio na internet (benditas redes sociais), pressionados pela véspera de ano novo, data com grande significado simbólico (é como o dia dos namorados, mas para a vida e não para o amor).
In Search Of A Midnight Kiss é um filme independente, filmado em digital e lançado a preto e branco, apesar da edição em dvd ser a cores. Ainda bem, porque é preferível aquele aspecto barato do digital do que a presunção do preto e branco, muleta preguiçosa para dar um toque sério e intelectual a filmes que não necessitam (Entre Os Dedos, anyone?). Além disso, In Search Of A Midnight Kiss é filmado como que por um aluno saído da escola de cinema, mas com a notável liberdade de uma primeira obra, em que o realizador vem cheio de ideias e desejoso de as colocar todas em prática - até porque pode voltar a não te routra oportunidade para o fazer.
In Search Of A Midnight Kiss recicla ainda Manhattan (será que foi daqui que veio a ideia do preto e branco?), só que com uma tour por Los Angeles. Aliás, o par de protagonistas até são uma desdobragem da persona de Woody Allen: ele é o depressivo e ela a neurótica. O problema é que os diálogos não são a mesma coisa e a profundidade do alcance do filme idem aspas. Por isso, prefiro manter a comparação a Antes Do Amanhecer/Antes Do Anoitecer, se bem que estes são feelgood movies e In Search Of A Midnight Kiss tem uma aura demasiado negra a percorrê-lo. Apesar da história de amor fortuita e, consequentemente, romântica, o filme é cozinhado num tempero pessimista enorme, com histórias paralelas demasiado cruéis e uma tragédia final quase que anunciada.
No entanto, nunca se percebe porque a razão de tamanho pessimismo (que começa logo pela tour em Los Angeles, através dos teatros abandonados e das ruas sujas). E quando chega ao final e o realizador, Alex Holdridge, remata tudo com uma versão (ainda mais) deslavada do Wind of change, ficamos com um sabor amargo na boca. Porque se, em Em Paris havia a Kim Wilde e isso tornava-se cool, aqui o filme não tem carisma e identidade própria suficiente para o fazer. In Search Of A Midnight Kiss não é um criador de tendências. Enfim, eu tenho-o por um Double Cheeseburger.
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8:07 PM |
Quarta-feira, Julho 22, 2009
TAKE - CINEMA MAGAZINE:
No princípio do século, andava o Mundo na pasmaceira do costume, com as suas guerrinhas por Deus, pelo petróleo ou por Deus e pelo petróleo ao mesmo tempo. O terrorismo era a coisa que mais preocupava a população, mas nós, plantados à beira-mar neste pedaço de terra esquecido pela maioria, nem isso tínhamos a recear (até porque, apesar do nosso presidente ter sido o anfitrião da cimeira das Lajes, como toda a gente pensa que somos uma província da Espanha, a questão ficou logo arrumada com o 11 de Março). E de repente, eis o papão da crise! As multinacionais começaram a ir à falência, a bolha imobiliária rebentou, a deflacção começou a ser um perigo e o pessimismo apoderou-se das pessoas. Agora, toda a gente teme a crise. E pouca gente sabe porquê. Principalmente as velhinhas, que cortam as compras a metade, mas as suas reformas continuam iguais e o preço da comida está mais baixo. Enfim...
Com um tema tão actual, era apenas uma questão de tempo até ele transbordar para o cinema. E não falo na vida real, porque a crise logo tratou de afectar Hollywood, com a diminuição das receitas, as produções mais baixas ou outras causas para qual agora havia uma desculpa em quem pôr as culpas. Falo de um filme sobre a crise! E esse filme foi Dick E Jane - Ladrões Sem Jeito, uma comédia slapstick, co-escrita por Judd Apatow e remake de Adivinhe Quem Vem Para Roubar, comédia dos anos 70 com Jane Fonda, onde Dick (Jim Carrey) e Jane (Tea Leoni) são um casal de executivos de sucesso que, graças à crise, vão entrar em bancarrota e verem-se forçados a roubar bancos por desespero.
Dick E Jane - Ladrões Sem Jeito chega a ser impressionante. Impressionante como é que, uma história tão actual e com um plot que, pelo menos, não se pode dizer que seja uma variação de algo já refeito milhentas vezes, consegue ser tão vazio. O realizador Dean Parisot, seja ele quem for, limita-se a insuflar o filme com as macacadas de Jim Carrey, que por cada piada que diz faz três caretas e um espalhafato ainda maior. È Jim Carrey a fazer o mesmo papel over and over again, encarcerado na sua própria imagem de marca, como o Bill Murray em O Feitiço Do Tempo.
Humor slapstick sem ser escatológico, meia dúzia de piadas que se contam pelos dedos das mãos que nos fazem esboçar um sorriso e humor físico, muito humor físico. E aqui com uma novidade: alem do overacting, Jim Carrey faz agora acrobacias. Não é um Buster Keaton, mas dá umas piruetas valentes. O que sempre ocupa mais uns minutos do filme. Os restantes minutos têm Alec Baldwin - que já nem se esforça em fazer outro papel que não de Alec Baldwin (e, como todos os actores que se especializam a fazer de si prórpios, Alec Baldwin é o melhor actor de sempre a fazer de Alec Baldwin) -, um filho que fala com um sotaque espanhol irritante só para que uma piada lá para o meio faça sentido e um final de heist movie, mas sem ser particularmente estimulante.
No fim, o final feliz garante o selo de garantia de duas coisas: que Dick E Jane - Ladrões Sem Jeito é um filme de Jim Carrey igual aos outros filmes do Jim Carrey. E que Dick E Jane - Ladrões Sem Jeito é uma comédia familiar/romântica igual a todas as outras comédias familiares/românticas. Por isso, o Happy Meal já é um bónus, uma vez que o brinde é sempre diferente.
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7:47 PM |
Domingo, Julho 12, 2009
O LAGO PERFEITO:
Título: Eden Lake Realizador: James Watkins Ano: 2008
O cinema de terror, ao longo dos tempos, já nos assustou com tudo o que a imaginação podia formular: os monstros dos nossos pesadelos mais cavernosos, os seres mais abomináveis de outros planetas, os animais mais ferozes do mundo ou os assassinos mais desiquilibrados possível. No entanto, toda a gente sabe que mais assustador que tudo isto junto são os rednecks. Basta ver filmes como Fim-de-semana Alucinante ou Massacre Do Texas para passarmos noites inteiras sem dormir, atormentados por pesadelos de camisas de flanela sem mangas.
O Lago Perfeito actualiza esse temor ao século XXI. Um casal de apaixonados (Michael Fassbender e Kelly *suspiro* Reilly) decide ir passar um fim-de-semana romântico num paradisíaco lago, antes que as obras de um condomínio de luxo arruine o local. Infelizmente, o sítio fica à beira de uma aldeia de gente rude, mal-educada, que bate nos filhos, grita muito e, apostamos nós, comete incesto. Exacto, são rednecks. E os filhos deles vão atormentar os dois namorados, começando por serem chatos e acabando em chacina cruél.
Com uma fotografia de ocres e castanhos, ambientados na bucólica paisagem do meio rural inglês, O Lago Perfeito é um horror survivor ao estilo-realista-BBC, que mistura em proporções iguais o horror gráfico com o psicológico. No entanto, a sua força está no realismo e na credibilização das acções, complementada pela entrega dos actores. Kelly Reilly então joga-se a um tour de force incrível, terminando o filme toda arranhada, ferida, coberta de lixo, lama e raiva. Há muito que um filme não atingia níveis tão perturbadores de requintes de malvadez, fazendo-nos fechar os olhos várias vezes e afastar a cara outras tantas. O Lago Perfeito está para esta década como A Última Casa À Esquerda está para a de 70, por exemplo.
Mistura de Fim-de-semana Alucinante com Eles (se bem que, ao contrário deste último, aqui a ameaça é bem visível), O Lago Perfeito ganha ainda laivos de filme-vingança, com um último terço impressionável, uma vez que inclui a morte de crianças a sangue-frio. Infelizmente, tem também um daqueles finais desonestos, capazes de arruinarem sozinhos um filme inteiro. Percebe-se que houve ali a intenção de evitar ao máximo o hollywood ending, mas não correu nada bem. No entanto, O Lago Perfeito é tão perturbador até esse ponto (esqueçam Saw - Enigma Mortal e Hostel, este é o verdadeiro filme perturbador deste início de século), que aposto que consegue alhear-se do final e saborear um Le Big Mac.
Recebo vários emails, quase diariamente, a jogarem-me isto à cara; outras vezes, sou abordado na rua e confrontam-me com o mesmo: as pessoas interrogam-se como é que eu tenho coragem de ter um blogue de cinema e de falar tão pouco do Chuck *deus* Norris. Eu defendo-me e tento enganar-me a mim mesmo, dizendo que já escrevi sobre o McQuade, O Lobo Solitário e A Fúria Do Dragão, mas sei perfeitamente que isso não é suficiente. Este tasco cinematográfico precisa de mais Chuck Norris! Precisa de toda a sua filmografia!
Força Delta é um títulos maiores da carreira de Norris, feito no auge da sua carreira. A seguir ao díptico Desaparecido Em Combate e a Invasão EUA, Chuck Norris tocava no céu, com o auge da xungaria. Força Delta é um apanhado do melhor que se fez nos anos 80, action-flicks-pipoca exacerbados e ingenuamente kitsch, feitos com uma honestidade tão grande que somos incapazes de colocar em causa porque é que todos os carros explodem quando atingidos por tiros ou como é que as munições das armas nunca se esgotam.
Baseado (muito) livremente num caso verídico de piratas do ar, Força Delta é sobre uns terroristas palestinianos (Robert Forster faz de monhê-chefe) que desviam um avião que, para sua infelicidade, vai cheio de americanos. Big mistake! O Tio Sam vai lançar-lhes no encalço o super-exército especializado da Força Delta, liderado pelo coronel Nick Alexander (último filme de Lee *vénia* Marvin) e pelo major Scott McCoy (Chuck Norris, que começa o filme de bigode e termina de barba). Até ao fim, muito pouco vai fazer sentido: os terroristas aterram o avião em todos os aeroportos por onde passam para recolher amigos e deixar outros, numa espécie de eurotrip, até estacionarem no Líbano, onde a Força Delta vai fazer desembarcar uma frota de buggies(!) e motas de cross(!!) para meia hora final de tiroteio e explosões non-sense, numa Beirute inexplicavelmente sem pessoas na rua.
Força Delta é um folhetim de propaganda tão declarado que até assusta como é que é feito por um israelita (Menahem Golan é o mesmo tipo que fez o clássico Ninja, O Imbatível). No entanto, é o retrato fiél da América dos anos 80, em que proliferavam os action-heroes de direita, dando a vida pela bandeira americana em guerras espalhadas pelo Mundo, e da administração Reagan, o tal presidente que adorava o Rambo. Além disso, aproveita para ser anti-palestina (um dos terroristas diz às tantas que querem lutar contra os sionistas, os americanos, os cristãos e os anti-socialistas... ou seja, praticamente toda a gente); para ser pró-israel, em que todas as vítimas judaicas têm aquela expressão de "outra vez a sermos perseguidos?", com uma alemã colocada pertinentemente dentro do avião para haver o síndrome do Holocausto a bordo; e, para lembrar que a Guerra Fria já acabou (Stallone derrotou-a um ano antes, em Rocky 4), há um russo emigrado nos Estados Unidos, que agradece aos céus a bondade dos americanos.
Depois de tanta ideologia da loja dos trezentos, Força Delta é apenas mais uma patetada desmiolada, com aquele espírito xunga que só os anos 80 tiveram. Chuck Norris anda em Beirute numa mota com mísseis(!), que se recarregam sozinhos(!!), a explodir com tudo o que é muçulmano; os americanos disparam sem apontar e matam toda a gente à primeira, sem se darem sequer ao trabalho de se desviarem dos tiros dos maus e, mesmo assim, só morre um dos bons; e tudo é cozinhado ao som de uma theme-song heróica e memorável, com reminiscências dos genéricos de MacGyver ou Soldados Da Fortuna.
Força Delta é tão mau, tão mau, que se torna bom e volta a ser mau. E, como em qualquer filme que tenha o Chuck Norris, apesar de ser um Cheeseburger, se o compararmos com outro filme que seja também um Cheeseburger, mesmo assim irá saber melhor.
Posted by: dermot @
1:16 PM |
Segunda-feira, Julho 06, 2009
HOMEM DE FERRO:
Título: Iron Man Realizador: Jon Favreau Ano: 2008
O advento do CGI até níveis minimamente respeitáveis, veio abrir uma porta no cinema que, até então, tinha estado apenas entreaberta: as adaptações dos super-heróis da banda-desenhada. Assim, quando a porta se abriu há um par de anos atrás, foi uma verdadeira enxurrada de filmes, com Hollywood a explorar o filão até à última e a tentar esgotar a sua nova galinha dos ovos de ouro (como é seu costume). Por isso, tudo o que era super-herói, principal, secundário ou meramente figurante, ganhou direito ao seu próprio filme.
O Homem de Ferro não é, propriamente, um herói secundário da Marvel, mas também não é, seguramente, um dos principais. Anda ali no meio termo. Mas a sua adaptação ao cinema teve mais brilho e cuidados do que muitos dos heróis figurões. Tony Stark (genial Robert Downey Jr., a roubar o filme todo para si num one-man show à Al Pacino circa Scarface - A Força Do Poder) é então um playboy e um génio da robótica, maioral da indústria militar, que vive entre as suas mansões, as camas das mulheres bonita e os flashes dos tablóides. Na altura em que foi criado, Stan Lee disse que se baseou em Howard Hughes, mas se fosse hoje seria, certamente, influenciado por Cristiano Ronaldo. No meio de tanta extravagância e dinheiro gasto à parva, Tony Stark vai ser feito prisioneiro por uns extremistas talibans no Afeganistão e vai transformar-se num ser íntegro e de bom coração. Assim, constrói uma armadura super-avançada e torna-se num super-herói mediático chamado Homem de Ferro.
Ideologicamente, Homem De Ferro é bastante interessante, especialmente por reflectir um ano charneira no que diz respeito a política internacional. Falo, obviamente, da eleição de Barack Obama e de tudo o que isso implicou, quer simbolicamente quer na prática. A primeira parte, em que Tony Stark é um arrogante que só quer saber do dinheiro, é um reflexo da administração Bush e da faceta da América polícia do Mundo; a segunda parte, em que Tony Stark é um tipo responsável e preocupado com a humanidade, é antes o reflexo da nova política externa de Obama e de toda a euforia pós-eleição. E a transformação da personalidade de Tony Stark é um reflexo da transformação que se verificou nos Estados Unidos e, consequentemente, em todo o Mundo.
Na prática, Homem De Ferro é um filme de super-heróis segundo a perspectiva blockbuster. Filme-pipoca a fazer lembrar o boff-xunga Armaggedon (aqui não se faz fogo no espaço, mas Tony Stark, por exemplo, consegue inventar uma fonte de energia super-sofisticada enfiado numa caverna, com apenas um caixote de sucata - rói-te de inveja, MacGyver), com o entretenimento como único objectivo, mas sem cair na tentação de colocar a história ao serviço do filme. Tem, no entanto, a testosterona no máximo (AC/DC a abrir uma cena de guerra, how cool is that?), uma espiritualidade requintada e muitas cenas de acção/perseguições/explosões bem conseguidas e esgalhadas.
A origem de Homem de Ferro é a parte mais excitante e interessante do filme. Depois, vai tornando-se cada vez mais esquemático, em que tudo é preto e branco (é tão deliciosamente kitsch o retrato dos talibans, tão credível quanto Rambo 3), mas vacila na altura de arranjar um nemésis à altura do herói (apesar da batalha final entre os dois robots ser o melhor que por aí anda desde o final dos filmes de monstros em condições). No entanto, não deixa de ser uma das melhores adaptações de super-heróis que aí andam, mantendo o espírito dos livros de super-heróis. Pela primeira vez, ao ver uma adaptação de banda-desenhada, senti-me exactamente como me sentia quando era pequeno e lia um livro da Marvel.
O realizador Jon Favreau descreveu-o como uma mistura do Super-Homem, com os romances de Tom Clancy, os filmes do James Bond, o Robocop e Batman - O Início. Concordo plenamente: o high-tec de Robocop, o glamour do bon-vivant James Bond (e uma secretária com nome de bond girl, Pepper Potts), o mundo secreto da espionagem de Tom Clancy, o espírito clássico dos super-heróis de Super-Homem e... qualquer coisa do Batman. Excelente cameo do Stan Lee, ao ser confundido com Hugh Heffner, excelente cena pós-genérico a abrir o apetite para os Vingadores e excelente McBacon. Sou fã e quero a sequela.
Posted by: dermot @
5:34 PM |
COTAÇÃO:
10 - Royale With Cheese
9 - Le Big Mac
8 - McRoyal Deluxe
7 - McBacon
6 - McChicken
5 - Double Cheeseburger
4 - Cheeseburger
3 - Caixinha de 500 paus (Happy Meal)
2 - Hamburga de Choco
1 - Pão com Manteiga