Segunda-feira, Maio 25, 2009
CADILLAC RECORDS:Título:
Cadillac RecordsRealizador: Darnell Martin
Ano: 2008

A Chess Records foi uma das mais importantes editoras da história da música discográfica. Além disso, foi determinante e, arrisco-me a dizer, decisiva para aquilo que hoje conhecemos como o rock'n'roll. A sua contribuição só pode ser comparada à Sun Records, mas com a vantagem de ser sido uma percursora e não tanto uma oportunista. Por isso, se a Motown merece um filme (caso não tenham percebido estou a falar de
Dreamgirls), a Chess Records também merece.
Além disso, havia ainda como pretexto a entrada de Little Walter no Rock'n'Roll Hall of Fame, em Março do ano passado. Para quem não sabe, Little Walter, um dos nomes maiores da Chess, foi uma espécie de Jimi Hendrix da harmónica. Mas como o seu nome não é suficientemente conhecido para dar azo a um bio-pic (pelo menos um rentável), o mais fácil era mesmo um filme sobre a editora.
Cadillac Records junta assim uma constelação de estrelas no elenco: Adrien Brody é Leonard Chess (inexplicavelmente, o seu irmão é omitido da história), o criador da editora; Jeffrey Wright é Muddy Waters, bluesman maior e imagem de marca da Chess; Cedric the Entertainer é Willie Dixon, baixista de respeito e compositor de quase tudo o que é blues conhecido; Mos Def é Chuck Berry, pai do riff; e Beyoncé é Etta James, diva do r&b, quando o r&b ainda era uma coisa boa. Ah, e Beyoncé é também produtora executiva, que pôs carcanhol no filme. Com tanta cara conhecida, só não houve foi mesmo dinheiro para contratar úm realizador.
Assim, tiveram que contratar um tipo chamado Darnell Martin para fazer o filme e este espalhou-se ao comprido. E nem sequer vou falar da insensatez histórica do filme, que pouco ou nada acerta e que muito inventa a favor do desenvolvimento dramático das personagens. Primeiro, porque
Cadillac Records parece um telefilme, em que a história é planificada em duas dimensões, em que cada música é um pretetxo para uma montage em que se aproveita logo para um salto temporal, onde só faltam os cliffhangers à espera de um intervalo estratégico. E depois porque a história quase que se limita a uma sucessão de acontecimentos, alguns mesmo descontextualizados, que nos deixam uma sensação de vazio e que, para quem não está familiarizado com o blues, deixa escapar muita coisa nas entrelinhas.
É certo que, esceptuando o Muddy Waters de Jeffrey Wright, todas as personagens estão assustadoramente parecidas (Mos Def então é Chuck Berry sem tirar nem pôr), mas a construção narrativa delas é tão manca que parecem caricaturas. Por um lado até é giro e dá um carácter mítico aquelas lendas da música (Howlin' Wolf, por exemplo, é uma espécie de lobo mau encarnado, com a garganta inflamada em vez de voz de bagaço), mas por outro vai tirando credibilidade ao filme, aos poucos e poucos.
Depois, quando
Cadillac Records já vai em velocidade de cruzeiro, eis que surge Beyoncé com uma cabeleira foleira a fazer de Etta James e o filme passa a ser sobre ela, uma vez que foi quem meteu o dinheiro. Nada contra, mas depois de apenas duas músicas do Muddy Waters, uma do Little Walter e meia dúzia de segundos do Chuck Berry, acaba por ser uma seca ter que ver três músicas inteiras da Etta James em cerca de vinte minutos (sem disprimor para as suas músicas, claro). E isto para não dizer que o Bo Diddley nem sequer tem direito a cameo, como têm os Rolling Stones.
Cadillac Records é um desperdício de talentos e uma oportunidade perdida para se contar uma grande história. Felizmente, os belos momentos musicais valem o serão, que assim não é tempo perdido. Mas é algo do género de um Cheeseburger.
Posted by: dermot @
12:50 PM
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