Sexta-feira, Agosto 22, 2008
RATATUI:Título:
RatatouilleRealizador: Brad Bird
Ano: 2007

Dantes, a culinária era uma coisa de homem. Os cozinheiros eram machos de barba rija, com nomes viris como Chefe Silva, em programas como Na Roça Com Os Tachos. Era uma arte tão masculina, que as mulheres nem estavam permitidas a entrar na cozinha. Isto na culinária a sério, claro. E depois quando apareciam tipos a fazerem de cozinheiros, como o Goucha, obviamente que não eram levados a sério. Mas isto era dantes, porque agora a culinária começou a ser invadida por homens afeminados, com nomes duvidosos como Jamie Oliver. E até se deu um nome a isto: gastrossexuais, que depois usam a desculpa que é para atrair mulheres, como se alguém acreditasse. E para legitimar este fenómeno e mostrar aos miúdos que sim senhor, não há mal nenhum em ser um cozinheiro sensível e que se preocupa com a aparência, realizou-se
Ratatui.
Introduções disparatadas à parte,
Ratatui é o filme da Pixar que aproveita a vaga despoletada por Jamie Oliver para colocar a culinária no prato dia, desmontando uma série de clichês do género, começando logo pela ideia de que tudo o que é
chef é francês, tudo o que é francês é rude e tudo o que é rude tem hábitos estranhos ao norte-americano vulgar.
Ratatui passa-se então em França e, como todos os filmes norte-americanos passados em França, é falado em inglês com um sotaque carregado
à franciú, enquanto comem pernas de rã, croissants e outros esteriótipos do género. Seguindo também a tradição antropomorfa da Disney, Remy (voz de Patton Oswalt) é um rato que ganha dimensão humana, por não ser como os seus semelhantes: tem um olfacto apurado e um paladar exigente, cansa-se de comer e roubar comida como todos os ratos e deseja criar e dar o seu contributo ao Mundo. Por isso, identifica-se muito mais com os homens do que com os roedores.
Remy vai então aliar-se a um aspirante a cozinheiro trapalhão, Linguini (Lou Romano), e juntos vão ascender aos píncaros da culinária francesa, avaliada pelo genial crítico de comida, Anton Ego, vocalizado por Peter O'Toole e com um visual assustadoramente parecido ao dos monstros famosos de Boris Karloff e Bela Lugosi. Obviamente que depois ha um subplot e uma história romântica a suportar tudo isto, sendo esta muleta bem frágil e o elo mais fraco do filme. Mas estamos a ver um desneho-animado e é isto que se espera de um desenho-animado.
Ratatui é mais um feelgood movie, do que uma comédia e, por isso, são quase raros os gags assumidos. Serve-se antes de um humor inteligente e subtil, sempre mais próximo do público graúdo, aproximando-se depois do miúdo com um visual colorido e sempre em movimento, tecnicamente perfeito e texturizado de uma maneira que quase conseguimos sentir o sabor dos pratos confeccionados. E, cada vez mais, a Pixar está a fazer cinema de animação, tirando partido da câmara e de ferramentas como o enquadramento, a montagem, ou a montagem, indo além da realização banal e académica.
Ratatui não é tão de tirar o fôlego como
Os Incríveis, nem tão filme como
WALL-E, mas não deixa de atingir uma bitola bem alta, como é apanágio da Pixar. E nunca um Le Big Mac fez tanto sentido a ser atribuído a um filme.
Posted by: dermot @
9:56 PM
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