Terça-feira, Outubro 07, 2008
GANGS DE NOVA IORQUE:Título:
Gangs Of New YorkRealizador: Martin Scorsese
Ano: 2002

Para além de ter sido fundada nas ruas, como indica a tagline deste filme, Nova Iorque foi erguida por bandidos, ladrões, aldrabões e demais criminosos, apoiada em pilares como a corrupção ou o tráfico. Toda a gente sabe isso e, se for dita mais quatro ou cinco vezes até ao final do ano, irá transformar-se num lugar comum. No entanto, para entender verdadeiramente o alcance destas palavras há que ver filmes como
Gangs De Nova Iorque. Ou então, ler livros como
Filha da Fortuna, de Isabel Allende, que apesar de não ser tão bem vista nos meios literários, é muito mais do que os escritores de supermercado.
Gangs De Nova Iorque é um projecto de Martin Scorsese que se arrastou desde os anos 70 e que, inicialmente, era para contar com os Clash. E tal como a maioria da sua filmografia, ambienta-se no universo subterrâneo da sua tão amada Nova Iorque. A diferença é que, em vez da comunidade italiana e da máfia, aqui temos a comunidade irlandesa, num recuo ao século XIX, quando Nova Iorque era (ainda mais) uma miscelanea de culturas e povos.
Baseado livremente em factos reais,
Gangs De Nova Iorque é um melodrama épico de época e uma espécie de tragédia shakespeariana, que aborda a origem dum conflito mal resolvido entre a comunidade irlandesa nova-iorquina e os nativos americanos. De um lado há Amsterdam (Leonardo DiCaprio), o filho do antigo líder dos irlandeses (Liam Neeson), que tem como único objectivo de vida vingar-se do assassino do seu pai: o carismático, carniceiro e sádico líder dos nativos americanos, Bill Cutting (Daniel Day-Lewis). A sua vendeta pessoal vai transformar-se numa jornada que vai reabilitar esse confronto antigo, num país claramente paradoxal: numa terra fundada por estrangeiros, a xenofobia é o sentimento mais comum.
É uma espécie de
O Padrinho, mas com americanos do século XIX em vez de italianos (e um argumento com mais falhas):
Gangs De Nova Iorque conta a ascensão e a queda de várias personagens, mas no fundo tudo é varrido por um tributo
às mãos que construiram a América, terminando numa epifania de que todos somos iguais e há que lutar em conjunto por ideais semelhantes. Faltou apenas uma bandeira americana defraldada ao vento para Michael Bay ficar orgulhoso de Martin Scorsese. Não houve bandeira, mas houve um plano do então já destruído World Trade Center...
Contudo, não se pense que
Gangs De Nova Iorque é uma banhada patriota ou um simples melodrama construído de baba e ranho. Antes de mais é um excelente pedaço de entretenimento: Martin Scorsese sabe criar atsmoferas vibrantes e pujantes, como a reconstituição que faz daquela Nova Iorque comandada por várias gangues, sempre ao som marcial de tambores e flautas de guerra, que nos mantêm em guarda. Infelizmente, a história acaba por ser um pouco retalhada por imperativos de tempo. Não é admirar que a versão inicial do filme tivesse uma hora a mais. É que conseguimos praticamente visualizar o que ficou perdido no chão do estúdio de edição...
E por falar em retalhar, nada melhor do que terminar esta prosa com um parágrafo dedicado ao magnífico Daniel Day-Lewis, na pele de um cruél e desvairado talhante. Psicopata com olhos de louco e um bigode arrebitado nas pontas que lhe dá um ar de artista de circo dos infernos, Daniel Day-Lewis é demasiado cruél para o próprio argumento. Vê-se claramente que ele pede ansiosamente por banhos de sangue em todas as cenas em que aparece, mas Martin Scorsese nunca tem coragem de as dar. É pena.
Gosto de
Gangs De Nova Iorque, apesar do McRoyal Deluxe estar, algumas das vezes, preso por arames.
Posted by: dermot @
11:32 AM
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