Segunda-feira, Abril 20, 2009
GRAN TORINO:Título:
Gran TorinoRealizador: Clint Eastwood
Ano: 2008

Manoel de Oliveira e Clint Eastwood são dois realizadores muito velhinhos e respeitados pelo mundo do cinema em geral, não só por continuarem no activo, mas por fazerem uma espécie de cinema de antigamente e, de certa forma, cinema de autor. A diferença entre os dois é que, enquanto o primeiro continua a fazer filmes históricos em que as personagens falam todas como no século XIX, o segundo não tem problemas nenhuns em filmar filmes de acção, com tiroteios, espancamentos e muitos palavrões. Mesmo que o próprio (e os críticos sérios de cinema) continuem a garantir que
Dirty Harry já não mora aqui.
Gran Torino começa no velório da senhora Kowalski, esposa de Walt (Clint Eastwood), um velho torto e rabugento. Clint Eastwood não perde tempo e, em cinco minutos (eu disse cinco? dois!), faz todo o retrato psicológico daquela personagem servindo-se de uma família tão esteriotipada que parecem os
Simpsons: Walt tem mau feitio, gosta de ver as coisas feitas à sua maneira, é daqueles velhos que está sempre a repetir o irritante
no meu tempo é que era e não é nada chegado aos seus filhos. No entanto, os seus filhos são uns sacanas desejosos que ele vá para a cova e nós, no seu lugar, também não queríamos ter nada a ver com aquela gente.
Há que assumir que o início de
Gran Torino não é famoso e faz temer o pior. Parece mesmo que estamos a ver um Manoel de Oliveira e não um Clint Eastwood. Mas depois este começa a falar, começa a soltar pragas racistas a torto e a direito, pragueja ainda mais e o filme começa a ganhar interesse. E depois saca de pistolas e empunha uma M1 Garand e aí sim, já não queremos saber de mais nada.
No fundo, Walt vive num bairro dos subúrbios no sul dos Estados Unidos que de american way of life já tem muito pouco: os seus vizinhos já se mudaram todos e agora aquela comunidade é só gangues de mexicanos e de hmongs. E à medida que vai tentando preservar o seu espaço (um telheiro limpo, um cão no alpendre e um Gran Torino na garagem), Walt começa a envolver-se com a família hmong da casa ao lado, substituindo os seus filhos afastados por aqueles frágeis inadaptados, enquanto preenche a lacuna de figura paternal daqueles jovens perdidos. Resumindo, é como
O Momento Da Verdade, mas com os papéis invertidos: em vez de ser um velho chinês a ensinar um ocidental a crescer como pessoa, vai ser um velho ocidental a ensinar um chinoca. E até tem uma montage musical à chuva...
Clint Eastwood impõe respeito e mesmo com os seus oitenta anos, ninguém se mete com ele. O argumento diz que é porque ele serviu na guerra da Coreia, mas nós sabemos que não é só isso: aqueles olhos têm a profundidade do horizonte do deserto de Almeria, de quando era o Homem Sem Nome de Leone; as rugas têm cravadas as agruras das guerras, de quando foi o
Sargento De Ferro; e os braços continuam a segurar as armas com a firmeza de
Dirty Harry. São três décadas de cinema de acção que se concentram em
Gran Torino, para um tiro decisivo.
No entanto, a vingança de Clint Eastwood em
Gran Torino é bem diferente dos seus tempos de vigilante. Aqui tem tudo a ver com redenção e com as baladas crísticas de Abel Ferrara, por exemplo. Sempre com um traço bem americano e com resquícios do cinema clássico de Hollywood, sublinhado pelo plano final, Gran Torino em destaque e o próprio Eastwood a cantar, algo que não acontecia já desde
Meia-Noite No Jardim Do Bem E Do Mal.
Mas
Gran Torino não é uma obra-prima, que possamos adorar em altar de ouro. Tem as suas falhas e algumas bem gritantes: a tal família que é uma caricatura atroz, hmongs com tanto jeito para representar como eu para equilibrar pratos no nariz ou alguns planos subjectivos que surgem aleatoriamente no meio do filme, como se se tivessem enganado na sala de montagem. No entanto, tem tanta paixão e honestidade empregue, que nem nos sentíamos bem em comer algo menor que um Royale With Cheese.
Posted by: dermot @
11:02 PM
|