Quarta-feira, Abril 08, 2009
APPALOOSA:Título:
AppaloosaRealizador: Ed Harris
Ano: 2008

Gosto de westerns e sou da opinião que dariam um estudo muito interessante, enquanto espelhos da sociedade e da identidade norte-americana ao longo das décadas. Tivesse eu tempo, paciência e jeito, e eu próprio o escreveria. Além disso, não sei se já alguém escreveu algo parecido. O mais certo até é já haver alguma coisa do género. Tudo isto apenas para me gabar e dizer que consigo identificar várias fases da história do cinema de cowboys. E, mesmo assim,
Appaloosa não se inscreve em nenhuma delas.
Por um lado, repesca a matriz dos westerns clássicos com aquele fascínio do nascimento da gloriosa nação americana, com uma reconstituição de época fabulosa, mas por outro captam um certo ocaso do faroeste, da última fase de John Ford a
Imperdoável. No entanto, faz mais lembrar um film noir, em que os protagonistas são personagens moralmente dúbios e a parte feminina tem ares de femme fatale, com uma metade a despertar o íntimo masculino e com a outra a transportá-los para o abismo.
O ambiente é, portanto, o ideal: Appaloosa é um lugarejo perdido junto ao México, controlado pelo ganacioso e cruél Randall Bragg (Jeremy Irons). Os aristocratas da cidade vão então contratar dois justiceiros da fortuna para impôr a lei e ordem. São eles Virgil Cole (Ed Harris) e Everett Hitch (Viggo Mortensen), uma espécie de
Esquadrão Classe A, mas com armas em vez de uma carrinha preta e um ferro de soldar. Pelo meio há ainda Allison French (Renée Zellweger), o elemento feminino indispensável, metido à força com um pé-de-cabra.
Sem ser um filme com uma história propriamente brilhante,
Appaloosa tem um argumento pobrezinho e manco. No entanto, o pior é mesmo a construção das personagens, em que todas elas são demasiado planas. Se o trio de protagonistas ainda se safam porque as suas linhas faciais, cavadas pelo tempo, camufulam-se com a paisagem árida daquele deserto e porque os seus arquétipos são esticados ao máximo (os bons demasiado bons e os maus demasiaod maus), tudo o resto é demasiado caricatural: os mariolas da cidade são todos bananas apatetados, onde até há uma dupla igualzinha ao Dupond e Dupont, e a personagem da Renée Zellweger é um corpo estranho ao filme, que ainda não consegui perceber o que faz ali, como surgiu e quem é (para não falar que aquelas boquinhas todas e os olhos de carneiro mal morto irritam e de que maneira).
Além disso, as motivações daquela gente são sempre uma incógnita mal resolvida. Ed Harris queixou-se dos 45 minutos que teve que cortar da versão final e eu acredito que, com eles, o filme teria muito mais sentido, mas assim eu olho para o Jeremy Irons e só consigo pensar no
Bafo-de-Onça, nos livros da Disney, em que a sua motivação para o crime muda a cada virar de página. Já leram alguma história dessas do Mickey em versão faroeste? Numa página o
Bafo-de-Onça é assaltante de bancos, na outra já é ladrão de gado e na outra a seguir é o city-mayor corrupto.
No entanto, ver
Appaloosa não ofende ninguém, especialmente se gostarmos do género, uma vez que é um regalo aos olhos. Além disso, tem um duelo (o final, não um que acontece lá para o meio, em que, convenientemente, morrem os maus todos à primeira, os bons escapam com ferimentos e o vilão foge - de facto, este argumento está cheio de muletas, facilitismos e demasiadas coincidências), que deverá ser um dos melhores da história dos westerns logo a seguir ao de
O Bom, O Mau E O Vilão. Valeria o Double Cheeseburger só por isso.
Posted by: dermot @
11:12 AM
|