Quarta-feira, Junho 11, 2008
24. FESTRÓIA:
Dia 5Dois jogos, duas vitórias e um lugar garantido nos quartos de final: a Selecção portuguesa está imparável neste Europeu de futebol, joga bem, marca golos e justifica o entusiasmo do povo português.
Na sala de cinema do Festróia, destaque para a curta
Deus Não Quis, de António Ferreira (o realizador de
Esquece Tudo O Que Te Disse), que faz uma fantástica reconstituição histórica do nosso Portugal pré-25 de Abril. Se estás a ler isto é só para dizer que gosto dos teus filmes.
Secção Oficial - SEM RUMO:Título:
RestlessRealizador: Amos Kollek
Ano: 2008

O conflito israelo-palestino é um elemento presente em praticamente todos os filmes israelitas, ou não fosse ele um estigma com mais de um século - a excepção será, porventura, o excelente
Que Lugar Maravilhoso.
Sem Rumo parte desta condição determinante que continua a marcar e a limitar o presente e o futuro dos israelitas para nos apresentar duas gerações, o pai Moshe (Moshe Ivgy, que os mais atentos reconhecem de
Munique) e o filho que abandonou quando este ainda era pequeno, Tzach (Ran Danker). Ambos tentam fugir do destino israelita que tomam como desculpa para o fracasso das suas vidas, vêndo-se ambos como vítimas.
Moshe muda-se para os Estados Unidos, onde vai sobrevivendo de aldrabice em aldabrice (lembram-se de
O Fura-Vidas?), encontrando um escape em sessões onde declama poesia num bar de jazz à noite, num misto provocatório entre Bocage e Bukowski, que o tornam relativamente famoso. Em contraste com este
Lenny israelita, Tzach procura uma solução no exército, descarregando a sua frustração através da óptica telescópica da sua arma de sniper. Contudo, um acidente fatal vai conduzir ao seu afastamento da tropa.
Este relação pai e filho feita de distância, silêncios e de diálogos evitados e ignorados de propósito vai então aproximar-se de vez e procurar uma reconciliação redentora, natural neste tipo de cinema, lento, contemplativo e bastante introspectivo, onde tudo vai acontecendo de forma compassada por entre muitas lágrimas derramadas, gritos e socos desferidos.
Tal como o próprio título indica,
Sem Rumo rodopia sobre si mesmo durante algum tempo à deriva, mas consegue encontrar amiúde os portos de abrigo certos, nesta viagem que tem o condão de, pelo menos, saber acabar. Nada mau para um McBacon.
Secção Oficial - A HONRA DA FAMÍLIA:Título:
Sakli YüzlerRealizador: Handan Ipekçi
Ano: 2007

Nos clãs mais antigos Turquia dos dias de hoje ainda prevalece uma tradição que, na nossa actualidade, desumana é o mínimo que lhe podemos apelidar. Nessas famílias, quando uma mulher engravida sem estar casada, é acusada de desgraçar a honra do clã e, como tal, tem de pagar com a sua própria vida. E se esta não aceitar o suicídio, o homícidio é a única alternativa.
A Honra Da Família retrata esta realidade, com a situação muito particular de Zühre, uma jovem que desonra a sua família, ao engravidar dum jovem sem capacidade financeira para pagar o seu dote. O seu cruél tio mais novo obriga então que o seu irmão asfixie o recém-nascido e pede ao pai para a matar. Mas Zühre consegue escapar com vida, auxiliada pela Procuradora da aldeia, sem que o resto da família desconfie. Até que...
Anos mais tarde, o irmão mais velho do pai da criança de Zühre (que entretanto se suicidara também), realiza um documentário sobre essa história verídica. Desgraçada duplamente na sua honra, o clã liderado pelo cruél tio mais novo vai partir em busca de Zühre para terminar o serviço que iniciara anos antes. Ao mesmo tempo, a outra parte da família mais liberal vai tentar chegar primeiro e evitar o crime. Quem ganhará esta corrida?
Em
A Honra Da Família existem duas realidades temporais que são contadas em paralelo, com o auxílio uma da outra, recorrendo a uma edição exemplar e irrepreensível: são duas linhas cronológicas diferentes e quatro grupos de personagens distintos, que se cruzam de forma alternada sem nunca ser confuso, revelando aquela história à medida que o filme avança. É uma influência determinante do cinema ocidental de Hollywood e que faz com que este
A Honra Da Família ganhe uma dimensão bem maior do que o simples cinema-verdade destes casos.
É uma verdadeira ficção hollywoodesca, que arrepia ainda mais por sabermos que, para além de ser baseada num caso verídico, ainda continua a ser praticada nos dias de hoje.
A Honra Da Família é um drama torturante, como uma faca que espeta lentamente na carne e se diverte a escarafunchar muito, mas muito lentamente.
A Honra Da Família é um filme dentro do filme, que termina numa explosão de violência remeniscente de
Boonie & Clyde. Comparação deveras exagerada, eu sei, mas que é uma excelente forma de rematar este McRoyal Deluxe.
Secção Oficial - EM LIBERDADE:Título:
FreigesprochenRealizador: Peter Payer
Ano: 2007

Durante 12 anos interruptos, o controlador de tráfego ferroviário, Thomas Hudetdz (Frank Giering), foi um trabalhador exemplar que nunca cometeu um erro. Contudo, ao fim dessé tempo todo, o pobre Thomas vai cometer um deslize, quando se distraí por meros segundos com uma mulher mais nova, Anna (Lavinia Wilson). Em 12 anos, Thomas apenas se distraiu por meia dúzia de segundos; o tempo suficiente para resultar num acidente brutal, deonde resultaram 22 mortos, entre eles o seu melhor amigo.
A premissa de
Em Liberdade é poderosíssima. Thomas vai ser ilibado em tribunal, mas tanto ele como Anna vão ter de lidar com o peso na consciência daquele sentimento de culpa, responsáveis pela morte de mais de duas dezenas de pessoas que nunca viram na vida nem mais gordas nem mais magras. O que será pior, ser culpado, ou ser culpado sem ser castigado? É que ainda para mais, Thomas vai receber o ordenado por inteiro daqueles dias em que esteve preso e a ser julgado. Como se lhe tivessem pago para matar aquela gente.
São dilemas existenciais tramados, que o realizador parece querer responder com cenas de sexo entre os dois protagonistas. Assim como estes tentam esquecer a frustração com o pecado da carne, o realizador Peter Payer tenta tapar os buracos do argumento com cenas de sexo. É que a trama de
Em Liberdade parece uma sequência de situações e episódios mais ou menos marcantes, decisivos para o filme ir avançando, mas que têm dificuldades em ligarem-se entre si e construirem esse aumento de tensão e sufoco que o filme exigia.
Cultivando de forma teimosa alguns tiques de um certo cinema de autor,
Em Liberdade torna-se presunçoso por nunca tomar o seu próprio rumo, parecendo sempre que está a tentar ser outro filme em vez de se deixar ir naturalmente. Não é fraco, mas este McBacon não é recompensa nenhuma.
Posted by: dermot @
2:20 PM
|