Quarta-feira, Setembro 24, 2008
BRINCADEIRAS PERIGOSAS:Título:
Funny GamesRealizador: Michael Haneke
Ano: 2007

Se por vezes já é complicado perceber o porquê de certos remakes, o que dizer de quando são os próprios realizadores do original a refazerem os seus filmes? Será só a estupidez de agradar aos americanos com o
ah e tal, eles não sabem ler legendas, pois vou fazer-lhes um filme igual mas em inglês para eles gostarem de mim? Se isto às vezes já é bem parvo, então os remakes plano a plano já são ridículos. Se o Gus Van Sant fez o
Psico igualzinho passo a passo porque o original já era perfeito, então para que é que o fez? Bem, então quando é o próprio realizador a fazer, passo a passo, um remake do seu próprio filme, então nem sei o que dizer. Não é, Michael Haneke? E eu que até te curtia... (e ainda curto, estou só um pouco aborrecido por ele ter ido nesta).
Haneke tornou-se famoso interncionalmente com o
Brincadeiras Perigosas original, em 1997, um filme cru e visceral sobre a violência, vista por dentro e despida de artificialismo. Basicamente,
Brincadeiras Perigosas era aquilo que Oliver Stone queria que fosse o seu
Assassinos Natos, apesar deste último ter envelhecido bem melhor. Haneke queira combater todas as pessoas violentas, incapazes de pensar por si próprias e que não conseguem respeitar ninguém som o seu próprio remédio. Fight fire with fire, já diz a canção.
Brincadeiras Perigosas é a história simples de uma típica família rica norte-americana (Naomi Watts, Tim Roth e Devon Gearhart), que vai passar uma semana na sua casa de férias. Casa não, mansão. Eles são a típica família da classe alta: um núcleo familiar convencional - pai, mãe e filho -, um palácio nos subúrbios, uma mão cheia de vizinhos todos ricos que só querem jogar golfe, um barco e um cão. E quando estão a começar a saborear o descanso, recebem a visita de dois jovens (Michael Pitt e Brady Corbet), vestidos de branco e com ares de querubins, mas que de angelical não têm nada: são dois fedelhos mimados, psicóticos e extremamente cruéis, que só querem judiar com eles e matá-los, num modo muito passivo-agressivo, sem razão aparente, apenas porque sim. E depois passarem à família seguinte,
Michael Haneke filma
Brincadeiras Perigosas da mesma forma que filma todos os seus filmes: com um realismo acima da média, que foca e se prolonga em grandes planos das feições expressivas dos protagonistas, ausente de qualquer banda-sonora, excepto um ou outro momento de música diagética e a espécie de theme song brutal dos Naked City (vénia, vénia, vénia, vénia). È que Haneke consegue ser extremamente realista, puro e directo sem ser sensacionalista, uma vez que nunca filma directamente nenhuma cena de violência, deixando tudo à imaginação do espectador pelos sons que vai ouvindo, o que não o impede de ter uns planos longuíssimos, que são aguentados até à última, que são verdadeiramente pornográficos pelo sofrimento demonstrado.
Brincadeiras Perigosas é um filme perturbador e que pode fazer em certos momentos detestarmo-lo. Mas não seria essa a intenção de Haneke, de nos fazer detestar a violência como expressão natural do Homem? É que ao contrário de
Laranja Mecânica,
Brincadeiras Perigosas é uma espécie de elegia à violência. Além disso, o realizador tem o cuidado de lembrar o espectador, de tempos em tempos, de que aquilo é só um filme, distanciado-o da violência que está a viver, com algumas opções bem artsy, com os actores a falarem directamente para a câmara ou uma sequência em rewind(?).
Mas o que faz confusão em
Brincadeiras Perigosas é Tim Roth. Mas que raio de homem é aquele, que leva uma paulada numa perna e fica incapacitado para todo o filme? Até um coxo a dar toques numa bola de futebol dava um par de chapadas àqueles dois miúdos. Mas o Tim Roth não.
Ai ai, traz-me uma cadeira, porque dói-me a perna. Agora leva-me ao colo até ela. Agora traz-me um chá de camomila. Agora foge e vai chamar a polícia enquanto eu vejo televisão. Lá se vai a fama de durão de
Cães Danados.
Brincadeiras Perigosas faz cada vez menos sentido na sociedade cada vez mais violenta em que vivemos. Além disso, se já viu o original não ganha nada em ver um remake plano a plano com actores americanos. Quer dizer, ganha duas horas de vida perdida. E um McBacon a menos.
Posted by: dermot @
10:59 PM
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