Terça-feira, Julho 29, 2008
PROPOSTA INDECENTE:Título:
Indecent ProposalRealizador: Adrian Lyne
Ano: 1993

O ser humano é mesmo uma coisa complicada. Só ele consegue criar problemáticas existenciais tão complexas que, se um extraterrestre descesse à Terra para nos estudar e tentar compreender, ficaria com um nó no cérebro. Nisto, os animais são bem mais simples. Por exemplo, se um cão estiver interessado numa cadela, basta cheirar-lhe o cu para ela lhe responder ou sim ou não, evitando dias à espera de um telefonema, idas ao cinema e convites para jantar fora em restaurantes caros. Outro exemplo: se estivermos ocupados e mandarmos embora o nosso cão que vinha à procura de umas festas, ele voltará mais tarde sem qualquer remorso nem rancor, ou magicando maquiavélicos jogos mentais para se vingar de nós.
Um dos filmes mais acutilante sobre os problemas existenciais do ser humano é
Proposta Indecente, de Adrian Lyne. Aqui, Diana (Demi Moore) e David (Woody Harrelson) são o casal mais feliz do mundo, fiéis à máxima de um amor e uma cabana. Contudo, sem dinheiro a coisa torna-se difícil. E quando a situação começa a apertar, os dois decidem ir... ao casino (onde existem alguns dos planos mais brutais de uma mesa de dados já alguma vez feito). Excelente ideia, melhor só se se pusessem no jogo da bola. Depois de se endividarem ainda mais, entra em cena um excêntrico bilionário (Robert Redford), daqueles que limpam o cu a notas de cem, que lhes faz uma proposta única: 1 milhão de dólares por uma noite com Diana.
O exercício é colossal e coloca em causa várias questões: até que ponto conseguimos manter-nos íntegros numa situação de crise? Conseguirá o desespero levar ao ponto de vendermos o nosso próprio corpo? Ou será que uma noite de sexo ocasional faz de uma pessoa uma vadia? As dúvidas são inúmeras e, no fundo, resumem-se a isto: orgulho, amor e respeito próprio.
Proposta Indecente é um fantástico desafio filosófico, que Adrian Lyne monta como só ele sabe fazer: com um embrulho extremamente bem feito, todo certinho e superiormente aprumado, com um toque clássico vintage e uma piscadela de olho ao thriller erótico, que disfarça todas e qualquer falha na dimensão das personagens e/ou do argumento. Infelizmente, nem este dom para esconder os defeitos tapam a roupa hororrosa da Demi Moore, o penteado datado do Robert Redford e a banda-sonora radiofriendly que nos faz sangrar dos ouvidos.
Com a tensão certa colocada nos ombros dos dois protagonistas, que vão alternando entre si (e de forma pertinente) a função de narradores,
Proposta Indecente torna-se denso e sufocante, mesmo com violinos épicos a irromperem em cavalgada sempre que há uma cena de sexo ou uma cena dramática.
Proposta Indecente é um dos filmes mais subvalorizados da história do cinema. Contudo, percebe-se o porquê de passar ao lado de tanta gente: é que a partir de meio começa a pisar terrenos do drama matrimonial, até terminar na maior banhada de sempre. Não bastava um final feliz e politicamente correcto, Adrian Lyne precisou mesmo de um super-final lamechas.
Assim, o exercício coloca-se nestes modos: se tiver em conta os últimos 15 minutos,
Proposta Indecente é um modesto McChicken; se por conseguinte, tiver em conta, principalmente, a primeira metade do filme, então vale um belo de umMcRoyal Deluxe.
Posted by: dermot @
6:02 PM
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