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Royale With Cheese | ||
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Título: The Wrestler Realizador: Darren Aronofsky Ano: 2008 ![]() No Ipsilon de sexta-feira passada, o compositor/intérprete da Flor Caveira, Samuel Úria (cuja musica eu ainda não consegui decidir se gosto ou não), escreveu a melhor discrição de sempre do Mickey Rourke. Dizia ele que, e passo a citar, desde que o David Bowie deixou os andrajos "glam" para ser um "crooner" engravatado que não víamos tão cabal transformação de borboleta em lagarta. Rugosa e esplêndida lagarta. . Começo este texto sobre O Wrestler a falar do Mickey Rourke porque um e outro são inassociáveis. Não é por acaso que o filme tem sido publicitado como "a ressurreição de Mickey Rourke". Pessoalmente, tenho sérias dúvidas que o filme tivesse tamanho interesse se tivesse sido feito com outro actor qualquer. Mickey Rourke faz então de Randy 'The Ram' Robinson, um lutador de luta-livre que, depois da fama nos anos 80, sobrevive a lutar em ringues manhosos. The Ram está tão parado no tempo quanto o seu gosto musical deixa antever, sempre ouvindo hair-rock épico e azeiteiro dos eighties. The Ram (ou Rourke?) combate o seu isolamento com o mundo do faz de conta do wrestling, compensando o vazio da sua vida, o afastamento da sua filha e a falta de alguém que o ame com o carinho dos nerds da luta-livre que ainda se lembram de si. Uma nostalgia tão raquítica e deprimente quanto a sua existência num parque de caravanas, enquanto tenta engatar uma stripper de 40 mais bem parecida que qualquer minha amiga na casa dos 20 (Marisa Tomei, claro). No fundo, a vida desse lutador não é mais que o eco da vida de Tarzan Taborda, um homem que não conseguiu habituar-se ao esquecimento em que caiu após anos de adoração e que continua parado no tempo, recusando-se a viver o que não queria. É também o eco da própria vida de Mickey Rourke, que passou do novo Marlon Brando a farrapo humano num ápice (com uma passagem pelo boxe profissional pelo meio). A verdade é que se tirarmos Rourke e analisarmos O Wrestler isoladamente, arriscamo-nos a perceber que o filme não tem assim tanto interesse quanto isso. Primeiro, porque parece um rip-off de Rocky Balboa, em que um velho cheio de botox ensaia o seu comeback aos ringues já depois da data de validade; segundo, porque a estrutura é do mais convencional que já seu viu: ex-lutador de sucesso está na merda, ex-lutador de sucesso tenta sair da merda fazendo as pazes com a filha e arrajando namorada e um emprego, ex-lutador de sucesso falha essas tentativas e ex-lutador de sucesso tenta uma derradeira chance nos ringues; e terceiro, porque tudo o que é relação com personagens secundárias é demasiado forçado para ser credível. A safa de O Wrestler é que é filmado por Darren Aronofsky, realizador genial que aqui volta a metamorfosear-se num cineasta novo. O Wrestler é filmado como um genuíno filme independente (não aquelas tretas artsy que já fizeram escola, com Garden States e afins), com a câmara ao ombro, teimando em não abandonar os grandes planos do protagonista, como um neo-realista urbano ou um cinema verdade de mentira. Ou será que é mesmo de verdade, com Rourke a fazer de Rourke? Outro facto que merece ressalva é a forma como Aronofsky filma os combates. O realizador entra em ringue com o próprio Rourke e, apesar de sabermos que o wrestling é todo a fingir, aqueles combates são violentamente duros. O Wrestler é O Touro Enraivecido da luta-livre, com Rourke a fazer trabalho empírico para o papel durante vinte anos. A minha dificuldade não é qual o menu escolher para terminar esta prosa que já vai longa. Isso há muito que está definido e é um McRoyal Deluxe. A minha dúvida é se o deva atribuir ao filme ou a Mickey Rourke. Basta contar a quantidade de vezes que escrevi o seu nome ao longo destas linhas para perceber a sua importância para o filme. ![]()
Posted by: dermot @
12:37 AM Quarta-feira, Fevereiro 25, 2009 FROST/NIXON: Título: Frost/Nixon Realizador: Ron Howard Ano: 2008 ![]() Já vimos filmes sobre antigos presidentes, já vimos filmes sobre importantes decisões que alguns presidentes tomaram e já vimos filmes as consequências dessas ou outras decisões. Mas Frost/Nixon é a primeira vez que vimos um filme sobre um debate de um presidente. Só mesmo nos Estados Unidos, em que um debate televisivo entre um antigo presidente da república e um antigo humorista tem direito a mega-produção de Hollywood. Claro que estou a ser mauzinho, porque o debate (entrevista?) que opôs David Frost (aqui com Michael Sheen na sua pele) a Richard Nixon (Frank Langella a suceder a Anthony Hopkins) não foi um debate qualquer. Por isso, para quem não está a par da história, deixem-me fazer um breve resumo: em 1974, o presidente norte-americano Richard Nixon resignava ao cargo em directo na televisão, numa atitude sem precedentes na história dos Estados Unidos, devido ao escândalo Watergate, em que, alegadamente, foi apanhado a espiar a oposição. O caso nunca foi bem explicado e Nixon escapou dos tribunais devido a um perdão do seu sucessor, o General Ford, o que sempre deixou um gosto amargo na boca dos liberais. Tudo isto pode ser visto e percebido em Nixon. Uns aninhos mais tarde, Nixon deu a sua primeira entrevista televisiva pós-demissão e o caso ganhou uma projecção mediática tão grande que deu mesmo direito a este filme. Devido a vários factores e começando logo pelo apresentador: David Frost era uma estrela da televisão de entretenimento, um tipo sem credibilidade jornalística para uma empreitada daquele alcance. E, o mais importante de todos, saber se Richard Nixon iria ser colocado entre a espada e a parede naquele seu primeiro confronto público. Ron Howard lança as mãos à empreitada e tenta construir todo o processo, começando exactamente onde Oliver Stone terminou. Aliás, Frost/Nixon podia muito bem ser apelidado da sequela não-oficial de Nixon. Há dois objectivos no filme: o primeiro, contar esta história, com factos objectivos, numa reconstrução histórica de perícia e imagem granulada. Para isso, Ron Howard cruza o filme com imagens reais e forja umas entrevistas a posteriori com alguns dos protagonistas da história, misturando ficção e documentário (ou melhor, mockumentário), seguindo a tendência recente de filmes como A Turma ou mesmo Milk. A opção é desnecessária, mas não ofende ninguém, se bem que possa ser apelidada de presunçosa ou de facilitismo narrativo. O segundo objectivo de Frost/Nixon passa por dar densidade dramática aos dois personagens principais que, no fundo, acabam por ser as faces da mesma moeda: dois tipos que só queriam ser amados e reconhecidos, um pelo seu trabalho na política e o outro pelo seu desempenho no show business. Esta é a parte mais interessante de Frost/Nixon, mas nem por isso a melhor, uma vez que a credibilidade das personagens fica condicionada pela caricatura de algumas das secundárias: Kevin Bacon, que continua a engrossar a eficácia do seu oráculo, parece um cão de guarda que saliva pelo seu dono com uma devoção de plástico, enquanto que Rebecca Hall está lá a fazer o mesmo que o poster dos Rolling Stones que tenho aqui por cima da secretária: enfeitar. Quanto a Ron Howard continua a ser o realizador mais aborrecido de sempre. Tudo é feito segundo a cartilha cinematográfica, sem arrojo nem golpes de asa, mas com tudo ceritnho e no sítio, que nos impossiblita de criticar o que quer que seja na sua realização. Frost/Nixon é assim um bem competente filme político e o complemento ideal a Nixon, um McBacon sem grande possibilidades de competir com uma hamburga de um restaurante a sério. ![]()
Posted by: dermot @
12:02 AM Terça-feira, Fevereiro 24, 2009 WALK HARD - A HISTÓRIA DE DEWEY COX: Título: Walk Hard: The Dewey Cox Story Realizador: Jake Kasdan Ano: 2007 ![]() Era inevitável que, com o fenómeno de biopics de músicos que surgiram no último par de anos, não surgisse uma ou outra sátira ao género. Foi assim que nasceu Walk Hard - A História De Dewey Cox, um filme a gozar com os biopics e que mereceu a minha atenção por dois aspectos: primeiro, porque traz o carimbo de Judd Apatow na co-escrita do argumento, nome cada vez mais incontornável na comédia actual; e segundo, porque fala de rock'n'roll. Como o título indica, Walk Hard é o biopic de Dewey Cox (John C. Reilly, que é um cantor do caraças), uma estrela rock dos anos 60, cujas semelhanças com Johnny Cash não são coincidências, assim como as semelhanças entre o título do filme e o de Walk The Line. Aliás, a primeira metade de Walk Hard é uma paródia a Walk The Line que, se tivesse o Leslie Nielsen como protagonista, chamar-se-ia certamente Aonde-pára-qualquer-coisa. No entanto, o seu tipo de humor pouco tem a ver com o absurdo e o non-sense dos Aonde Pára A Polícia, é antes um humor que se ri de si próprio, enfatizando os clichés do género e pondo a nu o ridículo das situações. Como o humor das trivilidades dos filmes de Judd Apatow. Walk Hard começa então com Dewey Cox de costas para a câmara, prestes a subir a palco para um concerto, onde ouvimos uma multidão em êxtase. Há hesitação nos seus gestos e, por isso, quando o vêem chamar, alguém diz que ele já vai depois de rever toda a sua vida. E eis o flashback para os anos 50, que depois se extendem até aos 60, os 70, os 80 e os 90, até chegar novamente à actualidade e encerrar o filme num círculo perfeito. Olhamos para a vida de Dewey Cox e encontramos Johnny Cash, Ray Charles, Brian Wilson, Stevie Wonder e mais uma série de personalidades da história da música rock, pilhando descaradamente vários momentos das suas biografias e parodiando-os. É como uma versão para rir de Quase Famosos. A primeira hora centra-se, principalmente, na estrutura de Walk The Line, mas quando passamos os anos 60, o filme começa a parecer uma coisa nova e a ter verdadeiramente interesse. Principalmente, porque a primeira cena é logo uma viagem à Índia para encontrar o Maharishi, juntamente com uns Beatles incarnados pelos cameos de gente como Jack Black ou Jason Schwartzman, que é simplesmente brilhante. Existem momentos divertidíssimos e outros que deveras aborrecidos, especialmente porque há fases da vida de Dewey Cox que teimam em ser demasiado longas. Aliás, nada justifica duas horas de um filme sobre nada. Tinha sido bem mais proveitoso que se tivesse ignorado aquela fixação pelo Walk The Line e se aprovitasse todos os recursos, especialmente no cruzamento que faz com a vida real, aproveitando umas participações famosas de Eddie Vedder, Jewel ou Ghostface Killah a homenagearem aquele grande músico que nunca existiu. Ah, é verdade, também lá anda Jack White a fazer de Elvis Presley, que é tão óbvio e natural que nem necessita de comentários. Outra coisa que faz falta a Walk Hard são canções mais interessantes. É certo que tem o condão de nunca descurar o lado musical, mas faltam-lhe um par de músicas que fiquem no ouvido e que nos fazem querer comprar os álbuns daquele músico que não existe, mas que podia muito bem existir. Principalmente, é isso que faz com que This Is Spinal Tap funcione tão bem. No balanço geral, Walk Hard merece, sem sombra para dúvidas, uma visionadela que seja e um McChicken a acompanhar. Mas veja até ao fim dos créditos, porque a cena que vem a seguir desconcerta qualquer um. ![]() Segunda-feira, Fevereiro 23, 2009 E O VENCEDOR É... ![]() Terça-feira, Fevereiro 17, 2009 A DUQUESA: Título: The Duchess Realizador: Saul Dibb Ano: 2008 ![]() Não sei porquê, mas algo tem feito com que as actrizes de hoje tenham vindo a especializarem-se em algo. Por exemplo, toda a gente sabe que se formos ver um filme com a Kate Winslet vamos-lhe ver as mamas. Se for com a Julianne Moore, de certeza que lhe veremos a farfalheira. E se for com a Keira Knightley, o mais certo é ser um filme histórico. A Duquesa não é excepção e ei-la a fazer de Georgiana, a duquesa de Devonshire, uma das mais influentes e importantes mulheres do século XVIII. Georgiana foi uma espécie de princesa do povo original, dois séculos antes da princesa Diana. Casada com um dos fidalgos mais importantes da nobreza inglesa da época, a duquesa era uma mulher muito à frente do seu tempo, defensora dos direitos humanos e empreendedora. No entanto, casou com o tipo mais aborrecido de sempre (Ralph Fiennes), que só queria um herdeiro e montar-se nas mulheres dos outros. Assim, enquanto a duquesa não lhe conseguiu dar um filho rapaz, a sua vida conjugal foi uma espécie de pesadelo, que se transformou num triângulo e, depois, num quadrado conjugal. Com uma reconstituição de época perfeita, Saul Dibb recorre ao guarda-roupa ideal, à maquiagem irrepreensível e aos planos abertos para aproveitar toda a nobreza da arquitectura barroca e imperial dos palácios ingleses, sempre com uma fotografia de cores verdes e ocres, que faz sempre lembrar os filmes de época da BBC ou a bonomia das histórias do Shakespeare. No entanto, a realização de Saul Dibb mantém-se tão rígida quanto o protocolo da vida real dos duques de Devonshire, com os seus vestidos aparaltados, os jantares formais em mesas gigantes e os cumprimentos cheios de regras. Ou seja, uma seca de morte. Além disso, há data em que o filme se passa, o Mundo atravessa uma fase decisiva. Em França, precipitava-se a revolução de 1789 e na América começava-se a falar em independência. Claro que tudo isto se repercutia na Inglaterra, com as eleições e as discussões partidárias. Tudo isto são assuntos dos quais ouvimos uns ecos difusos ao longo do filme... Keira Knightley tem a coragem de dar uma opinião política logo no início do filme e nunca mais abre a boca para falar de algo que não sejam filhos, amor ou traição; vimos algumas coisas sobre a vida política inglesa, mas apenas porque ela andava enrolada com o futuro primeiro-ministro; e o resto deve ter ficado, provavelmente, no chão do estúdio de edição. Ou então, na gaveta da incompetência do argumentista. A história fixa-se então, única e exclusivamente, na personagem da duquesa de Devonshire que, no entanto, não tem espessura suficiente para aguentar o filme sozinha. Aliás, nunca se percebe muito bem quem foi aquela mulher. Vimos que, quando ela vai à rua, o povo gosta dela, mas não se sabe porquê; ouve-se dizer que a influência dela nas eleições é determinante, mas não se percebe porquê; e vê-se alguém a dizer que ela dita as tendências da moda, mas pensamos que aquilo não quer dizer nada. Com todas as falhas que Maria Antonieta possa ter, em questões de construção de personagens dá uma goleada de quinze a zero a A Duquesa. A Duquesa é um filme completamente inofensivo e até mete raiva da sua incapacidade de ir além da mediania. É como aquela chuva miudinha, que não molha, mas aborrece. E é assim que a modos de um Cheeseburger. Ah, é verdade: e que raio foi aquela cena lésbica? ![]()
Posted by: dermot @
11:47 PM Domingo, Fevereiro 15, 2009 SETE VIDAS: Título: Seven Pounds Realizador: Gabriele Muccino Ano: 2008 ![]() Will Smith sofre do mesmo problema que Jim Carrey: ambos são atormentados pela obsessiva necessidade de quererem provar ao grande público que são bons actores. Assim, tal como Jim Carrey, Will Smith tenta descartar, de tempos a tempos, todas as comédias e os action flicks manhosos e agarra num chamado filme sério. Quem o manda ter-se tornado famoso com a patetice de O Príncipe De Bel Air e de ter ganho milhões com os seus discos de rap-radiofriendly? Depois de Ali, Will Smith parecia ter acertado no jackpot: Em Busca Da Felicidade não só convenceu grande parte dos críticos, como ainda lhe valeu a nomeação para o Oscar. Como a coisa correu bem, Smith parece ter querido repetir a fórmula e, após mais um par de filmes-pipoca, ei-lo a reunir-se novamente com o realizador Gabriele Muccino para mais um chamado filme sério. Sete Vidas é um drama assumido, que pede à partida que levemos connosco para a sala de cinema uma caixa de lenços de papel. Will Smith faz de Ben Thomas, um tipo que tem uma profissão terrível: a de cobrador de impostos. A função dele é andar atrás das pessoas com dívidas ao fisco, avaliar os seus seguros e cobrar-lhes as dívidas, qualquer que seja o estado delas, quer estejam em estado terminal, quer sejam cegos desgraçadinhso sem sítio para caírem mortos. No entanto, algo mudou na vida daquele homem, porque Ben Thomas mostra-se condescendente e compreensivo para com as pessoas. Gabriele Muccino tenta o golpe de asa nesse truque: o de não contar ao espectador o que se passa. Percebemos que algo não corre como devia, porque Ben Thomas não age como os flashbacks mostram que ele agia. Também percebemos que falta a sua esposa na equação, o que nos leva a pensar que alguma tragédia deixou marcas profundas naquele homem. No fundo, é um gato com o rabo escondido, porque muito antes do twist final, já nós estamos fartos de perceber o que se passou e o que se vai passar. Sete Vidas lembra a estrutura de O Sexto Sentido, mas com um twist escangalhado. Além disso, ao contrário do filme de Shyamalan, a premissa não é assim tão interessante quanto isso. No entanto, tudo isto é indiferente, se aliarmos ao facto de as personagens secundárias serem extremamente aborrecidas (Rosario Dawson então é tão interessante quanto um bocejo) e da realização chapa três de Gabriele Muccino. Infelizmente, ao contrário de Em Busca Da Felicidade, que era um drama tocante e familiar, Sete Vidas pede incessantemente que tenhamos pena dele e para isso enche-se de meninos doentes, velhinhos maltratados e outras desgraças que podiam ter saído directamente de um telejornal da TVI. Não há pachorra. Filme bastante inofensivo e soporífero por vezes, Sete Vidas não irá, certamente, tirar a imagem que temos colada a Will Smith. Ainda não foi desta que ele encontrou o seu realizador. Em contrapartida achou um McChicken, que muitos dos seus filmes de pipoca não valem. ![]() Terça-feira, Fevereiro 10, 2009 TAKE - CINEMA MAGAZINE: ![]() Página Oficial Quinta-feira, Fevereiro 05, 2009 QUEM QUER SER BILIONÁRIO: Título: Slumdog Millionaire Realizador: Danny Boyle Ano: 2008 ![]() Eu gosto do Danny Boyle e acho que é um dos tipos mais sobrevalorizados da sua geração. Principalmente agora, com o improvável sucesso deste Quem Quer Ser Bilionário (que tradução, senhores), têm surgido várias vozes críticas, que o acusam de ter apenas feito o Trainspotting ou de ser um realizador esquemático, preso ao preto e branco do tradicional bons versus maus. Eu não sei se andamos a ver os mesmos filmes, mas ao longo da sua eclética filmografia, Boyle consegue sobretudo entreter, sem ser acessório. Ao lado do Bryan Singer, por exemplo (só para citar alguém que teve um filme a estrear no mesmo dia), Danny Boyle está a uns anos-luz bem valentes. Mas isto sou eu. Quem Quer Bilionário é a improvável história de Jamal (Dev Patel), um pelintra dos bairros de lata de Bombaim, que participa na versão indiana do concurso que cá foi apresentado pelo Carlos Cruz e, quase sem saber ler nem escrever, ganha o prémio máximo. Não é que fosse muito esperto, mas o conhecimento empírico acumulado ao longo de vinte anos a sobreviver nas ruas deram-lhe aquelas respostas, fazendo da história um conto moral do ultima underdog que sobe a pulso na vida graças aos seus sonhos e ambições. É o american dream versão Índia, em que querer é poder. Criticam Danny Boyle de filmar os bairros de lata da Índia como um qualquer bairro de lata. No fundo, criticam-no por usar os truques à teledisco-mtv, as cores saturadas e a trepidação semelhante às favelas brasileiras de Cidade De Deus. É verdade que Quem Quer Ser Bilionário podia ser filmado na Índia, como na Damaia, mas o que interessa na história não é a geografia, mas sim a mensagem moral. E se a favela brasileira pode ser trepidante, quente e emotiva, porque é que os bairros de lata da Índia não o podem ser também? Apenas porque não é um natural de lá a filmá-lo? Quem Quem Ser Bilionário faz lembrar Forrest Gump e já é o segundo filme deste ano em que isso acontece. No entanto, ao contrário de O Estranho Caso De Benjamin Button, aqui a vida do protagonista é bem mais interessante, desenvolvendo-se ao longo de vários anos, atravessando várias fases da vida indiana, incluindo o sucesso gigantesco de Amitabh Bachchan no cinema de Bollywood. No final, é um feelgood movie com piscadela de olho a Bollywood sobre uma bonita história de amor, que ao fim ao cabo acaba por ser o combustível que faz toda esta treta do Mundo girar. Sem venerar propriamente o filme (acho que Danny Boyle já fez melhor), acabei por ficar um pouco aborrecido com a crítica negativa de alguém que nem sequer decorei o nome, em que dizia que The Darjeeling Limited era bem melhor que Quem Quer Ser Bilionário, porque enquanto Wes Anderson conseguia captar os cheiros da Índia, Danny Boyle só conseguia apanhar o cheiro a merda. Que crítica mais cretina, é a coisa mais parva que já li este ano na comunicação socil. Só por isso, vou dar o Royale With Cheese. ![]()
Posted by: dermot @
12:51 AM ROCKNROLLA - A QUADRILHA: Título: Rocknrolla Realizador: Guy Ritchie Ano: 2008 ![]() Guy Ritchie deu-se a conhecer ao Mundo com dois filmes muito parecidos: Um Mal Nunca Vem Só e Snatch - Porcos E Diamantes eram os dois filhos de um mesmo pai, thrillers urbanos estilizados com resquícios de humor, em formato mosaico, que cruzavam pontas no final, juntamente com diálogos escorreitos e situações bizarras. Muitos compararam o seu estilo ao de Tarantino, especialmente no copy-paste, mas tanto um como outro eram bons filmes. Afinal, desde Pulp Fiction, quantos copycats já apareceram por aí e todos eles ao lado? Depois, Guy Ritchie tentou criar o seu próprio estilo e deu-se mal. Por isso, antes que passasse a ser conhecido apenas como o ex-marido da Madonna, eis Rocknrolla - A Quadrilha, um regresso ao passado para fazer aquilo que sabe fazer melhor: mais um thriller urbano no submundo do crime, em que várias personagens se cruzam de forma mais ou menos caprichosa, até coincidirem num clímax final que serve para atar todas as pontas soltas e nós soltármos um aaaahh demorado e admirado, enquanto batemos umas palmas e olhamos para a pessoa sentada ao nosso lado, abanando a cabeça em sinal de aprovação, como quem diz e esta hein, olha lá o malandro. Para Rocknrolla - A Quadrilha, Guy Ritchie pegou novamente nos seus bandidos ingleses, uns mais cabecilhas que outros, juntou-lhes uns mafiosos russos (provavelmente andou a ver Promessas Perigosas), uma contabilista sensual (suspiro por Thandie Newton), um preto que sabe tudo e que vive no seu jipe artilhado, um rocker decadente, os agentes do rocker decadente e mais uns secundários que mal aparecem, e misturou tudo muito bem misturadinho numa centrífugadora. Para além da repescagem de vários elementos que conseguimos identificar de vários filmes (incluindo os seus), que depois filtra através de umas cores saturadas e uns truques em pós-produção, Guy Ritchie estiliza a violência do filme e dá-lhe um toque cool, com as situações improváveis e, aquilo que sabe fazer verdadeiramente bem, diálogos divertidos. Além disso, existem três cenas que sobressaem no filme: uma cena de dança, pilhada à descarada de Pulp Fiction e que é, simultaneamente, o melhor e o pior do filme (o melhor porque dá-lhe um toque diferente, ao acrescentar-lhe legendas, e o pior porque a dança é tão ridícula que, por momento, parece que estamos a ver um daqueles filmes-paródia à Scary Movie); uma cena de porrada non-stop e deliciosamente estúpida que faz lembrar o mano-a-mano gratuito de vários minutos entre Roddy Piper e Keith David, em Eles Vivem; e uma cena de sexo super-sónica, bem interessante, mas que se calhar já a vi em qualquer sítio. A história tem demasiado personagens e algumas podiam nem lá estar que não faziam diferença ao argumento. No entanto, Guy Ricthie não pode ser acusado de não incutir o mesmo interesse e atenção a todas elas, com o ritmo por igual. Por sua vez, do rol de protagonistas, Toby Kebbell destaca-se como rocker-alucinado-drogado, enquanto que Gerard Butler pensa que ter uma voz rouca chega para tudo. O problema de Rocknrolla - A Quadrilha é esforçar-se demasiado em ter estilo e ser cool, em vez de se deixar ir, ser fluído e natural. Não ofende ninguém com o McBacon, mas caso se concretize a triologia que se espera, temo o pior. ![]()
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12:49 AM VALQUÍRIA: Título: Valkyrie Realizador: Bryan Singer Ano: 2008 ![]() Que tem em comum Tom Cruise com Kurt Russel e David Hasselhoff? É que, com Valquíria, Tom Cruise passou a pertencer ao lote restrito e muito anseado de actores que interpretaram personagens com pála no olho, símbolo máximo do anti-herói e importado directamente daquela criatura mítica que é o pirata, apenas ultrpassado em awesomeness pelos ninjas. Valquíria é a história do coronel Claus Schenk Graf von Stauffenberg (interpretado por Tom Cruise, lá está), uma espécie de herói nacional da resistência alemã, que levou a cabo a última grande tentativa de assassinar Adolf Hitler dentro de portas. Para além de ter sido a última, a tentativa de Stauffenberg só não teve sucesso por um bocadinho de nada. Mesmo assim, o plano ainda chegou a ser dado como bem sucedido e só uma intervenção radiofónica do próprio Hitler travou a tomada de poder. Tudo isto pode agora ser visto no novo filme de Bryan Singer. Com uma reconstituição do Reich notável, incluindo suásticas verdadeiras, Singer consegue o mais difícil: explicar ao espectador, que não percebe nada dos nazis além de que eles eram uns tipos ruins, de como funcionava a estrutura interna do regime, indispensável para o bom funcionamento da trama política (nestes casos ajuda sempre ver os filmes do Oliver Stone, nomeadamente JFK). Depois, faz o seu número do costume, com a sua realização acertada e um elenco assinalável. Ressalva para a língua utilizada: apesar de não ter abdicado do filme em inglês, Singer não caiu naquela tendência ridícula de os pôr a falar com sotaque alemão. Valquíria é então arrumado, bonito e certinho, mas falta-lhe um golpe de asa que o torne genial. E as razões? Também não sei bem, mas nos últimos dias tenho pensado muito e elaborei uma lista de possíveis causas, a saber: a) Bryan Singer parte do princípio que todos sabem que é Hitler e não necessita de dar razões a Tom Cruise para o querer matar. Erro. Porque assim, parece sempre que Cruise vai tentar assassiná-lo porque este mandou-o para a guerra em África, onde ele ficou sem um olho e uma mão. Muito pouco. b) Bryan Singer dá pouca profundidade dramática a Tom Cruise, especialmente na sua relação familiar. A sua mulher e filhos são apenas acessórios e uma muleta dramática conveniente para o tearjerker final. c) O conjunto das alíneas a e b fazem com que a personagem de Tom Cruise não ganhe especial simpatia por nossa parte. Chegamos a certa altura e damos por nós a torcer para que o assassinato tenha sucesso, mas apenas porque queremos que o Hitler morra. E isso é provado quando Tom Cruise é executado, em que não sentimos muita comiseração. Ficamos então com a sensação de que Singer está apenas numa de demagogia e de querer desculpar os alemães perante o resto do Mundo, mostrando aquela história recorrente do nem todos os alemães eram nazis, também havia uns bonzinhos. Qualquer pessoa com dois dedos de testa sabe isso, não é preciso um filme de duas horas para nos convencer. Para quem gosta de filmes sobre a segunda guerra mundial e/ ou de thrillers políticos, Valquíria é francamente bom. Para quem quer um filme sobre o regime de Hitler, nada melhor do que continuar fiél a Der Untergang - A Queda. Valquíria não chegou a tempo dos Oscares, mas também dificilmente ficava com algum. Assim, fica pelo menos com um McBacon. ![]()
Posted by: dermot @
12:35 AM |
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