Quarta-feira, Junho 10, 2009
ESPECIAL EXTERMINADOR IMPLACÁVEL
EXTERMINADOR IMPLACÁVEL:Título:
TerminatorRealizador: James Cameron
Ano: 1984

Há cerca de 25 anos, estreava um aparentemente inofensivo filme de ficção-científica série-b, realizado pelo mesmo tipo do trash
Piranha 2 e com o culturista austríaco de nome esquisito que fizera de Conan. Escrevi "aparentemente" porque, como hoje é óbvio,
Exterminador Implacável foi bem mais que isso: mostrou que James Cameron era um realizador a sério, consolidou definitivamente a carreira de Arnold Schwarzenegger para além do simples saco de músculos e, mais importante que tudo, revolucionou o género, criando uma das mais rentáveis séries da ficção-científica.
Exterminador Implacável começa no futuro pós-apocalíptico de maquetes de cartão e robots em stop motion de 2029, onde as máquinas assumiram vontade própria e ordenaram a extinção da raça humana. Os sobreviventes organizaram-se numa resistência liderada por John Connor e agora lutam em guerras com armas laser. Até que as máquinas têm uma ideia genial: enviam um exterminador (um robot-infiltrado, revestido por tecido vivo, que é, claro, Schwarzenegger) para uma década de má música e maus penteados (vulgo anos 80), com o objectivo de matar Sarah Connor (Linda Hamilton), a mãe de John Connor, muito antes de este ter ainda sido sequer gerado. Claro que os humanos respondem e enviam em seu auxílio Kyle Reese (Michael Biehn).
É um conceito original, que foi apurado na triologia
Regresso Ao Futuro: combater o futuro no presente, contribuindo decisivamente para o amanhã. Ou seja, assumindo de vez que o nosso destino somos nós que o fazemos, mesmo que esteja predistinado. É uma premissa filosófica e existencial que dava panos para mangas. Einstein iria gostar de a discutir.
Exterminador Implacável começa por se destacar aqui. Mas não só; além de ser um filme sci-fi com cabeça, longe dos brainless filmes de série-b que James Cameron parecia estar destinado a fazer (
Piranha 2 estigmatiza a carreira de qualquer um), é ainda uma fantástica obra de acção palpitante. Com reminiscências claras de John Carpenter (a banda sonora de sintetizadores manhosos lembra constantemente
Nova Iorque 1997),
Exterminador Implacável tem aquele ar minimalista de baixo orçamento, mas que lhe coloca os pés no chão.
Exterminador Implacável nunca perde o ritmo, o suspense e, especialmente, o entretenimento. Linda Hamilton é uma teen com cabelo à Tina Turner, Michael Biehn dá uma intensidade inesperada à sua personagem, Bill Paxton iniciava aqui o seu invejável recorde pessoal de ser o único a ser morto por um exterminador, um alien e um predador e, claro, Arnie ascende à imortalidade: uma verdadeira máquina de matar impiedosa, de sotaque maquinal (e ridículo), que massacra uma esquadra cheia de polícias com uma ak47 numa mão e uma shotgun na outra. Para a posterioridade fica ainda o seu primeiro
I'll be back, que se tornaria numa das imagens de marca. Foi também o primeiro Le Big Mac da carreira de James Cameron.
EXTERMINADOR IMPLACÁVEL 2 - O DIA DO JULGAMENTO FINAL:Título:
Terminator 2: Judgment DayRealizador: James Cameron
Ano: 1991

Lembro-me como se fosse hoje do dia em que vi
Exterminador Implacável 2. Foi no tempo em que os filmes demoravam uma eternidade a chegar aos clubes de vídeo e em que ainda não havia internet para os descarregar. Durante umas duas semanas, passava todos os dias à saída da escola pelo clube de vídeo aqui do bairro para o tentar alugar, mas as seis (seis, um recorde na altura!) cassetes estavam sempre indisponíveis. Até que, numa bela tarde de sábado, ei-lo! Ainda hoje tenho uma cópia que fiz quando ele passou na RTP a altas horas da noite e que tem a fita toda gasta, tantas foram as vezes que o vi.
Não sei se quando fez
Exterminador Implacável, James Cameron já estava a contar com a sequela, mas se não o estava devo tirar-lhe o chapéu, porque
Exterminador Implacável 2 encaixa no antecessor como duas peças de lego. Tudo parece ter sido pensado ao pormenor, não ficam fios pendurados, nem buracos por tapar. A única coisa que pode levantar dúvidas é como é que o T-1000 viajou no tempo, se não dá para o fazer com matéria morta. Mas James Cameron tinha um novo efeito-especial à disposição e não o ia deixar de usar, não é? (além disso, acredito que o T-1000 também é revestido por uma camada muito fina de tecido vivo).
Mas afinal de contas, o que é o T-1000? Ora bem, é um novo modelo de exterminadores, feitos de metal líquido e que, por isso, lhes permitem assumir qualquer forma, seja ele o vizinho do lado ou um cinzeiro para oferecer no dia do pai. Com as feições de um então desconhecido Robert Patrick - o tipo com mais cara de mau de sempre e que irá ficar para sempre marcado a esse papel, mesmo que, anos mais tarde, tenha andado a substituit o Mulder -, o T-1000 foi enviado para o passado para matar John Connor (debutante Edward Furlong que, como a maioria das teen stars, desapareceu do mapa à medida que foi crescendo), o futuro líder da resistência humana na guerra contra as máquinas. Claro que o próprio John Connor, no futuro, também mandou alguém para o proteger: um exterminador reprogramado para o bem, o velhinho modelo T-800, que em 1984 havia tentado matar Sarah Connor, em
Exterminador Implacável.
A história repete-se nesta sequela, se bem que com outros intervenientes: Arnold Schwarzenegger passa para o outro lado da barricada, até porque o seu estatuto em Hollywood já era outro; o mau da fita ganha poderes ainda mais super, o que o tornam mais temível e, consequentemente, mais espectacular; e a vítima passa a ser um miúdo de dez anos que, como seria de esperar, mais incutir uma moralidade subjectiva ao filme. Apenas Linda Hamilton repete a presença, se bem que agora está mais chata, mais paranóica (isto de saber que o armagedão vai mesmo acontecer, sabendo inclusive a data certa, impede-a de saborear a vida e amar quem quer que seja) e mais masculina, como uma Ellen Ripley, mas com robots em vez de aliens.
Exterminador Implacável 2 é a evolução natural do seu antecessor: a história dá o passo seguinte (os homens continuam a caminho da sua própria extinção, agora com mais pormenores sobre o que despoletou a guerra) e o ritmo, o suspense e o entretenimento passam ao nível seguinte. As perseguições mantêm-se excitantes (a banda-sonora leva um upgrade com os Guns n' Roses, banda do momento, mantendo a theme-song de sintetizadores manhosos), mas agora com mais aparato, explosões maiores, veículos maiores e tudo maior. E os efeitos-especiais são espectaculares, super inovadores à época e que ainda hoje nos convencem, com um robot liquefeito.
Exterminador Implacável 2 é o exemplo perfeito do blockbuster de acção e de tudo o que ele deve representar, numa época em que o bodycount ainda era um factor de qualidade.
O maior beneficiário de todo este projecto volta a ser Schwarzenegger, consolidando o seu estatuto de estrela, desta vez num robot que vai evoluindo e aprendendo com os humanos a sua especificidade, qual síndrome do Pinóquio. Por isso, torna-se espirituoso, com one-liners memoráveis -
hasta la vista, baby -, tornando-se num dos maiores action-heros dos anos 90. Acho que já perceberam o veredito final: Royale With Cheese.
EXTERMINADOR IMPLACÁVEL 3 - ASCENSÃO DAS MÁQUINAS:Título:
Terminator 3: Rise Of The MachinesRealizador: Jonathan Mostow
Ano: 2003

Temos que dar o braço a torcer - se havia sequelas que fazia sentido, esta era a de
Exterminador Implacável 3s. Porque John Connor continuava vivo e porque ninguém acreditava em James Cameron, quando ele dizia que o dia do julgamento final tinha sido prevenido. Por isso, era apenas uma questão de tempo até Arnold Schwarzenegger ceder e aceitar voltar ao papel. E nós sabíamos que ele iria ceder. Afinal de contas, Arnie é político...
Por um lado até faz sentido. Arnie ia-se despedir do cinema, enverdando pelo seu novo futuro como governador da Califórnia e não havia melhor forma de dizer adeus do que um regresso ao título que lhe deu a maior projecção. Por isso, é impossível assistir a
Exterminador Implacável 3s sem sermos atacados pela nostalgia. Todos sabíamos que seria praticamente impossível voltar a igualar um
Exterminador Implacável 2, que roça a perfeição. No entanto, nós, admiradores confessos da série, apenas pedíamos que o seu bom nome não fosse arrastado pela lama. E a verdade é que não faltou muito para isso acontecer.
John Connor é agora um jovem adulto e é Nick Stahl; e pela terceira vez, é enviado um robot do futuro para o exterminar, de forma a impedir que ele se venha a tornar o líder da resistência na guerra dos humanos contra as máquinas. E depois do poderoso T-1000, agora temos T-X. Principais inovações? T-X é um transmorfo e é uma mulher, numa espécie de mistura entre Espécie mortal e Robocop - a bela Kristanna Loken, que confunde falta de jeito para representar com inexpressividade. Depois, a história repete-se: Schwarzenegger regressa também do futuro para proteger John Connor e, desta vez já não há Sarah Connor, mas há Kate Brewster (Claire Danes), a futura senhora Connor.
Exterminador Implacável 3s limita-se a ser uma enorme perseguição de hora e meia, um jogo do gato e do rato em que só interessa a destruição - e quanto maior for, melhor. O argumento é linear e só tem olhos para andar para a frente. Parece ter sido escrito por um miúdo de 13 anos e os principais acontecimentos regem-se todos pelas leis da coincidência: é o que se chama de unidade dos opostos e que, quando são demais, cheiram a barrete. Infelizmente, nem as cenas de acção convencem; os efeitos-especiais são demasiado artificiais e até os confrontos mano-a-mano entre os exterminadores quedam-se pela falta de reacção dos intervenientes.
Vale pela nostalgia em ver recriados os míticos momentos dos anteriores filmes. Não temos o lendário
I'll be back, mas temos um
I'm back; temos um igual massacre de polícias; uma divertida variação da cena inicial do
I want your boots, your clothes and your motorcycle; e até temos um spin-off de
Comando, com Arnie a carregar um caixão em vez do tronco da árvore. Mas infelizmente,
Exterminador Implacável 3s não é digno da sua série. Porque daqui só retiramos um mísero Cheeseburger. Maldito sejas, Jonathan Mostow, arruinaste um dos marcos da minha adolescência.
EXTERMINADOR IMPLACÁVEL 4 - A SALVAÇÃO:Título:
Terminator SalvationRealizador: McG
Ano: 2009

Se
Exterminador Implacável 3s serviu para alguma coisa, foi para rematar e colocar um ponto final da primeira fase da série. Agora,
Exterminado Implacável 4 - A Salvação vem dar início a uma nova triologia, que faz reset com as anteriores, no que diz respeito à forma e ao estilo.
Acabaram-se então as viagens ao passado.
Exterminador Implacável 4 é agora, todo ele, futuro! E já não é o mesmo futuro de James Cameron. Em vez do pós-apocalipse urbano e acitadino, reminiscente de Carpenter, o que temos agora é um pós-apocalipse industrial, mais perto da falência urbana de
Mad Max, mas com as cores baças e dessaturadas.
Há uma ruptura com os filmes anteriores, até mesmo em alguns pormenores da história. Quando nos filmes anteriores (especialmente os do Cameron) tudo batia certo e encaixava uns nos outros, agora há lapsos temporais e máquinas feitas que ainda não deviam ter sido pensadas sequer que fazem os argumentistas esconderem-se por trás da justificação de que o space-time foi alterado nos filmes anteriores e, agora, tudo é possível. Claro que nada disto seria importante, se
Exterminador Implacável 4 fosse um bom filme. Acho que já perceberam que não o é.
Foi então arrumado o filme de ficção-científica na gaveta; o que temos agora é guerra! As máquinas já estão no poder, o holocausto nuclear já aconteceu e John Connor já é visto como o líder profético da resistência, se bem que ainda existem muitos cépticos. Estamos no futuro e McG (que raio de nome é este? E quem raio é este gajo?) leva-nos directamente para as trincheiras, como um
Resgate Do Soldado Ryan com armas laser e robots gigantes. Inesperadamente (ou não), seu estilo de filmar, com flic-flacs de câmara, grandes planos frontais e uma edição à Kenneth Anger epiléptico, importado directamente do seu trabalho anterior como realizador de teledisco dos Korn (argh) e dos Offspring (argh), até acaba por ser interessante, dando alguma adrenalina ao filme. O pior é o resto.
O argumento é todo ele linear e obedece a uma única linha estruturante: cinco minutos de história, uma cena de acção; mais cinco minutos de história, mais uma cena de acção com um exterminador maior; outros cinco minutos de história, outra cena de acção com outro exterminador maior; e por aí fora, até que no fim já existem exterminadores gigantes, que voam, gritam, cospem fogo e vendem bilhetes para a feira popular. Tudo isto para esticar um plano que se fazia em 15 minutos, mas que agora demora duas horas porque as máquinas ganharam o síndrome do vilão de James Bond: em vez de matarem os bons, preferem prendê-los, para mais tarde passarem quinze minutos a gabarem-se do seu plano perfeito, dando tempo que chegue a cavalaria. C'um caraças, então mas a Skynet, um computador que se emancipou sozinho, não é mais esperto que isto?
Além disso, há ainda um grave problema de credibilidade. Eu sei que estamos a falar de uma série de filmes que falam de viagens no tempo e de robots assassinos, mas isto não nos faz ter que engolir tudo o que nos vendem. Especialmente planos rebuscados por antecipação, elaborados por máquinas, que, inteligentes ou não, são software programado pelo homem, com intuição maquinas e sistemática. E transplantes de coração!!
O mais giro de
Exterminador Implacável 4 até acaba por ser as referências que faz aos filmes anteriores: o
I'll be back de Christian Bale, que se esqueceu de despir a capa (e o registo) do Batman; o
You Could Be Mine, dos Guns n' Roses; e, claro, o cameo digital de Arnold Schwarzenegger, cuja curta aparição é bem mais assustadora que todos os exterminadores que aparecem anteriormente (especialmente aquele modelo de cobras aquáticas!). Quanto à história, é a mesma treta dos anteriores, só que agora o alvo é Kyle Reese (Anton Yelchin), que é ainda um adolescente, mas que todos sabemos que vai ser o pai de John Connor.
Exterminador Implacável 4 tenta ainda dar uma de filme sério e sensível e, para isso, recorre às muletas todas. Enfia no argumento uma criança (Jadagrace), muda ainda por cima, que não chateia muito, mas que está sempre presente não se sabe bem como; há a novo senhora Connor (Bryce Dallas Howard), sempre bem lavadinha e maquilhada no meio daquele caos pós-apocalíptico e, pertinentemente, grávida; e há uma nova personagem, Marcus Wright (Sam Worthington), metade robot metade humano, que não convence ninguém. Em
Exterminador Implacável 2, James Cameron punha o seu exterminador a chegar ao fim sensibilizado para a especificidade da raça humana devido ao seu contacto próximo com uma criança. Aqui, há um robot-homem que se apaixona por uma gaja boa à primeira vista. Sinal dos tempos...
Infelizmente, o filme chega ao fim e John Connor sobrevive para mal dos nossos pecados. O que significa que vão haver mesmo mais dois filmes da série. Se isto continuar assim, o Cheeseburger será o ponto alto desta nova triologia.
Posted by: dermot @
12:28 PM
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