Terça-feira, Setembro 09, 2008
AQUELE QUERIDO MÊS DE AGOSTO:Título:
Aquele Querido Mês De AgostoRealizador: Miguel Gomes
Ano: 2008

Faz falta ao cinema nacional um cineasta verdadeiramente português. Desde as comédias pré-25 de Abril que Portugal não tem um autor que filme o nosso espírito genuíno e aquilo que é ser português. E não falo dos lugares-comuns como o fado ou a Lisboa branca, mas antes dos pastéis de bacalhau a as mulheres com sete saias da Nazaré. Salvo raras excepções (alguém mencionou
A Janela (Maryalva Mix)?), faltam filmes que que só possam ter sido feitos em Portugal, tal como os filmes do Kusturica só podem ser feitos nos balcãs, ou os do Fellini em Itália.
Pode ser só mais uma excepção, mas pelo menos
Aquele Querido Mês De Agosto vem juntar-se aos poucos filmes genuinamente portugueses. Miguel Gomes foi para Arganil e retratou o Portugal profundo, dos bailes e da música pimba, dos emigrantes portugueses que regressam de França para as férias com os seus cordões de ouro a sair da camisa desabotoada e daqueles cromos mesmo grandes, que são sempre os mais difíceis da caderneta. Miguel Gomes capta tudo aquilo que nós, meninos da cidade, dizemos que é uma grande seca e evitamos como o Diabo da cruz, mas depois vemos no cinema e ficamos com uma pinga de nostalgia e outra de orgulho.
Aquele Querido Mês De Agosto começa por ser um documentário do Portugal do interior, ali para os lados de Arganil, com as suas festas e as suas gentes. Estão lá todos: os grupos de baile que defendem que a música que fazem não é pimba, o emigrante que diz que não tem fé nenhuma mas que já foi curado a uma hérnia discal pela santinha da terra, ou o bêbado de estamiação do sítio conhecido por, volta e meia, atirar-se da ponte.
Aquele Querido Mês De Agosto é uma espécie de
Liga Dos Últimos versão bailaricos e é excepcional.
Pelo meio do documentário, Miguel Gomes vai-se inserindo a si próprio e à sua equipa, como se estivessem a fazer outro filme, numa estrutura de o filme dentro do filme. E, de súbito, a meio a ficção transborda para o documentário, com as personagens a adquirirem vida e a desenvolver-se um segundo filme dentro do filme, com um típico amor de verão de Agosto entre primos, Hélder (Fábio Oliveira) e Tânia (uma debutante Sónia Bandeira que, se apostar nesta carreira, poderá fazer-se). Isto já tinha acontecido no outro filme de Miguel Gomes,
A Cara Que Mereces: depois de uma primeira parte, o feelgood movie dava lugar a outro filme completamente diferente, surreal e abstracto.
São dois filmes em um, mas sempre filmados da mesma maneira e de uma bem portuguesa: com planos fixos, bem parados, que só mudam quando têm mesmo a certeza que o espectador já absorveu todos os ínfimos pormenores da cena. A parte da ficção não é tão interessante quanto a do documentário, mas como também não é sublime, começa a cansar pela duração do próprio filme. Duas horas e meia é muito para bailaricos e música do Marante, se bem que na voz de gaiatas jeitosas a coisa ganhe outra dimensão.
A primeira parte de
Aquele Querido Mês De Agosto é, no mínimo, um McRoyal Deluxe. Quanto à segunda parte, baixa um pouco a bitola para o McBacon. Em conjunto, tornam-se um pouco cansativos e, por isso, preparamo-nos para optar pelo menu mais baixo. Contudo, o filme termina com uma surpesa - os genéricos finais são geniais e valem quase o próprio filme, com Miguel Gomes num diálogo divertidíssimo com o técnico de som, Vasco Pimentel, com a equipa de produção a fazerem de si mesmos.
Aquele Querido Mês De Agosto é, simultaneamente, um dos melhores filmes do ano, o melhor filme português em muito tempo, um dos melhores filmes do cinema nacional de sempre e o tal McRoyal Deluxe.
Posted by: dermot @
11:40 PM
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