Quarta-feira, Outubro 22, 2008
O PRÓXIMO A ABATER:Título:
The Boondock SaintsRealizador: Troy Duffy
Ano: 1999

Toda a gente sabe que a comunidade irlandesa nos Estados Unidos, mais propriamente em Boston, é uma das mais fortes na América. No entanto, são sempre os italianos que têm os melhores filmes (basicamente, todos sobre a máfia). Mesmo assim, já tivemos oportunidade de ver como é que eles se estabeleceram lá (olá
Gangs de Nova Iorque) e já pudemos ver, um par de vezes, eles a matarem-se uns aos outros (olá
Chuva De Fogo). Em
O Próximo A Abater, eles não só se matam uns aos outros, como o fazem com muito estilo.
O realizador Troy Duffy (com um currículo cingido praticamente a este título e a uma infinitamente adiada sequela) estava, claramente, viciado no
Pulp Fiction quando realizou este filme.
O Próximo A Abater é um thriller de acção que segue os moldes de
Um Mal Nunca Vem Só (outro clone de
Pulp Fiction), por exemplo, com claras influências da violência estilizada de Tarantino, a banda-sonora rock-surf (mas com mau gosto), ou as personagens com um travo religioso (
and you will know my name is the Lord when I lay my vengeance upon thee, lembram-se?). Mas também há os tiroteios em câmara-lenta e com milhentas armas de John Woo, ou as personagens caricatas a cheirar a testosterona por todo o lado de Robert Rodriguez. Ou seja, tudo excelentes influências.
Basicamente, a história tem bastante a pinta. Há dois irmãos (Sean Patrick Flanery e *argh* Norman Reedus), pacatos talhantes, que em legítima defesa, despacham uns russos da máfia. Aparece um buraco no argumento e, de repente, eles são elevados a heróis populares. Nisto, têm uma epifania na prisão (alerta xunga, atenção) e decidem começar a matar todos os bandidos da cidade, indiscriminadamente. Para capturar estes vigilantes-Charles-Bronson-style existe o super-detective Paul Smecker (Willem Dafoe), uma versão ambígua do Sherlock Holmes, mas que no fundo o que tem são recalcamentos a mais.
Mas Troy Duffy tem a sofisticação e a sensibilidade de um elefante numa loja de porcelanas e, por isso,
O Próximo A Abater tem situações confrangedoras, dignas da série-b má, como um mero bang bang movie do Steven Seagal. As personagens então são todas esteriotipadas, que quase roçam o kitsch, de tão esticadas que são - os russos falam todos como o Tarzan com um sotaque esquisito e os italianos comem todos pizza e dizem mamma mia -, o que nos leva a pensar se o realizador não fez de propósito, nalgum tipo de exercício estilístico pós-moderno manhoso. Só assim se compreende o Ron Jeremy a fazer de mafioso italiano ou um chefe da máfia a dizer
os anos 90 andam a dar cabo de mim.
Com o passar dos minutos,
O Próximo A Abater começa a ganhar embalagem e toda a gente começa a divertir-se. Os tiroteios aumentam de dimensão e de intensidade e o entretenimento é cada vez mais e melhor. Se as personagens principais são bem estilosas - tatuadas, católicas e assassinas impiedosas -, o que dizer de Billy Connolly, que parece saido do
Desperado, armado até aos dentes e envolto em cabedal? E depois, claro, há Willem Dafoe (vénia), que numa personagem ambígua, faz de um maricas cheio de virilidade. Parece o Mick Jagger e, no fundo, o facto de ser gay tem tanta relevância para a hsitória quanto a cena em que aparece (perturbadoramente) vestido de mulher.
Contudo, o grande momento de
O Próximo A Abater tem a ver com a estrutura do próprio filme. Este desenrola-se assim: os Santos vão matar uns bandidos; entram numa casa e a imagem corta para a polícia no local; no meio da destruição, Williem Defoe rconstitui a cena; e assim por diante. A coisa começa a ficar bem oleada e no fim tem o ponto caramelo quando o próprio Williem Defoe reconstitui mais uma cena de tiroteio ao mesmo tempo que ele acontece, com uma ária por trás, qual ópera destrutuiva. Teria ficado que nem ginjas em
Shoot 'Em Up - Atirar A Matar.
O Próximo A Abater (por favor, alguém me diga que este não é a tradução oficial para português) é um filme esquisito. Não é muito conhecido, mas muito boa gente fala dele. Também não é um bom filme, mas todos querem gostar dele. E não é bem um filme de culto, mas todos se recordam dele.
O Próximo A Abater é como o tofu, que não é carne nem peixe. É mais McBacon.
Posted by: dermot @
9:06 PM
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