Terça-feira, Outubro 21, 2008
HUNGER:Título:
HungerRealizador: Steve McQueen
Ano: 2008

Steve McQueen foi um dos mais exemplares ícones da raça masculina dos actores de Hollywood. No entanto, o Steve McQueen que realiza este
Hunger nada tem a ver com o Steve McQueen dos olhos azuis. Este é inglês, é preto e é artista audiovisual, que já ganhou o prémio Turner com as suas criações video minimalistas a preto e branco, com laivos de nouvelle vague e do Andy Warhol.
Hunger nada tem a ver com o universo permofartivo de Steve McQueen. É antes uma ficção minimalista com influência do documentário, uma espécie de
Aquele Querido Mês De Agosto, mas ao contrário, em que é a ficção que invade os domínios do documentário. Mais do que uma biografia de Bobby Sands, o militante do IRA que, em 1981, fez uma greve de fome até à morte,
Hunger é um documentário pós-realista e muito cinéma véritè.
Em vez da visão romancesca dos meandros do conflito de
Brisa De Mudança, temos um filme de prisão austero e cru, que nos mostra a desumanização da guerra de forma pornograficamente violenta. Sem banda-sonora e uma forma de filmar bastante descritiva, Fome mergulha na prisão inglesa e acompanha não só os horrores físicos dos prisioneiros, como os psicológicos dos guardas. Estão a ver a temporada que
Papillon passa na solitária? Multipliquem essa tortura por cem.
É que
Hunger é filmado de uma forma que dizemos
sim senhores. Por exemplo, existe um diálogo de vinte minutos filmado com um plano fixo, que tem mil vezes mais dinâmica que noventa por cento dos exemplos do cinéma véritè. Mas o cinema verdade tem muito que se lhe diga e eu não sou, certamente, a pessoa mais indicada para o dizer...
Com uma entrega determinante de Michael Fassbender ao papel de Bobby Sands, emagrecendo até se tornar num verdadeiro esqueleto ambulante, que compete com Christian Bale em
O Maquinista pelo anorético mais perturbador,
Hunger tem como único problema o facto de não ter aquilo a que se convenciona chamar de argumento. É antes uma espécie de encadeamento de factos, sem grande contexto, que correm o risco de começar a soar a gratuito. Felizmente, o filme é bastante curtinho e quando o espectador pode começar a ficar com o fastio, ele acaba.
Como diria o Obélix, os ingleses são, de facto, loucos. É certo que têm uma tradição televisiva bastante apurada (vide a britcom ou as séries de época da BBC), mas fazer um telefilme como este é querer arranjar areia para se enterrar. Mas também que não arrisca não petisca. Por isso, vos digo: mais raro do que um telefilme a ganhar prémios, é um a merecer um McRoyal Deluxe.
Posted by: dermot @
11:07 AM
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