Sábado, Junho 14, 2008
24. FESTRÓIA:
Dia 8Pois é: o júri oficial deste ano do Festróia trocou-me as voltas todas. Contra todas as minhas previsões, o meu favorito
Enterrado Na Areia não venceu nenhum prémio, indo o Golfinho de Ouro para
Vasilhame. Pronto, é justo. Podem ver
aqui a lista completa de premiados.
Secção Oficial - VASILHAME:Título:
Vratné LahveRealizador: Jan Sverák
Ano: 2007

Os mais atentos a estas andanças lembram-se, se calhar, do nome do realizador checo Jan Sverák, por ter sido o tipo que fez
Kolya, o vencedor do Óscar para Melhor Filme Estrangeiro em 1997. O que eu aposto é que não sabiam que esse filme foi a segunda parte de uma triologia dedicada à problemática da idade, iniciada anos antes com
Obecná Skola.
Eis que nos chega agora o terceiro e último tomo dessa triologia, intitulado
Vasilhame. Depois dum filme sobre a juventude e de outro acerca da idade adulta, eis a terceira idade a rematar a temática.
Zdenek Sverák, argumentista do filme e pai do realizador, é o protagonista de
Vasilhame, na pele do senhor Josef Tkaloun, um professor sexagenário que decide deixar o ensino por que os alunos já lhe davam mais dores de cabeça do que felicidades. Contudo, Tkaloun estava demasiado lúcido para passar os dias em casa a ver televisão ou no jardim a jogar às cartas com outros velhotes. E, como nunca é tarde para cumprir os nossos sonhos e como todos os seus amigos ou estão mortos ou senis, vai iniciar uma nova carreira no vasilhame do supermercado local.
Há um sonho recorrente que Tkaloun vai tendo ao longo de todo o filme que ilustra na perfeição as duas premissas de todo o filme. Nesse sonho, Tkaloun viaja num comboio juntamente com duas jovens beldades, num relacioamento promíscuo e lascivo. O comboio é o símbolo eterno do avanço (ou não fosse ele de paragem em paragem) e do progresso (que os norte-americanos incorporam tão bem, num país sem história e com tantas fronteiras) e, por isso, não é por acaso que a primeira profissão que Tkaloun escolhe após a reforma é a de estafeta; e depois os sonhos eróticos mostram como o antigo professor sente necessidade de novas emoções na sua vida íntima, que já naõ consegue satisfazer junto da sua esposa de longa data.
Vasilhame é um feel-good movie e uma comédia agri-doce à medida de Steven Spielberg, que lembra
Terminal De Aeroporto ou
Forrest Gump, pela relação de vizinhança que as personagens criam entre si e connosco inclusive. Ao longo do filme ficamos a torcer por elas, para que os seus casos amorosos dêem certo, ou para que as suas vidas se endireitem.
Como último instante,
Vasilhame é ainda um filme que nos chama a atenção, a nós público mais novo, para a forma como a sociedade contemporânea ignora os seus cidadãos séniores e os abandona após a idade activa. Josef Tkaloun é uma espécie de Senhor Hulot que nunca desiste de se adaptar a um mundo que despreza os inadaptados.
Apesar do final conclusivo,
Vasilhame foi um excelente McRoyal Deluxe a rematar a comepetição oficial desta edição do Festróia. Não será o principal favorito, mas é certamente um dos melhores.
Ante-Estreia - QUANDO VISTE O TEU PAI PELA ÚLTIMA VEZ?Título:
And When Did You Last See Your Father?Realizador: Anand Tucker
Ano: 2007

É uma lei da vida: quando somos pequenos, criamos no nosso consciente uma imagem heróica do nosso pai, o qual veneramos e admiramos com um qualquer super-herói invencível. Depois crescemos e começamos a acha-lo insuporável, sempre a melgar-nos a cabeça, primeiro por não prestarmos atenção à escola, depois por não termos prestado atenção suficiente à escola e por aí fora. A psicologia tem uma teoria para isso, um sentimento natural ao Homem em superar o seu pai e tomar o seu lugar como forma de se realizar no futuro.
Blake (Colin Firth) não teve uma adolescência muito feliz no que diz respeito ao pai (Jim Broadbent). Apesar deste ser um homem super-bem-disposto e afável, Blake sempre teve dificuldades em suportar o seu humor, o desencorajamento constante, ou a ausência de qualquer palavras de incentivo ou congratulação. Só quando, já muitos anos depois, é detectado um cancro terminal ao pai, é que Blake vai sentir necessidade de reatar com o passado e fazer as pazes com os seus fantasmas. Voltando novamente à psicologia, Blake precisa de resolver a sua relação com o pai de forma a que o resto da sua vida ganhe sentido e paz.
Tanto tempo para falarmos com uma pessoa ao longo da vida e só quando já não podemos é que sentimos necessidade de lhe dizer certas coisas, diz-se às tantas, de forma muito pertinente, em
Quando Viste O Teu Pai Pela Última Vez? Perante o apagamento gradual do seu pai na cama do quarto, Blake vai aperceber-se pela primeira vez que nunca lhe tinha dito o quanto o amava. E isso vai corroê-lo por dentro, juntamente com outros fantasmas do passado, como o facto de o seu pai ter sido um mulherengo.
Quando Viste O Teu Pai Pela Última Vez? é o que aconteceria a
O Grande Peixe se tivesse sido realizado por uma pessoa
normal, uma balada de despedida entre pai e filho, uma pequena pérola comovente e humana. Realizado com a habitual pose britânica, o filme é construído em regime de flashback, o realizador Anton Tucker cruza a história no presente com constante episódios do passado, onde Matthew Beard assume o papel do Colin Firth novo e Jim Broadbent brilha num tour de force incrível, carregando às costas o filme com todas as cenas em que aparece.
Quando Viste O Teu Pai Pela Última Vez? toca no coração de forma desarmante, primeiro pela sua simplicidade e honestidade, e depois pela forma como se cola à nossa vida. Aposto que o vai fazer pensar em alguns erros da sua vida. Se não o fizer e se não derramar nenhuma lágrima no final, então detesto ser eu a revelar-lhe, mas você não tem coração. Terá estômago suficiente para um Le Big Mac?
Posted by: dermot @
7:52 PM
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