Os (dois) leitores mais atentos deste imodesto espaço, devem-se lembrar certamente do tempo em que fazia entrevistas. Nessa altura, já lá vão três anos, tive o prazer de acolher nestas linhas o então desconhecido Rodrigo Areias. De lá para cá, o seu nome tonrou-se num dos velores emergentes da cinematografia nacional, ora associado aos telediscos do Legendary Tigerman, ora a vencer Vila do Conde com a curta Corrente. Agora, chega-nos finalmente a versão acabada de Tebas, a primeira longa-metragem de Rodrigo Areias, da qual ele já nos tinha falado em 2005(!).
Apesar de não me identificar muitas vezes com o seu estilo de filmar, gosto do Rodrigo Areias e do seu espírito empreendedor. Num país dependente dos subsídios estatais para fazer cinema, o jovem realizador criou com a Periferia Filmes um catálogo de várias curtas, médias e até uma longa sem qualquer patrocínio do ICA. Bons ou maus, o que aqui realmente interessa é isto: é possível fazer cinema em Portugal sem o ICA. Viva a democratização do digital!
Tebas é a história de um jovem, Eddie (Gilberto Oliveira), filho de emigrantes portugueses a viver nos arredores de país. Quando a mãe cai à cama com os pés para a cova, Eddie faz aquilo que se esperaria de qualquer bom filho: foge para Portugal, à boleia do camionista bon-vivant (a sinopse apelida-o de beatnick), Salvador (Nuno Melo). Temos então um road-movie à portuguesa, a piscar o olho a Kerouac e a Wim Wenders circa Paris, Texas, mas com a música de Tigerman em vez da de Ry Cooder, que não fica nada a perder.
O road-movie é um dos estilos mais fáceis de filmar: é simples de se fazer, fica sempre bem em termos visuais e, simbolicamente, é bastante forte. No fundo, é uma viagem entre dois sítios que envolve uma mudança ou transformação durante esse percurso. No entanto, também é um dos géneros mais traiçoeiros, porque cai no facilitismo muito rápido como uma muleta dramática preguiçosa. O road-movie faz sentido quando no final da viagem algo se transformou; e é bem feito quando nós só damos conta disso mesmo no fim. Se nada se passa, então é só uma viagem. E nós fazemos várias diariamente, de casa para o trabalho e do trabalho para o supermercado. E nem sempre ocorrem transformações quando as fazemos. O mesmo acontece em Tebas.
Dispensamos então a parte road-movie e concentramo-nos na chegada a Portugal. Aí, Eddie vai deparar-se com um mundo diferente do que estava habituado, mergulhando na melhor parte: um universo surrealista, numa variação contemporânea de Édipo Rei, a tragédia grega de Sófolces. Eddie e Salvador vão então entrar no bar Tebas, uma casa de deboche e de maus actores, com o Toni Fortuna a porteiro e um estilo barroco herdado de João Botelho. Aliás, Tebas é uma espécie de Onde Estás, Irmão? filmado por João Botelho, com o seu neo-classicismo, a luz recortada e os cenários barrocos.
Tebas torna-se confuso, num mind-blowing flick surrealista para quem não tem as bases, em que o Tigerman e aquele anão do teatro, o David Almeida, aparecem amiúde com roupas diferentes. Depois há uma cena de sexo filmada sem pele à mostra, com muitos planos de nucas, Nuno Melo (vénia) no seu estilo canastrão, más fantasias de divindades gregas que parece o sítio do pica-pau amarelo e um Plymouth vermelho-sangue lindo. No fundo, Tebas é uma longa-metragem de baixo orçamento, exclusivamente independente, que devia reproduzir-se e ter mais filhos. Por aqui, vale um Double Cheeseburger.