Segunda-feira, Agosto 18, 2008
O CABO DO MEDO:Título:
Cape FearRealizador: Martin Scorsese
Ano: 1991

Uma das formas de comprovar a genialidade de Martin Scorsese (se é que ainda existem dúvidas...) é analisando a sua filmografia. Ao longo de três décadas de trabalho, Scorsese não só foi capaz de criar as suas próprias obras-primas nos mais variados géneros, como ainda realizou alguns dos trabalhos musicais mais inesquecíveis do cinema (olá
Shine A Light), criou a sua própria sequela de um clássico do passado (olá
A Cor Do Dinheiro) e, claro, experimentou com sucesso a arte de refazer filmes (obviamente, olá
O Cabo Do Medo).
Mas
O Cabo Do Medo não é só um remake do clássico
A Barreira Do Medo; Scorsese dá-lhe vida e torna-o quase num filme novo. Não é por acaso que muitos dos entendidos na matéria consideram-nos dois trabalhos praticamente distintos. Sem querer ir por aí, devo no entanto frisar que o que distingue este do primeiro é o tratamento que é dado às personagens, trasnformando
O Cabo Do Medo muito mais num film noir do que
A Barreira Do Medo. Mas já lá vamos.
Sam Bowden (Nick Nolte) é um advogado de sucesso, com uma família aparentemente feliz. Tudo corre bem, salvo pontuais casos de infedilidade e alguma rebeldia juvenil da filha (Juliette Lewis), até que surge em cena Max Cady (Robert De Niro), um ex-presidiário, predador sexual, assassino e agressor violento, que vai perseguir e afectar psicologicamente o advogado que, segundo a sua ideia, não o defendeu suficientemente bem em tribunal.
O Cabo Do Medo é um thriller psicológico pertubador, com laivos de acção e intuitos comerciais. Contudo, vai muito mais fundo do que aparenta ser à superfície. Enquanto que
A Barreira Do Medo é o clássico caso de perseguição e vingança entre uma balança
bem equilibrada de o Bem e o Mal, aqui o peso e a medida são bem diferentes. Enquanto que Max Cady continua a ser a personificação do Mal, a família já não é assim tão cândida e pura como se adivinhava. Talvez seja sinal dos tempos, mas naquela casa todos têm pecados antigos, sejam os casos extra-conjugais de Nick Nolte, quer seja a erva com que Juliette Lewis foi apanhada. E esta coisa de todos terem uma mancha no passado é uma característica bem típica do film noir.
As personagens são, por isso, tridimensionais e vão ganhando cada vez mais espessura à medida que o filme avança, com características bem próprias que denunciam o seu comportamento. Até as secundárias, como o detective Joe Don Baker, contribuem para os jogos psicológicos, que tornam muito mais o filme denso e asfixiante do que as próprias cenas de acção. Claro que nada disto metia medo se não houvesse Robert De Niro, na pele de um dos vilões mais temíveis dos anos 90. Primo afastado de Hannibal Lecter, Max Cady tem estilo (muitas tatuagens e uma sabedoria literária sempre na ponta da língua), um olhar gélido e vazio e um á-vontade para o sadismo e a crueldade que faz o Joker de Heath Ledger ter pesadelos à noite.
Menção ainda para a então quase estreante Juliette Lewis, a cristalizar tudo aquilo que lhe deu sucesso: um ar angelical, mas ao mesmo tempo depravado, com tanto de Lolita como de trashy-slut. Memorável a cena em que, ao ser tocada por Max Cady, chupa-lhe o dedo deliciada em vez de o afastar. Ah, é verdade, obviamente que também todas as vénias do mundo são necessárias para Robert Mitchum e Gregory Peck, estrelas do filme original e que aqui roubam as suas cenas.
Para terminar, um parágrafo apenas dedicado ao trabalho de Scorsese. Recriando o estilo de Hitchcock, de quem é admirador confesso (vejam
Key To Reserva, se duvidam), Scorsese não só convida Saul Bass para o ajudar, como repesca a banda-original de Bernard Herrmann, filmando como o mestre com grandes planos sempre que ataca uma cena de suspense mais dramática, ou sugerindo com sombras e silhuetas as partes mais misteriosas.
O Cabo Do Medo é raramente recordado quando se fala de Martin Scorsese, principalmente porque o sucesso comercial mascarou o seu real valor cinematográfico. Contudo, é um filme com uma boa tendência para saber envelhecer. No mínimo, será recordado como o filme mais negro do realizador. Para mim, é mesmo um dos seus Royale With Cheese.
Posted by: dermot @
7:10 PM
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