Quinta-feira, Maio 28, 2009
Originalmente publicado na TakeSINGULARIDADES DE UMA RAPARIGA LOIRA:Título:
Singularidades De Uma Rapariga LoiraRealizador: Manoel de Oliveira
Ano: 2009

Manoel de Oliveira está mais activo do que nunca. Aos cem anos, o mítico realizador portuense vai a todas: ele é filmes históricos, ele é adaptações de peças de teatro, ele é sequelas não oficiais de Buñueis... E agora é a adaptação do conto homónimo de Eça de Queirós,
Singularidades De Uma Rapariga Loira, uma espécie de mini-filme que parece confrontar mais uma vez aquela mentira que, de tanto se dizer se tornou verdade, de que os seus filmes são todos estopadas de várias horas de duração.
Singularidades De Uma Rapariga Loira começa no interior de um alfa-pendular a caminho do Algarve, onde Macário(Ricardo Trêpa) puxa conversa com a senhora que viaja sentada ao seu lado. De repente, como em todos os filmes que se passam dentro de um comboio, sentimos uma ténue esperança de que aquilo possa ser algo na onda do clássico hitchcockiano,
A Desaparecida (vénias), mas não podíamos estar mais enganados. Afinal, Trêpa só quer desabafar e contar a sua história amorosa desafortunada com uma rapariga loira (Catarina Wallenstein), em regime de flashback.
Comecemos pelo melhor do filme, porque depois será sempre a descer.
Singularidades De Uma Rapariga Loira tem a melhor fotografia da obra recente de Oliveira, cada vez mais familiarizado com o digital, sempre sem comprometer os seus enquadramentos mais abertos, de meio-corpo ou corpo inteiro e, de preferência, centrados (se bem que ainda há uns zooms amadores, que são mais soluços do que outra coisa). Também particularmente original é um momento em que Oliveira substitui a banda-sonora por uma declamação de poesia. Nunca ninguém tinha pensado nisso e apetece perguntar "e porque não?".
Ao contrário de
Cristóvão Colombo – O Enigma, Oliveira não caiu no erro de fazer um filme de época com (sem?) baixo orçamento, preferindo adapta-lo à modernidade. No entanto, nem se deu ao trabalho de o actualizar, importando directamente o texto do livro de Eça. Não é nada de novo no seu trabalho anterior, baste lembrar as démarches semelhantes de
Amor De Perdição ou
O Quinto Império, mas ter em pleno século XXI um rapagão a ir para o exílio em Cabo Verde porque o seu tutor não lhe dá permissão para casar, ou ver uma bela moçoila à espera que o seu noivo arranje um dote considerável para começar a namorar, não lembra nem ao diabo.
Depois tem o outro problema do costume: os actores. É sabido que o ancião realizador não acredita na direcção de actores, mas macacos me mordam, ter pessoas a declamar textos não é nem cinema nem teatro. Por mais trabalho que o avô lhe dê, Trêpa não é actor nem aqui nem na lua e ter as pessoas que encontra na rua a desempenharem-se a si próprios com a mesma habilidade da inexpressão facial da Lili Caneças arruína qualquer filme. Mais confrangedor que a cena no Círculo Eça de Queirós, em que um senhor da casa faz uma visita guiada ao edifício, só mesmo a cena com o padre em
Cristóvão Colombo – O Enigma. É que Rogério Samora e Miguel Guilherme não conseguem fazer milagres em aparições pouco maiores que um cameo.
Chegado ao fim,
Singularidades De Uma Rapariga Loira termina como terminava
A Criança: sem mais para dizer, a câmara desliga-se e o genérico passa. No entanto, enquanto que no filme francês já não havia mais nada para dizer, aqui ficamos com a sensação de que ainda havia qualquer coisa para se ver. Não sei se já alguém antes utilizou esta descrição, mas
Singularidades De Uma Rapariga Loira é um Oliveira ligeiro. E discreto. Assim na onda de um Double Cheeseburger.
Posted by: dermot @
11:51 PM
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