Quinta-feira, Fevereiro 26, 2009
O WRESTLER:Título:
The Wrestler
Realizador: Darren Aronofsky
Ano: 2008

No Ipsilon de sexta-feira passada, o compositor/intérprete da Flor Caveira, Samuel Úria (cuja musica eu ainda não consegui decidir se gosto ou não), escreveu a melhor discrição de sempre do Mickey Rourke. Dizia ele que, e passo a citar,
desde que o David Bowie deixou os andrajos "glam" para ser um "crooner" engravatado que não víamos tão cabal transformação de borboleta em lagarta. Rugosa e esplêndida lagarta. .
Começo este texto sobre
O Wrestler a falar do Mickey Rourke porque um e outro são inassociáveis. Não é por acaso que o filme tem sido publicitado como "a ressurreição de Mickey Rourke". Pessoalmente, tenho sérias dúvidas que o filme tivesse tamanho interesse se tivesse sido feito com outro actor qualquer.
Mickey Rourke faz então de Randy 'The Ram' Robinson, um lutador de luta-livre que, depois da fama nos anos 80, sobrevive a lutar em ringues manhosos. The Ram está tão parado no tempo quanto o seu gosto musical deixa antever, sempre ouvindo hair-rock épico e azeiteiro dos eighties. The Ram (ou Rourke?) combate o seu isolamento com o mundo do faz de conta do wrestling, compensando o vazio da sua vida, o afastamento da sua filha e a falta de alguém que o ame com o carinho dos nerds da luta-livre que ainda se lembram de si. Uma nostalgia tão raquítica e deprimente quanto a sua existência num parque de caravanas, enquanto tenta engatar uma stripper de 40 mais bem parecida que qualquer minha amiga na casa dos 20 (Marisa Tomei, claro).
No fundo, a vida desse lutador não é mais que o eco da vida de Tarzan Taborda, um homem que não conseguiu habituar-se ao esquecimento em que caiu após anos de adoração e que continua parado no tempo, recusando-se a viver o que não queria. É também o eco da própria vida de Mickey Rourke, que passou do novo Marlon Brando a farrapo humano num ápice (com uma passagem pelo boxe profissional pelo meio).
A verdade é que se tirarmos Rourke e analisarmos
O Wrestler isoladamente, arriscamo-nos a perceber que o filme não tem assim tanto interesse quanto isso. Primeiro, porque parece um rip-off de
Rocky Balboa, em que um velho cheio de botox ensaia o seu comeback aos ringues já depois da data de validade; segundo, porque a estrutura é do mais convencional que já seu viu: ex-lutador de sucesso está na merda, ex-lutador de sucesso tenta sair da merda fazendo as pazes com a filha e arrajando namorada e um emprego, ex-lutador de sucesso falha essas tentativas e ex-lutador de sucesso tenta uma derradeira chance nos ringues; e terceiro, porque tudo o que é relação com personagens secundárias é demasiado forçado para ser credível.
A safa de
O Wrestler é que é filmado por Darren Aronofsky, realizador genial que aqui volta a metamorfosear-se num cineasta novo.
O Wrestler é filmado como um genuíno filme independente (não aquelas tretas artsy que já fizeram escola, com Garden States e afins), com a câmara ao ombro, teimando em não abandonar os grandes planos do protagonista, como um neo-realista urbano ou um cinema verdade de mentira. Ou será que é mesmo de verdade, com Rourke a fazer de Rourke?
Outro facto que merece ressalva é a forma como Aronofsky filma os combates. O realizador entra em ringue com o próprio Rourke e, apesar de sabermos que o wrestling é todo a fingir, aqueles combates são violentamente duros.
O Wrestler é
O Touro Enraivecido da luta-livre, com Rourke a fazer trabalho empírico para o papel durante vinte anos.
A minha dificuldade não é qual o menu escolher para terminar esta prosa que já vai longa. Isso há muito que está definido e é um McRoyal Deluxe. A minha dúvida é se o deva atribuir ao filme ou a Mickey Rourke. Basta contar a quantidade de vezes que escrevi o seu nome ao longo destas linhas para perceber a sua importância para o filme.
Posted by: dermot @
12:37 AM
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