Sábado, Agosto 02, 2008
NOVA IORQUE 1997:Título:
Escape From New YorkRealizador: John Carpenter
Ano: 1981

John Carpenter (vénias, vénias) já podia ser um realizador respeitado no mundo do cinema alternativo do cinema de terror e de acção, mas foi só em 1981 que ganhou dimensão global, com o mítico
Nova Iorque 1997. A partir daí nunca mais nada foi igual, nem na carreira de Carpenter, nem no cinema de acção dos anos 80, culminando numa década de xungaria onde tudo foi possível.
Nova Iorque 1997 é um action-flick futurista pós-apocalíptico, ambientado numa Nova Iorque no final do século XX mergulhada numa taxa de crime brutal. Para combater a pelintragem, o governo americano tomou medidas autoritárias e, basicamente, fez aquilo que nós gostaríamos de fazer com os espanhóis: construíram um muro à volta da ilha de Manhattan e, em vez de encherem de água, puseram lá todos os ladrões do país. Para sempre!
Tudo corre bem até que o avião presidencial se despenha no meio da ilha. E para atrapalhar mais as coisas, logo na véspera de uma cimeira muito importante. Por isso, a solução é contratar o ex-veterano-cansado-das-mentiras-do-governo-e-recentemente-virado-para-a-bandidagem Snake Plissken (Kurt Russell), que vai resgatar o presidente numa corrida contra o relógio a troco de um perdão judicial.
Apesar da ambição desmedida,
Nova Iorque 1997 consegue contornar o baixo orçamento com medidas imaginativas e muitas maquetes bem feitas. Há computadores 3D forjados que têm melhor aspecto que muito CGI de hoje em dia, panorâmicas pós-apocalípticas de Nova Iorque bem mais credíveis do que muito filme-catástrofe actual e o primeiro carro artilhado da história do cinema, com uns candelabros no capot(!) e uma bola de espelhos no retrovisor(!!). Claro que depois também há muita ordinarice e aquele aspecto barato que se tornou na imagem de marca do Carpenter inicial.
Nova Iorque 1997 é um survivor urbano pós-apocalíptico ao qual se assemelha muito do cinema de acção que hoje veneramos (isto é uma espécie de
Planeta Terror meets
Os Selvagens Da Noite), ambientado num cenário a que os teóricos da área já chamam de
acidade, assim mesmo com um A antes, para nos lembrar que aquela não é uma cidade orgânica, mas antes um agregado de fragmentos, como a metrópole dos dias de hoje ou a Los Angeles de
Blade Runner - Perigo Iminente. Além disso,
Nova Iorque 1997 canaliza ainda toda a raiva e depressão pós-vietname e pós-watergate que já trespassava
Assalto À Esquadra 13.
Nova Iorque 1997 é como um filme do Ed Wood, mas em bom. Existe muita xungaria, como motores de carros que desaparecem miraculosamente, buracos no argumento maiores que o da Cicciolina e personagens que caem do céu sem mais nem menos, mas em compensação existe a banda-sonora minimalista de Carpenter a incutir um ritmo mecânico áquela corrida contra o tempo, armas com munição infinita, acção gratuita de todas as formas e feitios e um elenco assombroso, a saber: Lee Van Cleef a dar um ar de spaghetti western à contenda; um Harry Dean Stanton irreconhecivelmente novo; Donald Pleasence e Ernest Borgnine a darem respeito à fita, com um toque do passado; Ox Baker a trazer o toque trash directamente do wrestling; e Isaac Heyes (vénia, vénia, vénia) a fazer de vilão soul-brotha, com muita, muita pinta. E depois, claro, há Kurt Russel. Mas para esse, existe um parágrafo exclusivo já de seguida.
Foi Snake Plissken que tirou Kurt Russel da triste sina dos filmes chochos da Disney que andava a fazer e o transformou num dos mais emblemáticos actores do cinema de acção, na pele de um anti-herói com pinta badass, uma pala no olho e um toque à Clint Eastwood, por influência da presença de Lee Van Cleef. Absolutamente mítico e uma escola para qualquer anti-herói.
É impossível não gostar de
Nova Iorque 1997, que hoje em dia, apesar de datado, envelheceu muito bem. Além disso, tem o final mais anti-heróico do cinema de acção dos anos 80. Vale um McBacon por tudo isto e mais um bocadinho ainda.
FUGA DE LOS ANGELES:Título:
Escape From L.A.Realizador: John Carpenter
Ano: 1996

Quinze anos depois de ter realizado aquela que é já uma instituição viva do cinema trash,
Nova Iorque 1997, John Carpenter reuniu-se com o seu actor fetiche, Kurt Russel, e decidiram responder ao repto dos fãs mais acérrimos do filme e fazer uma sequela. No fundo, esta foi só a justificação oficial. Porque o que os dois amigos queriam mesmo era aproveitar a fama e o sucesso para satisfazer mais alguns caprichos distorcidos.
Mais do que uma sequela,
Fuga De Los Angeles é um update, principalmente aos anos 90, uma vez que Carpenter é um realizador que presta grande atenção às novas modas e tendências da cultura popular. Assim, avançou-se 15 anos na história, trocou-se Nova Iorque por Los Angeles (que por desígnio divino tornou-se numa ilha após um terramoto gigantesco), construiu-se um muro à volta e colocou-se lá tudo o que eram bandidos, retornados, muçulmanos, doidos e tudo o que seja levemente inadaptado. Depois atirou-se lá para dentro a filha do presidente, por qualquer motivo menor do argumento, que mais não é do que um pretexto para mandar Snake Plissken em seu resgate. Ou seja,
Fuga De Los Angeles é um
Nova Iorque 1997 v2.0, com mais armas, mais explosões e mais destruição gratuita.
John Carpenter leva aqui ao extremo a faceta série-B da série e não falo do aspecto barato dos cenários gigantes pintados à mão; falo antes do exagero que a demanda de Snake Plissken recebe em comparação com o seu antecessor, que envolve perseguições e matanças em asadeltas(!) ou em pranchas de surf(!!). Em compensação, Carpenter também acentua a sua sátira política aos Estados Unidos, desta vez mais negra e mais absurda, como aquele vilão cirurgião plástico de Beverly Hills, interpretado por sua majestade Bruce Campbell.
Mantém-se assim o cenário pós-apocalíptico, a estrutura dramática do argumento em modo survivor-contra-o-tempo e o anti-herói Snake Plissken, apesar de Kurt Russel ter apurado a sua personagem, cada vez mais badass e agora um pouco mais espirituosa, deixando para a posterioridade um par de one-liners, ideais para usar naquela homenagem em formato de jogo de computador chamado Duke Nukem 3D. Se em
Nova Iorque 1997 a influência tinha sido Clint Eastwood, aqui foi mais Bruce Campbell.
O elenco de
Fuga De Los Angeles continua magnífico, mas aqui ressente-se do argumento frágil, que não se decide em dar a Snake Plisskin um sidekick (apesar de Steve Buscemi andar por lá a rondar) ou uma parceira para mostrar pele (e a bela A.J. Langer certamente não se importaria de o fazer). Pelo meio há o cameo de um Peter Fonda surfista, Pam Grier a fazer de transexual com uma voz bem macho e Georges Corraface a encarnar o lado menos famoso de Che Guevara.
Quem gosta de
Nova Iorque 1997, gosta obrigatoriamente de
Fuga De Los Angeles, uma vez que ambos são praticamente o mesmo filme. A principal diferença é que num os penteados e as roupas são melhores. De resto, é tudo do mesmo feitio, incluindo o McBacon final.
Posted by: dermot @
11:42 AM
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