Quarta-feira, Outubro 08, 2008
O SEGREDO DE UM CUSCUZ:Título:
La Graine Et Le MuletRealizador: Abdel Kechiche
Ano: 2008

É quando vejo filmes como
O Segredo De Um Cuscuz que me convenço de que não percebo mesmo nada de cinema. É que depois de ler tantas críticas a louvarem o filme, fui vê-lo e achei precisamente o oposto de tudo aquilo que elas diziam.
Um dos principais louvores que lhe têm sido apontados tem a ver com a forma de como a câmara se demora nas situações, prolongando-as por minutos a fio. Os críticos aplaudem esse cinéma véritè, segundo o qual reflecte a realidade e as situações como elas realmente acontecem. No nosso quotidiano, quando temos uma discussão, esta não é cortada a meio para outra cena totalmente diferente quando termina o interesse de uma das partes na conversa. Contudo, eu vejo
O Segredo De Um Cuscuz e fico claramente com a sensação de que Abdel Kechiche é um realizador com um sério problema de timming. É como o Di Maria: vê-se que é um bom jogador de futebol, mas nunca liberta a bola no tempo certo, tem que dar sempre um toquezinho a mais...
O Segredo De Um Cuscuz é o típico cinema europeu: filmado com a câmara ao ombro, tremendo mais do que a minha avó com parkinson, e, exclusivamente, com planos fechados, que faz com que os actores pareçam que estão sentados ao nosso lado na sala de cinema. Tudo isto dá-lhe um ar de cinema-verdade, mas também de Dogma 95 (não só a câmara à mão, mas também a luz e os decors naturais) e, especialmente, do neo-realismo. Quer dizer, não tanto o neo-realismo italiano, mas aquele pós-realistmo do Antonioni, com clara predominância pelos pormenores aparentemente insignificantes da vida como ela é.
O Segredo De um Cuscuz é uma história sobre amor verdadeiro, compromisso e a família. Aqui não há distinção entre personagens principais e secundárias, ou pelo menos de forma física, visto que, teoricamente, o patriarca Slimane (Habib Boufares) é quem faz todos os outros se moverem. No entanto, o núcleo de familiares e amigos que gravitam à sua volta formam um herói colectivo. E formam também uam família funcional à sua maneira, uma família francesa com raízes muçulmanas (cá temos o choque de culturas, tema recorrente do cinema humanista europeu), com um pé à beira do abismo sem o saberem. E o cuscuz que a mãe daquela gente toda faz como ninguém é a argamassa que os mantém unidos.
O argumento não é nada de novo, mas no final dá a impressão que o realizador ficou sem saber o que fazer para terminar. E deu-lhe um toque de surrealismo barra final aberto que, para quem já não estava a gostar muito do que estava a ver, fica claramente com a ideia de pretensão a mais. E é difícil não ficarmos cansados com três horas de filme, em que as partes mais importantes do argumento parece que são sempre as que não são filmadas e que as actrizes são todas tão chatas e histéricas a falar, que só apetece mandar-lhes uma caralhada para se calarem.
Já provei cuscuz uma vez, mas não me lembro se gostei ou não. Espero que saibam melhor que um Double Cheeseburger. Mas isto também sou eu, que não percebo nada de culinária. E de cinema.
Posted by: dermot @
11:50 PM
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