Terça-feira, Dezembro 16, 2008
AMÁLIA:Título:
AmáliaRealizador: Carlos Coelho da Silva
Ano: 2008

Eis o filme português mais caro de sempre. Três milhões de euros inteirinhos, o que mesmo assim não chega a metade do que um filme de baixo orçamento de Hollywood. O que não quer dizer nada para além de demonstrar o meu complexo de inferioridade.
Amália era um dos filmes mais inevitáveis do cinema português e só admira ter demorado tanto tempo a fazer. Fosse Leitão de Barros vivo e iam ver... Agora, depois da Amália, da
Severa, do Carlos Paredes e do Variações que aí vem, fica apenas a faltar o Zeca Afonso para o cardápio musical português ficar completo.
Amália mostra bem a almofada financeira que tem por trás, colocando os meios ao dispor do seu cinema: tecnicamente irrepreensível, salvo o habitual (que pensava já estar resolvido) problema com o som,
Amália tem uma reconstituição de época perfeita, com o guarda-roupa certo, os decors mais fotogénicos e os contra-picados mais arriscados desde...
Balas E Bolinhos 2. Infelizmente, nem tudo são rosas. Para além do já mencionado problema sonoro, a caracterização da Amália velha é a coisa mais risível de sempre, que faz com que estejamos sempre à espera que ela diga
get ready for a surpriiiise e que a cabeça expluda (caso não estejam a ver do que estou a falar, é desta
cena do
Desafio Total). O que vale é que temos sempre o (não)sotaque brasileiro do Ricardo Carriço, à la TV Shop, para nos distrair.
Sem seguir o formato narrativo convencional,
Amália começa pelo fim e vai-se construindo por camadas, recorrendo a prolepses constantes até a essa muleta conciliadora final. A coisa funciona bem e é bom cinema, se bem que, pessoalmente, agradava-me que o filme mantivesse o tom mais negro e suicida até ao fim, em vez de acabar com tantos passarinhos e o sol a brilhar e... uma montagem musical(!). Infelizmente, não há é argumento, apenas uma sucessão de acontecimentos disconexos, alguns sem razão aparente entre si, em que as personagens secundários vão caindo de pára-quedas e nada tem ligação entre si. É o formato telefilme a dar cartas no cinema português.
Um dos principais males que se apontam ao cinema nacional é a falta de dinâmica. O realizador Carlos Coelho da Silva parece que ficou com medo de lhe apontarem tal defeito e abusa na edição, pondo o filme rápido de mais, retalhando inclusive sequências de movimento. A primeira meia-hora então é de nos deixar sem fôlego, tal é a rapidez. Quanto ao bio-pic de Amália Rodrigues, é normal que se exagerem algumas coisas e se acrescentem outras para efeitos dramáticos. E até a divinização da cantora se aceita, se bem que isso não tem piada em lado nenhum (lembram-se de
Ray?). Agora, num filme sobre uma das maiores cantoras de sempre do Mundo, praticamente não se falar de música, bem, isso é inadmissível. Os fados estão lá de forma tímida, basicamente como música de fundo, mas o filme é mais sobre a vida amorosa e sentimental de Amália do que sobre a sua música. Eu tinha falado em telefilme? Corrijo, é mais telenovela.
Comparando com outros bio-pics recentes, o mais parecido a
Amália será
La Vie En Rose, mas sem música. Sandra Barata também está perfeita na pele da diva do fado (até na voz está igual), mas não tem culpa que a tenham caracterizado no fim como o Eddie Murphy gordo do
Professor Chanfrado. E o realizador Carlos Coelho da Silva tem as noções de um cinema de entretenimento sagaz e construtivo. Até há, pela primeira vez no nosso cinema, o Salazar! Infelizmente, esqueceram-se todos do argumento. E da música, cacete! Apesar do Cheeseburger, ainda continuo a acreditar na Valentim de Carvalho.
Posted by: dermot @
12:01 AM
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