Quarta-feira, Outubro 29, 2008
ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA:Título:
BlindnessRealizador: Fernando Meirelles
Ano: 2008

Esqueçam os prémios e as mostras internacionais do Pedro Costa, esqueçam os 100 anos do Manoel de Oliveira...
Ensaio Sobre A Cegueira é o novo happening do cinema português. E com razão: pela primeira vez, um livro português (neste caso, o homónimo romance de José Saramago) é adaptado ao cinema por Hollywood. E para ajudar à festa, o realizador fala português - é o brasileiro Fernando Meirelles -, o elenco é recheado de caras conhecidas e, claro, há um prémio Nobel envolvido.
Para quem nunca leu (e há muita gente que continua sem pega rna obra de Saramago, pelo (duplo) preconceito errado de que o senhor escreve sem pontuação e, como tal, não sabe escrever),
Ensaio Sobre A Cegueira coloca o cenário hipotético de
e se toda a gente no Mundo cegasse? O resultado é arrepiante e pode perturbar muito boa gente, mas como Saramago referiu pertinentemente, é assim o ser humano, capaz do melhor, mas principalmente do pior.
No meio de todo este mar de cegueira branca (ao contrário da cegueira "normal", esta é alva, o que lhe dá uma espécie de natureza ambígua, metade possibilidade de castigo divino, outra metade de possível experiência governamental), sobressai Julianne Moore, a única personagem no meio de todo este cenário que não cega e, como tal, vai ser uma espécie de astro sob o qual giram os demais planetas. Porque já diz a sabedoria popular, em terra de cegos, quem tem olho é rei. Mesmo assim, não se livra de mostrar as mamas mais uma vez, algo que parece ser requisito obrigatório da actriz em todos os filmes.
Filmado em cenário indistinto, de forma a não permitir leituras transversais além da do cenário hipotético, Fernando Meirelles optou por um elenco cosmopolita, com brancos, pretos, chineses e mexicanos, como um
Babel em versão microcosmos. Infelizmente, esta opção tira-lhe um pouco de força, uma vez que não permite fixar as raízes no solo. No entanto, nada disto é grave, se tivermos em conta coisas priores, como o primeiro terço de
Ensaio Sobre A Cegueira, que dá a impressão de que tudo acontece depressa de mais.
É complicado transportar livros de forma fiél para o grande ecrã e Fernando Meirelles apercebeu-se da dificuldade deste caso concreto. Assim, preferiu não inventar no argumento e, limitando-se ao essencial, construiu o seu filme. Os resultados finais são os mesmos do romance: a criação de uma espécie de distopia disfuncional e assustadora de tão rela que é, que mostra o lado mais animalesco do Homem quando colocado em situações extremas. Há mortes, há violações em grupo, há roubos, há despotismo... Aliás,
Ensaio Sobre A Cegueira podia chamar-se
Pessoas Cegas Versão XXX.
O realizador opta então por tapar os buracos vazios do filme com a sua arte de filmar. Optando por inundar o filme de luz, Fernando Meirelles cria a antítese do film noir, o que poderá muito bem vir a tornar-se escola em futuros filmes em cenários indistintos, com os planos queimados e de cores dessaturadas. Além disso, aproveitando o facto de etar toda a gente cega, Meirelles evita os planos subjectivos, abusando dos (des)enquadramentos, como aquele cinema do alheamento de Antonioni, ou mesmo de Wong Kar Wai. Quando nada disso resulta, a solução é recorrer à mais antiga muleta de todas: o narrador. E para isso lá está Danny Glover a fazer de Morgan Freeman.
Não é genial (para isso há o livro), mas
Ensaio Sobre A Cegueira é um filme que honra completamente o legado de José Saramago, em formato McRoyal Deluxe.
Posted by: dermot @
12:08 PM
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