Segunda-feira, Junho 09, 2008
24. FESTRÓIA:
Dia 3Eis um dia de extremos. Por um lado, foram exibidos dois dos melhores filmes que vi no festival deste ano até ao momento. E por outro, caiu de pára-quedas uma coisa que até tenho dificuldades em classificar. Entre eles houve ainda dificuldades técnicas (alheias à responsabilidade do Festróia, atenção), que geram sempre bonitos momentos de espectadores indignados. Se se escandalizassem da mesma forma com coisas mais importantes, de certeza que vivíamos numa sociedade bem melhor.
Secção Oficial - ENTERRADO NA AREIA:Título:
The Bird Can't FlyRealizador: Threes Anna
Ano: 2007

Chegado da África do Sul, certamente de uma nave espacial,
Enterrado Na Areia é o trabalho debutante da encenadora de teatro Threes Anna, profissão que tem levado para a sétima arte algumas das melhores obras surreais que este já conheceu (Alejandro Jodorowski, anyone?). E esta não é excepção à regra.
Enterrado Na Areia é um requiem fabulástico de tons oníricos, a fazer lembrar aquele sonho de anjos caídos que foi
Northfork (
As Asas Do Desejo tambén não será uma referência disparatada), com uma fotografia brutal, ambientada numa cidade semi-fantasma enterrada em tempestades de areia alva como a neve, onde pululam avestruzes selvagens, que conferem ao filme um toque exótico e surreal, mais ou menos como o pavão de Fellini em
Amarcord.
Enterrado Na Areia é uma balada sobre Melody (Barbara Hershey), uma cozinheira que regressa à sua aldeia natal para o funeral da filha. Esta (a aldeia, não a filha) é uma localidade mineira no sopé do majestoso Hotel Paraíso, estilhaçada pelo tempo, pela miséria e pela desertificação, onde resta uma velhota sentada sob um guarda-chuva, um exército de crianças-soldado, um carteiro aleijado com jeito para a viola e as mulheres dos poucos mineiros que passam altas temporadas numa mina distante. Melody vai então ter que reatar com o passado para poder prosseguir com o futuro.
Todo o filme se faz de símbolos, começando pelo nome do hotel - que faz lembrar o de
Million Dollar Hotel, âncora dos inadaptados que por lá circulam e último bastião do passado radioso - e terminando com as próprias avestruzes, que apesar de serem aves não conseguem voar.
Existem vários adjectivos que poderão ser usados para (tentar) descrever
Enterrado Na Areia: romântico ou surrealista serão, sem dúvida, os mais usados, mas garanto-vos que nem um nem outro faz justiça à beleza do filme. Quando ainda falta ver mais de metade dos filmes em competição, posso adiantar-vos que já escolhi o meu favorito. A ver se batem o Le Big Mac.
Secção Oficial - EM NOME DE DEUS:Título:
Khuda Ke LiyeRealizador: Shoaib Mansoor
Ano: 2007

Confesso que à partida para
Em Nome De Deus, as previsões eram as melhores. Afinal de contas, este era o filme com mais sucesso de sempre no Paquistão e, além disso, já tinha levantado celeuma mais do que suficiente junto dos muçulmanos mais tradicionais. Incrível, como é que eu com esta idade toda continuo tão crédulo...
Eis então a história de duas famílias paquistanesas: de um lado, os mais liberais, com um pai muçulmano a viver em Londres em união de facto com uma branca; e do outro, uma família muçulmada mais religiosa a viver no Paquistão, onde os dois filhos são o duo de cantores românticos com mais sucesso do país. Tudo isto é aparente porque depois as coisas vão-se misturar: um dos músicos cantores converte-se em fanático religioso e abandona o pecado da música, o outro irmão vai para os Estados Unidos e apaixona-se por uma americana (esteriotipada como white trash) e o pai liberal não vai aceitar que a sua filha case com um branco e vai leva-la para o Paquistão, onde a casa contra a sua vontade com um muçulmano. Atenção, que este último ponto da sinopse é a coisa mais interessante de todo o filme. E apenas levemente.
Um dos irmãos cantores é interpretado por Shaan, que ao que consta, é tipo o Tony Carreira lá da zona. Por isso, o realizador aproveita qualquer pretexto para o pôr a cantar, em elaborados telediscos, que envolvem piqueniques em florestas com eletricidades, e assim arranjar mais uns trocos com os cds da banda-sonora que vendeu à posteriori. É a boa tradição musical do cinema indiano.
Em Nome De Deus vai então circulando por entre o formato telenovela, com uma edição fragmentada ao bom estilo ocidental, que se pretende que seja inovadora. Uma novidade para o realizador: não é! Compreende-se o esforço em
Em Nome De Deus fugir ao estilo kitsch de bollywood, mas a coisa é tão ingénua que se torna ridícula. Os diálogos são hilariantes e debitados do papel com a mesma entoação qualquer que seja o tema de conversa, as actuações são super-teatrais e as situações más demais para serem verdade.
Por exemplo, caído do nada, no meio do argumento, surge uma cena em que os muçulmanos mais fanáticos vão ter umas acções reacionárias contra as influências pecaminosas do Ocidente. Eis então quatro tipos armandos com turbantes, barbas longas e baldes de tinta, montados em motorizadas ao som dos Rammstein indianos, a vandalizar uns muppies: they mess with muslim. Big mistake! Felizmente, a cena só dura 3 minutos, porque senão a minha barriga explodia de tanto rir.
De panfleto muçulmano sobre o conflito religioso entre os tradicionais e os liberais,
Em Nome De Deus dá um salto gigantesco e inesperado até ao panfleto anti-americano pós-11 de Setembro, dando uam verdadeira aula de geografia aos
estúpidos brancos da América, quando o Tony Carreira wannabe explica à sua futura namorada que o Paquistão é um país(!), como se ela fosse uma criança de 6 anos.
Podia passar aqui o dia a fazer uma lista de cenas geniais do filme, mas deixem-me só referir que o código ultra-secreto da Al-Qaeda neste filme resume-se a uma folha a4 bem dobradinha para ninguém a achar, com um quadrado cheio de caracteres árabes, um 9 e um 11. Felizmente que a CIA tem um agente super-inteligente, que consegue decifrar a trafulhice munido com uma caneta vermelha.
Em Nome De Deus poderia ser o melhor pior filme de sempre da história do Festróia. Assim, com a sua duração épica, é apenas o pior. Mas que Hamburguesa de Choco.
Primeiras Obras - PROTEGER:Título:
RezerwatRealizador: Lukasz Palkowski
Ano: 2007

Eis mais um filme a abordar um tema que costuma ter bons resultados no cinema: o poder da fotografia, enquanto pedaço físico do tempo e espaço, abordado não da forma metafísica de
Blow Up - História De Um Fotógrafo, mas antes de forma mais simbólica -os personagens japoneses voyeristas que por lá andam a pagarem para criarem os seus próprios mementos valiam por si só uma tese de mestrado.
Marcin (Marcin Kwasny) é um fotógrafo da clásse média que se muda para um prédio antigo na parte velha da cidade, indo estabelecer-se numa vizinha bem castiça, que faz
A Comunidade parecer um bando de gente normal. Nesta célula de inadaptados, Marcin vai começar por chocar, mas até ao fim do filme vai-se integrar, arranjar uma namorada e um amigo juvenil, transformando-se numa deles.
Com uma excelente composição do mosaico de personagens,
A Máscara é um filme honesto, levezinho e descontraído, lacrimejante sem forçar o tearjerker, terminando com a redenção de todos os personagens, desde o protagonista até ao mais fugaz dos secundários.
Não vai ficar para a história, mas também não provém daqui qualquer mal de maior ao mundo. Já comi McBacons bem piores e a pagar.
Secção Oficial - A MÁSCARA:Título:
Musta JääRealizador: Petri Kotwica
Ano: 2007

A mulher é um espécime perigoso. Se querem um conselho, nunca se metam com nenhuma: quem brinca com o fogo, queima-se. Só quem nunca viu filmes como
Kill Bill ou
Thriller - A Cruel Picture é que não percebe como a vingança feminina é das coisas mais tramadas que podem haver.
Contudo, ao contrário destes dois exemplos, a vingança feminina que
A Máscara aborda tem muito pouco de física: é antes psicológica. É uma vingança metódica e planeada ao milímetro, até ao mais ínfimo pormenor. Como só as mulheres sabem fazer. Calmamente, com nervos de aço e
cold as ice, as mulheres conseguem arquitectar com meses de antecedência o mais inconcebível plano para se vingarem de outrém - meses, disse eu? anos! - Princpalmente, se a coisa envolver homens pelo meio.
O cenário de
A Máscara é perfeito para esta trama de suspense com influências hitchcockianas (alguém mencionou
A Mulher Que Viveu Duas Vezes?) e, como qualquer drama gelado do cinema nórdico, é um filme que se move lentamente, avançando cautelosamente e com precisão milimétrica até rebentar na catarse final, normalmente de grande intensidade.
Aqui, o resultado é asfixiante, à medida que os cordões vão apertando e o plano vai adensando. A autora de tão cruél vingança é Saara (Outi Mäenpää), uma mulher bem sucedida que descobre que está a ser traída pelo seu marido, Leo (Martti Suosalo), um arquitecto professor com queda por jovens loiras e de olhos claros (Ria Kataja). Saara vai então afastar-se deste aspirante a Tomás Taveira e vai tornar-se na melhor amiga de Tuuli, subvertendo o triângulo amoroso de forma inesperada.
Eis então um lobo com pele de cordeiro, manietando a vida dos outors dois vértices do triângulo até alcançar a sua cruél vingança: fazer com que a jovem Tuuli sofra o amis possível. Obviamente, que a coisa vai extravasar dos limites porque, por melhor que esteja planeado, há sempre qualquer pormenor que corre menos bem.
A Máscara é um daqueles must sees que vale a pena esfolar-nos por esta net fora em busca de uma forma para o ver. O seu problema é o final: claramente indeciso em como acabr o filme, o realizador foi esticando a corda, esticando, esticando, até que quando se decidiu pelo fim, já a coisa tinha ido longe demais. Poderia ser um Le Big Mac ainda mais perfeito.
Posted by: dermot @
1:51 PM
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